CAPITULO XIV

_Apontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento d'El-Rei

para a Rainha n„o dever reger_

Com esta volta que a Rainha fez do proposito e acordo em que fic·ra com

o Infante, comeÁaram outra vez as differenÁas e debates entre os grandes

e povo sobre o regimento.

A Rainha com os de sua parte requeriam para ella toda a governanÁa em

solido, assi como no testamento d'El-Rei fic·ra determinado: os povos

geralmente com outros da parte do Infante D. Pedro requeriam o regimento

para elle sÛ sem outra ajuda nem companhia, allegando que a Rainha por

muitas razıes n„o devia reger; e d'este voto foram Pedro de Serpa, e

Vicente Egas, cidad„os e procuradores de Lisboa, homens honrados, bem

entendidos, e de grande autoridade. Os quaes altercando sobre estes

debates perante El Rei, como quer que era menino, quando um e quando o

outro lhe disseram:

´Muito alto e poderoso Principe, Rei nosso Senhor, porque nos parece que

acerca de se regerem estes reinos por vÛs, sois requerido que cumprindo

o testamento d'El-Rei vosso padre, que Deus haja, deis inteiramente o

regimento · Rainha nossa Senhora vossa madre, nÛs, como procuradores da

vossa cidade de Lisboa, e assi em nome dos outros procuradores que aqui

s„o, nossos irm„os, dizemos que sob reverencia de vossa real pessoa,

El-Rei vosso padre n„o podia fazer tal testamento; nem em tal caso

leixar Regedor do reino · sua disposiÁ„o; porque a nÛs vosso povo

pertence por direito enleger quem por defeito de vossa madura edade nos

haja por VÛs de defender com as armas e reger por leis com justiÁa.

E isto n„o aggrava vossa legitima sobcess„o; nem ming˙a em vossas

lealdades; c· por serdes seu filho maior legitimo, e bar„o, nÛs

alegremente vos reconhecemos e recebemos por nosso verdadeiro Rei e

Senhor; e com ajuda de Deus vos guardaremos aquella lealdade, fÈ, e

amor, que bons, leaes vassalos devem a Senhor; mas quanto a enleger

Regedor, atÈ que VÛs sejaes em edade para nos por vÛs regerdes, nÛs

buscaremos e enlegeremos quem em vosso nome nos haja de reger e

governar; porque asi como a nÛs sÛmente pertence enleger Rei, se a real

e legitima sobcess„o dos Reis d'estes reinos por algum caso, o que Deus

n„o queira, se destinguisse, e se n„o guardaria em tal caso o

testamento, nem disposiÁ„o do Rei postumeiro; assi pertence a nÛs

enleger agora Regedor por VÛs; e para serdes servido abasta que nÛs o

enlejamos tal, que seja natural, e do vosso real sangue, e n„o

estrangeiro, e em que haja virtudes, saber, e conciencia, e sobre tudo

lealdade, a que se n„o deva poer suspeita. E vossa mui Real Senhoria,

guarde-nos nossa justiÁa e liberdade, como esperamos, no que recebereis

muito serviÁo: e nÛs vossos vassalos com vossos reinos receberemos

mercÍ, proveito e assessego, que deveis desejar: e assi o pedimos a vÛs,

mui illustres Infantes e magnificos condes; e requeremos a vÛs, honrados

senhores, e leal povo de Portugal, que aqui sois juntos para celebrar

estas reaes cÙrtes, que assi juntamente o peÁaes e requeraes que se

faÁa.

No cabo d'esta falla, assi como os coraÁıes dos que a ouviram eram

desvairados, assi n„o houve rostos nem consentimentos eguaes; e por isso

n„o cess·ram os primeiros debates do Regimento, os quaes, como sÛmente

eram entre a Rainha e o Infante, como disse, alguns por assessego

apontavam que ambos fossem exclusos de reger, e enlegessem outros;

outros diziam, mas que ambos regessem juntamente n'aquella parte que a

cada um bem coubesse; outros tinham que a Rainha sÛmente tivesse o

Regimento; e outros o davam inteiramente ao Infante: e a esta parte se

inclinavam mais os povos; e a cada uns para execuÁ„o de seus votos n„o

falleciam autorizadas razıes.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 36 / 103 题