153 _Lavandeiras._ Corre pela Villa de Moura, e faz hum profundo fosso
a hum dos seus baluartes, a que dá nome, e se mete no Ardila para ir
desembocar no Guadiana.
154 _Leça._ Principia doze leguas acima da foz do Douro. Outros lhe
descobrem a origem no monte Corva, e concordaõ em que elle depois
de discorrer pelo termo da Cidade do Porto, se vay lançar no mar em
Matozinhos, fazendo apraziveis os campos, por onde passa. Deste rio
tomou nome o Mosteiro de Leça, da Ordem de S. Joaõ de Malta, e foy
muy celebrado na lyra do insigne Sá de Miranda. Ha nelle tres pontes
de pedra boas, e grandes, em Matozinhos, no Mosteiro de Leça, e em
Alfena. Alguns Authores equivocaõ este rio com o Celando, especialmente
Manoel de Faria, e ainda com o Lethes, chegando a dizer naõ só na
Europa Portugueza tom. 3. p. 3. cap. 7. mas na Fonte de Aganippe part.
2. Poema 8.
_El Leça, que por hondo, y fresco valle
Corriendo con sociego grave, y blando
Occupa, angosta, y tortuosa calle
Con los nombres de Lethes, y Celando;
Pero si del olvido se appellida,
Quien una vez le vê, já mas le olvida._
Equivocaçaõ, em que tambem cahio Resende, como bem notaõ Joaõ Salgado
de Araujo, e o incansavel Academico D. Jeronymo Contador de Argote na
Geografia de Braga.
155 _Lena._ Nasce perto da Villa de Porto de Mós, e caminhando até
Leiria, se incorpora com o Lis, e ambos se vaõ esconder no Oceano.
156 _Lima._ He rio de grande fama. Nasce nas Asturias, conforme
Estrabo, vem por Galiza passar a Portugal pela ponte da Barca, e Ponte
de Lima até ir fazer foz propria em Viana. Pescaõ-se nelle, além de
outros peixes, os grandes salmões, e solhos. Fr. Bernardo de Brito[234]
deduz o nome deste rio da terra, onde nasce, que he _Limia_ em Galiza,
a qual se chama assim por causa dos muitos lamarões, e lagoas, que tem,
chamadas em Grego _Lymnas_, e em Latim _Lymum_, donde se derivou _Lima_
em Portuguez.
153 Pomponio Mella, e Hermoláo Barbaro dizem, que se chamou _Belion_ e
depois _Lethes_. Assim cantou o mellifluo Bernardes na Eglog. 7.
_Junto do Lima claro, e fresco rio,
Que Lethes se chamou antigamente._
A causa deste nome _Lethes_, que significa esquecimento, foy pela
sabida desavença, que entre si tiveraõ os Celtas, e os Turdulos nas
passagens das suas margens, chegando a alterarse em fórma, que mataraõ
seu General, de cujo delicto envergonhada a gente, determinaraõ logo
ausentarse, impondo ao rio hum nome de esquecimento, para que ficasse
desvanecida, e sepultada a memoria de semelhante insulto.
158 Assim permaneceo este nome expressivo do successo, e proprio ao
idioma dos Turdulos. Vieraõ depois os Gregos, e os Latinos, e perdida
já a noticia do vocabulo, mas naõ do acontecimento, que por tradiçaõ
perseverava, se contentaraõ de lhe chamar rio _Lethes_. De tudo vimos
a concluir contra a persuasaõ vulgar, que ainda que o nosso rio _Lima_
fosse em algum tempo chamado _Lethes_, nem por isso tem dependencia com
o Lethes fabuloso dos antigos, de que fallaõ os Authores abaixo;[235]
porque este nome _Lethes_ se acha imposto a outros rios illustres,
como diz Claudiano:[236] e todos os rios, que tem adquirido semelhante
nome, he porque houve nelles motivos, ainda que incognitos, de especial
esquecimento, e taes saõ os que sinala Estrabo[237] em Macedonia, e em
Candia, sem que por este principio haja dependencia, que faça perverter
o certo com o fabuloso.
159 Porém se nos argumentarem com o caso dos Romanos referido por Lucio
Floro,[238] que chegando às prayas deste rio, repugnaraõ atravessallo,
crendo que se esqueceriaõ das suas patrias, porque estavaõ persuadidos
era elle o verdadeiro _Lethes_; respondemos, que este conceito era
futil, e aerio; pois Junio Bruto, Proconsul, que os governava, para
lhes offuscar o panico terror, que os surprendia, passou-se da outra
parte do Lima, e de lá recitou muitas cousas particulares de Roma,
para que vissem ser falso que aquelle rio fazia esquecer, pois elle
atravessando-o, se lembrara do seu Paiz, e dos successos anteriores:
e como adverte Adaõ Ruperto, commentando Lucio Floro, toda aquella
repugnancia dos Soldados nasceo da infamia do nome, que lhes offerecia
o rio, e naõ de causa, que nelle houvesse para produzir o esquecimento;
no que tambem se conforma Isacio Vossio, commentando a Mella pag. 229.
contra cujo parecer, mas sem fundamento, está o famoso Caramuel, que no
Prologo do seu _Filippe Prudente_, fallando do Lima, attribue às suas
aguas serem nocivas à memoria, e que daqui se occasionara a fabula. O
certo he, que este rio corre com tal brandura, que naõ só parece que
corre esquecido de correr, mas que faz esquecer os olhos, que o vem, de
que o vissem correr alguma hora, como galantemente disse D. Francisco
Manoel em huma das suas cartas, e o imitou nosso insigne Botelho, e o
Padre Reys.[239]