CAPITULO III

_De como comeÁaram de entender nas cousas do reino, e se viu o

testamento d'El-Rei_

Tanto que a Rainha viu seu filho alevantado por Rei, logo fez chamar ·

sua casa o Infante D. Pedro, e o Arcebispo de Lisboa, D. Pedro de

Noronha, primo com irm„o de seu pae d'ella, e as outras principaes

pessoas que hi eram. Perante as quaes, em presenÁa de notairos publicos,

fez abrir e lÍr o testamento d'El-Rei seu marido, em que foi achado

ella, sem ajuda d'outra pessoa, ficar in solido testamenteira de sua

alma, e titor e curador de seus filhos, e regedor do reino, e herdeira

de todo o movel. E encommendou n'elle muito que, por dinheiro, ou

captivos, ou por outra qualquer maneira tirassem de poder dos mouros o

Infante D. Fernando seu irm„o; e quando por semelhantes meios n„o fosse

possivel, que ent„o Ceuta sem escusa se desse por elle; da qual

publicaÁ„o a Rainha por sua guarda mandou tomar estromentos, e comeÁou

logo a usar do regimento inteiramente sem alguma publica contradicÁ„o:

como quer que alguns seus servidores avisados e virtuosos, e que de

verdade amavam sua vida, honra e descanso, logo s„ e secretamente lhe

disseram em conselho n'esta maneira:

_Conselho que se deu · Rainha_

´Senhora, o peso d'este cargo de reger, que assi soltamente tomaes, È

mui grande e tal, que muitos barıes abastados de fortaleza de coraÁ„o e

de prudencia o rece·ram. E por serdes mulher e ainda estrangeira, como

quer que para isso haja em vÛs s„ consciencia e conhecidas virtudes com

mui santo desejo, em caso que n„o houvesseis n'elle alguma contradicÁ„o,

certo duvidamos que o possaes soffrer; porque Vossa Senhoria ha-de

consirar que s„o n'este reino tres Infantes, grandes Principes, e de

muita autoridade, e naturaes da terra, que h„o d'estimar por quebra e

abatimento de seus estados serem regidos por mulher, especialmente n„o

natural nem herdeira, como vÛs sois, e que o por suas bondades e

assessego de todos quizessem consentir, n„o falleceriam outros amigos de

novidades, que lh'o fariam sentir e obrar por outra maneira: de que se

n„o podem escusar odios, escandalos e outros muitos males, em especial

claros impedimentos para vÛs, nem elles estes reinos poderdes reger,

como a serviÁo de Deus e d'El-Rei, e bem d'elles cumpre: de que vos

muito deve pesar. E n„o vos fieis nos offerecimentos e muita parte que

vos muitos de si agora prometem, para crerdes que o esforÁo d'estes

enfraquent·ra o dos outros; porque em fim todos, ou a mÛr parte h„o de

seguir a vontade dos Infantes, qualquer que fÙr, quanto mais que j·

agora pelas praÁas se solta, que El-Rei nosso Senhor, vosso marido, que

santa gloria haja, vos n„o podia leixar este cargo de reger: c· este

poder demleger regedor do reino era sÛmente ao reino e aos tres estados

d'elle reservado; e d'onde isto agora sae de presumir È que mais jaz.

Pelo qual nosso conselho seria, que agora com prazer e assessego vosso,

e do reino, consirados todos estes inconvenientes, leixasseis assi de

vossa vontade este regimento, antes que depois o leixardes forÁada, ou

impedida de vossa natural fraqueza, ou de outras forÁas maiores: o que

deve ser com pouca honra e contentamento vosso. E a vÛs, Senhora, bem

abastara terdes cuidado da criaÁ„o de vossos filhos, e do descargo

d'alma d'El-Rei vosso marido, que s„o cousas ass·s grandes, honradas e

honestas.ª

A Rainha, como era senhora de bom entender e de tenÁ„o s„, e conforme em

todo ao serviÁo de Deus, pareceu-lhe bem este conselho, e quizera-o

seguir; mas n„o falleceram logo outros, que com outras razıes cÛradas ao

revÈs d'estas, a mudaram d'este proposito, e fizeram tomar determinaÁ„o

de todavia reger sÛ: dando-lhe estes, por principal causa, a seguranÁa

da vida e estado de seus filhos, que em poder do Infante D. Pedro lhe

faziam crÍr que n„o seriam muito seguros, por ser principe poderoso,

amado do povo, e tinha filhos, e podia n'elle entrar o desejo de reinar,

que vence todolos outros; e assi venceria n'elle a divida lealdade para

o executar.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 25 / 103 题