_Concordia feita entre a Rainha e o Infante D. Pedro acerca do
regimento_
E porque a competencia e deferenÁa do regimento n„o era principalmente
salvo entre a Rainha e o Infante D. Pedro, a Rainha, como senhora, que
de sua virtuosa condiÁ„o desejava todo o bem e assessego, sentindo os
malles e damnos que d'estas diversıes se podiam seguir, pelos atalhar
com alguma justa concordia, enviou rogar ao Infante D. Pedro por meio do
Infante D. Anrique, que lhe fosse falar: do que o Infante foi muito
alegre; e, escolhendo para isso tempo conveniente, satisfez logo a seu
requerimento: e, sendo ambos sÛs apartados, a Rainha lhe disse muitas
rasıes sobre o desvairo do regimento, em que bem pareceu que havia
n'ella muita virtude, s„ conciencia e grande discriÁ„o e justo juizo,
concluindo que lhe rogava que ambos sem outro meio se quizessem sobre
isso concordar.
O Infante D. Pedro, como era Principe justo, bom, e temente a Deus, foi
de suas palavras assaz contente; e com outras de grande reverencia e
acatamento lh'as teve muito em mercÍ; e depois d'alguns meios, sobre que
entre si debateram, finalmente foram acordados d'esto:
´Que com a Rainha ficasse o cargo da criaÁ„o de seus filhos, e com a
governanÁa e ministraÁ„o de toda a fazenda; e ao Infante ficasse o
regimento da justiÁa e o titulo de defensor dos reinos por El-Rei.ª
O qual meio, por muitas rasıes, que entre si praticaram, houveram por
justo e razoado; e mostraram ambos ser d'elle muito contentes.