CAPITULO II

_Alevantamento d'El-Rei_

Era quinta feira logo seguinte, dez dias do dito mez: o Infante D.

Pedro, como Principe a que das cerimonias reaes e das outras cousas em

que cabia descriÁ„o e virtude nada s'escondeu, fez fazer antre o

convento e os paÁos do castello da dita villa um assentamento assi real

e ricamente guarnecido, como para o auto cumpria. E · bespora do dito

dia, o Infante com todolos fidalgos e nobre gente da cÙrte foram aos

paÁos d'El-Rei, que eram dentro no convento, vestidos por ent„o os

corpos dos panos mais ricos, mas as almas e caras de clara tristeza, que

em todos n„o era fingida, mas verdadeira e justa, assi pela privaÁ„o

d'El-Rei, que era muito virtuoso e para todos de grande humanidade e boa

condiÁ„o, como por lhes os coraÁıes revelarem as grandes divisıes e

muitos trabalhos, em que pela soccess„o de t„o novo Rei se haviam de

vÍr, como viram.

O Principe D. Affonso posto em vestiduras reaes, e bem acompanhado de

todos, sahiu fÛra ao assentamento, onde pelo Infante D. Pedro com grande

reverenÁa, e muito acatamento foi posto na cadeira real. E emquanto um

Mestre Guedelha, singular fysico e astrologo, por mandado do Infante

regulava, segundo as influencias e cursos dos planetas, a melhor hora e

ponto em que se poderia dar aquella obediencia: o Infante volveu a

contenenÁa ao povo, e com gr„o seguranÁa e palavras mansas disse:

´Como quer que, o dia d'hoje com muitos dos que vir„o, teriamos justa

causa dar lugar a nossos olhos, que com muitas lagrimas testemunhassem a

dÙr e perda que recebemos na morte de um Principe t„o catholico e t„o

virtuoso, e t„o necessario a nÛs todos como foi El-Rei meu Senhor e

irm„o, cuja alma Deus haja: devemos, porÈm, consirar como catholicos e

de raz„o, que, pois em escusar sua morte n„o ha remedio, que duas cousas

sÛmente nos ficam, para que a Deus e ao mundo certefiquemos o amor e boa

vontade que lhe tinhamos. A primeira, em nossas oraÁıes, jejuns e obras

meritorias havermos sua alma em memoria para a encommendarmos a Deus. A

segunda, este ramo em todolos signaes de virtudes t„o florecido, que de

seu real Tronco naceo, que È o mui excellente Princepe D. Affonso seu

filho nosso Senhor, que temos presente, havermo-lo de reconhecer, servir

e amar por nosso sÛ natural e verdadeiro Rei e Senhor, como o requere

nossa mui antiga e costumada lealdade, e o Direito nos obriga. E, porÈm,

vo-lo apresento aqui para o assi em todo o reconhecerdes, e vos

encommendo da sua parte, que para o assi fazerdes n„o hajaes respeito ·

sua nova idade, mas ·s velhas obrigaÁıes em que para isso lhe soes e sua

Real Senhoria nos d· j· uma mui certa esperanÁa d'acharmos n'elle honra,

mercÍ, favor e justiÁa, como cada um o merecer e lh'o requerer.ª

E em dizendo Mestre Guedelha, que era boa hora para fazer sua

obediencia, o Infante com os giolhos em terra tomou as m„os ao Principe,

e em lh'as beijando disse:

´Muito alto e muito excellente Senhor, assi como vos eu hoje ponho

n'esta seda, em que vÛs por graÁa de Deus legitimente recebeis o real

Septro e senhorio d'estes vossos reinos, assi espero com sua ajuda e

minha grande lealdade de vo-los ajudar a manter e deffender com todas as

minhas forÁas e poder, e saber, quando me vossa MercÍ mandar, ou eu

sentir que cumpre a vosso estado e serviÁo.ª

E com estas palavras acabando se alevantou.

E logo D. Duarte de Meneses, alferes mÛr, filho do conde D. Pedro de

Meneses, primeiro capit„o de Ceuta, com a bandeira real levantada, e os

reis d'armas e arautos com elle comeÁaram alli sua grita, e depois com

ella foram pela villa, repetindo-a tres vezes, segundo custume, com toda

aquella cerimonia e solemnidade que a tal auto real pertencia; porque o

Infante D. Pedro, por cuja ordenanÁa e mandado se fazia, era Principe

n'aquellas cousas mui ensinado, e quiz n'aquelle auto que n„o ficasse

cousa dina por fazer: assi porque assi o requeria sua grande bondade e a

muita lealdade em que nascÍra: como por mostrar a muitos de damnadas

maginaÁıes, e · Rainha D. Lyanor principalmente, que aquella fÙra

sempre, e era sua leal e verdadeira tenÁ„o d'obedecer, e n„o a outra

falsa de querer por forÁa reinar, como lhe faziam crÍr que elle

desejava. Porque a Rainha, como quer que sempre foi muito honesta,

virtuosa, prudente, devota e muito amiga da vida e honra d'El-Rei seu

marido: porÈm sempre em sua vida mostrou ao Infante D. Pedro que n„o lhe

tinha boa vontade: e as causas porque assim fosse eram occultas para

culpar o Infante, salvo se procedessem de induzimentos alheios, que em

sua feminil fraqueza de ligeiro fariam impress„o, ou por ventura

procederia das imisades que foram entre El-Rei D. Fernando d'Arag„o, pae

da rainha, e o conde d'Urgel, pae da Infante D. Izabel, mulher do dito

Infante D. Pedro, que pertendeu por direito na success„o d'Arag„o, e foi

d'El-Rei n'ella vencido.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 24 / 103 题