_Memorias de algumas Povoações, que existiraõ em Portuga1, as quaes ou
se mudaraõ em outras, ou totalmente se extinguiraõ._
1 Esta respeitosa noticia, a que Plinio[21] dá o titulo de sagrada,
he conveniente saberse, naõ só para se conferir melhor o moderno com
o antigo, mas para se conhecer a excellencia dos lugares, a honra
que tiveraõ, a situaçaõ em que existiraõ, que tudo assás contribue
para a verdadeira Geografia, e Historia do Reino. He bem verdade, que
a antiguidade dos tempos, e a incuria dos homens fez perder muitas
memorias, que nos podiaõ servir de muito; e outros as involveraõ
em fabulas, que naõ nos servem de nada. Assim que, quanto nos for
possivel, manifestaremos a posiçaõ mais verosimil de alguns lugares
notaveis de Portugal, especialmente do tempo dos Romanos, que os
Vandalos, e Mouros arruinaraõ, demoliraõ, e escureceraõ.
2 _Aguas Celenas_, _Cilinas_, ou _Celanas_. Era povoaçaõ, que esteve
na Provincia do Minho. Lembraõ-se della Ptolomeu,[22] e Antonino em
seu Itinerario no segundo caminho de Braga para Astorga. Dos Geografos
modernos querem huns[23] que fosse onde está hoje o Lugar de _Faõ_,
meya legua acima da barra do rio Cávado da parte do Sul, e onde se
celebrou o famoso Concilio contra os Priscilianistas, em que presidio
S. Toribio em tempo de S. Leaõ Papa. Outros porém[24] o constituem em
Barcellos, persuadidos da semelhança do vocabulo do rio _Celano_, que
por alli passa, chamado hoje _Cávado_; porém estas conjecturas saõ muy
falliveis para estabelecer a Geografia verdadeira. Tenho por mais certo
o sitio que constitue Antonino, que he quatro legoas antes de chegar ao
Padraõ, como bem explica o Padre Mestre Flores na _Espanha sagrada tom.
15. pag. 75_.
3 _Aguas Flavias._ Todos concordaõ na verdadeira situaçaõ desta terra,
que era onde vemos hoje a Villa de _Chaves_.[25] Dizem que tomou este
nome dos banhos, que alli havia, e do Imperador Flavio Vespasiano,
a quem se dedicara huma notavel inscripçaõ. Foy colonia dos Romanos
muy frequentada, e ennobrecida por elles, como larga, e eruditamente
mostra o insigne indagador de antiguidades[26] Lusitanicas, o Reverendo
D. Jeronymo Contador de Argote. Veja-se tambem o Padre Mestre Flores
allegado.
4 _Aguas Layas_, ou _Leenas_. Na Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio
achamos demarcado este lugar com o nome de _Aquæ Leæ Turudorum_ quasi
em 41 gráos de latitude, e 12 de longitude. Alguns[27] querem que
estivessem entre as Villas de _Monçaõ_, e _Valladares_: o que naõ póde
ser pela arrumaçaõ daquelle insigne Geografo. Nosso famoso Argote
persuade-se com razaõ[28] que esta era a Cidade de _Lais_, capital dos
povos Turolicos, e que existira, onde hoje chamaõ a Freguezia de S.
Martinho de _Lanhozo_, termo da Villa de Caminha.
5 _Ambracia._ O Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha[29] diz que esta
Cidade estivera no sitio de _Barcellos_, a qual foy fundaçaõ dos
Gregos. Funda-se na authoridade de Rodrigo Caro,[30] que diz que a
_Ambracia_ em Portugal, onde foy martyrizado Santo Epitecto, estava
em hum lugar perto de Braga. Porém o Author do Agiologio Lusitano,
seguindo a Sandoval, naõ assente a isso,[31] porque diz que he
Placencia. Finalmente Joaõ Salgado de Araujo no _liv. 1. dos Successos
militares pag. 5. v._ diz que Ambracia estivera em Grecia, onde hoje
chamaõ Larta: o mesmo diz Poyares no _Diccionario Geografico_ com
Cellario na _Geografia antiga l. 2. c. 13. §. 177._
6 _Araduca._ Convem alguns dos Geografos[32] que estivesse esta Cidade
collocada onde hoje vemos a nobre Villa de _Guimarães_. E seguindo esta
opiniaõ Manoel de Faria, fallando da sobredita Villa de Guimarães,
diz:[33]
_Na aldeya d’ Araduca celebrada
Pela rara belleza das pastoras._
O mesmo diz Filippe de la Gandara nas _Armas, e Triunfos de Galiza cap.
17. num. 3._ Porém Gaspar Estaço[34] segue o contrario, e o intenta
provar com a arrumaçaõ, que lhe dá Ptolomeu na altura de 41 gráos,
e 50 minutos, e com 17 leguas e meya da boca do Douro, distancia
muy differente da que tem Guimarães, pois dista da boca do Douro 8
leguas sómente. Fr. Bernardo de Brito[35] diz que o que antigamente
foy _Araduca_, he hoje _Amarante_: e já houve quem disse que era
_Aljubarrota_. Eu pudera dizer muito mais, sobre ser Guimarães a antiga
Araduca, mas por ora basta o que está dito. Vejaõ os curiosos ao Padre
Mestre Flores, Author moderno, _tom. 15. da España sagrada pag. 286_.
7 _Araducta._ Conforme a situaçaõ do Mappa de Abrahaõ Ortelio, parece
ser a _Arouca_, que hoje existe.
8 _Aravor._ O Author da Corografia Portugueza[36] quer que fosse esta
huma Cidade em tempo dos Imperadores Trajano, e Adriano, em cujo sitio
está hoje a Villa de _Marialva_; porém esta noticia só neste Author a
achámos.
9 _Aricio Pretorio_, ou _Ayre_. Desta povoaçaõ se faz memoria no
Itinerario de Antonino Pio na terceira Via militar que hia de Lisboa
para Merida, e se persuadem Resende, e Vasconcellos,[37] que existia
nas ribeiras do Tejo, onde hoje está Benavente; porém como advertio Fr.
Bernardo de Brito, o sitio de Benavente tem algumas particularidades,
que naõ se compadecem com as confrontações do Itinerario de Antonino.
Gaspar Barreirros tem para si[38] que distava huma legua de Coruche,
onde agora está a Villa de _Erra_; porém Jorge Cardoso[39] diz que
estivera esta povoaçaõ duas leguas affastada de Abrantes, onde
chamaõ _Alvéga_, porque neste sitio ha vestigios antigos, que assim
o persuadem. Na Carta Geografica de Ortelio vemos demarcada _Aricio_
entre a Feira, e Arouca; e na altura de _Benavente_, ou _Salvaterra_ se
vê _Aritium Prætorium_, em que parece convir com Resende.
10 _Aroche._ Consta ser esta huma notavel Cidade, sobre cujas ruinas se
levantou depois a Villa de Moura no Alentejo, como eruditamente provaõ
Fr. Manoel de Sá,[40] e Resende com alguns cippos alli descobertos.
11 _Aunona._ O Doutor D. Joaõ Ferreras[41] persuade-se que esta Cidade
estava situada na Provincia do Minho junto ao rio Ave; porém nosso
Argote[42] naõ he desta opiniaõ.
12 _Auranca._ Existio esta povoaçaõ naõ longe do rio Vouga, 9 leguas de
Coimbra, segundo nos informaõ Brandaõ na Monarquia liv. 10. c. 18., e
Jorge Cardoso no Agiologio.[43]
13 _Balsa._ Tem para si o famoso antiquario Resende[44] que estivera
esta Cidade no Algarve, onde agora reside _Tavira_; mas, segundo
Ptolomeu, e Ortelio, parece ser _Castro-marim_. Todavia Christovaõ
Cellario segue a conjectura de Resende;[45] e Gaspar Barreiros em hum
manuscrito diz que he a aldea chamada _Simine_. Porém ou Balsa seja
Castro-marim, ou Tavira, o certo he que no termo de Beja na horta
chamada do Bacello, naõ longe de _Baleizam_, achou no anno de 1742 o
incansavel Padre Fr. Francisco de Oliveira Religioso Dominico, grande
imitador de Resende no descobrimento das antiguidades do nosso Reino,
hum cippo Romano sepulchral de Cayo Blosio Saturnino habitador de Balsa
erecto a sua filha; cuja inscripçaõ vem no _2. tom._ do _Diccionario
Geografico_ do P. Cardoso _a pag. 23._ e na Gazeta de 20 de Setembro de
1742. Donde sem muita violencia se póde conjecturar pela semelhança do
nome, que Balsa estivera no sitio de Baleizam. Naõ me intrometo nesta
antigualha; a qual acabaremos de entender, quando o sobredito Religioso
Fr. Francisco, nosso amigo, divulgar as antiguidades, e grandezas desta
Provincia, de que tem junto grosso cabedal.
14 _Benis._ Por algumas congruencias parece ao laborioso D. Jeronymo
Contador de Argote[46] que era esta huma Cidade Episcopal existente
perto da Villa de Caminha.
15 _Beselga._ Dentro dos termos de Thomar, e Torres-novas existio esta
povoaçaõ com titulo, e grandeza de Cidade. Hoje he hum lugar pobre,
e pequeno, que para memoria lamentavel do que foy, ainda conserva o
appellido em hum monte fronteiro, a que os moradores chamaõ _Monte da
Cividade_. Muitas ruinas antigas se descubriraõ nestes contornos, de
que se prova a sua verdadeira situaçaõ, como se persuade Cardoso.[47]
Fr. Leaõ de Santo Thomás persuade-se que he _Agueda_, huma legua de
Thomar.
16 _Britonia._ Grande controversia ha entre os Geografos sobre a
verdadeira situaçaõ desta Cidade. Que ella foy povoaçaõ florentissima
em tempo dos Suevos, e Godos, e gozou a honra de Cathedral com Bispos
dentro de Hespanha, he infallivel. Os Authores Castelhanos querem que
ella estivesse em Galiza, onde hoje está Oviedo, ou Mondonhedo, de que
os despersuade Jorge Cardoso.[48] Muitos dos nossos insistem,[49] em
que esta Cidade estivera no sitio de _Britiandos_, Abbadia de Ponte
de Lima. O Author da Corografia Portugueza a constitue no Lugar da
Freguezia de S. Martinho de _Birtello_, termo da Villa da Ponte da
Barca.[50] Ultimamente o incançavel, e erudito Padre Argote convem
em que existio junto do rio Lima,[51] fundando-se em mais provaveis
documentos.
17 _Calantia._ Querem que existisse esta povoaçaõ no Alentejo, e no
mesmo terreno de _Arrayolos_, dando-lhe por fundadores os Celtas.[52]
18 _Caldelas._ Na Freguezia da Magdalena, termo de Thomar, existe hum
Lugar com este mesmo nome, de que infere o Author da Corografia[53]
houvera alli antigamente a Cidade _Caldede_. E junto da Ermida de S.
Pedro se descobrem ainda muitas pedrinhas quadradas de varias cores,
que parece serviaõ em Templos, ao modo dos nossos azulejos. Descendo do
sobredito Lugar, apparecem por algumas quebradas pedaços de arcos de
pedra, e canos de metal, por onde lhe vinha agua de longe. Tambem seus
moradores tem achado algumas ferramentas de lavoura, e moedas de cobre,
das quaes confessa Jorge Cardoso[54] conservava huma com a effigie de
Antonino Pio de huma parte, e da outra a figura do rio Tibre.
19 _Caliabria._ Foy huma grande povoaçaõ dos Romanos, que existio na
Comarca de Riba Coa sobre o rio Douro no cimo de hum monte, que dista
huma legoa de Villanova de Foscoa entre o Norte, e Nascente, a cujo
sitio com pouca corrupçaõ seus moradores ainda hoje chamaõ _Calabre_.
As ruinas de suas muralhas daõ claros indicios da sua grandeza, como
bem diz a _Monarquia Lusitana liv. 5. c. 24._
20 _Cambeto._ O doutissimo Padre Argote intenta mostrar[55] que esta
Cidade estava situada onde agora chamaõ S. Salvador de _Cambezes_ no
Couto do Luzio, termo de Monçaõ; porém no mappa da antiga Lusitania,
composto por Abrahaõ Ortelio, a vemos situada com o nome de _Cambetum
Lubenorum_ na altura de 41 gráos de latitude, e 13 de longitude, que
deita mais para a Provincia de Tras os Montes, que do Minho.
21 _Campos Elysios._ Anda introduzida nas Historias de Hespanha a
antiga existencia destes campos constituidos de ameno, e delicioso
temperamento; mas como cada hum os leva para o terreno, que lhe figura
o desejo, he justo que averiguemos isto em beneficio da verdade
com alguma mayor extensaõ. Pertendem os Authores Castelhanos[56]
collocallos huns em Sevilha, outros em Andaluzia, outros em Cordova,
e em diversas outras Provincias. Os nossos Escritores[57] querem huns
que estivessem na Provincia do Minho, outros no Algarve, e outros na
Estremadura nos campos vizinhos de Lisboa, chamados _Lysirias_, como
se dissessemos _Elysirios_ ou _Elysirias_; porém o certo he que naõ
estiveraõ em parte alguma de Hespanha.
22 Dizem mais, que estes campos eraõ cheyos de summa delicia, onde todo
o anno havia perpetua Primavera, e estaçaõ florente, para o qual hiaõ
as almas dos Varões famosos descançar, como em premio de suas proezas.
O primeiro Author que innovou esta fabula, foy Homero,[58] o qual
introduzindo a Ulysses nas prayas do Oceano, lhe encarece a bondade do
clima; porém o sentido daquelle grande Poeta, segundo a mais racionavel
conjectura, foy encubrir com a supposiçaõ dos campos Elysios a noticia,
que aprendeo em os livros de Moysés do sagrado Paraiso.
23 Prova-se com o que diz S. Gregorio Nazianzeno,[59] que os Gregos,
offerecendose-lhes no animo certa especie do nosso Paraiso, o deraõ
a entender (ainda que discrepando alguma cousa em o nome) com outros
vocabulos, tomando-o de Moysés, e dos nossos livros. O mesmo reconheceo
Proclo de Hesiodo, pois ainda que confunde com o commum erro dos demais
Gregos as Ilhas dos Bem-aventurados com os campos Elysios, escreve,[60]
que quando aquelle Poeta nomea as Ilhas dos Bem-aventurados, parece
significar o Paraiso, ou o campo Elysio, chamado assim, porque
conservava indissoluveis os corpos. Christiano Bechmano[61] comprova
o mesmo parecer, convindo em que o Elysio dos Gentios naõ foy outra
cousa, que expressado debaixo de alguma sombra.
24 E pois he constante foy Homero o primeiro, em quem se offerece
celebrada a amena felicidade dos campos Elysios, naõ parece dubitavel
expressar nelle o Paraiso, quando S. Justino Martyr constantemente
assegura[62] tivera noticia delle o tal Poeta: ajuntando-se a isto o
quanto se conforma o aprazivel clima, e deliciosa morada dos campos
Elysios de Homero com o que referem as sagradas Letras teve o Paraiso,
que a nossa vulgata chama do _Deleite_, substituindo assim a voz
_Eden_, que conserva o Hebreo, como adverte S. Jeronymo.[63]
25 Disto se collige, que o animo de Homero naõ foy collocar os campos
Elysios na Hespanha, como julgou Estrabo,[64] a quem seguiraõ os mais,
que os situaõ nella; porém só quiz expressar com este nome o Paraiso
sagrado, de que faz memoria Moysés.[65] A causa porém, que commoveo
ao Poeta para collocar os sobreditos campos no ultimo Oceano, foy por
seguir a opiniaõ dos Orientaes, que affirmavaõ estivera o Paraiso
distante da terra habitada no mesmo Oceano, como seguio Santo Efrem,
conforme allega Moysés Barcepha,[66] e Malvenda.[67] Com esta breve
demonstraçaõ nos parece ficaráõ estes campos fantasticos excluidos
inteiramente das nossas Provincias.
26 _Canace_, ou _Canali_. Conforme diz Rodrigo Caro,[68] foy esta huma
Cidade, que Ptolomeu sitúa no Algarve, e assim a vemos collocada na
carta de Ortelio por cima de Tavira; porém Severim de Faria escreveo ao
Author da Benedictina Lusitana, dizendo-lhe, que a Cidade de _Canace_
estivera no sitio da Serra d’Ossa, onde chamaõ Val de Infante, quatro
leguas affastada de Evora.[69] Hauberto tambem a constitue junto de
Evora, e faz memoria de S. Mauricio Abbade Basiliense, que padecera
aqui martyrio.[70]
27 _Capara_. Padeceo engano Hauberto em dizer que ficava esta Cidade
junto de Evora,[71] porque, segundo a melhor conjectura, foy Cidade
habitada pelos povos Vetones, segundo Ptolomeu; e Ortelio a poem quasi
na latitude de 40 gráos, e 13 de longitude. Hoje fica fóra dos limites
de Portugal, e como diz Argaes,[72] pertence ao Bispado de Placencia.
28 _Carmona._ O Author da Benedictina Lusitana diz,[73] que cinco
leguas de Braga, junto à estrada, que vay para Vianna, duas leguas
pouco mais, ou menos, antes della ao pé de hum monte existira
antigamente huma povoaçaõ grande com o nome de _Carmona_, cujas ruinas,
e vestigios se vaõ de quando em quando descubrindo.
29 _Cauca._ Tenho para mim que padeceo engano Jorge Cardoso[74] em
collocar esta Cidade no sitio de Villapouca de Aguiar, entre Chaves,
e Villa-Real, a quem seguiraõ Macedo,[75] e outros; porque mais me
accommodo ao exame do estudiosissimo Argote,[76] e tambem porque vejo
no Mappa de Ortelio arrumada esta Cidade na altura de 41 gráos de
latitude, e perto de 15 de longitude, naõ pouco distante de Segovia.
30 _Ceciliana._ O Itinerario de Antonino sitúa esta povoaçaõ entre
Setubal, e Alcacer do Sal. Plinio lhe chama _Castra Ceciliana_, talvez
deduzido de Cecilio Metelo, que deu nome a este Lugar. Huns querem que
seja hoje Agualva, tres leguas de Setubal, outros Alcaçovas, o que
naõ póde ser. D. Francisco Manoel diz que he ou a Galvea, ou Agua de
Moura. Com o mesmo nome de _Castra Celicis_ vejo huma povoaçaõ situada
na Carta de Abrahaõ Ortelio junto de Meribriga, que he em 38 gráos, e
5 minutos de latitude, e 12 gráos, e 5 minutos de longitude, e outra
quasi na mesma latitude, e 14 gráos de longitude.
31 _Celiobriga._ Foy o que agora he _Celorico de Basto_, ou nas suas
visinhanças. Consta da inscripçaõ, que se achou em huma pedra na
Igreja de Santa Senhorinha de Basto, que allega Argote nas Memorias do
Arcebispado de Braga.[77]
32 _Centocellas._ Defende Jorge Cardoso[78] a situaçaõ desta Cidade
junto ao rio Zezere no Bispado da Guarda, e perto de _Belmonte_, onde
permanece huma Ermida de S. Cornelio, proxima a huma torre quadrada
de obra Romana, onde diz estivera prezo este Santo; o que tambem
confirma Joaõ Salgado de Araujo no liv. 3. das guerras da Provincia da
Beira pag. 100.: porém o Padre Fr. Antonio da Purificaçaõ,[79] e os
incansaveis Antiquarios Argote, e Leal[80] mostraõ com evidencia ser
erro de Cardoso.
33 _Cinania._ Desta Cidade faz mençaõ Valerio Maximo,[81] encarecendo
muito o valor de seus moradores, e dizendo, que ficava na Lusitania.
Fr. Bernardo de Brito,[82] e seu abbreviador Manoel de Faria[83]
mostraõ que estivera fundada junto de _Roriz_. Pertende porém Gaspar
Estaço mostrar,[84] e o Padre Henrique de Abreu no discurso, que faz
sobre esta Cidade, que estivera junto da Serra do Maraõ,[85] onde
ha passagem aos que vaõ da Beira para o Minho pela estrada, que da
Villa de Teixeira vay a Amarante. Aqui ao pé da serra está a Villa
de Mejaõ frio, e huma legua pela ribeira do Douro acima está o Lugar
de Cidadelhe, e ao Norte ha ruinas de grande povoaçaõ: aqui prova o
dito Author foy Cinania. Jorge Cardoso[86] a poem na eminencia de hum
monte sobre o rio Ave, legua e meya distante de Guimarães. O Author
da Corografia Portugueza[87] a descobrio entre Lanhoso, e o Couto de
Pedralva. Modernamente o Padre D. Jeronymo nas Memorias eruditissimas
de Braga[88] confessa, que he incerta a precisa situaçaõ de Cinania.
34 _Cetobriga._ Foy huma Cidade do Gentilismo, em cujas ruinas se
fundou a Villa de Setubal. Fr. Bernardo de Brito,[89] seguindo a
Floriaõ do Campo, e a outros, diz, que fora fundada, e povoada por
Tubal o anno 145 depois do diluvio, e lhe chamara _Cethubala_, ou
_Cætum-Tubalis_, que quer dizer ajuntamento de Tubal, de cujo nome
com pouca mudança se deduzio _Setubal_. Porém André de Resende,[90] e
Diogo de Paiva dizem, que naõ póde ser; antes o Paiva com tenacidade
a constitue em Andaluzia. O que temos por mais provavel he o que diz
o famoso Resende, que houve duas povoações deste nome: a antiga,
onde agora está o sitio chamado Troya, que naquelle tempo se dizia
_Cetobriga_, e significava Cidade de muito, e grande peixe; porque
_Briga_ na lingua dos antigos Lusitanos queria dizer Cidade,
ou fortaleza, e _Cete_ peixes grandes. Desta opiniaõ he Gaspar
Barreiros,[91] o qual affirma, que no seu tempo havia no sitio desta
Troya vestigios de humas salgadeiras, em que seccavaõ o peixe, porque
se fazia aqui huma grande pescaria delle; e que debaixo da agua se
mostravaõ ainda ruinas de edificios, cousa, que tambem testifica
Resende. Extincta finalmente a antiga _Setubal_, ou _Cetobriga_ na
geral destruiçaõ de Hespanha, se passaraõ alguns moradores dos que
restaraõ para defronte, e principiaraõ a povoar nova colonia naquelle
sitio, intitulando-a da mesma fórma _Cetobriga_. Correndo depois
o tempo, se veyo a chamar _Cetobala_, e dahi _Cetubala_, e hoje
_Setubal_. Desta opiniaõ he Luiz Nunes,[92] Christovaõ Cellario,[93]
e convem no mesmo Villalpando _in Ezechielem tom. 2. p. 16._ Affirma
tambem o allegado Resende, que no sitio de Troya, ou antiga Cetobriga
está por cima da porta da Igreja de Nossa Senhora huma cabeça de
carneiro em pedra, e lhe parece que houvera alli hum templo de Jupiter.
De outras pedras alli descubertas faz tambem memoria o sobredito
Antiquario.
35 _Collipo._ Foy esta Cidade Municipio Romano, e nas suas ruinas
se levantou a Cidade de _Leiria_, como he constante entre todos os
Geografos.[94]
36 _Concordia._ Teve esta Cidade seu assento huma legua affastada de
Thomar para o Occidente, onde se descobrem ainda vestigios de sua
antiguidade. Ptolomeu se lembra desta povoaçaõ, pondo-a na Lusitania,
e quasi com elle concordaõ Bivar,[95] Plinio, e outros.[96] Houve
outra Concordia junto ao rio Guadiana, que antigamente se chamou
Bertobriga, Bocoris, ou Nortobriga, de que falla Pedro de Medina.[97]
Jorge Cardoso[98] diz, que guardava em seu poder algumas moedas achadas
no sitio da primeira Concordia, que bem provaõ a antiga certeza desta
povoaçaõ. Author ha, que diz he _Tentugal_.
37 _Contraleucos_ conforme Ortelio; ou _Catraleucus_ segundo Ptolomeu,
foy povoaçaõ Romana, de cujas ruinas se erigio a Villa do Crato, como
o mostra Fr. Leaõ de Santo Thomás na _Benedictina Lusitana_. Outros
querem que seja Castello-branco. Verdade seja que esta povoaçaõ, no
conceito de D. Francisco Manoel he huma das que por nenhum modo saõ
hoje por nós conhecidas.
38 _Egitania._ Foy no sitio de Idanha a velha huma Cidade nobilissima
em tempo dos Romanos, e Municipio seu muy estimado. O Doutor Manoel
Pereira da Silva Leal, dignissimo Academico Regio, escreve della
eruditamente nas Memorias da Guarda.[99]
39 _Eminio._ Hoje he o Lugar de _Agueda_ no termo de Aveiro. Foy
povoaçaõ notavel da Lusitania, e Cidade Episcopal. Teve Prelados, de
que se acha a memoria de Gelasio pelos annos 411 de Christo, e de
Possidonio pelos annos 589. Ortelio lhe dá tambem o nome de _Colubria_.
O Academico Manoel Pereira da Silva Leal[100] pertende mostrar que naõ
tivera Bispos, como alguns affirmaraõ. Fallaõ della Plino, e Ptolomeu
_apud Cellarium l. 2. c. 1. §. 9._
40 _Equabona._ He hoje a Villa de Coina. Por aqui continuava a primeira
via militar dos Romanos, que hia de Lisboa para Merida.
41 _Eritreia_, ou _Erythia_. Encontramos muito embaraçada entre os
Authores a situaçaõ desta Ilha. Fr. Bernardo de Brito,[101] seguindo
a Pomponio Mela,[102] diz, que estivera na Costa de Portugal, e
que havendo aqui pelos annos de Christo 582 hum grande terremoto,
se apartara da terra firme, e o que ficou he ao que agora chamamos
_Berlengas_, talvez deduzido da palavra _Londobris_, que tambem lhe
dá Ortelio. Esta opiniaõ seguem Resende, Baudrand, Luiz Marinho de
Azevedo, e outros, que este allega.[103]
42 Porém Diogo de Paiva[104] persuadido com a geral confusaõ de alguns
Authores em naõ distinguirem a Ilha Erythia da de Cadis, e Tarteso,
he de contrario parecer. Os Romanos tiveraõ o abuso de chamar come
mesmo nome de Cadis as outras Ilhas, que estavaõ immediatas a ella, da
maneira que se chamaõ hoje ilhas de Cabo-Verde, e das Canarias todas as
que se conservaõ sujeitas às duas principaes, como cabeças de todas as
outras suffraganeas, como bem observa o Marquez de Montejar nas suas
eruditas Disquisições;[105] e assim he infallivel ser diversa esta Ilha
das outras, e o mostraõ Salmacio, Rufo Festo Avieno, Samuel Bocharto,
Rodrigo Caro, Christovaõ Cellario, e outros.[106]
43 _Eburobricio._ Questionaõ os Geografos sobre a verdadeira situaçaõ
desta terra. Diogo Mendes de Vasconcellos, e Gaspar Barreiros[107]
dizem, que estivera no sitio, onde hoje está _Evora de Alcobaça_; porém
Fr. Bernardo de Brito,[108] reprovando a Vasconcellos, diz que fora em
_Alfezeiraõ_; mas em outra parte duvída.[109] Mons. de La Clede[110] no
Mappa da antiga Lusitania nenhuma duvida poem em situar a _Alfezeiraõ_
no mesmo lugar de _Eburobricio_, e quasi na mesma altura se conformaõ
os mappas de Ortelio, e Cellario. Do antigo templo, que houve aqui
dedicado a Neptuno pelo famoso Capitaõ Decio Junio Bruto, consta a
grande resistencia, que os seus moradores fizeraõ ao poder Romano pelos
annos 130 antes de Christo Senhor nosso vir ao mundo.[111]