—Com os vossos aerostatos, nada podereis, a nada chegareis, não vos

atrevereis a cousa alguma. O mais intrepido dos vossos aeronautas, John

Wise, apesar de ter já feito uma travessia aerea de mil e duzentas milhas

acima do continente americano, teve de renunciar ao seu projecto de

atravessar o Atlantico. E depois, não vos atrevestes a avançar um passo,

um só, n’esse caminho.

—Meu caro senhor, disse então o presidente, que se esforçava por estar

tranquillo, não se esqueça do que disse o nosso immortal Franklin, quando

appareceu o primeiro _montgolfière_, no momento em que o balão ia nascer.

“Não passa de uma creança, mas ha de crescer„. E cresceu ...

—Não, presidente, não! Não cresceu ... Engordou apenas ... o que não é a

mesma cousa.

Era um ataque directo aos projectos do Weldon-Institute, que havia

decretado, sustentado, pago a construcção, de um aerostato monstro. De

modo que em breve se cruzaram na sala propostas do seguinte teor, bem

pouco tranquillisadoras:

—Abaixo o intruso!

—Expulsem-n’o da tribuna!...

—Para lhe provar que é mais pesado que o ar!

E muitas outras.

Mas não passavam de palavras; não chegavam a vias de facto. Robur

impassivel, poude ainda exclamar;

—O progresso não pertence aos aerostatos, cidadãos balonistas, mas aos

apparelhos volantes. O passaro vôa, e não é um balão, é um machinismo!...

—Sim! vôa, exclamou o fogoso Bat T. Fyn, mas vôa contra todas as regras

da mechanica!

—Sério! respondeu Robur, encolhendo os hombros.

E continuou:

—Depois que se estudou o vôo dos pequenos e grandes voadores, esta idéa

simplicissima prevaleceu:—é que basta imitar a natureza, porque ella

nunca se engana. Entre o albatrós que a voar dá com as azas dez vezes por

minuto, entre o pelicano que dá setenta ...

—Setenta e uma! disse uma voz zombeteira.

—E a abelha que dá cento e noventa e duas, por segundo ...

—Cento e noventa e tres! exclamaram, continuando a zombar.

—E a môsca vulgar que dá tresentas e trinta ...

—Tresentas e trinta e meia!

—E o mosquito que dá milhões ...

—Não ... milhares de milhões!

Mas Robur não interrompeu a sua demonstração.

—Entre estes diversos vôos ...

—Oh! vae uma grande differença! replicou uma voz.

— ... entre estas divergencias ha a possibilidade de encontrar uma

solução prática. No dia em que o sr. Lucy poude consignar que um

escaravelho, esse insecto que não pesa mais de duas grammas, podia com

um pêso de quatrocentas grammas, isto é, duzentas vezes o seu pêso, o

problema da aviação estava resolvido. Além d’isso, estava demonstrado que

a superficie da aza decresce relativamente, á medida que vão augmentando

a dimensão e pêso do animal. D’ahi chegou-se a imaginar e a construir

mais de sessenta apparelhos ...

—Que nunca puderam voar! exclamou o secretario Phil Evans.

—Que voaram e continuaram a voar, respondeu Robur, sem se desconcertar.

E quer lhes chamem streophoros, helicopteros, orthoptheros; quer, á

imitação do que fizeram com respeito á palavra _navis_, tirando d’ella a

palavra nave ou navio, queiram deduzir o seu nome de _avis_, o caso é que

se chega ao apparelho cuja invenção deve tornar o homem senhor do espaço.

—Oh! o helice! observou Phil Evans. Mas a ave não tem helice ... que nos

conste!

—Tem! respondeu Robur. Como o demonstrou o sr. Penaud, de facto a ave

torna-se helice, e o seu vôo é helicoptero. De modo que o motor do futuro

é o helice ...

“D’un pareil maléfice,

_Saint Hélice_, preservez-nous„!...

cantarolou um dos assistentes que, por acaso, tinha de cór este

estribilho do _Zampa_ de Herold.

E todos se puzeram a cantal-o n’umas taes intonações, que deviam ter

feito estremecer o compositor no seu tumulo.

Depois, quando as ultimas notas se perderam n’um espantoso charivari,

Uncle Prudent, aproveitando de um momento de socego, entendeu dever dizer:

—Cidadão extrangeiro, até aqui temol-o deixado falar sem o interromper ...

Ao que parece, para o presidente do Weldon-Institute, aquelles gritos,

aquellas réplicas, aquelles desconchavos, não eram mais do que simples

troca de argumentos.

—Comtudo, continuou elle, lembrar-lhe-hei que a theoria da aviação está

de antemão condemnada e rejeitada pela maior parte dos engenheiros

americanos e extrangeiros. Um invento que tem no seu passivo a morte de

Sarrassin Volant, em Constantinopla, a do monge Voador em Lisboa, a de

Letur em 1852, a de Groof, em 1864, sem contar com as victimas de que me

não lembro, quando mais não fôsse que o mythologico Icaro ...

—Esse systema, respondeu Robur, não é mais condemnavel do que esse

cujo martyrologio contém os nomes de Pilatre de Rozier, em Calais, de

madame Blancard, em Paris, de Donaldson e Grimwood, que cahiram no lago

Michigan, de Sivel e de Crocé-Spinelli, d’Eloy e de tantos outros que se

não podem esquecer.

Era uma resposta “du tac au tac„, como se diz em esgrima.

—Além de que, continuou Robur, com os vossos balões, por mais

aperfeiçoados que sejam, não podeis obter uma velocidade verdadeiramente

prática. Levareis dez annos a dar a volta ao mundo, quando uma machina

volante o poderá fazer em oito dias!

Novos gritos de protesto e de negação, que duraram tres grandes minutos,

até ao momento em que Phil Evans poude tomar a palavra.

—Meu caro sr. aviador, disse este, o senhor que acaba de nos encarecer os

beneficios da aviação, já porventura “aviou„ alguma vez?

—Sim, senhor!

—Já fez a conquista do ar?

—Talvez!

—Hurrah pelo Robur, o Conquistador! exclamou uma voz ironica.

—Pois sim, senhores! Robur, o Conquistador! acceito esse nome e hei de

usal-o, porque tenho direito a elle.

—Permitta-me que duvidemos! exclamou Jem Cip.

—Meus senhores, continuou Robur, com o sobr’olho franzido, quando venho

discutir seriamente uma cousa seria, não admitto que me respondam com

desmentidos, e eu gostava de saber o nome do meu interruptor.

—Chamo-me Jem Cip ... e sou legumista ...

—Cidadão Jem Cip, respondeu Robur, eu sabia que os legumistas teem

geralmente os intestinos mais longos que os dos outros homens, pelo

menos uma boa toeza. Pois já é bastante; e não me obrigue a extendel-os

ainda mais, começando primeiro pelas orelhas ...

—Ponham-n’o a andar!

—Para o meio da rua!

—Para fora d’aqui!

—A lei de Lynch!

—Torçam-n’o em forma de helice!...

O furor dos balonistas chegára ao cumulo. Tinham-se levantado todos,

e rodeavam a tribuna. Robur desapparecia no meio de uma floresta de

braços que se agitavam, como se fôssem soprados pela tempestade. Em vão

a trombeta a vapor soltava notas no ar, por sobre a assembléa. N’essa

tarde, a Philadelphia podia ter julgado que o fogo devorava um dos seus

quarteirões, e que toda a agua da Scheylkill-river não bastava para o

extinguir.

De repente, fez-se no tumulto um movimento de recúo. Robur, tirando

as mãos das algibeiras, extendia os punhos para as primeiras filas

d’aquelles obstinados sujeitos.

N’esses punhos tinha dois _boxes_ á americana, que são revolvers ao mesmo

tempo, e aos quaes basta a pressão dos dedos para os fazer disparar:

verdadeiras metralhadoras de algibeira.

N’isto, aproveitando não só a hesitação dos assistentes, mas tambem o

silencio que acompanhára aquella hesitação:

—Decididamente, disse elle, não foi Americo Vespucio quem descobriu

o Novo Mundo; foi Sebastien Cabot! Não sois americanos, cidadãos

balonistas! Não passaes de comedian ...

No mesmo instante, quatro ou cinco tiros se dispararam no ar. Não feriram

ninguem. No meio do fumo, o engenheiro desapparecia; e quando o fumo se

dissipou não se encontrou vestigio algum de Robur!

Robur, o Conquistador, tinha desapparecido, como se algum apparelho

aviatorio o tivesse levado pelo ares.

CAPITULO IV

DE COMO A PROPOSITO DO CREADO FRICOLLIN O AUCTOR PROCURA REHABILITAR A LUA

É claro que mais de uma vez, em consequencia de discussões tempestuosas,

ao sahir das sessões, tinham os membros de Weldon-Institute enchido

de clamores a Walnut-street e as ruas adjacentes. Mais de uma vez os

habitantes d’aquelle quarteirão se tinham justamente queixado d’aquellas

tumultuosas discussões que os iam perturbar até nos proprios domicilios.

Mais de uma vez, finalmente, os _policemens_ tinham tido de entrevir para

assegurar o transito dos que passavam, na maior parte muito indifferentes

á questão da navegação aerea. Mas, antes d’aquella noite, nunca o tumulto

tomára taes proporções, nunca as queixas tinham sido mais bem fundadas,

nunca a intervenção da policia fôra mais necessaria.

Comtudo os membros do Weldon-Institute tinham uma certa desculpa. Nunca

haviam esperado que os viessem atacar na sua propria casa. Áquelles

obsecados pelo “mais ligeiro que o ar„ um, não menos obsecado pelo “mais

pesado„, tinha dito cousas muito desagradaveis. Depois, no momento em que

o iam tratar como elle merecia, eclipsára-se.

Ora, isto clamava por uma vingança. Para deixar impunes taes injurias,

era preciso não ter sangue americano nas veias! Filhos de America,

tratados como filhos de Cabot! Pois não era um insulto, tanto mais que

cahia certo,—historicamente?

Os membros do club correram pois, em grupos, á Walnut-street, depois ás

ruas vizinhas, e depois pelo bairro dentro. Dispertaram os habitantes.

Obrigaram-os a deixarem revistar as suas casas, contentando-se com

indemnisal-os, mais tarde, dos prejuizos feitos á vida privada de cada

qual, que é particularmente respeitada entre os povos de origem saxonia.

Em vão porém se desenvolveram todas aquellas balburdias e buscas. Robur

não foi encontrado em parte alguma. Nem um vestigio d’elle! Tivesse

partido no _Go a Head_, o balão do Weldon-Institute, e não sería menos

facil achal-o! Depois de uma hora de pesquizas, tiveram de renunciar, e

os collegas separaram-se, mas procurando extender as suas indagações por

todo o territorio da dupla America, constituida pelo Novo Continente.

Pelas onze horas restabelecêra-se no bairro o socego. Philadelphia ía

agora poder afundar-se n’um bom somno, que é o privilegio incontestavel

das cidades que teem a felicidade de não serem industriaes. Os diversos

membros do club não pensaram senão em ir cada qual para sua casa.

Para nos não referirmos senão a alguns dos mais salientes, William T.

Forbes, foi para os lados da sua grande trapeira de assucar, onde miss

Dol e miss Mat lhe haviam preparado o chá, assucarado com a sua propria

glucose, Truck Milnor tomou o caminho da sua fabrica, cuja bomba de fogo

arfava dia e noite n’um dos bairros mais afastados. O thesoureiro Jem

Cip, publicamente accusado de ter uma toeza menos de intestinos, do que

comporta a machina humana, foi para a casa de jantar, onde o esperava uma

ceia vegetal.

Dois dos mais importantes balonistas,—dois apenas,—pareciam não pensar

em entrar nos seus domicilios tão depressa. Tinham aproveitado o ensejo

para conversar com mais acrimonia ainda. Eram os irreconciliaveis Uncle

Prudent e Phil Evans, o presidente e o secretario do Weldon-Institute.

Á porta do club, o creado Fricollin esperava Uncle Prudent, seu amo.

Pôz-se a seguil-o, sem se importar com o assumpto que trazia em disputa

os dois collegas.

É por euphemismo que o verbo “conversar„ foi empregado para exprimir o

acto a que se entregavam o presidente e o secretario do club. A verdade

é que elles disputavam com uma energia que tinha origem n’uma antiga

rivalidade.

—Nada! nada! repetia Phil Evans. Se eu tivesse tido a honra de presidir

ao Weldon-Institute, nunca, oh! nunca se teria dado um tal escandalo!

—O que teria então feito, se tivesse tido essa honra? perguntou Uncle

Prudent.

—Teria cortado a palavra a esse insultador publico, antes mesmo d’elle

ter aberto a bôcca!

—Parece-me que para cortar a palavra a alguem, é preciso primeiramente

tel-o deixado falar.

—Não na America, senhor! não na America!

E n’esta troca de recriminações mais azedas do que dôces, os dois

personagens enfiavam pelos caminhos que cada vez os afastavam mais de sua

casa; atravessavam bairros cuja situação os obrigava a fazer um longo

desvio.

Fricollin seguia-os sempre; mas não se sentia tranquillo por ver seu

amo metter-se por caminhos já desertos. Com effeito, a escuridão era

profunda, e a lua, no seu crescente, começava apenas a “fazer os seus

vinte e oito dias„.

Fricollin olhava pois para a direita e para a esquerda, a vêr se sombras

suspeitas o espiavam. E de facto, elle julgou vêr cinco ou seis grandes

diabos que pareciam não os perder de vista.

Instinctivamente, Fricollin approximou-se de seu amo; mas por cousa

alguma d’este mundo elle se atreveria a interrompel-o no meio de uma

conversação, da qual lhe podiam provir alguns arranhões.

Emfim, o acaso fez com que o presidente e o secretario do

Weldon-Institute, sem pensar em tal, se dirigissem a Fairmont Park.

Alli no mais acceso da disputa, atravessaram a Schuylkill-river,

sobre a famosa ponte metallica; encontraram apenas alguns transeuntes

retardatarios, e acharam-se afinal no meio de vastos terrenos, uns que se

desenvolviam em pradarias immensas, outros ensombrados de magnificas e

frondosas arvores, que fazem d’aquelle parque um dominio unico em todo o

mundo.

Alli mais assaltaram o pobre Fricollin os seus terrores e com muito

mais razão porque as cinco ou seis sombras tinham seguido atraz d’elle,

pela ponte de Schuylkill-river. De modo que tinha as pupillas dos olhos

tão dilatadas que se alargavam até á circumferencia da iris. E ao mesmo

tempo, todo o seu corpo mirrava, retrahia-se, outros como se fôsse

dotado d’aquella contractibilidade peculiar a certos moluscos e animaes

articulados.

É que o creado Fricollin era um perfeito poltrão. Um verdadeiro negro

do sul, com uma cabeça de estupido, n’um corpo de magrisella. Da edade

precisa de vinte e um annos, nunca fôra escravo, nem mesmo de nascença;

mas não valia mais por isso. Cheio de caretas, guloso e preguiçoso, era

sobretudo de uma cobardia ideal. Estava, havia tres annos, ao serviço de

Uncle Prudent. Cem vezes o tinham querido pôr a andar; porém haviam-n’o

conservado com medo de vir um outro peior. Mas, fazendo parte da vida

de um amo sempre mettido nas mais atrevidas empresas, Fricollin devia

encontrar muitas occasiões em que a sua cobardia era sujeita a grandes

provações. Mas tinha compensações:—ninguem lhe ralhava muito pela

gulodice nem pela preguiça. Ah! Fricollin, se tu pudesses lêr no futuro!

Porque é que Fricollin não havia de ter ficado em Boston, ao serviço de

certa familia Sueffel, que estando para fazer uma viagem á Suissa tinha

renunciado a ella por causa dos tremores de terra? Pois não era essa a

casa que convinha a Fricollin, de preferencia á de Uncle Prudent, onde a

temeridade estava na ordem de todos os dias?

Emfim, elle lá estava, e seu amo tinha acabado por se habituar aos seus

defeitos. Além de que, elle tinha uma qualidade. Apesar de ser negro de

origem, não falava negro, o que é para se ter em consideração, porque

nada é mais desagradavel do que esse odioso calão em que tanto se abusa

do pronome possessivo e dos infinitivos.

Portanto fica bem assente que o creado Fricollin era um poltrão, e, como

se costuma dizer, “poltrão como a lua„. Ora, a proposito d’isso, é de

justiça protestar contra esta comparação insultante para a loura Phebéa,

a dôce Selena, a casta irmã do radioso Apollo.—Com que direito se ha de

accusar de cobardia um astro que, desde que o mundo é mundo, encarou

sempre de frente a terra, sem nunca lhe voltar as costas?

Seja como fôr, áquella hora, cêrca da meia noite, o crescente da “pallida

calumniada„ começava a desapparecer no poente, atraz das altas ramagens

do parque. Os seus raios, coando por entre os ramos, punham alguns

arabescos no chão. A parte superior do arvoredo parecia assim menos

sombria.

Isso permittiu a Fricollin lançar um olhar ainda mais indagador.

—Brrr! Lá estão ainda, os patifes! Decididamente, veem approximando!

Não se poude conter mais, e dirigindo-se ao seu amo:

—Master Uncle! disse elle.

É assim que elle o tratava, e que o presidente do Weldon-Institute queria

que elle o tratasse. N’aquelle momento a contenda entre os dois rivaes

estava no auge. E como elles se mandavam passear mutuamente, a mesma

intimação foi feita brutalmente a Fricollin.

E ao mesmo tempo que os dois falavam, mettendo-se á cara um do outro,

Uncle Prudent embrenhava-se cada vez mais através dos prados desertos de

Fairmont-Park, afastando-se cada vez mais da Schuylkill-river, e da ponte

que era necessario alcançar de novo, para entrar na cidade.

Achavam-se os tres no meio de um arvoredo, cujas copas eram illuminadas

pelos derradeiros clarões do luar. No fim do arvoredo abria-se uma larga

clareira, vasto campo oval, admiravelmente disposto para as luctas de

um _ring_. Nenhum accidente de terreno obstaria alli ao galopar de um

cavallo, nenhuma arvore interceptava a vista do espectador, ao longo de

uma pista circular de algumas milhas.

E comtudo, se Uncle Prudent e Phil Evans não estivessem absortos na sua

discussão, se tivessem olhado com certa attenção, não teriam encontrado a

clareira com o seu aspecto habitual.

Seria um estabelecimento de farinhas, que tivesse sido montado na

vespera? Com effeito, assim parecia, pelo conjuncto de moinhos de vento,

cujas azas, immoveis n’aquelle momento, gesticulavam na sombra.

Mas nem o presidente nem o secretario do Weldon-Institute tinham notado

n’esta extranha modificação na paizagem do Fairmont-Park. Fricollin tão

pouco o reparou. Parecia-lhe que os ladrões se approximavam, se juntavam,

como no acto de darem o golpe. Tinha um terror convulso; os membros

paralysados, os cabellos hirtos,—emfim estava no ultimo grau do terror!

Comtudo, mesmo com as pernas a tremer, e a dobrarem-se-lhe, teve fôrça

para exclamar mais uma vez:

—Master Uncle!... Master Uncle!

—Eh! o que é que queres afinal? perguntou Uncle Prudent.

Talvez Phil Evans e elle não desgostassem de descarregar a sua colera,

sovando de grande o infeliz Fricollin. Mas não tiveram tempo, como este

não teve tambem para responder.

Um assobio se ouviu no bosque. No mesmo instante accendia-se no meio da

clareira como que uma estrella electrica.

Era decerto um signal, e sendo assim, é porque chegára o momento de se

realisar alguma violencia.

Em menos tempo que seria preciso para o pensar, seis homens surgiram

do bosque; dois lançaram-se sobre Uncle Prudent, dois sobre o creado

Fricollin,—estes ultimos demasiados, evidentemente, porque o negro era

incapaz de se defender.

O presidente e o secretario do Weldon-Institute, apesar de surprehendidos

por aquelle ataque, quizeram resistir. Não tiveram para isso nem tempo,

nem fôrças. Em alguns segundos, era-lhes posta uma mordaça na bôcca, uma

venda nos olhos; e, vencidos, ligados, eram levados rapidamente através

da clareira. O que podiam elles pensar senão que se tratava d’essa raça

de gente pouco escrupulosa que não hesita em despojar os transeuntes

retardatarios, no fundo dos bosques! Nada d’isso succedeu, porém. Nem

mesmo lhes apalparam as algibeiras, apesar de Uncle Prudent trazer sempre

comsigo alguns milhares de dollars em papel.

Em resumo, um minuto depois d’esta aggressão, sem que uma unica palavra

se trocasse entre os aggressores, Uncle Prudent, Phil Evans e Fricollin

sentiam que os punham cautelosamente no chão, não sobre a herva da

clareira, mas n’uma especie de sobrado que gemeu com o pêso d’elles.

Alli foram postos ao lado um do outro. Uma porta se fechou sobre elles.

Depois, o ranger de uma lingueta na fechadura, fez-lhes vêr que estavam

prisioneiros.

Fez-se então um ruido continuo, como que um fremito, um _frrr_, onde os

_rrr_ se prolongavam até ao infinito, sem que outro nenhum som se pudesse

perceber no meio d’aquella noite tão calma.

* * * * *

Que alarme, no dia seguinte, em Philadelphia! Desde as primeiras

horas se soube o que se tinha passado na vespera, na sessão do

Weldon-Institute: o apparecimento de um mysterioso personagem, um tal

engenheiro Robur,—Robur, o Conquistador!—a lucta que elle parecia querer

travar contra os balonistas, e depois a sua desapparição inexplicavel.

Mas outra cousa foi quando toda a cidade soube que tambem o presidente e

o secretario do club tinham desapparecido durante a noite de 12 para 13

de junho.

Que de pesquizas em toda a cidade e seus arredores! Mas inutilmente. Os

jornaes de Philadelphia, depois os da Pensylvania, depois os da America

inteira, apoderaram-se do assumpto e explicaram-n’o de mil maneiras, das

quaes nenhuma devia vir a ser verdadeira. Sommas consideraveis foram

promettidas por meio de annuncios e cartazes, não só a quem encontrasse

os respeitaveis individuos que haviam desapparecido, mas a quem pudesse

dar qualquer indicio que lhes descobrisse a pista. Nada se conseguiu.

Se a terra se abrisse para os tragar, o presidente e o secretario do

Weldon-Institute não estariam mais eliminados da face da terra.

Os jornaes do governo pediram que o pessoal da policia fôsse augmentado

consideravelmente, visto que taes attentados podiam repetir-se contra os

melhores cidadãos dos Estados Unidos,—e tinham razão ...

É verdade que a opposição pediu que esse pessoal fôsse licenciado por

inutil, visto que taes attentados se podiam repetir, sem que fôsse

possivel encontrar os vestigios dos seus auctores,—e tambem não deixava

de ter razão.

Em summa, a policia continuou sendo o que era, o que será sempre no

melhor dos mundos, que não é perfeita nem conseguirá sêl-o.

CAPITULO V

DE COMO FOI CONCEDIDA UMA SUSPENSÃO DE HOSTILIDADES ENTRE O PRESIDENTE E

O SECRETARIO DO WELDON-INSTITUTE

Com uma venda nos olhos, uma mordaça na bôcca, os pés e as mãos ligados

com uma corda, era impossivel verem, falarem, moverem-se. Não era

portanto cousa que tornasse acceitavel a situação de Uncle Prudent, de

Phil Evans e do creado Fricollin. Além d’isso, não saber quem eram os

auctores de um tal rapto, nem para onde os haviam atirado como meros

fardos n’um comboio de bagagens; ignorar onde estavam, a que destino

estavam reservados, era caso para desesperar o mais paciente da especie

ovina, e sabemos que os membros do Weldon-Institute não eram precisamente

carneiros na paciencia. Dada a sua violencia de caracter, imagina-se

facilmente em que estado devia achar-se Uncle Prudent.

Em todo o caso Phil Evans e elle deviam pensar que lhes seria difficil

tomar assento no dia seguinte á mesa da presidencia do club.

Quanto a Fricollin, com os olhos vendados, a bôcca tapada, era-lhe

impossivel pensar fôsse no que fôsse. Estava mais morto do que vivo.

Durante uma hora, não se modificou a situação dos prisioneiros! Ninguem

os veiu visitar nem dar-lhes a liberdade de movimento e de palavra,

de que tanto necessitavam. Estavam reduzidos a suspiros abafados, a

exclamações soltas através as mordaças, a sobresaltos de peixes fora

d’agua. O que isto indicava de colera muda, de furor concentrado, ou,

para melhor dizer, reprimido, é facil de comprehender. Após estes

infructiferos esforços, permaneceram algum tempo inertes. E então como

lhes faltasse o sentido da vista, procuraram deduzir pelo sentido do

ouvido algum indicio do que fôsse esse estado inquietador de cousas. Em

vão procuravam, porém, surprehender outro ruido além do interminavel e

inexplicavel _frrr_, que parecia envolvel-os n’uma atmosphera arrepiante.

Comtudo deu-se o seguinte: Phil Evans, procedendo com serenidade,

conseguiu alargar a corda que lhe prendia os pulsos. Depois desatou a

pouco e pouco o nó; os dedos escorregaram uns por sobre os outros, as

mãos tomaram o seu natural desembaraço.

Esfregando-as fortemente, restabeleceu-se a circulação impedida pelos

ligamentos. Um instante depois, Phil Evans tinha tirado a venda dos

olhos, arrancado a mordaça da bôcca, cortado as cordas com a fina lamina

do seu “bowie-knife„. Um americano que não traga sempre na algibeira o

seu _bowie-knife_, não é americano.

Além de que, se Phil Evans conseguira poder mover-se e falar, não

conseguira mais nada. Não via cousa alguma, pelo menos n’aquelle

instante. A escuridão era completa. Comtudo uma certa claridade filtrava

por entre uma especie de setteira aberta na parede, a uns seis ou sete

pés de altura.

Houvesse o que houvesse, a verdade é que Phil Evans não hesitou um

instante em libertar o seu rival. Alguns golpes de _bowie-knife_,

bastaram para cortar os nós que lhe atavam os pés e as mãos.

Immediatamente Uncle Prudent, que estava já meio enraivecido, erguendo-se

sobre os joelhos, arrancou a venda e a mordaça, e depois, com voz

estrangulada:

—Obrigado! disse.

Robur, o Conquistador · 第 2 / 14 段