_Alevantamento d'El-Rei_
Era quinta feira logo seguinte, dez dias do dito mez: o Infante D.
Pedro, como Principe a que das cerimonias reaes e das outras cousas em
que cabia descriÁ„o e virtude nada s'escondeu, fez fazer antre o
convento e os paÁos do castello da dita villa um assentamento assi real
e ricamente guarnecido, como para o auto cumpria. E · bespora do dito
dia, o Infante com todolos fidalgos e nobre gente da cÙrte foram aos
paÁos d'El-Rei, que eram dentro no convento, vestidos por ent„o os
corpos dos panos mais ricos, mas as almas e caras de clara tristeza, que
em todos n„o era fingida, mas verdadeira e justa, assi pela privaÁ„o
d'El-Rei, que era muito virtuoso e para todos de grande humanidade e boa
condiÁ„o, como por lhes os coraÁıes revelarem as grandes divisıes e
muitos trabalhos, em que pela soccess„o de t„o novo Rei se haviam de
vÍr, como viram.
O Principe D. Affonso posto em vestiduras reaes, e bem acompanhado de
todos, sahiu fÛra ao assentamento, onde pelo Infante D. Pedro com grande
reverenÁa, e muito acatamento foi posto na cadeira real. E emquanto um
Mestre Guedelha, singular fysico e astrologo, por mandado do Infante
regulava, segundo as influencias e cursos dos planetas, a melhor hora e
ponto em que se poderia dar aquella obediencia: o Infante volveu a
contenenÁa ao povo, e com gr„o seguranÁa e palavras mansas disse:
´Como quer que, o dia d'hoje com muitos dos que vir„o, teriamos justa
causa dar lugar a nossos olhos, que com muitas lagrimas testemunhassem a
dÙr e perda que recebemos na morte de um Principe t„o catholico e t„o
virtuoso, e t„o necessario a nÛs todos como foi El-Rei meu Senhor e
irm„o, cuja alma Deus haja: devemos, porÈm, consirar como catholicos e
de raz„o, que, pois em escusar sua morte n„o ha remedio, que duas cousas
sÛmente nos ficam, para que a Deus e ao mundo certefiquemos o amor e boa
vontade que lhe tinhamos. A primeira, em nossas oraÁıes, jejuns e obras
meritorias havermos sua alma em memoria para a encommendarmos a Deus. A
segunda, este ramo em todolos signaes de virtudes t„o florecido, que de
seu real Tronco naceo, que È o mui excellente Princepe D. Affonso seu
filho nosso Senhor, que temos presente, havermo-lo de reconhecer, servir
e amar por nosso sÛ natural e verdadeiro Rei e Senhor, como o requere
nossa mui antiga e costumada lealdade, e o Direito nos obriga. E, porÈm,
vo-lo apresento aqui para o assi em todo o reconhecerdes, e vos
encommendo da sua parte, que para o assi fazerdes n„o hajaes respeito ·
sua nova idade, mas ·s velhas obrigaÁıes em que para isso lhe soes e sua
Real Senhoria nos d· j· uma mui certa esperanÁa d'acharmos n'elle honra,
mercÍ, favor e justiÁa, como cada um o merecer e lh'o requerer.ª
E em dizendo Mestre Guedelha, que era boa hora para fazer sua
obediencia, o Infante com os giolhos em terra tomou as m„os ao Principe,
e em lh'as beijando disse:
´Muito alto e muito excellente Senhor, assi como vos eu hoje ponho
n'esta seda, em que vÛs por graÁa de Deus legitimente recebeis o real
Septro e senhorio d'estes vossos reinos, assi espero com sua ajuda e
minha grande lealdade de vo-los ajudar a manter e deffender com todas as
minhas forÁas e poder, e saber, quando me vossa MercÍ mandar, ou eu
sentir que cumpre a vosso estado e serviÁo.ª
E com estas palavras acabando se alevantou.
E logo D. Duarte de Meneses, alferes mÛr, filho do conde D. Pedro de
Meneses, primeiro capit„o de Ceuta, com a bandeira real levantada, e os
reis d'armas e arautos com elle comeÁaram alli sua grita, e depois com
ella foram pela villa, repetindo-a tres vezes, segundo custume, com toda
aquella cerimonia e solemnidade que a tal auto real pertencia; porque o
Infante D. Pedro, por cuja ordenanÁa e mandado se fazia, era Principe
n'aquellas cousas mui ensinado, e quiz n'aquelle auto que n„o ficasse
cousa dina por fazer: assi porque assi o requeria sua grande bondade e a
muita lealdade em que nascÍra: como por mostrar a muitos de damnadas
maginaÁıes, e · Rainha D. Lyanor principalmente, que aquella fÙra
sempre, e era sua leal e verdadeira tenÁ„o d'obedecer, e n„o a outra
falsa de querer por forÁa reinar, como lhe faziam crÍr que elle
desejava. Porque a Rainha, como quer que sempre foi muito honesta,
virtuosa, prudente, devota e muito amiga da vida e honra d'El-Rei seu
marido: porÈm sempre em sua vida mostrou ao Infante D. Pedro que n„o lhe
tinha boa vontade: e as causas porque assim fosse eram occultas para
culpar o Infante, salvo se procedessem de induzimentos alheios, que em
sua feminil fraqueza de ligeiro fariam impress„o, ou por ventura
procederia das imisades que foram entre El-Rei D. Fernando d'Arag„o, pae
da rainha, e o conde d'Urgel, pae da Infante D. Izabel, mulher do dito
Infante D. Pedro, que pertendeu por direito na success„o d'Arag„o, e foi
d'El-Rei n'ella vencido.