179 _Nabaõ_, antigamente chamado _Nava de Juncoso_.[244] Corre este
venturoso rio pela Villa de Thomar; e damos-lhe o nome de venturoso,
naõ só porque deu fama, e nome à insigne Cidade de Nabancia,
que esteve aqui fundada, e foy regada com suas aguas, mas porque
ellas tiveraõ a fagrada prerogativa de conduzirem até Santarem o
bemaventurado corpo da gloriosa Santa Iria, que junto dellas martyrizou
o cruel Banaõ por ordem de Britaldo, filho do Governador de Nabancia;
donde Fr. Joaõ Felix disse:[245]
_Præcipitat Naban, Irenes Virginis olim,
Qui sacra mærenti corpora vexit aqua._
Nasce elle na fonte do Agroal junto da foz da ribeira das Pias; e
entrando com arrogancia pela Villa dentro de Thomar, e pela ponte da
Granja, sahe por outra, que fica para o Sul, chamada das Ferrarias; e
engrossado com outros riachos, se occulta no Zezere para entrarem ambos
no Tejo junto à Villa de Punhete.
180 _Neiva._ Este rio sahe das montanhas de Avoim, e vem fertilizando
os campos da Ponte da Barca, e Ponte de Lima; e depois de se sujeitar
a quatro pontes, entra no mar Oceano pela foz, que naõ dista muito de
Viana. Duarte Nunes diz,[246] que este rio se mete no Cávado, para
ambos entrarem no mar entre Faõ, e Esposende; porém outros[247] emendaõ
esta equivocaçaõ com a noticia mais certa, que temos expendido; porque
as duas povoações de Faõ, e Esposende ficaõ para a parte do Norte muito
mais adiante, donde o rio desemboca.
181 _Niza._ Cerca por hum lado a Villa de seu nome, e nasce na serra de
Portalegre.
182 _Noeime._ Nasce junto da Guarda com dous braços: hum delles na
fonte Dorna, que corre ao Poente, vira para o Norte, e depois continúa
ao Nascente; o outro principia no Lugar de Porcas pela parte do Sul, e
se mete no rio Coa por baixo da Miuzella: he a informaçaõ, que nos dá
Joaõ Salgado de Araujo pag. 108.
183 _Obidos._ No termo desta Villa está a celebre lagoa, que tem de
Norte a Sul huma legua de comprido, de Nascente a Poente tres quartos
de legua, desorte que faz a fórma de numa Cruz com os braços de mar que
humas vezes se lhe communica, e outras naõ. Serve de pé a esta Cruz a
barra a que chamaõ Foz, a qual com os ventos Nortes se entupe tanto de
area, que divide o mar da mesma lagoa. Nella entraõ tres rios, dous
pelo Sul, e hum pelo Nascente: os dous saõ os que passaõ pelo arrabalde
de Obidos, e pelo lugar da Amoreira, onde chamaõ Aboboriz: o terceiro
vem das Caldas.
184 Quando esta lagoa está communicavel com o mar, he fertil de toda
a qualidade de peixe; pescando-se nella muitas douradas, robalos,
solhos, tainhas, safios; e até excellente marisco, de ostras, amejoas,
berbigões, e admiraveis camarões; de cuja fertilidade se utilisaõ as
duas Villas de Obidos, e Caldas, e mais terras circumvisinhas; tomando
todos o deleitavel divertimento de fazerem alli repetidos lanços; e
juntando-se às vezes na lagoa mais de vinte bateiras para esse effeito.
185 No sitio a que chamaõ da Cabana, memoravel naõ só pela Ermida da
Senhora do Bom Successo, de muita devoçaõ; mas pelo ameno, e delicioso
do lugar povoado de grande arvoredo, o Senhor Rey D. Joaõ IV. teve o
gosto de jantar alli, como consta de hum padraõ aberto em lamina de
pedra, que diz: _O Serenissimo, e feliz Restaurador deste Reino ElRey
D. Joaõ IV. jantou nesta Cabana: a 14 de Setembro de 1645 foy feita._
Em outro padraõ está outro letreiro, que diz assim: _O Magnanimo
Monarca D. Joaõ V., e os Serenissimos Infantes D. Antonio, e D. Manoel
jantaraõ nesta Cabana aos 14 de Abril de 1714._
186 Acha-se no meyo deste bosque huma mesa de pedra lavrada,
simplesmente inteiriça, que tem duas varas e meya de comprido, e vara
meya de largo: por ambos os lados ha dous bancos tambem de pedra do
mesmo comprimento, e nas cabeceiras outros dous. Defronte da mesa
corre huma fonte de cinco bicas de agua perenne, que faz o lugar mais
aprazivel. Aqui se divertiraõ na caça dos galeirões, e ades em Outubro
de 1761 o Fidelissimo D. Joseph I. com a Rainha Nossa Senhora, o
Serenissimo Infante D. Pedro, a Serenissima Princeza, e mais Pessoas
Reaes com a mayor parte da Corte.