verticalmente trinta e sete eixos, dos quaes quinze de cada lado, e
sete, mais altos, ao meio. Dir-se-hia um navio de trinta e sete mastros.
Unicamente esses mastros, em vez de vélas, trazem cada um dois helices
horisontaes, de um passo e de um diametro assaz curtos, mas aos quaes
se pode imprimir uma rotação prodigiosa. Cada um d’estes eixos tem
um movimento independente do movimento dos outros, e além d’isso, de
dois em dois, cada eixo gira em sentido inverso,—disposição necessaria
para que o apparelho não seja tomado de um movimento giratorio. De
modo que os helices, não deixando de continuar a subir sobre a columna
de ar vertical, fazem equilibrio contra a resistencia horisontal. Em
consequencia d’isso, o apparelho fica munido de sessenta e quatro helices
suspensivos, cujos tres ramos são guardados exteriormente por um circulo
metallico que, fazendo o papel de volante, economisa a fôrça motriz. Na
frente e na retaguarda, montados sobre eixos horisontaes, dois helices
propulsivos, de quatro ramos, de um passo inverso muito alongado, giram
em sentido differente e communicam o movimento de propulsão. Estes dois
helices, de um diametro muito maior que o dos helices de suspensão, podem
egualmente girar com uma excessiva velocidade.
Em summa, este apparelho aproveita ao mesmo tempo dos systemas que teem
sido preconisados pelos engenheiros srs. Cossus, de la Landelle e de
Ponton de Amécourt, systemas aperfeiçoados pelo engenheiro Robur. Mas é
sobretudo na escolha e na applicação da fôrça motriz que elle tem direito
de ser considerado como inventor.
Machinas.—Não é nem ao vapor de agua ou outros liquidos, nem ao ar
comprimido ou outros gazes elasticos, nem ás misturas explosivas
susceptiveis de produzir uma acção mechanica, que Robur foi pedir a
potencia necessaria para sustentar e mover o seu apparelho. Foi á
electricidade, a esse agente que será um dia a alma do mundo industrial.
Mas nenhuma machina electro-motriz o produzia; apenas pilhas e
accumuladores. Quaes são porém os elementos que entram na composição
d’aquellas pilhas, e que acidos os põem em acção? N’isso consistia o
segredo de Robur.
O mesmo com respeito aos accumuladores. De que natureza são as suas
laminas positivas e negativas, não se sabe. O engenheiro tivera o
cuidado de tirar um privilegio de invenção. E afinal o resultado era
incontestavel:—pilhas de um effeito extraordinario; acidos de uma
resistencia, quasi absoluta, á evaporação e á congelação; accumuladores
que deixam a perder de vista os Faure-Sellon-Volckmar; finalmente
correntes cujo valor se cifra em numerosas incognitas.
D’ahi um poder em cavallos electricos, por assim dizer, infinito, pondo
em acção os helices que communicam ao apparelho uma fôrça de suspensão
e de propulsão superior a todas as suas necessidades, seja em que
circumstancia fôr.
Mas, convem repetir, isso pertence exclusivamente ao engenheiro Robur,
e a seu respeito elle guardou o segredo mais absoluto. Se o presidente
e o secretario do Weldon-Institute não conseguirem descobril-o, muito
provavelmente ficará perdido para a humanidade.
Escusado é dizer que este apparelho possue uma estabilidade sufficiente,
em consequencia da posição do seu centro de gravidade. Não ha perigo de
que faça angulos assustadores com a horisontal, nem ha a receiar nenhuma
reviravolta.
Resta saber que materia empregára o engenheiro Robur para a construcção
da sua aeronave,—nome que pode muito bem ser applicado ao _Albatrós_.
Que substancia era essa tão dura que o _bowie-knife_ de Phil Evans não
tinha podido entrar com ella, e cuja natureza Uncle Prudent não podéra
explicar? Era papel, unicamente.
Havia muitos annos que esta fabricação tomára um desenvolvimento
consideravel. Papel sem gomma, cujas folhas são impregnadas de dextrina
e amido, e que depois de apertadas na prensa hydraulica, formam uma
materia dura como o aço. Com ella se fazem roldanas, rails, rodas de
wagon, mais solidas que as de metal e ao mesmo tempo mais ligeiras.
Ora, essa solidez, essa leveza, é que Robur tinha querido utilisar para
a construcção da sua locomotiva aerea. Casco, paredes, compartimentos,
tudo era feito de papel da palha, que se tornára metal sob a pressão,
e até—o que não era para desprezar para um apparelho que corria a
grandes alturas—incombustivel. Quanto aos diversos orgãos dos engenhos
de suspensão e de propulsão, eixos ou palhetas de helices, era ainda a
febra gelatinada que lhes fornecia a substancia resistente e flexivel
ao mesmo tempo. Essa materia, que pode tomar todas as formas, insoluvel
na maior parte dos gazes e dos liquidos, acidos ou essencias,—não
falando já das suas propriedades isoladoras—tinha tido um preciosissimo
emprego no machinismo electrico do _Albatrós_. O engenheiro Robur,
o seu contramestre Tom Turner, um machinista e seus dois ajudantes,
dois timoneiros e um cozinheiro,—ao todo oito homens,—eis o pessoal
da aeronave, bastante para as manobras exigidas pela locomoção aerea.
Armas de caça e de guerra, apparelhos de pesca, pharoes electricos,
instrumentos de observação, bussolas e sextantes, para traçar o caminho,
thermometro para o estudo da temperatura, diversos barometros, uns para
avaliar a cota das alturas alcançadas, outros para indicar as variações
da pressão atmospherica, um storm-glass para a previsão das tempestades,
uma pequena bibliotheca, uma pequena imprensa portatil, uma peça de
artilheria montada em rodizio no centro da plataforma, de carregar pela
culatra e lançando balas de seis centimetros, um provimento de polvora,
balas, cartuchos de dynamite, uma cozinha accesa pelas correntes dos
accumuladores, um _stock_ de conservas, carnes e legumes, accomodadas
n’um compartimento _ad hoc_ com alguns barris de brandy, de wisky e de
gin, finalmente, o necessario para se estar muitos mezes sem necessidade
de descer a terra,—taes o material e as provisões da aeronave, não
falando já na famosa trombeta.
Havia, além d’isso, a bordo um ligeiro barco de cautchuc, insubmersivel,
que podia trazer oito homens á superficie de um lago, de um rio, ou de
mar sereno.
Mas tinha pelo menos Robur installado pára-quédas, para o caso de um
accidente? Não! não acreditava em accidentes d’este genero. Os eixos
dos helices eram independentes. O pararem uns, não impedia os outros de
funccionar. Bastava que metade funccionasse para manter o _Albatrós_ no
seu elemento natural.
—E com elle,—teve Robur, o Conquistador, bem depressa ensejo de dizer aos
seus hospedes, hospedes bem contra a sua vontade,—com elle, eu sou senhor
d’esta setima parte do mundo, maior que a Australia, a Oceania, a Asia, a
Africa e a Europa, esta Icaria aerea que milhares de icarianos povoarão
um dia!
CAPITULO VII
DE COMO UNCLE PRUDENT E PHIL EVANS SE RECUSAM AINDA A DEIXAR-SE CONVENCER
O presidente do Weldon-Institute estava estupefacto, e seu companheiro
aturdido.
Mas nem um nem outro quiz deixar transparecer nada d’esse pasmo tão
natural.
O creado Fricollin, esse não dissimulava o seu espanto em se sentir
transportado no espaço, a bordo de uma tal machina; não procurava mesmo
dissimular.
Durante esse tempo, os helices suspensivos giravam rapidamente por sobre
as cabeças d’elles. Comquanto fôsse muito consideravel, n’essa occasião,
essa velocidade de rotação poderia ser triplicada no caso do _Albatrós_
querer attingir zonas mais altas.
Quanto aos dois propulsores, lançados n’um andamento moderadissimo, não
imprimiam ao apparelho senão um deslocamento de vinte kilometros por hora.
Curvando-se para fora, os passageiros do _Albatrós_ puderam notar n’uma
longa e sinuosa fita liquida que serpeava, como um simples regato,
através um paiz accidentado, no meio da scintillação de alguns lagos
obliquamente feridos pelos raios do sol. Esse regato era um rio, e um
dos mais importantes d’aquelle territorio. Sobre a margem esquerda
desenhava-se uma cadeia de montanhas, cuja prolongação ia até perder de
vista.
—Diz-nos onde estamos? perguntou Uncle Prudent com a voz tremula de
colera.
—Não tenho necessidade de lh’o dizer, respondeu Robur.
—E não nos diz tambem onde vamos? accrescentou Phil Evans.
—Através do espaço.
—E isto vae durar muito?
—O tempo que fôr necessario.
—Trata-se então de dar a volta ao mundo? perguntou ironicamente Phil
Evans.
—Mais do que isso, respondeu Robur.
—E se a viagem nos não convem?... replicou Uncle Prudent.
—É necessario que convenha!
Eis uma amostra da natureza de relações que se iam estabelecer entre
o dono do _Albatrós_ e os seus hospedes, para não dizermos seus
prisioneiros. Manifestamente, porém, elle quiz antes de tudo dar-lhes
tempo de voltarem a si, de admirar o maravilhoso apparelho que os levava
pelos ares, e, de certo, de comprimentar o seu inventor. De modo que
fingia estar a passeiar de um lado a outro da plataforma. Ficava-lhes
a liberdade de examinar as machinas, a disposição da aeronave, ou de
conceder toda a attenção á paizagem que se extendia por baixo d’elles.
—Uncle Prudent, disse então Phil Evans, devemos pairar n’este momento
sobre a parte central do territorio canadiano. Esse rio que corre no
noroeste é o Saint-Laurent. A cidade que nos ficou atraz é Quebec.
Era, com effeito, a velha cidade de Champlain, cujos tectos de zinco
brilhavam ao sol como reflectores. O _Albatrós_ tinha-se pois elevado
até quarenta e seis graus de latitude norte, o que explicava o raiar
prematuro do dia, e a prolongação anormal da aurora.
—Sim, continuou Phil Evans, é com effeito a cidade em amphitheatro, a
collina com a sua cidadella, essa Gibraltar da America do Norte. Eis as
cathedraes ingleza e franceza! Eis a alfandega com a sua cupula coroada
com a bandeira britannica.
Mal acabára Phil Evans de dizer isto, e já a capital do Canadá começava a
reduzir-se ao longe. A aeronave entrava n’uma zona de pequenas nuvens que
tiraram a pouco e pouco a vista da terra.
Robur, vendo então que o presidente e o secretario do Weldon-Institute
fixavam a sua attenção sobre o conjunto exterior do _Albatrós_,
approximou-se e disse:
—Então, meus senhores, acreditam já na possibilidade da locomoção aerea,
por meio de apparelhos mais pesados que o ar?
Era difficil não se deixarem vencer pela evidencia. Comtudo Uncle Prudent
e Phil Evans não responderam.
—Não dizem nada? perguntou o engenheiro. Com certeza é a fome que os
impede de falar ... Mas, por eu os ter arrebatado pelo ar, não imaginem
que estou resolvido a alimental-os com esse fluido pouco nutritivo.
Espera-os o seu primeiro almoço.
Como Uncle Prudent e Phil Evans sentiam a fome a aguilhoal-os vivamente,
não era essa a occasião de fazer ceremonias. Uma refeição a nada obriga,
e quando Robur os tivesse posto em terra, esperavam adquirir em presença
d’elle toda a liberdade de acção.
Foram ambos conduzidos para os compartimentos trazeiros, a um pequeno
“dining room„. Alli estava posta uma mesa, no maior asseio, onde elles
deviam comer durante a sua viagem. Constituiam os pratos differentes
conservas e entre outras uma especie de pão, composto, em partes eguaes,
de farinha e de carne em pó, preparado com um pouco de toucinho, e que,
cozido em agua, dá uma sôpa excellente; depois fatias de presunto frio, e
chá.
Tambem Fricollin, pelo seu lado, não fôra esquecido. Nos compartimentos
da frente tinha encontrado uma forte sôpa do mesmo pão. E, realmente,
elle devia ter muita fome, para comer como comia, porque os queixos
tremiam-lhe de medo e podiam bem recusar-lhe todos os serviços.
—Se isto se desmancha!... se isto se desmancha! repetia o infeliz negro.
D’ahi, transes continuados! Imagine-se! Uma quéda de mil e quinhentos
metros, que o teria reduzido a papas!
Uma hora depois, Uncle Prudent e Phil Evans voltaram á plataforma. Robur
não estava lá. Na retaguarda, o homem do leme, na sua gaiola envidraçada,
com os olhos fixos na bussola, seguia imperturbavelmente, sem uma
hesitação, o caminho indicado pelo engenheiro.
Quanto ao resto do pessoal, provavelmente o almoço o detinha no seu
posto. Unicamente um ajudante machinista, encarregado de vigiar as
machinas, passeava de um compartimento a outro.
Embora a velocidade fôsse grande, os dois collegas não a podiam apreciar
senão muito imperfeitamente, apesar do _Albatrós_ ter já sahido da zona
das nuvens e a terra se apresentar mil e quinhentos metros abaixo.
—É inacreditavel! observou Phil Evans.
—Nem acreditemos! respondeu Uncle Prudent.
Foram então collocar-se na frente e extenderam as vistas pelo horisonte,
ao oéste.
—Ah! uma outra cidade! disse Phil Evans.
—Pode reconhecel-a?
—Sim! Parece-me que é Montreal.
—Montreal?... Mas nós deixámos Quebec ha duas horas, o maximo!
—Isso prova que esta machina se desloca com uma rapidez de vinte e cinco
leguas por hora, pelo menos.
Com effeito, era essa a velocidade da aeronave, e se os passageiros não
se sentiam incommodados, é porque caminhavam no sentido do vento. Por um
tempo calmo, aquella velocidade tel-os-hia contrariado consideravelmente,
porque é pouco mais ou menos a velocidade de um expresso. Com vento
contrario, seria impossivel supportal-a.
Phil Evans não se enganava. Por baixo do _Albatrós_ apparecia Montreal,
perfeitamente reconhecivel pela Victoria Bridge, ponte tubular, lançada
sobre o Saint-Laurent, como o viaducto do caminho de ferro sobre o
lago de Veneza. Depois, distinguiam-se as suas largas ruas, as suas
lojas immensas, os palacios dos seus bancos, a sua cathedral, basilica
recentemente construida pelo modêlo de S. Pedro de Roma, e finalmente
o Monte-Real que domina o conjunto da cidade e de que se fez um parque
magnifico.
Felizmente que Phil Evans visitára as principaes cidades do Canadá. Poude
assim reconhecer algumas, sem interrogar Robur. Em seguida a Montreal,
pela hora e meia da tarde, passaram sobre Ottawa, cujas cascatas, vistas
do alto, pareciam uma vasta caldeira em ebullição e a transbordar, em
effervescencias do mais grandioso effeito.
—Eis o palacio do parlamento, disse Phil Evans.
E mostrava uma especie de brinquedo de Nuremberg, posto sobre uma
collina. Esse brinquedo, com a sua architectura polychroma, parecia-se
com o Parliament-House de Londres, como a cathedral de Montreal se
parecia com S. Pedro de Roma. Mas pouco importava; era fora de duvida ser
Ottawa.
Não tardou que essa cidade minguasse no horisonte, não formando mais do
que uma mancha luminosa sobre o solo.
Eram proximamente duas horas, quando Robur tornou a apparecer.
Acompanhava-o o seu contramestre, Tom Turner. Não lhe disse mais do
que tres palavras. Turner transmittiu-as aos dois ajudantes, postados
nos compartimentos da frente e da retaguarda. A um signal, o timoneiro
modificou a direcção do _Albatrós_, desviando dois graus ao sudoéste. Ao
mesmo tempo, Uncle Prudent e Phil Evans puderam notar que uma velocidade
maior acabava de ser imprimida aos propulsores da aeronave.
De facto aquella velocidade podia ser duplicada e ultrapassar tudo que se
tem obtido até aqui dos mais rapidos engenhos de locomoção terrestre.
Imagine-se! Os torpedeiros podem fazer vinte e dois nós ou quarenta
kilometros por hora. Os caminhos de ferro francezes e inglezes, cem;
os barcos patineiros sobre os rios gelados dos Estados Unidos, cento e
quinze; uma machina, construida nas officinas de Patterson, com roda de
engrenagem, faz cento e trinta sobre a linha do lago Erié, e uma outra
locomotiva, entre Trenton e Jersey, cento e trinta e sete.
Ora o _Albatrós_, com o maximo de potencia dos seus propulsores, podia
andar na razão de duzentos kilometros por hora, isto é, cêrca de
cinquenta metros por segundo.
Pois bem, esta velocidade é a do furacão que arranca as arvores pela
raiz, a de uma certa rabanada de vento que, durante a tempestade de 21 de
setembro de 1881, se deslocou em Cahors, na razão de cento e noventa e
quatro kilometros. É a velocidade média do pombo viajante, a qual não é
ultrapassada senão pelo vôo da andorinha vulgar (sessenta e sete metros
por segundo) e pelo do gavião (oitenta e nove metros).
N’uma palavra, como o dissera Robur, o _Albatrós_, desenvolvendo toda a
fôrça dos seus helices, podia dar a volta ao mundo em duzentas horas,
isto é, em menos de oito dias!
Pouco se importava esta machina voadora que o globo possuisse n’aquella
épocha quatrocentos e cincoenta mil kilometros de via ferrea, isto é,
onze vezes a circumferencia da terra no equador. Pois não tinha ella por
ponto de apoio todo o ar do espaço?
E será preciso dizer agora que esse phenomeno, que tanto havia intrigado
o publico dos dois mundos, era a aeronave do engenheiro Robur? Aquella
trombeta que soltava notas vibrantes nos ares, era a do contramestre
Tom Turner. A bandeira collocada no alto dos principaes monumentos da
Europa, Asia e America, era a bandeira de Robur, o Conquistador, e do seu
_Albatrós_.
E se, até então, o engenheiro tomára algumas precauções para que o não
reconhecessem; se, de preferencia, elle viajava de noite, alumiando-se ás
vezes com os seus pharoes electricos; se, durante o dia, desapparecia por
cima da camada das nuvens, agora parecia não querer occultar o segredo
da sua conquista. E se viera a Philadelphia, se se apresentára na sala
das sessões do Weldon-Institute, não era para dar parte da sua prodigiosa
descoberta, para convencer _ipso facto_ os mais incredulos?
Sabemos como fôra recebido e vamos ver as represalias que queria exercer
sobre o presidente e o secretario do mencionado club.
Robur approximára-se dos dois collegas. Estes affectavam não ter a
menor surpresa do que viam e do que experimentavam, bem contra sua
vontade. Evidentemente, dentro d’aquelles dois craneos anglo-saxonios
incrustava-se uma teimosia que seria difficil arrancar.
Pelo seu lado, Robur não quiz tambem ter o ar de quem percebia isso, e
como se continuasse a conversação, que estava aliás interrompida havia
duas horas:
—Meus senhores, disse elle, estão de certo perguntando a si proprios
se este apparelho, maravilhosamente apropriado á locomoção aerea, é
susceptivel de receber uma velocidade maior? Elle não seria digno de
conquistar o espaço se fôsse incapaz de o devorar. Eu quizera que o
espaço fôsse para mim um ponto de apoio solido, e é. Comprehendi que,
para luctar contra o vento, era unicamente preciso ser mais forte do que
elle, e sou mais forte. Não tenho necessidade de vélas para me mover,
nem de remos, nem de rodas para me puxar, nem de rails para fazer mais
rapidamente o caminho. Ar, e mais nada. O ar que me envolve, como a agua
o barco submarino, e no qual os meus propulsores giram como os helices de
um vapor. E aqui está como resolvi o problema da aviação. Eis o que não
faria nem o balão nem outro apparelho mais leve que o ar.
Mutismo absoluto dos dois collegas, o que não desconcertou um instante o
engenheiro. Contentou-se com sorrir e continuou em forma interrogativa:
—Talvez perguntem tambem se, ao poder que tem de se deslocar
horisontalmente, o _Albatrós_ junta um egual poder de deslocamento
vertical: n’uma palavra, se mesmo quando se trata de visitar as altas
zonas da atmosphera, pode luctar com um aerostato? Pois bem, não os
aconselho a pôr em lucta o _Go a head_ com elle.
Os dois collegas tinham-se limitado a encolher os hombros.
Era alli que elles esperavam o engenheiro.
Robur fez um signal. Os helices propulsivos pararam immediatamente.
Depois, tendo corrido no seu rumo uma milha ainda, o _Albatrós_
permaneceu immovel.
A um segundo gesto de Robur, os helices suspensivos puzeram-se então
a mover-se com uma rapidez tal, que se podia comparar á das sereias
nas experiencias de acustica. O seu _frrr_ subiu cêrca de uma oitava
na escala dos sons, diminuindo comtudo de intensidade por causa da
rarefacção do ar, e o apparelho elevou-se verticalmente como uma
calhandra, que solta o seu grito agudo através o espaço.
—Meu amo!... meu amo!... repetia Fricollin. Queira Deus que isto se não
parta!
Um sorriso de desdem foi a unica resposta de Robur. Em alguns minutos, o
_Albatrós_ devia ter alcançado setecentos metros, o que extendia o raio
visual a setenta milhas, depois quatro mil metros, o que era indicado
pelo barometro que descia a quatrocentos e oitenta millimetros.
Então, feita a experiencia, o _Albatrós_ tornou a descer. A diminuição
da pressão das altas camadas traz a diminuição do oxygenio no ar, e, por
conseguinte, no sangue. É a causa dos graves accidentes que se teem dado
com certos aeronautas. Robur julgava inutil expôr-se a isso.
O _Albatrós_ voltou pois á altura que parecia procurar de preferencia,
e os seus propulsores, entrando de novo a girar, arrastaram-n’o com uma
velocidade ainda maior para o sudoéste.
—Agora, meus senhores, se tinham no espirito essa pergunta ahi fica a
resposta.
Depois, curvado sobre o corrimão, ficou-se absorto a contemplar.
Quando ergueu a cabeça, tinha o presidente e o secretario do
Weldon-Institute defronte d’elle.
—Engenheiro Robur, disse Uncle Prudent, que em vão procurava dominar-se,
nós não perguntavamos nada do que lhe pareceu que pensassemos. Mas
far-lhe-hemos uma pergunta, a que desejariamos que respondesse.
—Diga.
—Com que direito nos atacou em Philadelphia, no parque de Fairmont? Com
que direito nos encerrou n’uma cellula? Com que direito nos leva, contra
a nossa vontade, a bordo d’esta machina volante?
—E com que direito, senhores balonistas, respondeu Robur, os senhores me
insultaram, me apuparam, me ameaçaram, no seu club, a ponto de eu estar
espantado de ter sahido de lá vivo?
—Interrogar não é responder, continuou Phil Evans, e eu repito-lhe: com
que direito?...
—Quer sabel-o?
—Tenha a bondade.
—Pois bem, com o direito do mais forte!
—Isso é cynico!
—Mas assim é!
—E por quanto tempo ainda, cidadão engenheiro, perguntou Uncle Prudent,
que não se poude mais conter, por quanto tempo ainda pretende exercer
esse direito?
—Pois que, meus senhores! respondeu ironicamente Robur, como me podem
fazer uma pergunta d’essas, quando não teem mais do que baixar os olhos
para desfructar um espectaculo sem egual em todo o mundo!
O _Albatrós_ mirava-se n’aquelle momento no immenso espelho do lago
Ontario. Acabava de atravessar o paiz tão poeticamente cantado por
Cooper. Depois seguiu pela costa meridional da vasta bacia e dirigiu-se
ao celebre rio que n’elle verte as aguas do lago Erié, quebrando-se sobre
as suas cataratas.
Durante um instante, um ruido majestoso, um rugir de tempestade subiu
até elle. E, como se se tivesse derramado no ar um nevoeiro humido, a
atmosphera refrescou sensivelmente.
Por cima, em forma de ferradura, precipitavam-se massas liquidas.
Dir-se-hia um enorme jacto de crystal, no meio de mil arcos iris que
produziam a refracção, decompondo os raios solares. Era um aspecto
sublime. Na frente d’estas cascatas, uma estreita ponte, tensa como um
fio, ligava uma margem á outra. Um pouco acima, á altura de tres milhas,
estava a ponte pensil, sobre a qual passava então um comboio que ia da
margem canadiana á margem americana.
—As cataratas do Niagara! exclamou Phil Evans.
E este grito escapou-lhe, emquanto que Uncle Prudent fazia todos os
esforços para nada admirar d’aquellas maravilhas.
Um minuto depois, o _Albatrós_ tinha transposto a margem que separa os
Estados Unidos da colonia canadiana, e lançava-se por sobre os vastos
territorios da America do Norte.
CAPITULO VIII
ONDE SE VERÁ QUE ROBUR SE RESOLVE A RESPONDER Á IMPORTANTE PERGUNTA QUE
LHE ERA FEITA
Era n’um dos beliches dos compartimentos de traz que Uncle Prudent e Phil
Evans haviam encontrado dois excellentes leitos, roupa branca e fato
para mudar, em quantidade sufficiente, mantas e abafos de viagem. Um
vapor do Transatlantico não lhes teria offerecido maior commodidade. Se
não dormiram a somno solto, foi porque o não quizeram, ou, pelo menos,
porque cuidados muito serios lh’o impediam. Em que aventura se tinham
elles mettido? A que serie de experiencias tinham sido convidados? Como
terminaria o negocio? e, afinal, o que é que o engenheiro Robur queria?
Havia n’isto muito que dar que scismar.
Quanto ao creado Fricollin, estava installado nos compartimentos da
frente, n’um beliche contiguo ao do mestre cozinheiro do _Albatrós_. Esta
vizinhança não lhe podia desagradar. Elle gostava de conviver com os
grandes d’este mundo. Mas se acabou por adormecer, foi para sonhar quédas
successivas, e projecções através do vacuo, que fizeram do seu sonho um
pesadello horrivel.
E comtudo, nada mais tranquillo do que essa peregrinação no meio de uma
atmosphera, cujas correntes tinham serenado com a tarde. Afora o ruido
dos helices, nenhum outro se ouvia n’aquella zona.
Ás vezes um assobio de alguma locomotiva terrestre, que corria sobre os
rails, ou vozes de animaes domesticos. Singular instincto! Esses seres
terrestres sentiam a machina volante passar por cima d’elles e soltavam
gritos de espanto na sua passagem.
No dia seguinte, 14 de junho, ás cinco horas, Uncle Prudent e Phil Evans
passeavam na plataforma, pode-se dizer, sobre a ponte da aeronave. Nada
estava mudado desde a vespera: o homem de vigia, na frente, o timoneiro,
atraz.