[Illustration: JULIO VERNE
VIAGENS MARAVILHOSAS
ROBUR O CONQUISTADOR]
OBRA PREMIADA
PELA
ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE FRANÇA
ROBUR, O CONQUISTADOR
POR
JULIO VERNE
TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
309, Rua da Rosa, Lisboa
1890
GRANDE EDIÇÃO POPULAR
DAS
VIAGENS MARAVILHOSAS AOS MUNDOS CONHECIDOS E DESCONHECIDOS
JULIO VERNE
ROBUR, O CONQUISTADOR
TRADUCÇÃO DE
CHRISTOVAM AYRES
Escriptor e Jornalista
[Illustration]
LISBOA
COMPANHIA NACIONAL EDITORA
Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES
SÉDE: 40, Rua da Atalaya, 52, Lisboa
FILIAES:
Porto, Praça de D. Pedro, 127, 1.º
38, Rua da Quitanda, Rio de Janeiro
1890
VIAGENS MARAVILHOSAS de VERNE
Edição de luxo, papel superior, illustrada com todas as gravuras da
edição franceza
Preço em moeda forte dos volumes publicados:
_Da terra á lua_, 1 vol. com 43 grav. 3.ª edição $900
_A roda da lua_, 1 vol. com 44 grav. $900
_A volta do mundo em 80 dias_, 1 vol. com 58 grav. 2.ª edição 1$000
_AVENTURAS DO CAPITÃO HATTERAS_: 1.ª parte, _Os inglezes no
polo norte_, 1 vol. com 135 grav. 1$100
2.ª parte, _O deserto de gelo_, 1 vol. com 135 grav. 1$100
_Cinco semanas em balão_, 1 vol. com 76 grav. 1$100
_Aventuras de tres russos e tres inglezes_, 1 vol. com 54 grav. $900
_Viagem ao centro da terra_, 1 vol. com 55 grav. 1$000
_OS FILHOS DO CAPITÃO GRANT_: 1.ª parte, _America do sul_,
1 vol. com 72 grav. 1$100
2.ª parte, _Australia Meridional_, 1 vol. com 45 grav. 1$100
3.ª parte, _Oceano Pacifico_, 1 vol. com 48 grav. 1$100
_VINTE MIL LEGUAS SUBMARINAS_: 1.ª parte, _O homem das aguas_,
1 vol. com 54 grav. 1$000
2.ª parte, _O fundo do mar_, 1 vol. com 60 grav. 1$100
_A ILHA MYSTERIOSA_: 1.ª parte, _Os naufragos do ar_, 1 vol.
com 52 grav. 1$100
2.ª parte, _O abandonado_, 1 vol. com 53 grav. 1$100
3.ª parte, _O segredo da ilha_, 1 vol. com 50 grav. 1$100
_MIGUEL STROGOFF_: 1.ª parte, _O correio do czar_, 1 vol.
com 46 grav. 1$000
2.ª parte, _A invasão_, 1 vol. com 46 grav. 1$000
_O PAIZ DAS PELLES_: 1.ª parte, _O eclipse de 1860_, 1 vol.
com 52 grav. 1$000
2.ª parte, _A ilha errante_, 1 vol. 53 grav. 1$000
_A cidade fluctuante_, 1 vol. 42 grav. 1$000
_As indias negras_, 1 vol. 42 grav. 1$000
_HEITOR SERVADAC_: 1.ª parte, _O cataclismo cosmico_, 1 vol.
com 50 grav. 1$100
2.ª parte, _Os habitantes do cometa_, 1 vol. com 50 grav. 1$100
_O doutor Ox_, 1 vol. com 59 grav. 1$100
_UM HEROE DE QUINZE ANNOS_: 1.ª parte, _A viagem fatal_, 1
vol. com 46 grav. $900
2.ª parte, _Na Africa_, 1 vol. com 45 grav. 1$000
_Galera Chancellor_, 1 vol. 50 grav. 1$100
_Os quinhentos milhões da Begun_, 1 vol. com 45 grav. 1$000
_Atribulações d’um chinez na China_, 1 vol. com 45 grav. 1$000
_A CASA A VAPOR_: 1.ª parte, _A chamma errante_, 1 vol. 51
grav. 1$000
2.ª parte, _A resuscitada_, 1 vol. com 44 grav. 1$000
_A JANGADA_: 1.ª parte, _O segredo terrivel_, 1 vol. com
43 grav. $900
2.ª parte, _A justificação_, 1 vol. com 53 grav. $900
_A escola dos Robinsons_, 1 vol. com 45 grav. 1$000
_AS GRANDES VIAGENS E OS GRANDES VIAJANTES_: 1.ª parte, _A
descoberta da terra_, 2 vol. com 116 grav. 2$200
2.ª parte, _Os navegadores do seculo XVIII_, 2 vol. com 114
grav. 2$200
3.ª parte, _Os exploradores do seculo XIX_, 2 vol. com 103
grav. 2$200
_O raio verde_, 1 vol. com 44 grav. 1$000
_KERABAN O CABEÇUDO_: 1.ª parte, _De Constantinopla a
Scutari_, 1 vol. com 51 grav. $900
2.ª parte, _O regresso_, 1 vol. com 50 grav. $900
_A Estrella do Sul_, 1 vol. 65 grav. 1$100
_Os piratas do Archipelago_, 1 vol. com 51 grav. 1$000
_MATHIAS SANDORF_: 1.ª parte, _O pombo correio_, 1 vol. 34
grav. $900
2.ª parte, _Cabo Matifoux_, 1 vol. com 36 grav. $900
3.ª parte, _O passado e o presente_, 1 vol. com 35 grav. $900
_O naufrago do Cynthia_, 1 vol. com 25 grav. 1$000
_O bilhete de loteria n.º 9:672_, 1 vol. com 39 grav. $900
_Robur o conquistador_, 1 vol. com 44 gravuras. 1$000
_NORTE CONTRA SUL_: 1.ª parte, _O odio de Texar_, 1 vol. 42
grav. $900
2.ª parte, _Justiça!_ 1 vol. 43 grav. $900
_O caminho da França_, 1 vol. com 40 grav. $900
_DOIS ANNOS DE FERIAS_: 1.ª parte, _A escuna perdida_, 1 vol.
com 44 grav. $900
2.ª parte, _A colonia infantil_, 1 vol. com 44 grav. $900
_FAMILIA SEM NOME_: 1.ª parte, _Os filhos do traidor_, 1 vol.
com 44 grav. $900
2.ª parte, _O padre Johann_, 1 vol. com 37 gravuras. $900
[Illustration: Nenhum dos dois adversarios ficou ferido]
ROBUR, O CONQUISTADOR
CAPITULO I
DE COMO A GENTE SABIA E A GENTE IGNORANTE SE VIA EM EGUAES EMBARAÇOS
Pum!... pum!
Os dois tiros de pistola partiram ao mesmo tempo. Uma vacca, que passava
a uns cincoenta passos, recebeu uma das balas no espinhaço. E no emtanto
ella nada tinha que ver com a questão.
Nenhum dos dois adversarios ficou ferido.
Quem eram esses cavalheiros? Não se sabe; e, comtudo, teria sido essa,
de certo, a occasião de fazer chegar os seus nomes á posteridade. Tudo
que se pode dizer é que o mais velho era inglez, o mais novo americano.
Quanto a indicar o sitio em que o inoffensivo ruminante, que acabava de
ser morto, pastava o seu ultimo punhado de herva, nada mais facil. Era
sobre a margem direita do Niagara, a pequena distancia da ponte pensil
que liga a margem americana á margem canadiana, tres milhas abaixo das
quédas d’agua.
O inglez avançou então para o americano:
—Continúo a sustentar que era o _Rule Britannia!_ disse elle.
—Não era! replicou o outro. Era o _Yankee Doodle!_
Ia recomeçar a disputa, quando uma das testemunhas, de certo no interesse
do gado inoffensivo, interveiu dizendo:
—Admittamos que era o _Rule Doodle_ e o _Yankee Britannia_, e vamos
almoçar!
Este accôrdo entre os dois cantos nacionaes da America e da
Gran-Bretanha, foi acceite com geral satisfação. Americanos e inglezes,
seguindo a margem esquerda do Niagara, foram sentar-se á mesa do hotel de
Goat-Islandia, um terreno neutro entre as duas cataratas. Como estão em
presença dos ovos quentes e do presunto tradicionaes, do rost-beef frio;
conserva de pickles incendiarios, e catadupas de chá, capazes de fazer
inveja ás celebres cascatas, não os importunemos. E, além d’isso, é pouco
provavel que se torne a falar n’elles n’esta narrativa.
Qual d’elles tinha razão? O inglez ou o americano? Sería difficil dizer.
Em todo o caso, aquelle duello mostra quanto os espiritos estavam
exaltados, não só no novo, mas tambem no antigo continente, a proposito
de um phenomeno inexplicavel, que, havia um mez, a todos trazia os miolos
a arder.
... _Os sublime dedit cœlumque tueri_
disse Ovidio para a maior honra da humanidade.
Com effeito, desde que o homem apparecêra sobre a terra, nunca se olhára
tanto para o céo.
Ora, precisamente, durante a noite anterior, uma trombeta aerea soltára
as suas notas metallicas através do espaço, por sobre essa porção do
Canadá, situada entre o lago Ontario e o lago Erié. Uns haviam ouvido
o _Yankee Doodle_, outros o _Rule Britannia_. D’ahi essa disputa de
anglo-saxões que terminou por um almoço no Goat-Island. Talvez, afinal,
não fôsse nem um nem outro d’esses cantos patrioticos. Mas o que para
todos era fora de duvida, é que esse som extranho tinha de particular o
parecer que descia do céo á terra.
Sería uma trombeta celeste, soprada por algum anjo ou archanjo? Não
seriam antes alegres aeronautas, que tocavam o sonoro instrumento de que
a Fama faz um uso tão ruidoso?
Mas não! Não se via nem balões nem aeronautas. Era um phenomeno
extraordinario que se dava nas altas zonas do céo, phenomeno cuja
natureza e origem se não podia conhecer.
Hoje era por sobre a America, quarenta e oito horas depois sobre a
Europa; oito dias mais tarde, na Asia, por sobre o Celeste Imperio.
Decididamente, se a trombeta que assignalava a sua passagem não era a do
juizo final, que trombeta podia ser?
D’ahi, em todos os paizes, reinos ou republicas, uma certa inquietação
que era mistér acalmar. Se ouvisseis na vossa casa algum ruido extranho
e inexplicavel, não tratarieis logo de indagar a causa d’esse ruido; e,
se a pesquiza não désse resultado, não abandonarieis a casa para ir para
outra? Sim, decerto. Mas aqui, a casa era o globo terrestre.
Não havia meio de a deixar pela Lua, Marte, Venus, Jupiter, ou outro
qualquer planeta do systema solar. Era portanto necessario descobrir o
que se passava, não no vacuo infinito, mas nas zonas atmosphericas.
Com effeito, não ha ruido sem que haja ar; e se um ruido se produzia,—o
da famosa trombeta,—é porque o phenomeno se dava no meio de uma camada de
ar, cuja densidade vae sempre diminuindo e que não se extende a mais de
duas em volta do nosso espheroide.
Como era natural, milhares de jornaes se apoderaram da questão,
trataram-n’a, nas suas diversas formas, esclareceram-n’a ou
obscureceram-n’a, referiram factos verdadeiros ou falsos, sobresaltaram
ou tranquillisaram os seus leitores,—no interesse da venda da
folha,—apaixonaram finalmente as massas. A politica cahiu por terra, e
nem por isso os negocios andaram peior. Mas o que era então?
Consultaram-se os observatorios do mundo inteiro. Mas para que serviam
os observatorios, se nada sabiam responder a esse respeito! Se os
astronomos que desdobram em duas ou em tres as estrellas que estão a cem
mil milhares de leguas, não eram capazes de reconhecer a origem de um
phenomeno cosmico, no raio de alguns kilometros apenas, para que serviam
os astronomos?
De modo que não se faz idéa da quantidade de telescopios, de oculos, de
binoculos, de monoculos, de oculos de vêr ao longe, que estavam apontados
para o céo, e de olhos que estavam applicados á ocular dos instrumentos,
de todos os alcances e de todas as grossuras, durante essas bellas noites
de verão. Talvez centenas de mil, pelo menos. Dez vezes, vinte vezes mais
que de estrellas se contam a olho nú na atmosphera celeste. Não! Nunca um
eclipse, observado simultaneamente em todos os pontos do globo, attrahíra
tanto a attenção.
As observações responderam, mas de um modo insufficiente. Cada qual deu
a sua opinião, mas diversa. D’ahi uma guerra intestina no mundo douto,
durante as ultimas semanas de abril e as primeiras de maio.
O observatorio de Paris guardou uma grande reserva. Nenhuma das secções
se pronunciou. Na repartição de astronomia mathematica não se tinham
dignado observar; na das operações meridianas nada se tinha descoberto;
na das observações physicas nada tinham notado; na da meteorologia nada
haviam entrevisto; e, finalmente, na dos calculos nada haviam concluido.
Pelo menos a confissão era franca.
A mesma franqueza houve da parte do observatorio de Montsouris, na
estação magnetica do parque Saint-Mur. O mesmo respeito pela verdade na
repartição das longitudes. Decididamente, francez quer dizer “franco„.
A provincia foi um pouco mais affirmativa. Talvez na noite de 6 a 7 de
maio tivesse apparecido um clarão de origem electrica, cuja duração
não tinha passado de vinte segundos. No Pico-do-sul aquelle clarão
mostrára-se entre as nove e as dez da noite. O observatorio meteorologico
do Puy-de-Dôme tinha-o apanhado entre a uma hora e as duas da manhã; no
Monte Ventoux, na Provença, entre as duas e as tres horas; em Nice, entre
as tres e as quatro; finalmente, em Semnoz-Alpes, entre Anney, o Bourget
e Leman, no momento em que a aurora dourava o zenith.
Evidentemente não eram para desprezar estas observações em globo.
Era fora de duvida que aquelle clarão fôra observado em diversos
pontos,—successivamente—no intervallo de algumas horas. Portanto ou elle
se produzia em alguns, em uns poucos de fócos, percorrendo a atmosphera
terrestre, ou então, se era devido a um fóco unico, é porque esse fóco
podía mover-se com uma velocidade que devia alcançar pelo menos duzentos
kilometros por hora.
Mas quem é que vira ainda, durante o dia, uma cousa tão anormal na
atmosphera?
Ninguem!
Pelo menos havia-se ouvido a trombeta alguma vez, através as camadas
aereas?
Mas nem o minimo som se sentíra entre o erguer e o pôr do sol.
No Reino Unido causou isto uma grande perplexidade. Os observatorios não
chegaram a um accôrdo. Greenwich não se entendia com Oxford, apesar de
ambos estarem de accôrdo em que “não havia nada„.
—Illusão optica! dizia um.
—Illusão acustica! respondia outro.
E sobre isso disputavam. Em todo o caso, illusão.
No observatorio de Berlim, no de Vienna, a discussão ameaçava trazer
complicações internacionaes. Mas a Russia, na pessoa do director do
observatorio de Ponlkowa, provou-lhes que tinham ambos razão;—isso
provinha do ponto de vista em que se collocavam para determinar a
natureza do phenomeno, impossivel em theoria e possivel na prática.
Na Suissa, no observatorio de Sautis, no cantão de Appenzel, no Righi,
no Cabris, nos postos de Saint-Gothard, de S. Bernardo, do Julier, do
Simplon, de Zurich, da Somblick nos Alpes tyrolezes, deram prova de
uma extrema reserva, a respeito de um facto que ninguem poude nunca
contestar,—o que era muito razoavel.
Mas na Italia, nas estações meteorologicas do Vesuvio, no posto do Etna,
installado na antiga _Casa Inglese_, em Monte Cavo, os observadores não
hesitaram em admittir a materialidade do phenomeno, attendendo a que
haviam podido vêl-o, um dia, sob o aspecto de uma pequena voluta de
vapor, e uma noite sob o aspecto de uma estrella cadente. Mas o que era
afinal de contas, ninguem o sabia absolutamente.
Com effeito aquelle mysterio começava a fatigar os homens de sciencia,
emquanto que continuava a apaixonar, a assombrar mesmo, os humildes e os
ignorantes, que teem constituido, constituem e continuarão a constituir
a maioria, a immensa maioria, graças a uma sabia lei da natureza. Os
astronomos e os meteorologistas teriam portanto renunciado a occupar-se
d’elle se, na noite de 26 para 27, o observatorio de Kantokeino,
no Finmark, da Noruega, e na noite de 28 para 29, o de Isfjord, em
Spitzberg,—norueguezes por um lado e suecos por outro, não tivessem
chegado a um accôrdo sobre o seguinte:—no meio de uma aurora boreal tinha
apparecido uma especie de grande ave, ou monstro aereo. Se não fôra
possivel determinar a sua estructura, pelo menos era fora de duvida que
destacava de si corpusculos que detonavam como bombas.
Na Europa bem quizeram não pôr em duvida esta observação das estações de
Finmark e do Spitzberg. Mas o que pareceu mais phenomenal em tudo isto,
foi que os suecos e os norueguezes pudessem chegar a um accôrdo sobre um
ponto qualquer.
Riram-se da pretendida descoberta em todos os observatorios da America
do sul, no Brazil ou no Perú como em la Plata, nos de Australia, em
Sydney ou em Adelaide, como em Melbourne. E o riso americano é dos mais
communicativos.
Um unico chefe de estação meteorologica se apresentou com uma opinião
affirmativa n’este ponto, apesar de todos os sarcasmos a que a sua
solução podia dar origem. Foi um chinez, o director do observatorio de
Zi-Ka-Wey, erigido no meio de uma vasta planicie, a menos de dez leguas
do mar, com um horisonte immenso, banhado de ar puro.
—Pode ser, disse elle, que o objecto de que se trata seja unicamente um
apparelho aviatorio, uma machina volante!
Pura zombaria!
Mas se as controversias tinham sido vivissimas no Antigo Continente,
imagine-se o que seria n’essa porção do continente novo, de que os
Estados Unidos occupam o mais vasto territorio.
Um Yankee, como se sabe, não hesita no caminho a seguir; opta por um e
geralmente pelo que vae directamente ao fim. De modo que os observatorios
da Federação americana não hesitaram em se pronunciarem. Se não atiraram
com os oculos á cara uns dos outros, é que teriam de os substituir na
occasião em que mais necessidade tinham de se servirem d’elles.
N’esta questão tão controversa, as observações de Washington, no
districto de Columbia, e no de Cambridge, no Estado de Duna, foram de
encontro ás de Ann-Arbor, no Michigan. O objecto da disputa não versou
sobre a natureza do corpo observado, mas sobre o instante preciso da
observação, porque todos pretendiam tel-o visto na mesma noite, á
mesma hora, no mesmo minuto, no mesmo segundo, embora a trajectoria
do mysterioso mobil não occupasse senão uma mediocre altura acima
do horisonte. Ora do Connecticut ao Michigan, do Duna ao Colombia, a
distancia é assaz grande para que essa dupla observação, feita ao mesmo
tempo, pudesse ser considerada impossivel.
Dudley, na Albania, no Estado de Nova York, e West Point, da Academia
militar, desmentiram os seus collegas por meio de uma nota que dava a
ascenção recta e a declinação do tal corpo.
Mas reconheceu-se mais tarde que aquelles observadores se tinham enganado
com o corpo, observando um bolide que não fizera mais do que atravessar a
camada média da atmosphera. Portanto aquelle bolide não podia entrar em
questão. Além d’isso como é que aquelle bolide podia tocar trombeta?
Quanto a esta trombeta, em vão buscaram lançar a sua ruidosa fanfarra
á conta de illusões acusticas. Nem os ouvidos, nem os olhos enganavam.
Tinham visto, tinham ouvido perfeitamente. Na noite de 12 para 13 de
maio,—noite sombria,—os observatorios de Yale-College, na Eschola
scientifica de Scheffield, tinham podido transcrever alguns compassos
de uma phrase musical, em ré maior, a quatro tempos, que dava, nota por
nota, rythmo por rythmo, o estribilho do _Chant du Départ_.
—Bem! responderam os chocarreiros, é uma orchestra franceza que toca no
meio das camadas aereas.
Mas gracejar não era responder. É o que fez notar o observatorio de
Boston, fundado pela _Atlantic Yron Works Society_, cujas opiniões sobre
questões de astronomia e de meteorologia começavam a constituir lei no
mundo scientifico.
Interveio então o observatorio de Cincinnati, creado em 1870 sobre o
monte Lookout, graças á generosidade do sr. Kilgoor, e tão conhecido
pelas suas medidas micrometricas das estrellas duplas. O seu director
declarou, na mais completa boa fé, que havia o quer que fôsse; que um
objecto qualquer se mostrava, em tempos assaz proximos, em diversos
pontos da atmosphera, mas que sobre a natureza d’aquelle objecto, as suas
dimensões, a sua velocidade, a sua trajectoria, era impossivel dizer nada.
Foi então que um jornal, cuja publicidade é numerosa, o _New York
Herald_, recebeu de um assignante a seguinte communicação annonyma:
“Está ainda na lembrança de todos a rivalidade que trouxe
em conflicto, ha alguns annos, os dois herdeiros da Begum
de Ragginahra: esse doutor francez Sarrasin, na cidade de
Franceville, e o engenheiro allemão Herr Schultze, na cidade de
Stahlstadt, situadas ambas na parte sul do Orégon, nos Estados
Unidos.
“Tambem se não devem ter esquecido que, no intuito de destruir
Franceville, Herr Schultze lançou um formidavel apparelho que
devia cahir sobre a cidade franceza e anniquilal-a de um só
golpe.
“Ainda menos se terão esquecido de que esse apparelho, cuja
velocidade inicial, ao sahir da bôcca do canhão monstro, fôra
mal calculada, foi levado com rapidez superior a dezeseis vezes
a dos projectis ordinarios,—isto é, cento e cincoenta leguas
por hora,—que não tornou a cahir sobre a terra e que, passado a
estado de bolide, circula e deve circular eternamente em volta
do nosso globo.
“E porque não será esse o corpo em questão, cuja existencia se
não pode negar„?
Muito engenhoso era este assignante do _New York Herald_. E a
trombeta?... Não levava trombeta o projectil de Herr Schultze!
Portanto todas essas explicações não explicavam nada, todos esses
observadores observavam mal.
Restava comtudo a hypothese proposta pelo director de Zi-Ka-Wey. Mas a
opinião de um chinez!...
Não se imagine que o publico do Antigo e Novo Mundo acabou por se cançar.
Não! as discussões continuaram cada vez mais, sem chegarem a um accôrdo.
E comtudo, houve um praso de espera. Passaram-se alguns dias, sem que o
objecto, bolide ou qualquer outro, fôsse visto, sem que nenhum som de
trombeta se ouvisse no ar. Teria o corpo cahido n’algum ponto do globo,
onde fôsse difficil encontrar-lhe os vestigios,—no mar por exemplo?
Jazeria nas profundezas do Atlantico, do Pacifico, do Oceano Indico? O
que dizer a este respeito?
Mas, entre 2 e 9 de junho, uma serie de factos novos se deram, cuja
explicação, só pela existencia de um phenomeno cosmico, seria impossivel.
Em oito dias, os hamburguezes, na ponta da Torre de S. Miguel; os
turcos, no mais alto minarete da Santa Sophia; os ruennezes, no extremo
do Munster; os americanos, sobre a cabeça da sua estatua da liberdade,
á entrada do Hudson, e no fuste do monumento de Washington, em Boston;
os chinezes, no vertice do templo dos Quinhentos Genios, em Cantão;
os indios, no 16.º pavimento da pyramide do templo de Tanjur; os
San-Prietrini, na cruz de S. Pedro de Roma; os inglezes, na cruz de S.
Paulo de Londres; os egypcios no angulo agudo da grande pyramide de
Gizeh; os parisienses, nos pára-raios da torre de ferro da exposição de
1889, da altura de tresentos metros, puderam ver uma bandeira a fluctuar
em cada um d’estes pontos difficilmente accessiveis.
E essa bandeira era um panno preto, semeado de estrellas, com um sol de
ouro no centro.
CAPITULO II
DE COMO OS MEMBROS DO WELDON-INSTITUTE DISPUTAM ENTRE SI, SEM CHEGAREM A
UM ACCORDO
—E o primeiro que disser o contrario ...
—Serio!... Pois dil-o-hão, se vier a proposito dizer!
—E mesmo apesar das suas ameaças!...
—Tome conta nas suas palavras, Bat Fyn!
—E nas suas, Uncle Prudent!
—Sustento que o helice não deve ficar na parte detraz!
—Tambem nós sustentamos! tambem nós! responderam cincoenta vozes,
confundidas n’um som unisono.
—Não!... Deve ficar na parte de deante.
—Na parte de deante! responderam cincoenta outras vozes, com um vigor não
menos notavel.
—Nunca chegaremos a um accôrdo!
—Nunca! Nunca!
—Então para que serve disputar?
—Não é disputar!... é discutir!
Ninguem tal diria, ao ouvir as replicas, as objurgatorias, as
vociferações, que enchiam a sala das sessões, havia um bom quarto de hora.
É verdade que aquella sala era a maior do Weldon-Institute, o club mais
celebre, entre todos, estabelecido em Walnut Street, em Philadelphia,
Estado de Pensylvania, nos Estados Unidos da America.
Ora na vespera, na cidade, a proposito da eleição de um acendedor de gaz,
houvera manifestações publicas, meetings ruidosos, troca de pancadaria
de parte a parte. D’ahi uma effervescencia que não estava ainda serenada,
e d’onde provinha talvez aquella sobreexcitação manifestada pelos membros
do Weldon-Institute. Comtudo não passava de uma reunião de “balonistas„
discutindo a questão ainda palpitante,—mesmo n’aquella épocha,—da
direcção dos balões.
Passava-se isto n’uma cidade dos Estados Unidos, cujo desenvolvimento
fôra ainda mais rapido que o de Nova York, de Chicago, de Cincinnati,
de S. Francisco,—uma cidade maior que Berlim, Manchester, Edimburgo,
Liverpool, S. Petersburgo, uma cidade, finalmente, que conta hoje cêrca
de um milhão e duzentas mil almas, e passa por ser a quarta cidade maior
do mundo, depois de Londres, Paris, e Nova York.
Philadelphia é quasi uma cidade de marmore, com casas em grande estylo,
e estabelecimentos publicos sem rivaes. O mais importante de todos os
collegios de Nova York é o collegio Girard, e está em Philadelphia. A
maior ponte de ferro, é a ponte lançada sobre o rio Schuylkill, e está
na Philadelphia. O mais bello templo da Franco-Maçonaria, é o templo
Maçonico, que está em Philadelphia. Finalmente, o maior club dos adeptos
da navegação aerea está em Philadelphia. E vamos visital-o n’esta noite
de 12 de julho, que lhe acharemos algum interesse.
N’essa grande sala agitavam-se, moviam-se, gesticulavam, falavam,
discutiam, disputavam—e todos de chapéo na cabeça,—uns cem balonistas,
sob a auctoridade de um presidente, ajudado por um secretario e por um
thesoureiro.
Não eram engenheiros de profissão; eram simples amadores de tudo que
diz respeito á aerostatica, mas amadores façanhudos, e particularmente
inimigos dos que desejam oppôr aos aerostatos os apparelhos “mais pesados
que o ar„, machinas volantes, navios aereos e o mais.
Nada era para admirar que essa boa gente nunca chegasse a encontrar a
direcção dos balões, quando o presidente nem sequer lograva dirigil-os a
elles proprios.
Aquelle presidente, bem conhecido em Philadelphia, era famigerado.
Chamava-se Uncle Prudent. Prudent, pelo seu nome de familia. Quanto ao
qualificativo Uncle, não era para admirar na America, onde se pode ser
tio sem ter sobrinho nem sobrinha. Tio, entre elles, como n’outras partes
se chama pae, a determinadas pessoas que nunca exerceram a missão da
paternidade.
Tio Prudent era uma personagem importante, e a despeito do seu nome,
era citado pela sua ousadia. Riquissimo, o que não faz mal a ninguem,
mesmo nos Estados Unidos. E como não havia de ser rico, se possuia uma
grande parte das acções do Niagara Falls? Fôra n’aquella occasião fundada
uma sociedade de engenheiros, em Buffalo, para explorar as cataratas.
Excellente negocio. Os sete mil e quinhentos metros cubicos que o Niagara
verte por segundo, produzem sete milhões de cavallos a vapor. Aquella
fôrça enorme, distribuida por todas as officinas estabelecidas n’um raio
de quinhentos kilometros, dava annualmente uma economia de quinhentos
milhões de francos, cuja uma parte entraria nas caixas da sociedade e em
particular nas algibeiras de Uncle Prudent.
Além d’isso era solteiro, vivia modestamente, tendo por unico pessoal
domestico o seu creado Frycollin, que aliás não merecia estar ao serviço
de um homem tão audacioso. Ha d’estas anomalias.
Está claro que Uncle Prudent tinha amigos, visto ser rico; mas tinha
tambem inimigos, por ser presidente do club, e entre esses inimigos
contava todos os que invejavam essa situação. Entre os mais encarniçados,
deve-se citar o secretario do Weldon-Institute.
Era Phil Evans riquissimo tambem, porque dirigia a _Walton Watch
Company_, importante armazem de relogios, que fabrica por dia quinhentos
movimentos mechanicos, e lança no mercado productos comparaveis aos
melhores da Suissa. Phil Evans poderia passar por um dos homens mais
felizes do mundo e mesmo dos Estados Unidos, se não fôra a situação de
Uncle Prudent. Como elle, tinha quarenta annos; tinha como elle uma
saude a toda a prova; como elle uma audacia indiscutivel; como elle,
pouco desejo de trocar as vantagens certas do celibato pelas duvidas do
casamento. Eram dois homens talhados para se comprehenderem, mas que não
se comprehendiam; e ambos de uma extrema violencia de caracter; um a
quente, o Uncle Prudent; outro a frio, Phil Evans.
E como é que Phil Evans não fôra nomeado presidente do club? Os votos
tinham-se dividido por egual entre Uncle Prudent e elle. Vinte vezes se
procedeu ao escrutinio, e vinte vezes não se podéra estabelecer a maioria
nem por um nem por outro. Situação embaraçosa, que poderia durar mais que
a vida dos dois candidatos.
Um dos membros do club propoz então um meio de se dividirem os votos. Foi
Jem Cip, o thesoureiro de Weldon-Institute. Jem Cip era um vegetariano
convicto, ou por outra, um d’esses leguministas, dos que proscrevem
todo o alimento animal e liquidos fermentados, meio brahmanes, meio
mussulmanos; um rival dos Niewman, dos Pitman, dos Ward, dos Davie, que
teem illustrado a seita d’esses maniacos inoffensivos.
N’esta occorrencia, Jem Cip foi sustentado por um outro membro do club,
William T. Forbes, director de uma grande officina, onde se fabríca a
glucose, tratando os trapos por meio do acido sulfurico, o que permitte
fazer assucar com pannos velhos. Era um homem bem posto, esse Wiliam
T. Forbes, pae de duas encantadoras raparigas: miss Dorothéa, chamada
Doll, e miss Martha, chamada Mat, que davam o tom na melhor sociedade de
Philadelphia.
Resultou pois, da proposta de Jem Cip, apoiado por Wiliam T. Forbes e
alguns outros, que se resolveu nomear o presidente do club por meio do
“ponto médio„.
Com effeito este modo de se fazer a eleição podia ser applicado em todos
os casos em que se tratava de eleger o mais digno; e grande numero de
americanos de bom senso pensavam já em o empregar para a nomeação do
presidente da Republica dos Estados Unidos.
Sobre dois quadrados de uma completa brancura, fôra traçada uma linha
preta. O comprimento de cada uma d’estas linhas era mathematicamente o
mesmo, porque fôra determinado com tanta exactidão como se se tratasse da
base do primeiro triangulo n’um trabalho de triangulação. Feito isto, os
dois quadros eram expostos no mesmo dia no meio da sala das sessões; os
dois concorrentes muniam-se cada um de uma agulha muito fina e caminhavam
simultaneamente para o quadro que lhes estava destinado. Aquelle dos dois
rivaes que pregasse a agulha mais ao meio da linha, seria proclamado
presidente do Weldon-Institute.
É claro que a operação devia ser feita de repente, sem hesitações, sem
tacteamentos, unicamente pela firmeza da vista. Ter o compasso no olho,
segundo a phrase popular.
Uncle Prudent espetou a sua agulha, ao mesmo tempo que Phil Evans a
sua. Depois tomou-se a medida, afim de decidir qual dos concorrentes se
approximára mais do ponto médio.
Oh! prodigio! Tal fôra a precisão das operações que as medidas não deram
differença sensivel. Se não era precisamente o meio mathematico da linha,
era tão pouco sensivel o afastamento entre as duas agulhas, que parecia
ser o mesmo nas duas.
D’ahi grande embaraço na assembléa.
Felizmente um dos membros, Truk Milnor, insistiu por que as medidas
fôssem de novo tomadas por meio de uma regua graduada pelos processos da
machina micrometrica do sr. Perreaux, que permitte dividir o millimetro
em quinhentas partes. Esta regua, que dá quinze centesimos de millimetro
traçados com uma lasca de diamante, serve para verificar as medidas,
e tendo-se lido as divisões por meio do micrometro, obtiveram-se os
resultados seguintes:
Uncle Prudent approximára-se do ponto médio menos de seis quinze
centesimos de millimetro, Phil Evans menos de nove quinze centesimos.
E ahi está porque Phil Evans não ficou senão secretario do
Weldon-Institute, emquanto que Uncle Prudent foi proclamado presidente do
club.
Uma differença de tres quinze centesimos de millimetro foi o sufficiente
para que Phil Evans votasse a Uncle Prudent um d’esses odios que, por
serem latentes, não são menos ferozes.
N’aquella épocha, depois das experiencias tentadas no ultimo quartel do
seculo XIX, a questão dos balões dirigiveis não deixára de fazer alguns
progressos. As barquinhas munidas de helices propulsivos, suspensas em
1852 aos aerostatos de forma alongada de Henry Giffard, em 1872, aos
de Depuy de Lome, em 1883, aos de Tissandier Irmãos, em 1884, aos dos
capitães Krebs e Renard, haviam dado certos resultados que era necessario
ter em consideração.
Mas se estas machinas, immersas n’um meio mais pesado do que ellas,
manobrando sob o impulso de um helice, obliquando com a linha de vento,
servindo-se mesmo de uma brisa contraria para voltar ao seu ponto de
partida, eram d’esse modo realmente “dirigidas„, não tinham podido
conseguir este resultado senão graças a umas circumstancias extremamente
favoraveis. Em vastos recintos fechados e cobertos, perfeitamente! N’uma
atmosphera serena, muito bem! Com um vento brando de cinco a seis metros
por segundo, ainda vá! Mas a verdade é que nada de positivo se obtivera.
Contra um vento de moinho, de oito metros por segundo, aquellas machinas
ficariam pouco mais ou menos estacionarias; contra uma brisa fresca,—dez
metros por segundo,—caminhariam para traz; vinte e cinco a trinta metros
por segundo, seriam arrebatadas como uma penna; no meio de um furacão,
quarenta e cinco metros por segundo, correriam talvez o risco de serem
espedaçadas; finalmente com um d’esses cyclones que chegam a mais de cem
metros por segundo, não ficaria um pedaço!
Era portanto sabido que, mesmo depois das experiencias tão faladas dos
capitães Krebs e Renard, se os aerostatos dirigiveis tinham ganho uma
certa velocidade, era justamente o necessario para se manterem contra uma
simples brisa. D’ahi a impossibilidade de usar praticamente, até então,
d’esse modo de locomoção aerea.
Seja como fôr, ao lado d’este problema da direcção dos aerostatos, isto
é, dos meios empregados para lhes dar uma velocidade propria, a questão
dos motores tinha feito progressos incomparavelmente mais rapidos. Ás
machinas a vapor de Henry Giffara, ao emprego da fôrça muscular de Depuy
de Lome, tinham-se substituido a pouco e pouco os motores electricos.
Ás baterias de bichromato de potassa, formando elementos montados em
tensão, os srs. Tissandier Irmãos deram uma velocidade de quatro metros
por segundo. As machinas dynamo-electricas dos capitães Krebs e Renard,
desenvolvendo uma fôrça de doze cavallos, imprimiram uma velocidade de
seis metros e cincoenta, termo médio.
E então, n’esse caminho á busca do melhor motor, os engenheiros e
especialistas da electricidade tinham procurado approximar-se cada
vez mais d’esse desideratum que se pode chamar “um cavallo de vapor
n’uma caixa de relogio„. De modo que a pouco e pouco os effeitos da
pilha, de que os capitães Krebs e Renard tinham guardado silencio, eram
ultrapassados e, depois d’elles, os aerostatos tinham podido servir-se de
motores, cuja ligeireza ia crescendo ao par da sua fôrça.
Havia portanto já com que animar os adeptos que acreditavam na utilisação
dos balões dirigiveis. E, no entanto, quantos espiritos lucidos se
negavam a admittir esta utilisação! Com effeito, se o aerostato encontra
um ponto de apoio no ar, pertence a esse meio em que está todo immerso.
Em taes condições como é que a sua massa, que dá tanto flanco ás
correntes da atmosphera, poderia fazer frente a ventos médios, por mais
poderoso que fôsse o seu propulsor?
Era a eterna questão, mas esperavam resolvel-a empregando apparelhos de
grandes dimensões.
Ora acontecia que, n’esta lucta de inventores á busca de um motor
poderoso e leve, os americanos se tinham approximado cada vez mais do
_desideratum_. Um apparelho dynamo-electrico, baseado no emprego de uma
pilha nova, cuja composição era ainda um mysterio, tinha sido comprado
ao seu inventor, um chimico de Boston até então desconhecido. Calculos
feitos com o maior cuidado, diagrammas levantados com a maior exactidão,
demonstravam que com aquelle apparelho, actuando n’um helice de dimensão
conveniente, se poderia obter deslocamentos de dezoito a vinte metros por
segundo.
Na realidade, sería magnifico!
—E não é caro! tinha accrescentado Uncle Prudent, entregando ao inventor,
em troca do seu recibo em forma, o ultimo maço dos cem mil dollars em
papel, com que lhe pagavam o seu invento.
Immediatamente, o Weldon-Institute puzera mãos á obra. Quando se trata
de uma experiencia que pode ter alguma utilidade prática, o dinheiro
sae de boa vontade das algibeiras americanas. Os fundos affluem sem que
mesmo seja necessario constituir uma sociedade por acções. Tresentos mil
dollars,—o que faz a somma de quinhentos mil francos,—vieram ao primeiro
appello amontoar-se nos cofres do club. Os trabalhos começaram sob a
direcção do mais celebre aeronauta dos Estados Unidos, Harry W. Tinder,
immortalisado pelas suas tres ascensões, entre mil: uma durante a qual
subira a doze mil metros, mais alto que Guy-Lussac, Coxwell, Sivel,
Crocé-Spinelli, Tissandier, Glaisher; a outra, durante a qual atravessára
toda a America, de Nova York a S. Francisco, indo muitas centenas de
leguas além dos itinerarios de Nodar, dos Godard, e de tantos outros, não
falando n’esse John Wise que tinha feito mil cento e cincoenta milhas de
S. Luiz ao condado de Jefferson; a terceira, finalmente, que terminára
por uma quéda horrorosa de mil e quinhentos pés, á custa de uma simples
escoriação no pulso direito, emquanto que Pilatre de Rozier, menos feliz,
por ter cahido apenas de setecentos pés, ficára morto de um só golpe.
No momento em que esta historia começa, podia-se dizer que o
Weldon-Institute entrava abertamente no assumpto. Nos estaleiros de
Turner, na Philadelphia, extendia-se um enorme aerostato, cuja solidez ia
ser experimentada, comprimido o ar sob uma forte pressão. Este era o que,
entre todos, merecia o nome de balão monstro.
Com effeito, quanto media o _Gigante_ de Nadar? Seis metros cubicos.
Quanto o balão Giffard, da Exposição de 1878? Vinte e cinco mil metros
cubicos, com dezoito metros de raio. Comparem estes tres aerostatos com a
machina aerea do Weldon-Institute, cujo volume era de quarenta mil metros
cubicos, e comprehenderão que Uncle Prudent e seus collegas tinham algum
direito para se encherem de orgulho.
Não sendo esse balão destinado a explorar as altas camadas da atmosphera,
não se chamava _Excelsior_, qualificativo muito querido dos americanos.
Não! chamava-se simplesmente o _Go a head_,—o que quer dizer:—“Ávante„—e
não lhe restava mais do que justificar o seu nome, obedecendo a todas as
manobras do seu capitão.
N’aquella épocha, a machina dynamo-electrica estava quasi completamente
concluida, segundo o systema cujo privilegio fôra adquirido pelo
Weldon-Institute. Podia-se contar que antes das seis semanas, o _Go a
head_ largaria vôo através do espaço.
Como vimos, todas as difficuldades da machina não estavam ainda
removidas. Muitas sessões tinham sido consagradas a discutir, não a
forma do helice, nem as suas dimensões, mas a questão de saber se seria
collocado atraz do apparelho, como haviam feito os Irmãos Tissandier,
ou adeante, como haviam feito os capitães Krebs e Renard. Inutil é
accrescentar que, n’aquella discussão, os partidarios dos dois systemas
tinham chegado a vias de facto. O grupo dos “adeantistas„ egualava em
numero o grupo dos “atrazistas„. Uncle Prudent, cujo voto teria de
preponderar no caso do empate, Uncle Prudent, educado na eschola do
professor Buridan, não tinha chegado ainda a pronunciar-se.
D’ahi a impossibilidade de se entenderem, a impossibilidade de pôrem
o helice no seu logar. Isso podia durar muito tempo, se o governo não
entreviesse. Mas nos Estados Unidos, como se sabe, o governo não gosta
de se entremetter nas questões particulares, nem no que lhe não diz
respeito, e n’isso tem toda a razão.
Estavam as cousas n’esse ponto, e aquella sessão de 13 de junho ameaçava
não acabar ou antes acabar no meio do mais espantoso tumulto; tanto as
injurias respondiam a injurias, os sôccos ás injurias, as bengaladas aos
sôccos, os tiros de revolver ás bengaladas, quando ás oito e trinta e
sete se produziu uma diversão.
O porteiro do Weldon-Institute, frio e tranquillo como um policia no meio
das tempestades de um meeting, approximára-se da mesa da presidencia, e
entregára-lhe uma carta. Esperava pelas ordens que a Uncle Prudent lhe
conviesse dar.
Uncle Prudent fez resoar a trombeta de vapor, que lhe servia de campainha
presidencial, porque nem o sino de Kremlin lhe bastaria. Mas o tumulto
não diminuiu por isso. Então o presidente descobriu-se, e um meio
silencio se obteve, graças áquella medida extrema.
—Uma communicação! disse Uncle Prudent, depois de tomar uma enorme
pitada, da caixa de rapé que nunca o largava.
—Fale! fale! responderam noventa e nove vozes, por um acaso uniformes
n’este ponto.
—Meus caros collegas, um extrangeiro pede para ser recebido na sala das
nossas sessões.
—Nunca! responderam todas as vozes.
—Deseja provar-nos, ao que parece, respondeu Uncle Prudent, que acreditar
na direcção dos balões é acreditar na mais absurda das utopias.
Um grunhido acolheu esta declaração.
—Que entre! Que entre!
—Como se chama esse singular personagem? perguntou Phil Evans.
—Robur, respondeu Uncle Prudent.
—Robur!... Robur!... Robur!... rugiu a assembléa em pêso.
E se o accôrdo se fizera tão rapidamente sobre aquelle nome singular, é
porque o Weldon-Institute esperava poder descarregar sobre aquelle que o
usava o seu exaspero a trasbordar.
A tempestade tinha-se apasiguado um instante, pelo menos na apparencia.
Porque, como é que uma tempestade podia acalmar n’um povo que as envia ás
duas ou tres por mez, para a Europa, sob forma de borrascas?
CAPITULO III
DE COMO UM NOVO PERSONAGEM NÃO TEVE NECESSIDADE DE SER APRESENTADO, POIS
SE APRESENTOU ELLE PROPRIO
—Cidadãos dos Estados Unidos da America, eu chamo-me Robur, e sou digno
d’este nome. Tenho quarenta annos, embora não pareça ter mais de trinta;
tenho uma constituição de ferro, uma saude a toda a prova, uma notavel
fôrça muscular, um estomago que pareceria excellente, mesmo no mundo dos
abestruzes. Isto quanto ao physico.
Todos o escutavam. Sim! Os turbulentos ficaram de repente estupefactos
com o inesperado d’aquelle discurso, _pro facie sua_. Sería um louco ou
um mystificador? Seja como fôr, o facto é que impunha e se impunha. Nem o
mais leve sopro se sentia agora n’aquella assembléa, onde havia pouco se
desencadeava a tempestade. A calma após o marulhar das ondas.
Além de que Robur parecia bem ser o homem que elle dizia. Estatura
mediana, geometricamente quadrado de tronco,—de modo que formava, por
assim dizer, um trapesio regular, cujo maior dos lados parallelos
era formado pela linha das espaduas. Sobre esta linha, e presa por
um pescoço robusto, uma enorme cabeça espheroidal. A darmos razão ás
theorias da analogia, com que animal se parecia elle? Com um touro; mas
um touro de physionomia intelligente.—Olhos que á menor contrariedade
se tornavam incandescentes, e, por cima, uma permanente contracção do
musculo sobreciliar, signal de extrema energia. Cabellos curtos, um
tanto crespos, com reflexos metallicos, como sería um topete em palha
de ferro. Amplo peito, que se erguia e se abaixava com movimentos de
folle. Braços mãos, pernas, pés, tudo digno do tronco. Nem sombra de
bigode, nem suissa: uma larga barba de marinheiro, á americana, o que
deixava ver os encontros da queixada, cujos musculos masseters deviam ter
uma fôrça formidavel. Calculou-se,—e o que se não tem calculado?—que a
pressão de uma mandibula de crocodilo vulgar pode attingir quatrocentas
atmospheras, quando a do cão de caça, de grande estatura, não desenvolve
mais de cem. Chegou-se mesmo a estabelecer a seguinte fórmula: se um kilo
de cão produz oito kilos de fôrça masseterica, um kilo de crocodilo deve
produzir doze. Pois bem:—um kilo do sobredito Robur devia produzir pelo
menos dez. Estava portanto entre o cão e o crocodilo.
De que paiz vinha então aquelle notavel typo? É o que sería difficil
dizer. Entretanto elle exprimia-se correntemente em inglez, sem aquella
accentuação um tanto arrastada que distingue os Yankees da Nova
Inglaterra.
Continuou nos seguintes termos:
—Agora quanto ao moral, respeitaveis cidadãos. Tendes deante de vós um
engenheiro cujo moral não é inferior ao seu physico. Não tenho medo de
ninguem. Tenho uma fôrça de vontade que jámais cedeu a nenhuma outra.
Deante de um fim a que eu me propuzesse, em vão a America toda, em
vão o mundo inteiro se colligariam para impedir que eu o realisasse.
Quando tenho uma idéa, entendo que a devem partilhar, e não supporto
contrariedades. Insisto n’estes pormenores, respeitaveis cidadãos,
porque é necessario que me conheçaes a fundo. Entendem talvez que eu
falo demasiadamente em mim. Não importa! E agora reflecti antes de me
interromperem, porque vim no proposito de vos dizer cousas que não terão
talvez o dom de vos ser agradaveis.
Um ruido de resaca começou a espalhar-se pelas primeiras bancadas da
assembléa,—signal de que o mar não tardaria a tornar-se tempestuoso.
—Fale, digno extrangeiro,—limitou-se a dizer Uncle Prudent, que se
continha com esforço.
E Robur falou como d’antes, sem se preoccupar com o auditorio.
—Sim! Bem sei! Depois de um seculo de experiencias sem resultado, de
tentativas inuteis, ha ainda espiritos mal equilibrados que se obstinam
em acreditar na direcção dos balões. Imaginam que um motor qualquer,
electrico ou outro, pode ser applicado ás suas pretenciosas geringonsas,
que offerecem tamanho flanco ás correntes atmosphericas. Imaginam que
podem ser senhores de um aerostato, como se é senhor de um navio na
superficie das aguas. Pois pelo facto de alguns inventores, por um tempo
calmo, conseguirem, quer obliquar com o vento, quer subir com uma brisa
ligeira, significa isso que se torna prática a direcção de apparelhos
aereos mais leves que o ar? Deixem-se d’isso! Sois aqui uns cem que
acreditando na realisação dos vossos sonhos, lançaes, não á agua, mas ao
ar, milhares de dollars. Pois bem! isso é luctar com o impossivel!
Cousa singular! deante d’esta affirmação, os membros do Weldon-Institute
não tugiram nem mugiram. Ter-se-hiam tornado tão surdos, quanto
pacientes? Guardariam reserva, a vêr até onde se atrevia a ir esse
audacioso contradictor?
Robur continuou:
—Um balão!... quando para obter um aligeiramento de um kilogramma, é
necessario um metro cubico de gaz! Um balão, que tem a pretensão de
resistir ao vento com o auxilio do seu mechanismo, quando o impulso de um
forte vento na véla de um navio não é inferior á fôrça de quatrocentos
cavallos; quando se viu, ao oéste da ponte de Tay, que o furacão exercêra
uma pressão de quarenta kilos por metro quadrado! Um balão! quando jámais
a natureza construiu sobre esse systema nenhum ser que vôe, que esteja
munido de azas como as aves, ou de membranas como certos peixes e certos
mammiferos!...
—Mammiferos?... exclamou um dos membros do club.
—Sim! o morcego, que vôa, se me não engano! Porventura o meu interruptor
ignora que esse volatil é um mammifero, e já se viu alguma vez fazer uma
omelette com os ovos do morcego?
Com isto o interruptor recolheu as suas futuras interrupções, e Robur
continuou com a mesma desenvoltura:
—Mas quer isto dizer que o homem deva renunciar á conquista do ar, a
transformar os costumes civis e politicos do velho mundo, servindo-se
d’esse admiravel meio de locomoção? Não! E do mesmo modo que elle se
tornou senhor dos mares, com o navio, por meio do leme e da véla, da
roda e do helice, do mesmo modo se tornará senhor do espaço atmospherico
por meio de apparelhos mais pesados do que o ar, porque é necessario
ser-se mais pesado do que elle, para se ser mais do que elle forte.
D’esta vez a assembléa explodiu. Que descarga de gritos partindo de todas
as bôccas, dirigidas contra Robur, como outros tantos canos de espingarda
ou guellas de canhão! Pois não precisava de resposta aquella verdadeira
declaração de guerra, lançada no campo dos balonistas? Não era a lucta
que ia começar entre o “Mais ligeiro„ e o “Mais pesado que o ar„?
Robur nem pestanejou. Com os braços cruzados sobre o peito, esperava
corajosamente que o silencio se restabelecesse.
Uncle Prudent, com um gesto, ordenou que o fogo cessasse.
—Sim, continuou Robur. O futuro é das machinas volantes. O ar é um ponto
de apoio solido. Imprima-se a uma columna d’este fluido um movimento
ascensional de quarenta e cinco metros por segundo, e um homem poderá
manter-se na sua parte superior, se as solas dos seus sapatos medirem
uma superficie de um oitavo de metro quadrado apenas. E se a velocidade
da columna fôr elevada a noventa metros, poderá caminhar a pés nús. Ora
fazendo fugir, sob as hastes de um helice, uma massa de ar com aquella
rapidez, obtem-se o mesmo resultado.
O que Robur estava dizendo era o que antes d’elle tinham dito todos os
partidarios da aviação, cujos trabalhos deviam, lentamente, mas com um
effeito seguro, conduzir á solução do problema. Cabe aos srs. de Ponton
d’Amécourt, de La Landelle, Nadar, de Luzy, de Louvrié, Liais, Béléguic,
Moreau, irmãos Richard, Babinet, Jobert, du Temple, Salives, Penaud, de
Villeneuve, Gauchot e Tatin, Michel Loup, Edison, Planavergne e tantos
outros finalmente, a honra de haverem propagado idéas tão simples!
Abandonadas e tornadas a adoptar muitas vezes, não podiam deixar de
triumphar um dia. Aos inimigos da aviação, que pretendiam que a ave não
se sustem senão pelo facto de aquecer o ar com que se entufa, a resposta
não tardou. Pois não haviam provado que uma aguia, que pesasse cinco
kilos, teria de se encher de cincoenta metros cubicos d’esse fluido
quente, só para se suster no espaço?
Foi o que Robur demonstrou, com uma logica innegavel, no meio da vozearia
que se levantava de todos os lados. E como conclusão, eis as phrases que
elle lançou á cara dos balonistas: