249 _Tejo._ Entre Escritores Gregos, e Latinos foy sempre muy celebrado
o Tejo, e por isto alguns lhes daõ a primazia entre os mais rios do
Reino. Nasce nas serras de Molina junto da Cidade de Cuenca: outros o
fazem natural de Mancha de Aragaõ: outros das serras de Albarracin; e
discorrendo pelo Reino de Castella a nova, e Provincia da Estremadura
Castelhana, rega os povos de Zurita, Aranjuez, Toledo, Talavera de la
Reyna, Almaraz, e Alcantara, em cujo progresso recebe as correntes
de muitos rios, principalmente o Henares, Xarrama, Mançanares, e
Guadarrama; e com cento e vinte leguas de jornada vem por Santarem
descançar em Lisboa, fazendo na melhor Cidade o melhor porto de mundo:
e se a vulgar fama dos antigos, que lhe attribuia areas de ouro,[255]
nos serve sómente hoje de admiraçaõ, e naõ de experiencia, fica
semelhante falta bem supprida com os avanços das copiosas riquezas, que
todos os annos lhe estaõ entrando pela sua famosa barra nas opulentas
frotas do Brasil.
250 E quando nem isso fora, bastava para estimaçaõ, e riqueza encerrar
em si o preciosissimo thesouro do glorioso corpo de Santa Iria,
sepultado debaixo de suas aguas defronte de Santarem. Duas vezes foy
visto milagrosamente: a primeira, quando o tio da Santa, chamado
Celio, com a mayor parte do povo de Nabancia, assim Ecclesiasticos,
como seculares, o foraõ ver por permissaõ de Deos, fazendo com que se
separassem as aguas, e Celio chegou a abrir o sepulchro, e tirar da
Santa parte de seus cabellos, e pedaços da tunica: a segunda no anno
1324 pela Rainha Santa Isabel, e ElRey D. Diniz, em cuja occasiaõ se
abriraõ tambem as aguas para dar passagem à Santa Rainha, e tempo a se
fazer hum padraõ de pedra, que indica o sitio do sepulchro,[256] que o
Senado de Santarem mandou aperfeiçoar no anno de 1644. Do Tejo escrevem
os Authores abaixo allegados.[257]
251 _Temitólas._ Nasce em Lumiares, e pela Villa de Armamar se vay
direito ao Douro.
252 _Tera._ Tem seu nascimento na serra d’Ossa naquella parte, que olha
para Estremoz, e corre junto da Villa de Pavía: tem ponte, por onde se
vay para Aviz, e paga seu tributo ao Guadiana.
253 _Terena._ Esta ribeira he a mesma que a Lucefece: dá nome a huma
Villa, e mete-se no Guadiana.
254 _Tinhella._ Nas serras de Carrezedo de Monte-Negro, termo da Villa
de Chaves, tem este rio o seu berço. Fertiliza a Villa de Murça de
Panoya, e depois de caminhar oito leguas vay desaguar no Tua.
255 _Tourões._ Esta ribeira nasce perto do Lugar de S. Pedro do Rio
Seco, termo da Villa de Almeida; e vindo separando o Reino de Leaõ,
entra no Agueda abaixo de Escarigo.
256 _Trancaõ._ He huma ribeira no termo de Lisboa, que passando pelo
Milharado, Sapataria, e Bussellas, vem regar, e fertilizar a grande
quinta dos Conegos Regulares de S. Vicente acima do Tojal, entrando-lhe
pelo meyo della; e correndo por penedias furioso no tempo de Inverno
vay buscar Unhos para morrer no Tejo; fazendo primeiro trabalhar muitas
azenhas, e lagares com as suas correntes precipitadas.