_Accordo que o povo de Lisboa fez ·cerca do Regimento_
Estando o Regimento do reino n'este balanÁo, mais com mostranÁas de
guerra que de paz, e com signaes mais de perigo que de seguranÁa, os
officiaes macanicos de Lisboa com outra gente popular se ajuntaram em S.
Domingos da Cidade, onde fizeram escrever e assignaram um acordo, em que
por algumas razıes que apontaram, e em especial por o perigo e n„o bom
Regimento do reino, declaravam e se affirmavam, ´que o Infante D. Pedro
fosse seu Regedor e defensor sÛmente; e que assi promettiam de o
requerer nas cÙrtes; e que o contrairo n„o consentiriam ou morreriam
sobr'isso, se o caso assi requeresse.ª
A qual cousa sendo logo sabida, como quer que a alguns parecesse
determinaÁ„o de pouco peso e auctoridade, o contrairo pareceu a Pedro
Annes Lobato, que por ser muito servidor da Rainha, se foi logo a
Alanquer onde estava, e lhe notificou com tristeza aquelle acordo,
havendo-o por principio mui contrairo a seu serviÁo, affirmando que n„o
podia ser sem favor e consentimento dos principaes, e com aquelle
acatamento que devia a reprendeu muito da seguranÁa que n'estes feitos
sempre tivera, e o pouco cuidado de os remediar nos comeÁos ante
d'alguma execuÁ„o, especialmente estando t„o ·cerca e t„o avisada cada
dia dos movimentos que se faziam.
E perguntado pela Rainha e pelos do conselho que hi eram, que se faria
ou que remedio se daria para o povo cessar de seu alvoroÁo, Pedro Annes
respondeu ´que j· n„o sabia, salvo pedi-lo a Deus.ª
E finalmente depois de sobre isso praticarem, acordaram que a Rainha
escrevesse, como logo escreveu · cidade, e alÈm das razıes santas e
virtuosas na sua carta logo declaradas, por que deveram ser bem seguros
dos receios com que se alteravam, Pedro Annes que era o messegeiro, lhes
disse outras muitas mais, a ellas conformes, em que n„o fallecia siso e
prudencia; mas d'isto em fim se fez pouca estima, e responderam a tudo
como j· endurecidos em sua maginaÁ„o e porfia.