CAPITULO XXXI

_Como a Rainha com El-Rei e seus filhos se foi a Alanquer, e do que se

seguiu em Lisboa_

A Rainha se partiu com El-Rei e seus filhos e sua casa para Alanquer,

muito revosa dos movimentos e alvoroÁos de Lisboa, e pouco segura em

Sacavem onde estava, por ser aldÍa fraca e t„o perto da cidade, como

quer que d'alguns seus fosse aconselhada que o n„o fizesse, antes que se

fosse dentro · cidade; porque era de crÍr que sua presenÁa daria ao povo

menos ousadia para contra ella seguirem e acabarem o que tinham

comeÁado; e que sua ausencia com mostranÁa de temor causaria o

contrairo.

Os officiaes de Lisboa vendo esta mudanÁa da Rainha fizeram logo seu

ajuntamento, onde Vicente Egas, homem cidad„o velho, entendido e de

grave representaÁ„o fez uma falla com largo recontamento, cuja sustancia

foi avisar a cidade dos males e perigos que por as mudanÁas presentes se

lhe aparelhavam; e como para terem por cabeÁa alguma pessoa que por ella

os resistisse, lhe era necessario enlegerem e tomarem alferes, apontando

logo o capit„o Alvaro Vaz d'Almada, que da cidade fÙra o derradeiro

alferes, como por outros muitos e mui dinos merecimentos e louvores que

d'elle com verdade recontou; no que todos consentiram, e por dois

cidad„os o enviaram logo chamar,por quanto era fÛra da cidade; e em

chegando · ribeira, sendo j· sabido a determinaÁ„o sobre que vinha, se

ajuntou com elle a mÛr parte da cidade, e assi acompanhado com grande

honra foi levado · Camara, onde por os vereadores com certas cerimonias

e largas palavras de grande seu louvor e muita confianÁa, lhe foi

entregue a bandeira da cidade com suas condiÁıes; e elle a recebeu com

palavras cortezes e discretas, e de grande esforÁo; porque era

cavalleiro que n'este reino e fÛra d'elle por esperiencias mostrou que

isto e muito mais de louvar havia n'elle, c· em FranÁa por sua ardideza

e bondades foi feito conde d'Abranxes, e em Inglaterra por sua valentia

foi recebido por companheiro da Ordem da Garrotea, de que principes

christ„os e pessoas de grande merecimento s„o confrades; e em Portugal

por todas estas, e mais por sua linguagem e fidalguia mereceu ser como

foi capit„o mÛr do mar.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 54 / 103 题