O sr. Consiglieri Pedroso, com todo o seu saber, labóra num

*Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos

existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à

versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com

o original. No final deste livro encontrará a lista de erros

corrigidos.

Rita Farinha (Nov. 2009)

JOSÉ BARBOSA

As relações luso-brasileiras

LISBOA

1909

JOSÉ BARBOSA

As relações luso-brasileiras

(A immigração e a «desnacionalização» do Brasil)

LISBOA

EDIÇÃO DE JOSÉ BARBOSA

RUA DO LORETO, 56, 1.^o D.

1909

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

LISBOA

TYPOGRAPHIA DO COMMERCIO

Rua da Oliveira, 10, ao Carmo

1909

_Amicus Plato sed magis amica veritas..._

INTRODUCÇÃO

O Brasil já foi uma região mal conhecida. Hoje já o não é. Em todos os

centros civilizados deixou de ser ignorado. Existe, emfim! E não existe

sómente por ser riquissimo de climas, de flora e de fauna, nem por

offerecer, nos seus terrenos inexplorados, largo campo ás ambições

insatisfeitas dos povos do Velho Mundo, nem sequer por haver

desenvolvido de maneira collossal as suas producções.

Tudo isso torna conhecido o Brasil. Mas o que mais lhe propaga o nome é

a surpreza causada pela sua cultura, ainda ha pouco representada de modo

inolvidavel e memorando pelos seus delegados na Conferencia de Haya e no

Congresso de Hygiene de Berlim, Ruy Barbosa e Oswaldo Cruz.

O que, além disso, não escapa a ninguem é a supremacia que lhe cabe

entre as nações sul-americanas, é a funcção de arbitro da paz do

continente, em que o investiram os estadistas da Republica, entre os

quaes se tem de destacar a excelsa figura de Rio Branco.

Para o Brasil de hoje convergem todos os olhares. Deixou de ser a terra

do ouro e dos diamantes para se transformar em vasta arena aberta ás

mais levantadas especulações da intelligencia e ás mais audazes e

fecundas iniciativas materiaes. O estudo e o trabalho congregam-se para

o seu progresso. A liberdade e a paz social acolhem e protegem os

desherdados que alli vão buscar pão e esperanças...

As sociedades européas, imbuidas de preconceitos e avassalladas pelos

privilegios, trancam o futuro ás classes trabalhadoras. Que lhes resta,

senão o recurso da expatriação? O caminho é o Oceano; a Chanaan é a

America, a livre e egualitaria America, onde o trabalho é toda a

nobreza.

Nós, os portugueses, acompanhamos o movimento geral. A nossa America

consiste principalmente no Brasil. Nem podia deixar de ser assim. A raça

e a lingua são factores decisivos na escolha do destino.

Nenhuma raça revéla maior resistencia do que a nossa, nenhuma é mais

soffredora e tenaz.

Como, porém, estamos desapparelhados para a lucta hodierna pela falta de

diffusão do ensino, só excepcionaes qualidades ethnicas[1] explicam a

posição que ainda cabe á nossa colonia no Brasil. Seria, no emtanto,

indigno occultar, neste momento, que essa colonia se encontra sériamente

ameaçada pelos nossos concorrentes. Está, aliás, na consciencia de todos

esta verdade, que uns calam para lisonjear a nossa colonia no Brasil e

outros por não lhe vêrem solução deante da criminosa pertinacia com que

os governos dão tudo ás clientellas politicas e negam, por systema, a

esmóla do ensino primario aos filhos do contribuinte faminto e

esfarrapado!

A obra da escola não se concilia com os interesses do regimen, não ha

duvida; mas recusem ao povo, forçado a emigrar para não morrer de fome,

a instrucção indispensavel para competir com os outros estrangeiros no

Brasil e esperem o resultado no volume das remessas de numerario com que

acudimos ao nosso balanço economico!

O recurso das remessas do Brasil e a exportação que para esse paiz

fazemos tornaram-se essenciaes á vida portuguesa. E, como nada se fez

para dispensar tal dependencia e nada se procurou para assegurar aquelle

estado de coisas, a nossa gente laboriosa, conscia dos riscos que

corremos, mas sem noção exacta do problema, recebe com esperança e

enthusiasmo todas as idéas apresentadas por pessoas bem intencionadas.

Isso bastaria para explicar o côro das adhesões á proposta do sr.

Consiglieri Pedroso[2], se não interviessem, no lance, a especial

categoria, a illustração e o talento do emérito professor. Discordando,

em varios pontos, desse plano de approximação luso-brasileira, dirigi a

s. ex.^a uma _carta aberta_ a que o _Mundo_ deu a sua larga publicidade

e na qual se lia:

«O estreitamento das relações de Portugal com o Brasil, dada a

vontade que nesse sentido revelam os dois povos, é mais do que

facil, porque é inevitavel, porque está nos destinos de ambos.

Imaginar, porém, como deduzo dos considerandos de v. ex.^a que,

precisando nós da _seiva_ do Brasil, temos meio de lhe conferir uma

compensação primacial, qual seja a de evitar o risco da

desnacionalização que esse povo corre pela entrada cada vez maior

de outros elementos ethnicos, é erro profundo que os factos

condemnam de maneira formalissima. E, sobre ser um erro, esse juizo

levantará contra Portugal e contra os portugueses a hostilidade das

outras colonias e das outras raças, alli na mais intima convivencia

e na mais constante fusão com a gente lusitana e luso-brasileira.

Com tal motivo, qualquer esforço de approximação resultará

contraproducente. Não posso, desde que se parte dessa base, dar a

minha insignificante collaboração a uma tentativa que tenho por

inefficaz, pelo menos.

O Brasil precisa de milhões de estrangeiros. Não lhos podemos dar.

Ha de procural-os em outros paizes. Mas, como é um paiz que se sabe

governar e que nunca, nem sob este nem sob o antigo regimen, deixou

de demonstrar sentimentos patrioticos e ardor civico, não corre o

perigo, que v. ex.^a entreviu na colonização italiana e alleman, de

se desnacionalizar.

Com mais vagar, em um opusculo, hei de deixar demonstrado quanto

estão afastados da realidade os que pensam como v. ex.^a. Se

houvessemos de iniciar negociações com a idéa de evitar esse

supposto risco, creia v. ex.^a que os brasileiros, cuja

hospitalidade tive durante dezeseis annos e cujo espirito conheço,

não agradeceriam o aliás generoso empenho, porquanto nelle veriam

menos apreço pelas qualidades de intelligencia e de patriotismo, de

que, com justiça, se ufanam muito mais do que das riquezas naturaes

da sua patria.

Sei que v. ex.^a, meu illustre correligionario, só é movido por

altos e nobres estimulos. Estou convencido de que só á falta de

documentos directos e de observação propria se póde attribuir o

desvio do seu grande espirito critico em materia em que estudos

especiaes dão a v. ex.^a merecida auctoridade.

Felizmente, porém, entre muitas idéas de real utilidade que constam

da proposta de v. ex.^a, vejo uma que me garante que o problema,

nas suas linhas mestras, tem em v. ex.^a o paladino ao lado do qual

se poderão alinhar os soldados da democracia portuguesa e os

cidadãos da grande Republica Brasileira.

Refiro-me á idéa de procurar approximar os dois povos pela adopção

de um espirito commum na legislação de ambos. Nesse ponto estou

enthusiasticamente com v. ex.^a, porque, não podendo a democracia

pura, que é a Republica dos Estados Unidos do Brasil, seguir a

evolução regressiva, essa aspiração impõe-nos, a nós portugueses, a

marcha progressiva para a situação juridica do Brasil--o que só

poderá ser conseguido por uma transformação politica e social, tão

almejada por mim quanto por v. ex.^a.

E comprehendo com que intimo constrangimento quem assim sente teria

de obedecer ás regras protocolares do cargo ao pedir ao joven rei

D. Manuel a sua cooperação para um emprehendimento que só póde ser

levado a bom termo pelos dois povos e que só se desentranhará em

realidades promissoras quando a realeza portuguesa constituir méra

recordação historica.

Faço votos por que v. ex.^a veja em breve realizadas as nossas

aspirações communs. Se, porém, o nosso esforço interno não chegar

para tanto, creia v. ex.^a que, para não falharem os seus destinos

historicos, o Brasil e Portugal se hão de approximar cada vez mais

e cada vez mais intensamente a democracia brasileira ha de exercer

fatal acção sobre a nação portuguesa, abreviando os dias do regimen

monarchico e apressando o advento da Republica Portuguesa.

Não ha mais eloquente lição do que a dos factos. Não ha mais

violenta propaganda do que a comparação antithetica dos povos

brasileiro e português. E, cada português, que volta á patria, não

tarda em sentir a magnitude da acção da Republica no Brasil e em

reconhecer a falta das instituições a que lá se afizera.

Garanto-o a v. ex.^a: se não fizermos a revolução, o Brasil ha de

republicanizar Portugal. V. ex.^a conhece melhor do que eu o poder

da osmose social.»

Eis a origem deste trabalho. Julguem brasileiros e portuguêses se as

convicções, que elle traduz, carecem de fundamento.

I

A PROPOSTA CONSIGLIERI PEDROSO

Eis a proposta do presidente da Sociedade de Geographia:

«Considerando que na evolução politica do mundo contemporaneo é

facto historico, que se não póde contestar, a irresistivel

tendencia para a unificação moral dos grupos ethnicos, que falam o

mesmo idioma, podendo até por isso definir-se o dominio da lingua,

na sua funcção social, como a patria espiritual de uma

nacionalidade;

Considerando que nem os mais poderosos Estados logram eximir-se a

esta universal tendencia, como o prova o movimento de concentração

que no momento actual se está operando nos povos anglo-saxonicos,

nos germanicos propriamente ditos e mesmo nos povos slavos, apezar

das differenças de religião e de linguagem que separam estes

ultimos entre si;

Considerando que, em virtude desta tendencia, é legitimo prevêr-se

como irremediavel, em futuro relativamente pouco distante, se não o

desapparecimento, pelo menos a desintegração das pequenas

nacionalidades que não consigam defender-se, pela massa dos seus

habitantes, da absorpção, consequencia fatal da lucta pela

existencia, cada vez mais implacavel entre as grandes nações, que

na sua ancia de açambarcamento inquietam os agrupamentos

secundarios, embora muito adeantados em cultura;

Considerando que Portugal e Brasil, pela sua origem, historia e

tradições, pela lingua que ambos falam, pela raça a que pertencem e

pelos multiplices interesses que os ligam, sem embargo do glorioso

facto consummado da independencia brasilica, e, não obstante,

portanto, serem duas soberanias politicas separadas e perfeitas,

constituem na realidade, em face das outras agremiações nacionaes e

exoticas, um grupo áparte, nitidamente delimitado, com

individualidade distincta e, por conseguinte, com um destino

historico completamente autonomo, circumstancia a que o direito

internacional não póde ficar estranho;

Considerando que, na situação de isolamento reciproco, em que se

encontram, as duas nações estão compromettendo a grandeza do papel

primacial que deviam representar no mundo, com grave prejuizo dos

interesses proprios e apenas com vantagem para as nações rivaes,

que se estão aproveitando habilmente da desunião de ambas;

Considerando que a grande nação brasileira, não obstante os quasi

illimitados recursos de que dispõe e as brilhantes qualidades dos

seus filhos, que se estão impondo á consideração universal pela sua

intelligencia e illustração, pelo seu patriotismo e pela sua

actividade, corre o risco de se ir desnacionalizando pouco a pouco

pela introducção, cada vez em mais larga escala, de elementos de

immigração estranhos ao seu carater historico e até antipathicos á

sua idiosyncrasia ethnica--provaveis causadores de futuras

perturbações e de inevitaveis perigos para a União;

Considerando que este sério risco de desnacionalização lenta, mas

segura, sómente o Brasil póde conjural-o pela approximação e

relações cada vez mais estreitas com Portugal, possuidor ainda hoje

de um rico e vastissimo imperio em Africa, de territorio reduzido

na Europa, não ha duvida, mas berço de uma robusta e prolifica

população largamente espalhada pelo mundo, de extraordinarias

faculdades de adaptação e resistencia, população indispensavel--e

não substituivel por outra--para a conservação e pureza da raça

nacional do Brasil;

Considerando mais que o problema da gradual e progressiva fusão da

numerosissima colonia portuguesa, que vive no Brasil, com a terra

que lhe dá tão generosa hospitalidade é para os futuros destinos da

nacionalidade brasileira de capital e decisiva importancia, mas

sómente de solução integral possivel quando as duas nações, hoje

separadas e quasi estranhas uma á outra, se harmonizarem no

superior interesse de uma fecunda approximação;

Considerando, por outro lado, que a economia nacional portuguesa só

ao contacto intimo da exuberante seiva brasileira póde

robustecer-se e tonificar-se, sendo, além disso, fecundissimo campo

para a nossa actividade material e progredimento moral as vastas

regiões cobertas pela gloriosa bandeira auri-verde;

Considerando por isso como verdade evidente, sem possibilidade de

discussão sequer, que a resolução definitiva do problema economico

português depende grandemente--quaesquer que sejam os esforços, a

sinceridade e a intelligencia que para ella se empreguem dentro das

nossas estreitas fronteiras--de plenamente se realizar um forte e

largo accordo luso-brasileiro, formula de renascimento mundial da

nossa commum nacionalidade;

Attendendo a que a tradicional alliança de Portugal com a

Inglaterra, base da nossa situação politica internacional, assim

como intimas relações de cordealidade com as tres nações latinas,

nossas irmans, e com a Allemanha, nossa cooperadora em Africa, em

coisa alguma são prejudicadas pela unificação moral de Portugal com

o Brasil n'um pacto superior, permanente e _sui generis_, tal como

o impõem os especialissimos laços fraternaes existentes entre as

nações que falam a lingua portuguesa;

E, attendendo, finalmente, a que á Sociedade de Geographia de

Lisboa, pelos seus fins, pela sua constante tradição e pelo logar

proeminente, tão excepcionalmente em evidencia, que occupa na vida

nacional portuguesa, compete, nesta hora difficil para a patria,

cooperar, quanto em si caiba, no movimento de renovação do nosso

querido Portugal;

Tenho a honra de propôr que, nos termos do artigo 40.^o dos

estatutos, se crie uma commissão geral permanente com o titulo de

«Commissão Luso-brasileira» a qual terá, entre outros, os seguintes

fins:

1.^o--Estudar a forma mais adequada de se realizarem congressos

periodicos luso-brasileiros, que devam, em prazos a fixar,

reunir-se alternadamente em Lisboa ou Porto e no Rio de Janeiro ou

outras cidades brasileiras com o intuito de discutir todos os

assumptos de ordem intellectual e economica que interessem em

commum e exclusivamente as duas nações, e onde haja de fazer-se a

propaganda das deliberações que pelos mesmos congressos e pelos

governos dos dois paizes tenham de ser tomadas a beneficio de ambos

os povos, respeitando-se escrupulosamente a independencia de cada

um delles e evitando-se toda e qualquer interferencia, por minima

que seja, na vida interna e no modo de ser dos dois paizes

reciprocamente;

2.^o--Estudar a forma de se negociar um tratado de incondicional

arbitragem entre Portugal e as suas colonias de um lado e o Brasil

do outro e de se realizar a conveniente cooperação das duas nações

em assumptos de caracter internacional;

3.^o-- Estudar a fórma de se ultimar, com a urgencia que razões

obvias aconselham, um tratado de commercio, ou antes um largo

entendimento commercial entre as duas nações, procurando-se a

maneira, até onde fôr possivel vencer as difficuldades naturaes

inherentes ao assumpto, de que uma á outra concedam respectivamente

vantagens especiaes que deixem de ser transmittidas aos outros

Estados, não sendo, portanto, attingidas pela clausula de nação

mais favorecida, inscripta actualmente nos tratados já existentes

tanto de Portugal como do Brasil com os paizes estrangeiros;

4.^o--Promover a creação de uma linha de navegação luso-brasileira

entre os dois paizes, sob o alto patrocinio de ambos os governos;

5.^o--Promover a fundação em Lisboa de um entreposto central para o

commercio do Brasil na Europa e de um entreposto central no Rio de

Janeiro para o commercio português na America, podendo, no caso de

isso ser conveniente, fundar-se outros dois entrepostos, um no

Porto e outro no Recife, ou onde mais convenha ao Brasil;

6.^o--Promover a construcção de dois palacios, um em Lisboa e outro

no Rio de Janeiro, destinados á exposição e venda permanente dos

productos nacionaes de cada um dos dois paizes no outro;

7.^o--Promover, sempre que fôr possivel, a unificação ou pelo menos

a harmonização da legislação civil e commercial dos dois paizes;

8.^o--Promover a approximação intellectual--scientifica, literaria

e artistica--dos dois paizes, dando aos professores e diplomados

brasileiros em Portugal e aos professores e diplomados portugueses

no Brasil os mesmos direitos com equivalencia dos respectivos

titulos de habilitação;

9.^o--Promover visitas regulares de excursionistas e de estudo--de

intellectuaes, de artistas, de industriaes e commerciantes

portugueses ao Brasil e brasileiros a Portugal e ás suas mais

importantes colonias;

10.^o--Estudar a maneira de se fundar em qualquer das duas

capitaes, ou simultaneamente em ambas, uma revista que seja o orgão

para servir de interprete permanente a este movimento de

approximação luso-brasileira;

11.^o--Promover mais intimas e continuadas relações entre a

imprensa brasileira e a imprensa portuguesa pela troca de

collaboração e pela instituição de reuniões periodicas dos editores

de livros e dos representantes do jornalismo de ambas as nações;

12.^o--Promover a intelligencia entre si, respectivamente, das

sociedades scientificas, artisticas, de instrucção, de

beneficencia, de gymnastica, de tiro, de natação e outros desportos

maritimos e terrestres, etc., pertencentes aos dois paizes, assim

como das associações academicas brasileiras e portuguesas,

creando-se tambem bolsas de viagem para os estudantes de cada um

dos dois paizes no outro;

13.^o--Promover o movimento de approximação luso-brasileira no

Brasil, ou por intermedio de alguma das sociedades alli existentes,

como a Sociedade de Geographia ou o Instituto Historico Brasileiro,

que, á semelhança da Sociedade de Geographia de Lisboa, queira no

territorio da União pôr-se á frente deste movimento, ou

contribuindo para a fundação no Rio de Janeiro de uma liga

luso-brasileira, com os mesmos intuitos que os da commissão

permanente cuja creação aqui se propõe;

14.^o--Finalmente, estudar a maneira de se fazer da benemerita

colonia portuguesa no Brasil a activa intermediaria da approximação

moral dos dois povos, approximação que terá como symbolo da

realidade da sua existencia a formosa lingua de Camões e Gonçalves

Dias a falar-se dos dois lados do Atlantico e a servir, em duas

patrias fraternalmente enlaçadas, de vinculo inquebrantavel á raça

luso-brasileira, cujo destino historico, assim engrandecido,

deverá, a bem da civilização, alargar-se triumphante pelas mais

bellas regiões do globo, ás quaes o immortal genio latino,

representado pela nossa commum nacionalidade, imprimirá, com o

supremo encanto da forma, o estimulo da sua energia eternamente

creadora.»

II

O PROBLEMA LUSO-BRASILEIRO

O problema luso-brasileiro é uma realidade. Não está definido, não se

lhe conhecem com precisão os termos; mas existe. Affinidades, claras e

logicas umas, e outras obscuras e inconscientes, sollicitam os dois

grupos sociaes e politicos, que compõem a _gens lusitana_, se assim se

póde exprimir o conjuncto ethnico em elaboração nas terras sob a

soberania portuguesa e sob a soberania brasileira.

Existe o problema luso-brasileiro, como existe o hispano-americano, como

existe o anglo-saxonio. Paizes que derivaram dos povos colonizadores por

excellencia e que mantêem com elles intimas relações e permanente

convivencia, ha tres nucleos de estados americanos que constituem, á

maneira que se desenvolvem e á maneira que prosperam, não já simples e

justificados motivos de orgulho para aquelles povos, mas poderosas

engrenagens a cuja sorte elles não podem, de maneira nenhuma, ser

estranhos.

Sentimos vagamente que ha laços insoluveis que nos prendem ao Brasil.

Dia a dia, hora a hora, reconhecemos que existe uma verdadeira

interdependencia na vida luso-brasileira. O Brasil influe sobre Portugal

e Portugal influe sobre o Brasil. Como e em que espheras das respectivas

actividades se exercita essa acção? Eis onde surgem, cá e lá, as

divergencias; eis onde collidem as opiniões e onde mais nitidamente se

manifesta a complexidade do problema luso-brasileiro.

Ha quantos annos Castelar lançou a idéa de estreitar os vinculos

hispano-americanos? Ha mais de quarenta e, todavia, o problema ficou sem

solução...

Dizia Emilio Castelar:

«Reunir as idéas de todos os nossos escriptores; communicar ao Novo

Mundo o espirito hespanhol sob todas as suas formas raras e variadas;

lembrar-lhe todos os dias, sob todos os tons da nossa lingua, que aqui

vivem homens que são seus irmãos; mostrar a seus olhos o ideal de um

futuro de paz, em que pela reunião das nossas forças e das nossas

intelligencias poderemos fazer germinar nas entranhas dessa infeliz

America, ferida pela tempestade, e no seio desta desgraçada Hespanha

consumida pelas cinzas das suas ruinas, uma sciencia nova e uma

literatura nova; fazer tudo isto com uma constancia, que lembre o nosso

antigo caracter, e fazel-o sem outra recompensa além da satisfação da

nossa consciencia, é um dos maiores e mais positivos beneficios que se

podem conceber para a nossa raça abatida.»

A iniciativa do sr. Consiglieri Pedroso no tocante ás relações

luso-brasileiras relembra a de Castelar no que concerne ás

hispano-americanas. A cultura historica, em ambos fortalecida pelas

sciencias politicas e sociaes, levou esses dois espiritos de eleição a

encararem o mesmo problema sob aspectos quasi identicos. Ao lusitano,

como ao hespanhol, affigurou-se indispensavel a _seiva americana_ ao

caule ibérico. Era, nos dois casos, a verificação confessada de factos

insophismaveis da economia da peninsula hispanica; mas problemas

economicos têm de ser resolvidos economicamente. Ora, se Castelar queria

que se puzesse em pratica todo o seu programma com a só recompensa da

consciencia satisfeita, o sr. Consiglieri Pedroso, mais positivo,

estabeleceu um programma em que prevalece o _do ut des_, a troca de

vantagens e serviços capazes de apertar os laços que prendem a patria de

Camões á de Gonçalves Dias.

A forma pela qual se virá a tornar effectiva essa solidarizacão decorre

forçosamente das bases que se adoptarem para a conseguir.

O estadista hespanhol Francisco Silvela, abordando o problema hispano

americano, dizia que, «para a renascença das forças da sua patria», era

indispensavel «luctar nos mercados» das antigas colonias, que

considerava mercados naturaes da Hespanha; mas, no seu plano, que ia até

uma confederação ibero-americana, entendia que «o mercado hespanhol»

devia «uma legitima reciprocidade ao commercio, á industria e á

agricultura desses povos irmãos».

Como dar realidade ao ridente projecto? Não nol-o soube ensinar

Castelar, não nol-o mostrou Silvela: morreram e tudo continua como

antes... Oxalá seja mais proveitosa a nossa iniciativa.

O sr. Consiglieri Pedroso, com todo o seu saber, labóra num engano. Á

sua perspicacia deve ter causado impressão a simples lista dos

brasileiros que, com representação official, assistiram á sessão da

Sociedade de Geographia. Alli esteve o primeiro secretario de legação,

sr. Alvaro de Teffé, filho do almirante barão de Teffé, cuja familia,

_von Hoonoltz_, se me não affigura lusitana, embora aos serviços do

almirante deva o Brasil a mais grata recordação de patriotismo; e, dos

quatorze officiaes de marinha presentes, um era Burlamaqui, outro Bardy,

outro Lindenberg, outro Wegylin, outro Costallat... Este facto bastaria,

numa representação tão diminuta, para nos desilludir ácerca da idéa

corrente em Portugal de que sómente os filhos dos portugueses adoptam a

nacionalidade brasileira. Antes, estivera no porto de Lisboa o

_destroyer_ «Piauhy», commandado por Pedro Frontin, tendo por immediato

Armando Burlamaqui. E por Lisboa têm passado Filinto Perry e Octavio

Perry, officiaes de marinha e filhos de outro illustre official, e

tantos outros, a quem nem o nome nem a origem attenuam o sentimento

nacional.

Lauro Müller, filho de colonos allemães de Santa Catharina, é senador e

coronel do exercito e foi ministro da viação no governo Rodrigues Alves.

Olavo Bilac, Escragnolle Taunay, Pardal Mallet, Clovis Bevilacqua,

Henrique Oswald, Felix de Otero, H. Chiaffitelli, Rodolpho e Henrique

Bernardelli, Ludovico Berna, Elyseu d'Angelo Visconti, o architecto

Stahlembrecher, o pintor Chambelland, nas letras e nas artes; Raja

Gabaglia, Lima Drummond, Alfredo Pujol, Vergueiro Steidel, G.

Hasslocher, Wanderley Araujo, no direito; Chapot Prévost, Monat,

Chardinal, Seidl, Niobey, Alberto Muylaert e Rebello Kock, na medicina;

Paulo de Frontin, José e Jorge de Lossio Seiblitz, Estanislau Bousquet,

Victor Villiot, Everardo Backeuser, Henrique Kingston, Julio Delamare

Koeler, Van Erven, Dunham, na engenharia; Gaffrée, Guinle e Street, na

industria--para citar só de memoria e para pôr de lado aquelles que

remontam a um passado já distante--são nomes que ninguem póde crêr

usados por pessôas alheias ao espirito nacional brasileiro.

Quem foi o ministro da marinha do governo provisorio? Wandenkolk. E quem

é o actual ministro da guerra? Bormann. De sangue italiano são os filhos

do insigne jornalista, hoje presidente do Senado, Quintino Bocayuva; têm

sangue francês os filhos do extraordinario patriota que se chama Rio

Branco.

E, apezar de toda esta fusão de raças, o sentimento brasileiro nada

soffre! E, apezar de quaesquer receios de desnacionalização, o que se vê

é que cada vez se vae robustecendo mais a nacionalidade!

E, se é certo que a lingua é o mais poderoso elemento caracteristico das

nacionalidades, é evidente que, dentro do Brasil, todos os exoticos são

absorvidos e assimilados pela massa luso-brasileira, que forma a sua

força ethnica preponderante.

O dr. Bulhões Carvalho, director geral da Estatistica, no prologo do

«Boletim Commemorativo da Exposição Nacional de 1908», dizia:

«Em relação á naturalidade, é extraordinario o predominio do elemento

nacional do Brasil. Em 1872, o numero de estrangeiros era de 383.546

para 9.728.515 brasileiros; em 1890 o total dos estrangeiros era de

351.545 para 13.982.370 brasileiros; em 1900 a cifra dos estrangeiros

attingia a 1.240.264 para 16.078.292 brasileiros.»

III

O SUPPOSTO PERIGO

Onde existe o perigo da desnacionalização?

Diz o sr. Consiglieri Pedroso, no seu 7.^o considerando, que «o Brasil

corre o risco de se ir desnacionalizando pouco a pouco pela introducção,

cada vez em mais larga escala, de elementos de immigração estranhos ao

seu caracter historico e até antipathicos á sua idiosyncrasia

ethnica--provaveis causadores de futuras perturbações e de inevitaveis

perigos para a União».

A immigração não portuguesa--eis em que consiste o perigo, no dizer do

eminente professor. Ora, a verdade, falada pelos numeros, póde ser sem

brilho, mas é irrecusavel.

Em todo o periodo que vae de 1820 até 1907, diz-nos a estatistica

(_Bulhões Carvalho_, trabalho citado) que, nos portos do Brasil,

entraram 1.213.167 italianos, 634.585 portugueses, 288.646 hespanhoes,

93.075 allemães, 56.892 austriacos, 54.593 russos, 19.269 franceses,

11.731 turco-arabes, 11.068 ingleses, 9.086 suissos, 3.780 suécos, 11

belgas e 165.590 de outras nacionalidades.

Ao todo entraram 2.561.482 immigrantes. Tirando os portugueses, temos

1.926.897 immigrantes, não sabemos se todos «estranhos ao caracter

historico e antipathicos á idiosyncrasia ethnica» do Brasil.

É claro que não constituiu a sua superioridade numerica causa de

perturbações nem de perigos para a nação... Esses elementos encontraram

na sociedade organizada o meio propicio á adaptação. Foram assimilados.

E, como a emigração não representa a cultura, porque é recrutada entre

as classes mais desprotegidas dos paizes europeus, essas ondas humanas

foram fecundar as terras de Santa Cruz e lá puderam proporcionar á sua

próle o bem-estar, a instrucção e a educação que, deste lado do

Atlantico, ella desconheceria; mas não lhe modificaram a cultura: quando

muito, integraram-se nella.

Desses immigrantes ficaram os nomes. Os cruzamentos, o ambiente e a

evolução peculiar da sociedade nova em que foram incorporados, formaram

um typo nacional, em que predominam as caracteristicas portuguesas, mas

que, sob alguns aspectos, tende a differenciar-se do nosso.

Por que se deu esse predominio? Pelo facto politico-social da posse e da

soberania, em primeiro logar; depois pela acção eugenica dos portugueses

sobre os elementos indigenas e africanos; e, finalmente, pela

continuação d'essa influencia na descendencia mestiça. Quando, ha

oitenta e tantos annos se iniciou a corrente immigratoria não portuguesa

para o Brasil, já lá havia uma consideravel população com a nossa

cultura, com as nossas tradições e com as nossas instituições.

Era a nossa raça? O brasileiro era o luso? Sylvio Romero nega que o

fosse. Acha que a historia do Brasil não é a «historia exclusiva dos

portugueses na America», nem a dos tupys, nem a dos negros. «É, antes, a

historia de um typo novo.»

Esse typo novo não podia deixar de ter com o português--elemento

superior da sua formação inicial--affinidades mais intimas do que com

qualquer outra nacionalidade. Os destinos de um povo dependem dos seus

elementos ethnicos superiores. Assim foi que, dada a implantação da

civilização européa na America, as nações, que vieram a constituir-se

n'esse continente, se tiveram de modelar e pautar pelas de que

promanavam, reproduzindo, além da medida exacta do sangue, as qualidades

essenciaes das raças originarias superiores.

É sob este ponto de vista que o brasileiro é o português da America,

onde o Canadá ainda representa o francês e o inglês, o americano do

norte prolonga a modalidade britanica, e os demais povos conservam

inconfundiveis traços do hespanhol.

Limitando-nos ao caso que nos respeita, quer isto dizer que o brasileiro

se encontra apparelhado pela consciencia nacional e pelas energias de

ordem legal, moral e material, que dão realidade aos gremios nacionaes,

para proseguir na sua marcha evolutiva independente, apezar de quaesquer

nucleos extra-lusitanos que para o Brasil emigrem.

Os factos corroboram a nulla acção desnacionalizadora dos immigrantes

não portugueses. De 1824 a 1859, anno em que os allemães deixaram de ir

para o Brasil em virtude do rescripto famoso do ministro prussiano Van

der Heydt, esses colonos, espalhados pelas provincias do sul, não

logravam attingir a cifra de 30.000. A Allemanha, reconhecendo que

cresciam extraordinariamente, apezar de prohibida a emigração, as

populações germanicas no sul do Brasil, procurou conserval-as unidas á

_Vaterland_ por meio do ensino: creou escolas e na lingua tinha um

vinculo precioso e poderosissimo. São conhecidos por _teutos_ esses

brasileiros, que, se puderam ser motivo de preoccupações, deixaram de o

ser desde que, á escola e á lingua allemans se oppuzeram a escola

brasileira e a nossa lingua.

Quinhentos mil _teutos_, muito prolificos, em incessante incremento,

constituirão esse perigo? Ou serão os quasi cem mil que, nesse total,

conservam a nacionalidade alleman? Ou serão esses, mais os dois milhões

e meio de italianos e filhos de italianos e mais outro milhão de pessoas

de outras linguas?

Quatro milhões dos seus dezoito a vinte milhões de habitantes não podem

desnacionalizar o Brasil.

E ai de nós se o pudessem fazer! Que remedio lhe poderiamos dar com os

nossos seis milhões de habitantes, em que só não são analphabetos

1.200.000, quando esses paizes para lá mandam gente muito menos

ignorante?

O perigo da desnacionalização não existe realmente. A actual população

possue capacidades triumphantes de resistencia á invasão exotica.

Quem o reconhece não somos nós, são os proprios allemães e italianos. A

illusão desfez-se. O _Deutschthum_ falliu na sua execução sul-americana.

A _Nova Italia_ foi fantasia logo batida pela realidade. E, como,

afinal, á falta de melhor, basta, a quem faz negocios, não os perder, a

politica dos povos emigrantistas, isto é, dos que precisam ir conquistar

a terras novas o pão que as velhas lhes negam, transformou-se; e em

novas aspirações praticas passou a traduzir-se.

Diz o allemão dr. Robert Jannassh:

«O immigrante que aqui vive e trabalha, tem de se tornar brasileiro,

deve aprender a lingua do paiz, esforçando-se por se exprimir n'ella tão

bem como em seu proprio idioma, sem o que não poderá tomar parte na vida

publica em beneficio da collectividade.»

Diz o professor Siever, da Universidade de Giessen:

«Se o imperio allemão quer recuperar a sua antiga preponderancia no

concerto das potencias, procure adquirir, na America do Sul, real

influencia; mas não sob a forma de annexações e sim na base de relações

commerciaes, industriaes e pecuniarias...»

O professor Vincenzo Grossi, da Universidade de Roma, aconselha

egualmente que os emigrados adoptem a lingua e a nacionalidade dos

paizes em que se installam.

O remedio, está-o applicando a Republica dos Estados Unidos do Brasil: é

a escola, é a legislação tendente á absorpção do estrangeiro.

Assim prevenido, o Brasil ha de receber, sem risco algum, as enormes

lévas de trabalhadores, que o seu progresso material e a sua missão no

equilibrio sul-americano reclamam e que Portugal, já com escassas

energias no ponto de vista demographico, não lhe póde offerecer.

IV

OS ESTRANGEIROS NO BRASIL

Chegou a haver no Brasil uma forte corrente de opinião contraria á

immigração italiana e alleman. Não ha negal-o; mas a verdade é que essa

corrente deixava de encarar o problema tal qual era na verdade, para vêr

unicamente um facto apparentemente grave para a existencia nacional,

qual era a formação de poderosos nucleos de lingua italiana e alleman

nos Estados do sul da Republica.

Esses nucleos não encontravam meio favoravel á conservação das suas

nacionalidades de origem. É certo que para onde convergiam os italianos,

como em S. Paulo, acorriam outros italianos, da mesma fórma que os

allemães se congregavam no Rio Grande do Sul, Santa Catharina e Paraná.

Era tal a força das affinidades nacionaes que em algumas regiões 80 a

95% da população era _teutonica_; e, como era natural, os _teutos_, por

lá, eram os que tinham de desempenhar todas as funcções publicas e de

exercer todas as fórmas da actividade segundo as tendencias da sua raça

e de accordo com as conquistas da propria civilização. Mas a verdade dos

factos é que esses agglomerados ethnicos perdiam o espirito nacional á

maneira que os filhos entravam na vida brasileira e á medida que a

prosperidade no novo _habitat_ os prendia á terra de adopção.

E adopção dizemos porque, de facto, os estrangeiros idos para o Brasil

até 1890--anno em que, com a autonomia aos estados dada pela Republica,

entrou a crescer de modo consideravel a immigraçao[3]--eram absorvidos,

incorporados na massa nacional.

Affirma-o a estatistica. O censo de 1890 accusa, com effeito, 351.545

estrangeiros para 13.982.370 brasileiros. Quer isto dizer: 1.^o que os

filhos de immigrantes tinham adoptado a nacionalidade brasileira; 2.^o

que a propria gente exotica, em grande parte, tinha acceitado a

naturalização tacita, porquanto só nos annos de 1880 a 1889, a entrada

no Brasil--de todas as origens--tinha passado de 300.000 estrangeiros.

É, porém, verdade que alguns homens, aliás eminentes, do Brasil tiveram

receio dos grandes grupos de população de lingua estranha. Desse facto,

nem sempre apreciado com justeza de criterio, resultou a noção de um

_perigo allemão_ e de um _perigo italiano_, que, se existiram algum dia,

foi pela possibilidade de conflictos internos de gentes de culturas

divergentes em fusão, e não pela ameaça de desviar a nacionalidade dos

seus destinos resultantes de tendencias acima de tudo definidas pela

lingua.

A Republica, ao ser proclamada, encontrou-se deante de «sérios

problemas», neste terreno melindrosissimo. Falava-se no espirito

monarchico dos _teutos_; dizia-se que, a um aceno de Silveira Martins,

se ergueriam dezenas de milhares de _teutos_; havia quem acreditasse--na

Europa principalmente!--que o Brasil se ia dividir em tres estados: ao

norte, a Amazonia; ao centro uma nação em que viriam a preponderar os

italianos; ao sul, uma nova Allemanha, que, lá para 1999, devia ter 30 a

35 milhões de habitantes...

Andou isto pela imprensa francesa, inglesa e alleman, que, sobre um

artigo do _Tempo_,[4] de Lisboa, bordou longas e arbitrarias

considerações historicas e ethnologicas e se perdeu em estopantes

dissertações de direiro.

Os «sérios problemas» existiam, em todo o caso. Era preciso introduzir

trabalhadores no Brasil! Esse é que era o maximo problema. Faltavam os

braços á lavoura. Aonde ir buscal-os, senão aos paizes que os podiam

fornecer em maior abundancia? Aonde, senão aos paizes de lingua

estranha, já que Portugal só lhe dera 24.000 colonos em 1888 e 28.000 em

1889? Aonde, se, apesar de todos os esforços, o estado de S. Paulo só

conseguiu, de 1890 a 1904 exclusivé, pouco mais de 36.000 portugueses

contra 190.000 italianos?

A immigracão subsidiada pelo Estado obedecia a uma imperiosa necessidade

economica. Tinha de ser feita, com as raças que offerecessem mais braços

disponiveis. Mas, se já na epoca das fracas lévas exoticas se falára em

«perigos», que não seria depois de abolida a escravidão, depois de

mudado o regimen politico?...

Mais do que nunca havia que cercar a nacionalidade de meios de defeza.

Foi por isso que o governo provisorio tratou, logo nos seus primeiros

dias, de decretar a grande naturalização. O decreto de 15 de dezembro de

1889, que deu a nacionalidade a todos os estrangeiros que, estando no

Brasil em 15 de novembro, a quizessem, teve alcance muito maior do que

se imagina, embora os protestos de Portugal, Hespanha, Inglaterra e

Hollanda contra a lei tivessem attenuado, de certo modo, a sua

efficacia.

No debate deste assumpto, no seio do governo provisorio, propondo que se

mantivesse a lei, dizia Quintino Bocayuva, ministro das relações

exteriores, que «a par da energia» que devia manter o governo para com

as nações estrangeiras, «devia tambem usar de certa delicadeza» porque o

Brasil «_dependia do problema, maximo da immigração_».[5]

Observou-se a delicadeza. Manteve-se a lei. Os resultados de tal

politica estão no censo de 1890, como já vimos; mas vinha de longe esse

esforço. O partido republicano, tantas vezes accusado, depois do novo

regimen, de hostilizar o estrangeiro, sempre advogára as mais liberaes

medidas para a naturalização. E essa pretensa hostilidade sómente

significava justificado espirito nacionalista.

Já em 1881, ao dirigir-se aos eleitores de S. Paulo, o grande cidadão,

que se chamou Francisco Rangel Pestana, dizia (_Programma dos

Candidatos_) que o seu partido tinha, no seu manifesto de 1880, tomado

nessa materia um compromisso solemne, que impunha «uma reforma na

legislação de modo a ser facilitado ao estrangeiro domiciliado no Brasil

o meio de entrar, _sem vexame e com o conhecimento exacto das

necessidades do paiz_, na communhão social» brasileira.

E, depois de criticar a legislação então vigente na materia e de mostrar

as necessidades que havia para o bom exito da medida, dizia:

«Nem especialmente em relação ao augmento da corrente de immigração, nem

em relação ao progresso moral e material do paiz, a propaganda em favor

da naturalização trará resultado seguro e vantajoso, se outras reformas

não vierem mudar _este estado de coisas que entristece os bons

pensadores de todos os partidos_.»

Entendia Rangel Pestana que o estrangeiro não procuraria adoptar a nova

patria se não reconhecesse que havia nella «garantias para os seus

direitos civis e mesmo para os politicos».

A Republica não faltou aos seus compromissos.

V

O POVOAMENTO E A NACIONALIDADE

Os systemas geralmente adoptados para a acquisição de braços foram todos

experimentados no Brasil. Desde a immigração subsidiada ás multiplas

formas de colonização, não houve processo que, em maior ou menor escala,

deixasse de ser ensaiado.

Tratava-se realmente do problema maximo. Os elementos naturaes não

bastam, as riquezas de todos os generos e os mais vastos territorios de

nada servem quando falta a população. É o homem que fecunda e valoriza

tudo.

Escrevia, em 1901, o Dr. Luiz Pereira Barretto:[6]

«Variedade de climas; numerosos e volumosos cursos de agua irradiando de

um admiravel planalto central que convida a humanidade futura a alli vir

derramar 400 milhões de habitantes; exuberantes florestas; uma flora e

uma fauna de suprema belleza; riqueza de sólo; immensas jazidas de

mineraes de toda a sorte: 1.200 léguas de costa; portos abundantes e

tocando ao ápice da perfeição ideal como largueza, segurança e elegancia

e attingindo alguns a proporções colossaes; tudo, tudo possuimos na mais

vasta escala.

Não seremos capazes de fazer valer tantos e tão excepcionaes recursos?»

O Brasil, para fazer valer os seus recursos, em verdade excepcionaes,

precisou sempre, precisa hoje, e precisará amanhan de augmentar a sua

população, cujo crescimento vegetativo é insignificante para o seu

territorio, com gente das regiões em que a lucta pela vida é mais dura.

A immigração é o processo de crescimento que se lhe impõe.

Foi, com esse intuito que o estado subsidiou a introducção de

trabalhadores, fez as concessões dos burgos agricolas, creou os nucleos

coloniaes, e, por fim, organizou um vasto e completo systema de

povoamento do sólo.

A experiencia ensinou que era indispensavel preparar o meio para

attrahir e prender o estrangeiro. A esta orientação obedeceram recentes

medidas governativas, de entre as quaes podemos destacar:

as leis que declararam privilegiadas as dividas provenientes de salarios

de operarios agricolas (janeiro de 1904, dezembro de 1906 e março de

1907);

a organização do serviço de Propaganda e Expansão Economica do Brasil no

Estrangeiro (outubro de 1907);

a regulamentação do serviço de povoamento do sólo (leis de 30 de

dezembro de 1906 e 19 de abril de 1907);

as instrucções para a fundação de nucleos coloniaes e localização de

immigrantes por conta da União (portaria de 21 de dezembro de 1907);

o decreto de 5 de janeiro de 1907, que creou os syndicatos e as

cooperativas--instituições correntes em alguns paizes emigrantistas.

As vantagens e garantias constantes de todas estas medidas são obvias;

todavia ha que lêr o regulamento do serviço de povoamento para

comprehender o espirito que guiou, nesta materia, o governo brasileiro.

É preciso fixar muita gente: por isso, «a União promove o povoamento,

mediante accordo com os Estados, emprezas de viação ferrea e fluvial,

companhias ou associações e particulares» (Art.^o 1.^o); os immigrantes,

cuja moralidade e cuja saude são fiscalizadas (art. 2.^o), constituem

nucleos em lotes de terras escolhidas, em bôas condições de salubridade

e com transporte facil e installam-se nos nucleos como proprietarios

(art.^o 5.^o), e só excepcionalmente (art.^o 4.^o)--porque é preciso

admittir as surprezas de uma exploração que se inicía--os immigrantes

poderão ser introduzidos sem acquisição de terras; pelo Estado ou pelas

emprezas serão fornecidas gratuitamente, aos immigrantes, ferramentas e

sementes (art.^o 7.^o, alinea V); os lotes em regra terão casa para a

familia do immigrante e terreno preparado para as primeiras culturas

(art.^o 21.^o); os lotes serão vendidos a prazo ou á vista; os

adquirentes dos lotes terão (art.^o 36.^o), durante os seis primeiros

mezes, o auxilio indispensavel á sua manutenção e á da sua familia;

terão, durante um anno, pelo menos, (art.^o 27.^o), serviços medicos e

pharmaceuticos; se o adquirente morrer, depois de pagar tres prestações,

(art.^o 43.^o) serão dispensadas as outras em favor da viuva e dos

orphãos; o Estado (art.^o 96.^o) restituirá aos immigrantes espontaneos,

que fôrem agricultores, a importancia das passagens do porto de embarque

ao de destino, dar-lhes-ha (art.^o 97.^o) desembarque, agasalho,

alimentação, medico e remedios até seguirem para o seu destino, com

transporte gratuito; será concedida repatriação a viuvas, orphãos e

inutilizados por doença ou accidente, os quaes (art.^o 131.^o) poderão

vender os seus lotes; aos melhores immigrantes com mais de tres e menos

de seis annos de posse dos lotes serão concedidos (art.^o 132.^o)

premios de viagem ao seu paiz do origem.

Basta este insignificante extracto para se avaliar o intelligente

esforço que o Brasil faz para fixar o estrangeiro.

Bem dizia o ministro Calmon, no seu relatorio de 1908, que esse

regulamento revelava «a preoccupação de assegurar ao immigrante

elementos de feliz exito e garantias de bem-estar e liberdade». E,

justificando as medidas que resumimos, ponderava que a «suprema ambição

do proletario que se expatria é tornar-se proprietario.»

Introduzir immigrantes não é, porém, o unico fim da lei a que nos

estamos referindo: tem ainda em mira _povoar_ o Brasil, isto é, preparar

novas forças de crescimento vegetativo; e não deixa de attender á

questão da nacionalidade. Como? É o que vamos vêr resumindo outros

dispositivos da lei.

O art.^o 19.^o manda reservar, em cada nucleo, lotes para grupos

escolares.

O art.^o 44.^o estabelece aulas de ensino primario gratuito; o art.^o

57.^o manda applicar o art.^o 44 aos nucleos fundados pelos governos dos

estados; o art.^o 57.^o impõe essas obrigações ás emprezas de viação, as

quaes têm de promover o povoamento das terras marginaes ou proximas das

suas linhas.

Temos, pois, o ensino da lingua portuguesa, como meio de nacionalização,

aliás adoptado, de ha muito, em todas as regiões onde se agglomeram

massas de immigrantes. Onde se abriu uma escola estrangeira, não raro em

um pardieiro, surgiu sempre um edificio lindo, com bellos jardins, para

a escola nacional.

Mas ha outras providencias com o mesmo intuito nacionalizador. Assim, os

lotes são vendidos a prazo só aos immigrantes com familia, os quaes

podem adquirir segundos lotes contiguos aos primeiros (art.^os 26.^o,

27.^o e 28.^o).

Ao immigrante estrangeiro que contrahir casamento com brasileira ou

filha de brasileiro nato, ou ao agricultor nacional que se casar com

estrangeira aportada ha menos de dois annos como immigrante, será

concedido (art.^o 29.^o) um lote de terra com titulo provisorio, que se

substituirá por outro definitivo de propriedade, _sem onus algum para o

casal_, se este tiver durante o primeiro anno, a contar da data do

titulo provisorio, convivido em boa harmonia.

E se, após o casamento, quizer adquirir um lote a titulo definitivo

(art.^o 30.^o) ser-lhe ha feita a venda por metade do preço estipulado.

Em todos os nucleos (art.^{os} 46.^o e 53.^o) serão dados 10% dos lotes

a nacionaes. Sempre que n'um nucleo houver 300 lotes de estrangeiros

será organizada (art.^o 46.^o) uma secção de lotes para agricultores

nacionaes. O mesmo poderão fazer as emprezas contractantes de

colonização (art.^o 78.^o). E sempre que «a necessidade publica o exigir

e o Estado interessado não os pudér organizar, a União fundará nucleos

coloniaes destinados exclusivamente a agricultores nacionaes.

Julgamos que estas disposições legaes falam com sufficiente eloquencia.

Ainda ha outras precauções com identico fim.

A constituição, que só véda ao naturalizado a presidencia da Republica,

estatue que a navegação de cabotagem tem de ser nacional (art.^o 13.^o §

unico).

A recente lei das successsões é de intuitos nacionalistas.

As relações luso-brasileiras a immigração e a «desnacionalização» do Brasil · 第 1 / 6 段