VIII

O regimen economico contemporaneo, especie de feudalismo industrial e

capitalista, caracterisado pela exploração do trabalho e concentração

dos capitaes, está em plena phase de dissolução. A crise economica que

resulta d'esta ordem de cousas e que se manifesta cada vez mais

profunda, tem dado a proeminencia á questão social sobre a questão

politica, mas a resolução d'esta, apesar de secundaria em importancia,

não deixa de ser uma condição indispensavel, sobretudo entre os povos

occidentaes da Europa, para a plena solução d'aquella. Sem instituições

democraticas não pode fortificar-se o espirito das verdadeiras reformas

sociaes.

Haja vista a differença do que tem occorrido em França e em Portugal com

o derramamento da instrucção publica, de facto a base essencial de todas

as reformas politicas ou sociaes. Em França, depois de triumphar a

terceira republica, a instrucção em todos os seus graus conseguiu

adquirir um desenvolvimento perfeitamente democratico. Esse

desenvolvimento trouxe a consolidação definitiva d'aquella forma de

governo.

Em Portugal, a instrução popular não encontra da parte dos poderes

constituidos senão obstaculos ao seu desenvolvimento; e as successivas

reformas, decretadas hypocritamente com o fim annunciado de melhorar e

ampliar o ensino, não teem feito mais que manter o povo systematicamente

na ignorancia. Mas, se entre nós se tem mostrado na prática a

incompatibilidade das instituições monarchicas com o derramamento da

instrucção popular, tambem cada vez se tem accentuado mais a

incompatibilidade d'essas mesmas instituições com toda a especie de

reformas democraticas, quer politicas, quer sociaes. Basta ver como se

executa a chamada legislação operaria que possuimos, na parte em que não

ficou inteiramente lettra morta, por exemplo, a protecção ao trabalho

dos menores e das mulheres nas fabricas e nas officinas e o tribunal dos

arbitros-avindores de Lisboa.

Mas a corrente favoravel á solução da questão social avoluma de momento

para momento e de dia para dia adquirindo por isso maior impeto em todos

os paizes, sem exceptuar Portugal, porque aos esforços intelligentes e

disciplinados dos operarios socialistas se juntam por toda a parte os

esforços da burguezia illustrada--professores, medicos, homens de

sciencia, litteratos, artistas, etc.

Em Portugal pode servir-nos de exemplo a attitude tomada nos ultimou

annos da sua existencia pelo visconde de Ouguella, o qual sob o titulo

de _A Questão Social_ iniciou a publicação de uma serie de opusculos

chamando a attençâo dos espiritos independentes para a solução da these

obrigada de todas as discussões nos centros populares. A questão social

impõe-se, dizia elle, porque a revolução "está já nos espiritos e pouco

falta para que se traduza em commoções energicas na vida das

sociedades." Escrevia depois o visconde de Ouguella: "O perigo está no

antagonismo que se manifesta entre as bases em que assentam as

instituições existentes, e os principios affirmados pela sciencia em

quasi todas as provincias do saber. É esta discordia insuperavel que

gera a anarchia, creando um desequilibrio tão violento nas sociedades,

que só poderá terminar pelo predominio das novas doutrinas. Tanto mais

que as classes illustradas clara ou occultamente acceitam as affirmações

preconisadas pela sciencia." D'aqui concluia o illustre escriptor que "a

verdadeira democracia tem de hastear forçosamente o pendão do

socialismo."

Mas observa com inteira verdade, apontando o facto como o perigo mais

instante, que "os dirigentes, em geral, mediocremente instruidos, não

teem sequer a intuição das ameaças da hora presente, e ignoram quaes os

meios de por uma transição suave e lenta oppôr diques á torrente caudal

que pode submergir sociedades inteiras. Educados em um meio puramente

politico, e aptos apenas para os enredos e argucias da vida parlamentar,

não attentam a que os povos estão entregues a um rigoroso trabalho de

gestação, que pode, em um impulso premeditado e com o esforço e accôrdo

de várias nacionalidades, produzir um profundo abalo social. Levados por

um falso empirismo, suppõem que uns arremedos de socialismo do Estado

são a melhor forma de sanar as iras do operariado e adormecer as

exigencias e reivindicações populares, deixando aliás de pé todo o

existente nas suas irremediaveis e funestas contradicções."

Já anteriormente o primoroso estylista de--_Os Salões_--publicara--_A

Lucta Social_, uma obra de protesto, mas ao mesmo tempo de esperança,

porque "por mais adiantada que vá a gangrena no corpo social, ainda a

sua acção se não fez sentir com a mesma intensidade nas classes

populares." E d'ellas e só d'ellas--affirmava-o o visconde de

Ouguella--é que ha de irromper a fé vivificante, que deve restaurar um

dia este organismo denominado nação portugueza.»

No meio da desolação que semeou no espirito publico a crise politica e

financeira com todas as suas desastrosas consequencias, e mais ainda a

crise moral que cada vez se manifesta mais intensa, consola verificar

que ha ainda quem confie no dia de amanhã, quem se não deixe arrastar na

corrente do desalento e descrença, quem espere ainda uma revivescencia.

Ao menos não está tudo perdido. Por maior que seja a decadencia

nacional, por mais extensas que sejam as ruinas devidas á concomitancia

dos erros da governação constitucional e da dissolução do regimen

capitalista, emquanto resta uma esperança, ha sempre probabilidades de

melhores dias.

A decadencia portugueza não é um acontecimento isolado no mundo moderno.

Obra principalmente dos esbanjamentos e desvarios dos governos,

relaciona-se todavia com successos identicos, e outros de ordem

economica geral, occorridos n'outros paizes. Portugal constitue uma

unidade como nação independente; mas á luz do moderno criterio

scientifico é e foi sempre uma parcella de um organismo superior--a

Civilisação Occidental. No seu viver interno sempre se repercutiram com

maior ou menor extensão os grandes movimentos o as grandes idéas que

explicam a historia dos tempos modernos.

Os males economicos e sociaes são os mesmos, á parte a intensidade, em

todos os povos contemporaneos. Os desastres financeiros e as revoltas

politicas, embora circumscriptas nas suas origens materiaes e nos seus

effeitos immediatos, á situação particular de cada paiz, derivam tambem,

em ultima analyse, de correntes universaes de opinião. Por exemplo, os

_deficits_ com que se fecham as contas do Thesouro em quasi todos os

paizes civilisados são a consequencia da manutenção geral dos exercitos

permanentes, do continuo desenvolvimento dos orçamentos de guerra e

marinha e ainda da febre extraordinaria de melhoramentos materiaes, na

maioria dos casos com intuitos estrategicos.

"Estamos assistindo ao desmoronamento de instituições existentes,

atravessamos uma tardia e afflictiva transformação social, e caminhamos

immediatamente para o encerramento definitivo de um cyclo historico já

agonisante" dizia com razão o visconde de Ouguella no seu livro--_A

Lucta Social_, e pintava assim este momento de metamorphose social dos

povos:

"Na hora presente, os mais pronunciados symptomas, que em toda a Europa

se observam nas classes superiores, exprimem a vertiginosa perturbação

de todas as crenças, a avidez insaciavel de conseguir desvairados gosos,

por mais cynicos e injustificaveis que sejam os meios, a completa

perversão dos costumes, devida em grande parte á carencia de generosos

ideaes a cubiça desmesurada do ouro e dos mais torpes e nojosos lucros,

e a realisação á porfia de ousadas empresas, revestidas dos maiores

deslumbramentos e da mais ruidosa vaidade.

"Nem já se afivela a mascara hypocrita de uma simulada decencia

byzantina, em homenagem especiosa ao decoro e ao respeito a que obriga a

publicidade. Manifestam se os factos brutalmente em toda a sua desnudez,

sem que os auctores se arreceiem de qualquer accusação affrontosa que os

possa perseguir ou macular."

A decomposição a que assistimos coincide individualmente com um estado

de duvida e de incerteza, com uma disposição da alma, observada por Max

Nordau, em que se mistura a agitação febril ao desánimo

incomprehensivel, e politicamente ao descredito e á desaggregação

progressiva dos partidos pelo triumpho que alcançam as ambições

individuaes. Em França, na Italia e na Belgica o proprio radicalismo não

tem escapado á acção decomponente.

Ergue-se, porém, por toda parte, adquirindo de dia para dia maior

desenvolvimento, a democracia social que aqui e além já começou a

impôr-se, não só como elemento de transformação politica e de

remodelação partidaria, mas, sobretudo, como factor da reorganisação

economica, financeira e moral do mundo contemporaneo. Pertence-lhe, como

já notou Magalhães Lima, outro apostolo dos ideaes modernos, no prefacio

do seu livro--_A Obra Internacional_, a cohesão de esforços dentro dos

limites extremamente amplos dos problemas sociaes, que teem hoje

justificada primazia sobre todos os outros, visto que o empirismo

politico já deu de si as mais tristes provas como fomentador da

desmoralisação geral e da perversão dos caracteres. Da lucta social ha

de nascer um novo regimen, assim como das "revoluções appellidadas

desvairadamente democraticas"--na expressão do visconde de

Ouguella,--proveiu a preponderancia da burguezia, a implantação do

systema constitucional.

Antes de triumphar em Portugal o governo absoluto, os monarchas tinham

tal consideração pelas justas exigencias dos ruões, lavradores e

mesteiraes, dispensavam tal attenção aos razoaveis reparos que elles

lhes faziam, que nunca se esquivavam a responder e faziam-n'o sem

subterfugios, ao contrario, como observou o visconde de Ouguella, do que

"hoje é de uso nos governos parlamentares, para afastar a opinião

publica dos negocios em si escuros, e de nenhum modo acceitaveis."

A lucta social que acompanha a dissolução do regimen capitalista, é a

continuação do movimento que produziu o engrandecimento e preponderancia

da classe média, pela extensão das conquistas do terceiro estado ao

quarto estado, isto é, ao proletariado. Este perdeu, em vez de ganhar,

com o constitucionalismo, porque "espoliaram os mesteres de uma das suas

mais valiosas e mais disputadas franquias: o direito de ter

representação sua propria no governo dos municipios." Foi n'isto

principalmente, disse o auctor da _Lucta Social_, "onde mais se revelou

o egoismo da classe média, que então já violentamente imperava, foi no

esquecimento em que deixou as classes operarias sem representação na

administração financeira e economica dos concelhos, e conseguintemente

sem influencia nem acção propria nas localidades."

O visconde de Ouguella, cujo lucido espirito estava educado nos

principios das sciencias modernas, cria na lei historica da evolução, o

por isso affirmava que a transformação social se opera inevitavelmente,

sendo a derrocada do systema actual impreterivel e fatal. Dizia: "Sempre

que as monarchias se encontrarem isoladas sobre um solo nivelado já pela

democracia, e sem que se possam escorar em alguma poderosa classe

social, hão de fatalmente desapparecer, e mais facil será a sua

extincção, se ellas não corresponderem a nenhuma das necessidades dos

povos modernos, nem satistizerem as suas imperiosas reclamações."

Referia-se n'estas palavras á solução das questões sociaes.

A cohesão de esforços do proletariado no campo d'estas questões não é

senão uma consequencia ou um complemento inevitavel da obra

internacional no terreno das idéas scientificas e das suas applicações á

vida prática. Magalhães Lima já tocou este problema no seu livro _A Obra

Internacional_.

Disse elle: "Tudo o que é moderno, vivo, progressivo é hoje

internacional. O Commercio e a Industria são essencialmente

cosmopolitas. São-no egualmente a navegação, os caminhos de ferro, o

teléphono e todas as grandes descobertas que constituem a gloria do

nosso seculo. O futuro pertence ao cosmopolitismo, disse Littré.

"A Sciencia e a Arte são profundamente internacionaes. As descobertas de

uma e as creações de outra a todos aproveitam, e os seus progressos

podem e devem considerar se como a mais alta expressão do

internacionalismo. As idéas não teem patria e pode dizer-se que ellas

constituem um verdadeiro patrimonio da humanidade."

O internacionalismo nas idéas scientificas e nas suas applicações

industriaes patenteia-se desde muito na frequente reunião de congressos

internacionaes para a discussão quer de theorias puras, quer de

problemas praticos de hygiene e saude publica, de criminologia, de

serviços postaes e telegraphicos, de caminhos de ferro, de assumptos

monetarios, etc. Os congressos democraticos internacionaes para a

solução das questões de ordem social obedecem simplesmente á mesma

tendencia.

Demonstra Magalhães Lima no interessante livro que temos citado, que é

"no dominio do pensamento que o internacionalismo se affirma com a maior

intensidade", e conclue que "este facto de per si só bastaria para

provar que o futuro lhe pertence." A tendencia para o cosmopolitismo não

é nova; existiu já a solidariedade dos pensadores na primeira expansão

da Renascença, e mais accentuada ainda no seculo passado, na obra dos

encyclopedistas. Não tem cessado de progredir com as conquistas e

descobertas scientificas e industriaes do nosso seculo, manifestando-se

primeiro nos congressos internacionaes de sciencia e de melhoramentos

industriaes d'ella derivados, e depois nos congressos destinados á

discussão dos interesses de ordem moral e social, nomeadamente os

feministas, os socialistas e os da paz e arbitragem.

O remedio indispensavel para a grande crise economica, social e moral

que se revela em todos os paizes, e que dá logar á profunda e gradual

decomposição dos elementos constituintes das sociedades contemporaneas,

tem de ser de caracter internacional e de actuar ao mesmo tempo sobre a

constituição da familia, sobre a organisação das sociedades e sobre as

relações de amizade e de ligação entre todos os povos. Os problemas da

situação da mulher, das condições do operariado e da paz geral estão

intimamente ligados entre si; e a solução de todos elles depende da

transformação radical das sociedades contemporaneas, já hoje em

adeantado estado de decomposição. Diz Magalhães Lima que _se trata de um

movimento renovador dos mais importantes na historia da humanidade, e

define-o assim na Obra Internacional_:

"No ponto de vista da familia, no ponto de vista da sociedade, assim

como no ponto de vista das nações, a reorganisação da humanidade deve

repousar sobre novas bases economicas.

"É preciso não sómente assegurar a paz e a harmonia da familia, senão

tambem a sua independencia.

"Por isso pedimos a egualdade dos sexos.

"É mistér reorganisar a sociedade tornando os interesses solidarios.

"Por isso sustentamos as reivindicações do proletariado.

"É indispensavel emancipar as nacionalidades.

"Por isso queremos a federação universal."

Tambem o visconde de Ouguella proclamava a politica da federação como o

labor vivificante das nações transformadas socialmente pelo advento do

quarto estado á vida politica. Dizia elle: "O verdadeiro equilibrio

europeu só poderá estabelecer-se e consolidar-se por meio da federação

dos povos, e a corrente das idéas parece demonstrar que é a toda a

familia latina que caberão as primicias d'essa gloriosa missão."

Sem dúvida, para quem observar attentamente o que se passa no mundo

contemporaneo, é essa a orientação a que obedece o actual movimento

renovador, que, como obra internacional, se contrapõe á dissolução do

regimen capitalista, cada vez mais extensa e intensa em todas as nações

civilisadas.

A dissolução do regimen capitalista · 第 12 / 17 题