_Apontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento d'El-Rei
para a Rainha n„o dever reger_
Com esta volta que a Rainha fez do proposito e acordo em que fic·ra com
o Infante, comeÁaram outra vez as differenÁas e debates entre os grandes
e povo sobre o regimento.
A Rainha com os de sua parte requeriam para ella toda a governanÁa em
solido, assi como no testamento d'El-Rei fic·ra determinado: os povos
geralmente com outros da parte do Infante D. Pedro requeriam o regimento
para elle sÛ sem outra ajuda nem companhia, allegando que a Rainha por
muitas razıes n„o devia reger; e d'este voto foram Pedro de Serpa, e
Vicente Egas, cidad„os e procuradores de Lisboa, homens honrados, bem
entendidos, e de grande autoridade. Os quaes altercando sobre estes
debates perante El Rei, como quer que era menino, quando um e quando o
outro lhe disseram:
´Muito alto e poderoso Principe, Rei nosso Senhor, porque nos parece que
acerca de se regerem estes reinos por vÛs, sois requerido que cumprindo
o testamento d'El-Rei vosso padre, que Deus haja, deis inteiramente o
regimento · Rainha nossa Senhora vossa madre, nÛs, como procuradores da
vossa cidade de Lisboa, e assi em nome dos outros procuradores que aqui
s„o, nossos irm„os, dizemos que sob reverencia de vossa real pessoa,
El-Rei vosso padre n„o podia fazer tal testamento; nem em tal caso
leixar Regedor do reino · sua disposiÁ„o; porque a nÛs vosso povo
pertence por direito enleger quem por defeito de vossa madura edade nos
haja por VÛs de defender com as armas e reger por leis com justiÁa.
E isto n„o aggrava vossa legitima sobcess„o; nem ming˙a em vossas
lealdades; c· por serdes seu filho maior legitimo, e bar„o, nÛs
alegremente vos reconhecemos e recebemos por nosso verdadeiro Rei e
Senhor; e com ajuda de Deus vos guardaremos aquella lealdade, fÈ, e
amor, que bons, leaes vassalos devem a Senhor; mas quanto a enleger
Regedor, atÈ que VÛs sejaes em edade para nos por vÛs regerdes, nÛs
buscaremos e enlegeremos quem em vosso nome nos haja de reger e
governar; porque asi como a nÛs sÛmente pertence enleger Rei, se a real
e legitima sobcess„o dos Reis d'estes reinos por algum caso, o que Deus
n„o queira, se destinguisse, e se n„o guardaria em tal caso o
testamento, nem disposiÁ„o do Rei postumeiro; assi pertence a nÛs
enleger agora Regedor por VÛs; e para serdes servido abasta que nÛs o
enlejamos tal, que seja natural, e do vosso real sangue, e n„o
estrangeiro, e em que haja virtudes, saber, e conciencia, e sobre tudo
lealdade, a que se n„o deva poer suspeita. E vossa mui Real Senhoria,
guarde-nos nossa justiÁa e liberdade, como esperamos, no que recebereis
muito serviÁo: e nÛs vossos vassalos com vossos reinos receberemos
mercÍ, proveito e assessego, que deveis desejar: e assi o pedimos a vÛs,
mui illustres Infantes e magnificos condes; e requeremos a vÛs, honrados
senhores, e leal povo de Portugal, que aqui sois juntos para celebrar
estas reaes cÙrtes, que assi juntamente o peÁaes e requeraes que se
faÁa.
No cabo d'esta falla, assi como os coraÁıes dos que a ouviram eram
desvairados, assi n„o houve rostos nem consentimentos eguaes; e por isso
n„o cess·ram os primeiros debates do Regimento, os quaes, como sÛmente
eram entre a Rainha e o Infante, como disse, alguns por assessego
apontavam que ambos fossem exclusos de reger, e enlegessem outros;
outros diziam, mas que ambos regessem juntamente n'aquella parte que a
cada um bem coubesse; outros tinham que a Rainha sÛmente tivesse o
Regimento; e outros o davam inteiramente ao Infante: e a esta parte se
inclinavam mais os povos; e a cada uns para execuÁ„o de seus votos n„o
falleciam autorizadas razıes.