Hintze e José Luciano tinham-se congraçado no reinado de D. Carlos, e só
elles podiam tudo, só d'elles dependiam lugares, favores, vaidades e
interesses. Antonio Cabral está certo que foi pelos seus meritos--que
não são poucos--que chegou a ministro?... Ai de quem lhes desagradasse.
Ao irrequieto Fuschini entretiveram-no com as obras da Sé para o
arredarem da politica; ao José Dias Ferreira, que foi dos raros homens
de governo comezinho do seu tempo, nem sequer o ouviam nas camaras. Toda
a gente lhe voltava as costas quando falava. Sabia-se que o Paço o
detestava. O José Luciano e o Hintze sucederam-se, d'acordo, no governo
do paiz e no governo do Credito Predial, com identico sucesso!
Ambos elles eram pessoalmente muito boas pessoas, ambos elles tiveram um
fraco extraordinario pelos tratantes. O Hintze, o _homem que não ri_, o
_casaca de ferro_, era um homem um pouco cansado e com um lindo sorriso
para toda a gente:--Pois sim, pois sim...--Trato encantador. Nas camaras
era vel-o! Ninguem apresentava assim as questões: tinha tudo catalogado,
arrumado, disposto, e os papeis saltavam-lhe da carteira por arte
magica. O José Luciano, mais bonacheirão e ao mesmo tempo mais caustico,
conhecia como poucos os homens que lhe tinham passado em fita pelo salão
da sua casa, com as suas vaidades, as suas miserias, os seus rancores e
os seus vicios, e tocava-lhes sempre no ponto fraco. Pessoalmente
honesto,--quem o duvida?--mas tendo cada vez mais imperiosa a
necessidade de satisfazer clientelas cada vez mais sofregas--ambos
acabaram de corromper o paiz, já meio corrompido, até á medula. Importa
pouco que o snr. D. Luiz de Castro diga: «Hintze vendeu todo o seu
patrimonio e o de sua mulher para servir o reino e o rei» (_Dia_,
fevereiro, 1917). Sim, mas Hintze distribuiu a rodos o dinheiro da
nação, principalmente depois da scisão João Franco, e colocou toda a
gente a começar pelos seus[15].
Não resistiu. Delapidou, principalmente depois da scisão João Franco,
sem conta nem pezo nem medida. Anselmo Vieira diz: «José Maria dos
Santos entregou á viuva do Hintze, no dia do enterro, 21 contos de
lettras vencidas. Ora a questão do alcool entre o norte e o sul foi
sempre adiada pelo Hintze, o que fez ganhar 300 contos ao José Maria dos
Santos.» Na sua phrase pitoresca a politica portugueza estava condemnada
porque era um regimen de validos e _badamecos_. E cita este e aquelle e
aquelloutro, que, na sua opinião, e todos juntos, não valiam um
estadista. O Hintze não resolvia um problema, arredava-o, e as
complicações augmentavam sempre; se tinha a escolher entre dez homens,
escolhia sempre o peor... O honradissimo capitão Machado, duro como o
silex, chegou a par, porque, quando atacavam o José Luciano na camara
alta, dizia sempre:--Viessem elles cá para os deputados e quem os
ensinava era eu.--O pobre monsenhor inutil, que se chamou Santos Viegas,
achou outro _truc_ para o Hintze o elevar á mesma cathegoria: quando o
chefe do partido regenerador falava, cahia n'um assombro, de que não
havia arrancal-o!...--«Chegaram a ministros seres destituidos de todo o
miolo. O honradissimo Pequito, santissima creatura, foi um dia para uma
comissão, a que o José Dias presidia, com o Contracto dos Tabacos, que
elle só tinha assignado e mais nada. Havia um artigo redigido de forma
que cincoenta milhões de francos ficavam encobertos, para se poderem
pagar as dividas da Casa Real. José Dias pediu explicações, o outro
embrulhou-se, José Dias insistiu, o outro ficou de bocca aberta, com
cara de pasmo--até que o velho rabula lhe disse com soberano
desprezo:--Comprehendo, comprehendo... o snr. ministro da fazenda
precisa de ouvir os seus colegas para depois responder...--Se o José
Dias tem deixado passar aquella trapalhada talvez D. Carlos não tivesse
sido assassinado.»
A politica portugueza chegára a estar apenas nas mãos e dependente da
vontade dos chefes. O José Luciano dizia:--O meu partido não é que me
leva ao poder--sou eu que levo o meu partido ao poder. Dois homens e
clientelas. Alguem se filiou jamais n'um destes partidos por principio,
por ideal? ou foi por interesses, e, mais simplesmente, por simpathias
pessoaes?
E assim a força desses dois homens chegára tambem a ser ficticia:--não
provinha do paiz--provinha do rei... As camaras mero scenario; os
discursos, as atitudes, theatraes: o que havia a decidir não se decidia
alli. Tudo estava resolvido, preparado de antemão, nos salões, nas ante
camaras, nos gabinetes ou nos corredores, entre os chefes. O resto era
um espectaculo com as suas regras e os seus figurantes, absolutamente
inutil--absolutamente falso--absolutamente fóra de toda a realidade...
* * * * *
As camaras... Por lá passou Junqueiro, que de lá sahiu um dia
dizendo:--Vão áquella parte--; por lá passou o grande, o pobre João de
Deus, que nunca poude abrir a bocca, e outros homens ilustres. De lá
sahiu Fuschini, que se foi embora fazendo-lhes um manguito, quando
Arroyo n'uma sessão celebre lhe disse:--Ajoelhe a meus pés!--Oliveira
Martins, exhausto de trabalho; o romantico Chagas, cujas ultimas
palavras foram estas:--A vida é uma comedia.--Já não os ouvi, mas vi e
ouvi ainda o pachydermico Antonio d'Azevedo Castello Branco, o esguio e
taciturno Beirão, sempre alheado, o grande orador Antonio Candido, o
canarim Elvino de Brito, que manejava a palavra como quem maneja um
florete, e que o Hintze tratava d'alto, o anecdotico Baracho, cujos
discursos não tinham fim, o Campos Henriques, _lyrio pendente_, o
theatral Arroyo, o José d'Azevedo, o Eduardo Villaça tão amavel para
todos, tão afavel que ficou para sempre o Villacinha, o Chanceleiros,
com a sua grande gaforina branca, o severo e taciturno Dias Costa, que
morreu de desgosto, tendo cumprido o seu dever como um soldado, a
nobilissima figura do conde de Arnoso, que vejo sempre diante de mim,
bradando por justiça, e que acabou envolto em treva, jungido á sua dor,
o Jacintho Candido, um pouco apagado, mas resistente e teimoso, o João
Franco, o decorativo Wenceslau de Lima, o Pimentel Pinto, do alto dos
seus tacões, o Albano de Mello, tão admirador do José Luciano que chegou
a ponto de se parecer com elle na atitude, na voz e até no rosto, e, na
outra camara, a um lado o pitoresco conego José Dias, apopletico e
jovial, lá das bandas de Monsão, o torrencial Oliveira Mattos, que, a
primeira vez que falou, fez rebentar os cós das calças ao Chagas, que
perguntava entre spasmos de riso:--Mas quem é este homem? onde foram
buscar este homem?--e a quem ouço ainda invectivando o ministro da
guerra:--Heroe de Trajouce! heroe de Trajouce!--os Cabraes, um polido e
soturno, que o Hintze estimava, o outro, Antonio, de bigodes assanhados,
como um galo de combate; o José d'Alpoim, impulsivo, terrivel na
replica; o João Pinto dos Santos, um sistema de philosophia para cada
caso futil do dia, já branco, de punhos solidos, e sempre o mesmo
aprumo, a mesma linha, a mesma conducta; o Moreirinha, o Centeno, e o
juiz Francisco Medeiros que pouco antes de morrer (estou a ouvil-o) me
disse assim:--Tenho pena de não ter roubado como os outros...--E, diante
do meu espanto, concluiu:--Quando morrer deixo a minha filha pobre e os
outros estão ricos.--E a outro lado, o elegante, o frivolo conde de Paçô
Vieira, o lustroso conde de Castro Solla, o Anselmo Vieira, sempre a
debater finanças, sempre á espera das grandes ocasiões, sempre esquecido
á ultima hora na lista do ministerio, o estrabico Dias Ferreira, falando
baixinho para dois fieis que lhe restavam; o Matoso dos Santos, sempre
enfronhado em algarismos, o Sergio de Castro, o D. Alberto Bramão e
outros jornalistas da _Tarde_, o Schwalbach aparecendo, desaparecendo,
atarefado, e tantos outros sumidos lá para o fundo na obscuridade e no
silencio.
Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, os meios politicos onde tudo se
comenta e desfigura, e o mundo financeiro, com alguns tipos que é
necessario anotar rapidamente: primeiro os Mosers e o Foz, predominando
com o Mariano, a casa Torlades e outros grupos; a casa Burnay e o
impenetravel Jonh, e, nos ultimos tempos da monarchia, a casa
Wernestein, Alfredo da Silva e a casa alemã Ernest George. Entre essas
figuras conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes Netto, sem instrucção,
mas d'um grande senso pratico. Não raro o encontravam em mangas de
camisa no seu escriptorio. Escrevia em largos quartos de papel e depois
dizia:--Ponham-lhe lá a gramatica!--Acabou já velho e amoroso, fazendo
todos os dias compras de legumes e peixe, na Praça da Figueira, que
depois ia distribuir de _coupé_ por casa das amantes, pescada aqui,
pescada alli... Juntem a isto as redacções dos jornaes, em forja rubra a
certas horas da tarde ou da noite, os ditos, as noticias espalhadas, a
côrte ao senhor conselheiro... Era peor o que se dizia do que o que se
fazia... Era o descredito lançado sobre tudo e todos, a tal ponto que um
dia, mais tarde, quando um juiz monarchico (Paçô Vieira) foi despachado
para a provincia, o delegado disse-lhe muito a serio:--Mas como queria
V. Ex.^a que se sustentasse um regimen em que as filhas do José Luciano
eram apalpadeiras da alfandega com cem mil reis por mez?--Nos comicios
asseverava-se que a rainha D. Amelia comprava no estrangeiro vestidos
por vinte e quatro contos. Peor, peor... Depois da republica o Eduardo
Villaça encontrou-se com João Chagas em Paris e perguntou-lhe com
ironia:--Então esses famosos inqueritos da republica, com que fizeram
tanto espalhafato, não deram nada?--Ao que o outro, lépido,
respondeu:--Vocês que querem? Tanto se acusaram de ladrões uns aos
outros, que a gente acreditou...
* * * * *
--Um homem! um homem!--reclamava o D. Carlos. Um momento de hesitação e
de duvida na sua vida... Dois caminhos na frente: um commodo e largo, de
transigencias faceis, o outro perigoso mas util para o seu paiz.
Decidiu-se pelo peor. Ia jogar a vida.
Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades e defeitos... Ha
homens que se nos afiguram d'uma só peça. Desconfiem d'elles: andam
mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:--Era encantador.--Todos
estão de acordo n'este ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial
afirma:--Tratava os politicos como lacaios, tratava a gente do povo com
extrema bondade.--Um dia escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que
se curvou para lhe servir de secretária; outro dia, já a cavalo para uma
ferra de touros, atirou com a capa a um velho general seu
servidor:--Guarda lá isso!--D'outra vez dispoz o ministerio á chuva para
lhe tirar o retrato. Tratava-os com desdem. Sacrificou sempre os homens
que se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por exemplo. O Carlos Lobo
d'Avila tinha-lhe dado uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder.
Era um valente. Escrevia cartas anonimas á mulher. Media tudo pela mesma
bitola--e, se o deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da sua
dinastia. Acabou á bala, quando ia matal-o o figado: comia e bebia
enormemente e pezava-lhe em cima esta tara: era filho d'uma histerica e
d'um sifilitico. Este mixto, n'um homem inteligente como elle, só tem
uma explicação: timidez e orgulho--timidez e orgulho...
Efectivamente resolver-se a luctar contra os interesses dos partidos e
dos homens, desencadear paixões, era lançar-se n'um combate de que não
podia esperar senão contrariedades e a morte. Salientaram-lhe logo todos
os defeitos. Tudo que se fazia de mau era sempre o rei que o fazia.
Obscureceram-lhe de proposito as qualidades. Esqueceram que D. Carlos
colocara o paiz n'uma situação externa admiravel, e que os dois ou tres
actos de homem d'estado do seu tempo lhe pertencem, como a unica acção
grande da republica pertence a Bernardino Machado, que conseguiu levar
as tropas portuguezas para a frente europeia--quando os inglezes
reclamavam apenas o nosso esforço em Africa[16]. As viagens a Paris, a
Berlim, a Londres corôam o anno de 1895. A aliança ingleza é um facto.
Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado. Vae começar uma grande época.
Aponta a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes, que elle proprio
incita, comprehendendo que o grande Portugal é outro, e que esta facha
de terreno, com um clima agricola horrivel, só pode ser uma vinha e um
logar de repouso e prazer. De lá, d'esse novo Brazil--dos extensos
planaltos d'Angola, que duas vezes por anno produzem trigo--tem de nos
vir o oiro e o pão. O resto é visão de pequenos estadistas de trazer por
casa. Só elle concebe e incita. Só elle fala e sonha n'um Portugal
maior, n'um Portugal esplendido. O plano estabelecido e iniciado,
fecha-se com um ponto culminante: o tratado de commercio com o Brazil,
que D. Carlos teve realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente,
ou jamais, se conseguirá. Foi este homem que assassinaram como ladrão a
uma esquina de Lisboa...
Porque foi morto, afinal, o rei?... Um velho philosopho meu amigo
traduziu um dia toda a ancia contemporanea n'aquella grande phrase, que
não me canso de repetir:--Nós tambem queremos comer...--Sómente para ser
justo e completo, a uma verdade devia juntar outra verdade:--E não
cabemos todos!
Não, os partidos não cabiam todos, não podiam caber todos, e estavam
completamente desacreditados. A grande força de João Franco foi, na
realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se já, não foi o rei, foi
João Franco; quem não esteve á altura do seu papel, não foi D. Carlos,
foi o dictador. João Franco tinha atraz de si um partido pouco numeroso
(as clientellas haviam de vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico.
Os franquistas de hontem são ainda hoje franquistas. Não perdem a fé, e
nem agora nem nunca despegam um olho do Fundão, embora lancem o outro,
com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente panorama da vida... É
preciso que realmente esse homem disponha de qualidades excepcionais
para conseguir tal poder de dominação. Era um impulsivo: grande fraqueza
e grande força. Procurava os obstaculos para os dominar e gastou uma
energia desmedida a resolver ninharias. Em Lisboa dizia-se com
espanto:--Este homem só levanta carrapatas!--Ora caçava no seu terreno,
ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado, ia talvez ter ocasião
de o mostrar--depois da morte do rei. Ahi é que era vel-o!... Valente e
calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasião grave da sua vida. Os
republicanos (Ribeira Brava, talvez) tinham obtido a sua prisão logo
depois do cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um gabinete da
Boa-Hora. Cá fóra o França Borges, refestelado n'uma poltrona, gosava a
sua vingança e o seu triumpho, separado do cacifro por uma porta
escancarada. O juiz Meirelles e um delegado de pera ruiva e gravatinha
vermelha, vinham de quando em quando trocar não sei que impressões com
elle. Pela porta aberta vi o João Franco de pé, sereno e palido: parecia
enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o juiz lhe disse, acabado o
interrogatorio:--É talvez melhor sahir por outra porta, porque o povo
mata-o!...--o homem teimou, o homem cresceu dois palmos:--Eu só saio por
a porta por onde entrei.--Estava preso, obrigaram-o emfim a descer umas
escadinhas, a meter-se ás escondidas no automovel, que o esperava na
calçada que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto
alguem--juro-o--prevenia a furiosa onda popular, que correu aos gritos
de--morra! morra!--a esperal-o em baixo, á esquina. Um borborinho. Tiros
de pistola. Dois marinheiros apontaram as espingardas, defendendo o
automovel, que só a custo arrancou--emfim! emfim!--pela calçada
acima.--Morra o João Franco!...--E as vozes colericas gritavam:--Morra!
matem-no!...--Era este o homem, que, com o rei, estava em frente dos
partidos progressista, regenerador, dissidente e republicano. Os ataques
sucediam-se e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente sustidos pelos
chefes, ameaçavam ingressar no partido republicano, que todos os dias
ganhava em numero, cohesão e audacia. O proprio José Luciano perdia a
serenidade:
«Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, que a lição da
historia a cada instante repete: á revolução do alto, pode muito
bem suceder que responda a revolução de baixo». (_Correio da
Noite_, 14 de Maio de 1907).
«O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem
duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinião publica, que
tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque
ha-de chegar e oxalá que chegue a tempo o momento em que El-Rei se
recorde das suas palavras de ha um anno:
A responsabilidade do decreto, ainda que aparentemente só acto do
poder executivo, recahe mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão
de pedir a responsabilidade da sua assignatura». (_Correio da
Noite_, 15 de Maio de 1907).
E a 24 de Maio vociferava: «A monarchia precisa dos monarchicos... a
monarchia precisa dos monarchicos, mais do que estes precisam da
monarchia». Todos os dias novos boatos, todos os dias nova causa de
excitação. Barafunda, prisões, protestos. N'uma reunião celebre, por um
triz que os regeneradores não passam em massa para o campo republicano.
E o _Correio da Noite_, no acesso do delirio, apelava já para a
linguagem biblica: «O que tem ouvidos para ouvir ouça; o que tem olhos
para ver veja...»
«Do alto deve descer o exemplo, e quando as acções dos que governam
são de preversão e de crime, de corrupção e de suborno, de
desbarato dos dinheiros publicos e de abuso do poder, os actos dos
governados não podem ser de veneração e de paz, de obediencia e de
acatamento.
...................................................................
Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do povo, com
oceanos de lagrimas se lavou a mancha do absolutismo». (_Correio da
Noite_, 1 de Junho de 1907).
Que faziam os dissidentes, o mais avançado dos partidos monarchicos? Os
dissidentes conspiravam. As dissidencias anteriores, a do Mariano, a do
Navarro, tinham fracassado: a do Alpoim ia dar como resultado a
revolução.--Foi o senhor que fez a republica.--E elle dizia, com o olho
esperto a luzir:--Levei-os pela mão.--Julgando conquistar o poder,
perdeu-o para sempre. «Baralhou para dar», como aconselhava o Marçal
Pacheco--mas enganou-se no trunfo. Depois que se separou do José Luciano
nunca mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida... Era um grupo
tremendo: o João Pinto dos Santos, tenaz e resoluto como as armas; o
pratico Centeno, mola distendida sabe Deus até onde; o Queiroz Ribeiro,
o Pedro Martins; o sagacissimo Egas Moniz, a quem ninguem consegue ouvir
os passos--mas que toda a noite, todo o dia, roda nos meandros da
politica, conspirador e politico até á medula; o Moreira d'Almeida,
capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem um desfalecimento,
enfiando todas as formas e todos os estilos, de tal maneira que, muitas
vezes o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os artigos, que elle
escrevia, lhes pertenciam, apanhando no ar as questões, e com um grupo
de amigos _a latere_, que conheciam a fundo as colonias e as finanças;
mais este e aquelle, e outras raizes lançadas ao acaso, e ligações no
Porto com um «mercante espertissimo», como nas discussões ouvi chamar a
Lima Junior. O chefe d'este grupo unido e compacto era extraordinario...
Agitação perpetua. Orador admiravel, sobretudo na réplica, em que perdia
a retorica e ficava incisivo e nu como uma espada. Um passo a mais e
seria um escriptor ilustre: não teve um momento de seu para rever as
provas. Com a paixão, a colera, o arrebatamento, um grande coração.
Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe ouvi defender até o seu
maior inimigo, o José Luciano. Ao proprio D. Manuel elle diz: «...O José
Luciano vale mais do que todos os progressistas e regeneradores juntos,
contando com elle proprio Alpoim ». (_Documentos politicos_). E quem
conheceu o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu são mais que
exactas, são phonographadas. É elle a falar d'este e d'aquelle, dos
amigos, dos inimigos--de Deus e do Diabo. Uma ambição do poder que o
leva arrastado, mais pela lucta em si, necessaria a um temperamento
excessivo, do que por vaidade ou vangloria. Principios poucos--meios
aquelles que os adversarios, a tenacidade e o rancor de José Luciano,
lhe deixavam. Acusaram-no de tudo--acusaram-no da morte de D. Carlos...
«Até disseram, Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!»
(_Documentos politicos_). Resistiu sempre; morreu a conspirar. Nos seus
ultimos annos não sei que tristeza o envolve... A figura parece maior,
as palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem. Engrandece. Raros
teriam, como elle teve, a sinceridade de escrever: «Na minha defeza, que
teve de ser espectaculosamente rude por vezes e d'uma acção subterranea
por outras, excessos cometi de que me penitenceio--mais do que se
imagina»... E repete e insiste: «Em muitos actos da minha vida de lucta,
por vezes injustamente combatido, tenho sido exagerado--e errei. De
muitas coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a minha
inteligencia e peço perdão á minha propria consciencia e até aos
homens!» Quantos ha ahi capazes d'esta grandeza? Quantos--tendo todos
juntos concorrido para a morte de D. Carlos--o acusaram a elle só, com a
tinta do _Correio da Noite_ ainda fresca?
«Aqui d'El-Rei--se nos pode ouvir El-Rei--contra quem mandou
assassinar o povo de Lisboa.» (_Correio da Noite_, tarjado de
luto). «Aparecem hoje, segundo ameaças do governo e segundo as suas
notas oficiosas sempre irritantes á imprensa, decretos esmagadores.
Tanto peor para o Rei e para as Instituições. *As responsabilidades
d'esses decretos, ainda que aparentemente só do poder executivo
recairão mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão-de pedir a
responsabilidade da sua assignatura.* (_Correio da Noite_, 20 de
Junho de 1907).
* * * * *
Quem reina agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Magestade o
Mêdo. Que quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os politicos e a
côrte, o que se diz e o que se adivinha, o que resalta dos _Documentos
politicos_, e o que se conserva na sombra como um baixo relevo de odios
e de interesses! Enredam, intrigam-se, perdem-se todos juntos. A
politica portugueza gira sobre este fulchro: «O José Luciano, não
podendo governar por se achar impossibilitado... e não querendo
substituir-se para não perder o comando de que é muito cioso»[17]
emprega até ao fim todos os esforços para inutilisar o Julio de Vilhena.
Só pela vã ambição de mandar? O velho é perspicaz e teimoso, o velho
conhece, como poucos, os homens e entende que só elle pode e sabe
governar. É teimosia e grandeza. Não abdica, não pode. Toda a vida foi
obedecido. Aferra-se. O que elle quer é ser o «Deus ex-machina da nossa
politica sem se mexer da sua _chaise-longue_». Que tipo! Governou
sempre, mandou sempre, conservou-se sempre lucido. E tanta serenidade,
que até no dia em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes, é o unico
que não perde o sangue-frio, e, quando o querem esconder n'uma banheira,
teima em ficar na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e uma manha,
um conhecimento dos homens, a que os outros não chegam. Desde o
principio que todos se congregam para enfraquecer o partido regenerador.
«Isto--diz a velha rapoza--é uma lucta de politicos que se querem
inutilisar e desacreditar uns aos outros». É assim--e nenhum d'elles se
lembrou que só os republicanos lucravam. Até os franquistas. «Os
franquistas, por intermedio do Martins de Carvalho, forneceram aos
republicanos todos os elementos que poderam colligir para descredito dos
rotativos» (T. do Amaral ao rei). Até os nacionalistas. Entretanto o rei
ouve-os e toma notas... A sua vontade é acertar. Passa a vida a acertar,
o que não é bem a missão d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. Não creio
que os homens se governem só pelo interesse ou pelo terror, como queria
Napoleão, mas creio que se não governam com pannos quentes, e que mais
vale tomar uma decisão má do que não tomar nenhuma. O povo, como o
soldado, precisa de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo no rei são
boas intenções. Mal ousa dar um passo, não se resolve nunca--e atraz
d'elle está a mãe, que quer educal-o para rei, mas que tem diante dos
olhos o quadro horroroso... Apezar d'isso é ella propria que o incita a
passear á luz do dia, como uma vez quando o trouxeram a galope, entre
uma escolta de cavalaria, do Rocio ao Paço... Arrisca-o. Procura
congraçar toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica e
perdularia, agradou sempre: até os seus ditos se repetiam:--O senhor é
um merda!--ao D. Luiz, quando elle aceitou as imposições do Saldanha;
até os seus vestidos, a sua ostentação, a atmosphera de rainha
extravagante, que só sabia que existiam contos e patacos, os chapeus que
mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em cada estação; até a sua
desordem elegante de histerica. Nem os jornaes republicanos a atacavam.
E quando foi para o exilio, já doida, com um pão debaixo do braço e uma
manta pela cabeça, só ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia
não. Essa senhora, de quem alguem disse:--É um grande homem de
bem!--subiu todo o calvario da vida. Era religiosa--o que só a
honra--chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins e nos pamphletos. Os seus
criados detestavam-na[18]. Ao passo que a rainha D. Maria Pia, falso
anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato e foi adorada, a D.
Amelia, que combateu metodicamente a tuberculose, espalhando o bem a
mãos cheias, fundando a Assistencia Nacional, com os seus sanatorios e
dispensarios, as cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto de
Socorros a Naufragos, e contribuindo para a fundação do Instituto
Bacteriologico, etc., foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem
dentro de sua casa lhe era possivel conversar. Um dia, para falar em
segredo com um ministro, chamou-o para o meio da sala:--Aqui, porque
senão vem tudo amanhã no _Mundo_.--E vinha. Até o homem dos telephones
era carbonario... Estou em dizer que é o acaso que governa a vida: a
razão não é, com certeza.
Ponham agora á roda d'estas figuras, os politicos e as paixões falando
cada vez mais alto. É o momento em que todos á uma querem ser chefes!
Querem ser chefes o Teixeira de Souza e o Alpoim, querem-no ser o
Wenceslau de Lima e o Campos Henriques, e até o pobre, o inculto
Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia ministro, tem um
deslumbramento e sonha na candidatura. Elle é «o Vilhena muito
afectuoso, muito lisongeiro e muito avido de poder»; elle é o Teixeira
de Souza, «todo agrado, comtanto que elle entre no governo n'uma
situação que não seja inferior á do Campos Henriques»--retrata-os o
Wenceslau, que é o unico que sobe, como um balão cheio de vento, no
conceito de quasi todos os politicos, que se reveem n'elle como n'um
espelho.--E o José Luciano teima: «O Vilhena está quasi abandonado pelos
seus marechaes». Todos á uma proclamam ao rei e ao mundo que esse homem
é incompetente.--É um homem de talento--afirma um ex-ministro
graduado--mas nunca vi incompetencia maior como politico.--Porquê? É o
que resta saber. Elle é dos poucos que sabe o que quer, que tem um plano
e que o apresenta (_Antes da Republica_)--é tambem o unico com
superioridade mental organisada. Pequeno, sempre pendurado no charuto,
conserva, até nas ocasiões criticas, serenidade e firmeza. Mas todos
concordam na sua inferioridade politica...
Se só pelo triumpho é que se demonstra tino politico, como quer
alguem--na verdade Julio de Vilhena falhou completamente. Nem todos os
meios lhe serviam, e em Portugal não existem correntes de idéas ou de
principios que levem um homem ao poder. O que se chama opinião não se
pronuncia. Os chefes de partido são simples chefes de bando. O Paço é
que faz ou desfaz os politicos, ou outros meios obscuros, de que cada um
se pode servir, como no tempo de Luiz XIV. Escolheram-no para chefe
n'uma occasião em que nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle
estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice de Campos
Henriques e a astucia de Wenceslau.--Esse sim, chame V. Magestade o
Wehceslau--diz o Alpoim.--O Wenceslau sim--concorda o José Luciano. Elle
é o homem do Paço e dos politicos. Começa a ser indispensavel. O outro
tropeço não lhes sae da frente. Era a occasião de governar quem
governasse, mas ao José Luciano só lhe convêm «governos mixtos em que
elle mande, ou que, pelo menos, ponham o cofre das graças á sua
disposição.» (P. Pinto). E todos ou quasi todos só pensam no Wenceslau,
que promete muito, que sorri a toda a gente, e que não tem nada lá
dentro. É o optimista necessario. Impõe-se pela parte decorativa, pela
boa educação, pela maneira como contenta o mundo. As vezes chega a
oferecer o governo a um, tendo-o já oferecido a outro... (J. de
Vilhena). Só o lunatico não entende... Elle bem protesta: «Quem o
conhece tem obrigação de saber que nunca foi um aventureiro ambicioso,
nem um intrigante ordinario, capaz de empregar processos menos correctos
para obter quaesquer posições». Mas foi exactamente isso que o perdeu!
Num paiz onde não ha opinião, não pode haver chefes de partido. Que
diferença entre elle e o Teixeira de Souza, espadaúdo e forte,
abundante, abrindo logo os braços a toda a gente:--Tu que queres,
filho?!--D'outro feitio era o Campos Henriques, procurador encartado do
norte, escrevendo a meio mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle
em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o palaciano Wenceslau de
Lima, o favorito, que censurava as cartas do rei e lhe escrevia os
borrões. Nenhum homem mais _souple_ nem mais agradavel, sempre a
mastigar e a sorrir. Está nas antecamaras quando o rei conferenceia, e
ha um momento em que só elle põe e dispõe, e em que aconselha ao
rei:--Chame-me a mim, para eu declinar!--E o rei chama-o. As duas
grandes figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau de Lima e o
Soveral. O proprio José Luciano estava condemnado...
Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo dos republicanos e
diante do phantasma da republica. Nem assim os interesses e as ambições
abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram! Acima de tudo está o odio do
José Luciano, estão as paixões do Alpoim, que sonha no poder, e que na
manhã de 5 d'Outubro ainda dizia:--Agora, sufocada a revolução, o rei
não pode deixar de me chamar a mim...--Interesses e homens, tendo cada
um «a sua policia», como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono, no
palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre a rabiscar papeis,
incitando-os ás vezes (J. de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que
está para vir á superficie. Quando á noite se apanha só, abre a gaveta e
desata a escrever aquelle interminavel romance politico, que caminha a
galope para o remate da fuga e do exilio. E as vozes, cada vez mais
altas, obstinaram-se:--Não pode haver ordem nem tranquilidade com o
Alpoim no paiz--exclama um.--Elle é um espirito claro e nada mais!
protesta outro.--É uma cambada! A propria dissidencia que é? É um
inferno!--conclue o Alpoim.--É um idiota! O mal foi elegel-o para
chefe.--E o Teixeira do Amaral observa ácerca d'um grupo:--São
pescadores d'aguas turvas...
Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos? O rei? O rei escreve,
escreve sempre... O Credito Predial desaba:--Foi então que os burguezes,
vendo-se roubados, nos deixaram fazer a republica...--asseverou
Junqueiro. Ao poder sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os
acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens está uma força monstruosa
que parece empurral-os a todos--até ao rei, que, de quando em quando,
pára de escrever e sorri enlevado para os dois bonecos que tem em cima
da comoda, a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura do
Soveral--e vae leval-os a todos, sob o olhar impassivel do destino, para
o desenlace fatal.
Todos esses homens tinham defeitos. Alguns eram até ridiculos. Mas,
apezar de tudo, não ultrapassavam determinada linha, apegados a
preconceitos e a formulas, de que não havia arrancal-os... Vae o senhor
D. Manuel, não tarda, porque a monarchia ha-de voltar--tudo sucede
vertiginosamente n'este paiz--conhecer outros, com muito menos
escrupulos, que o hão-de encher de desgostos. V. Magestade verá.