Novembro--1918.
Os acontecimentos dos ultimos reinados afiguraram-se-me sempre faltos de
logica e de nexo. Estão talvez muito perto de nós ainda: precisam de
perspectiva que os coloque nos seus devidos logares. Só o historiador
poderá crear mais tarde, com documentos e memorias, e certa aparencia de
verdade, o romance da nossa vida. Nós, por ora não sabemos nada, nem
mesmo dar resposta plausivel ás perguntas que nos obsidiam... Porque
foi, por exemplo, morto D. Carlos? É fora de duvida que até os
monarchicos receberam com alegria a sua morte. «Não vi lagrimas»--diz
Julio de Vilhena. Eu avanço mais: só vi aplausos. E no entanto já hoje
se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus
defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! respirou-se!--o que
não impede que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a ponto de me
parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e
não se tira do horizonte da nossa consciencia. O rei tinha na verdade
defeitos, mas--diga-se! diga-se!--não foram os seus defeitos que o
mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando elle tomou a
serio o seu papel de reinar, e quando, com João Franco, quiz realisar
dentro da monarchia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em
que, talvez pela primeira vez na historia, os monarchicos aplaudiram um
crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das
prisões, congraçando-se todos os politicos sobre os corpos ainda mornos
dos dois desventurados.
O D. Luiz pôde ir até ao fim do seu reinado, porque elle proprio o
disse--«um principe é um dissimulador». Mas D. Carlos é que não foi
nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os politicos. Dizia:--Tu
ouvel-os falar? Se lesses as cartas que me escrevem enchias-te de
nojo.--Essas cartas existem... Na verdade toda a gente dizia mal da
politica e desprezava os politicos: só elle os não podia desprezar. É
authentico tambem que no seu desdem chegou a envolver o paiz. Toda a
gente, desde o literato ao homem rude, dizia mal do paiz. Tempo houve em
que foi moda dizel-o. Só elle não devia dizer mal do paiz. Realmente
pediu muito dinheiro aos politicos, mas os politicos pediram muito mais
dinheiro á nação, dando cabo d'elle com as suas clientelas. E ninguem
lhes tomou nunca contas: todos morreram honrados. Hintze passou por ser
um homem integro. José Luciano tambem. Pessoalmente decerto, mas com o
que ambos elles esbanjaram reconstruia-se o paiz de alto a baixo. O
partido regenerador tinha tal fama que se dizia em Lisboa: «quem não é
regenerador é ladrão de si mesmo». Na realidade não havia a esse
tempo--porque hoje tudo mudou de figura--senão um partido em Portugal
capaz de sacrificios, o partido republicano: os outros, para me servir
da phrase tão justa de Homem Christo, eram apenas «quadrilhas
politicas». Ser politico em Portugal foi a mais rendosa de todas as
industrias. «Logo que chega ao poder um chefe de partido não pensa senão
em explorar o paiz em proveito das suas clientellas. O Estado é a preza
dos politicos... Se eu podesse encontrar um homem integro que podesse
modificar tudo isto dar-lhe-hia todo o meu apoio».
Parecia que o proprio paiz na verdade só queria comer:--Pedem tudo!
pedem as maiores poucas vergonhas!--exclamava o Alpoim; e o dr. Antonio
Cabral escrevia:
«No tempo da monarquia essa mesma maioria acomodaticia e
pedinchona, só conhecia o caminho dos ministérios para ir
importunar os secretarios de Estado com solicitações de empregos,
de benesses, de estradas, de favores, até de escandalos. Não ia
levar aos ministros uma ideia, um plano, a lembrança de um
beneficio para o país. Ia procurar interesses, buscar comodidades,
exigir condescendencias, sem se lembrar de que tudo isso custava,
muitas vezes, dinheiro ao Tesouro Publico e só causava prejuizos á
nação.
Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras zumbiam
em tôrno da montureira politica, essa mesma maioria, de larga guela
e incomensuravel ventre, era a primeira a gritar contra as
imoralidades que provocara, contra os atropelos da lei que
impuzera, contra os êrros de administração que imperiosamente
reclamara! Para essa maioria prudente... e de muito comer, os
culpados de tudo--criminosos execrandos!--eram o Rei, os ministros,
os deputados, todos, emfim, que tinham na mão as rédeas da
governação publica. Ella, a maioria exigente e dificil de
contentar, era inocente e de tudo lavava as mãos.
Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques, dos
compadres, dos despoticos senhores do país, que hoje se encolhem,
transidos de pavor, e então barafustavam do alto do seu pedestal de
mandões; ella, a maioria que ordenava, que dispunha de votos, que
sabia impôr-se com arrogancia--ella, de nada era culpada e escondia
o rosto púdico na alva clamide de vitima dos maus politicos!...
Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou a traição de
muitos e a incompetencia de tantos. A _maioria dos portugueses_, se
não delirou de contentamento, remeteu-se ao cómodo e discreto
silencio em que se comprazem os covardes e os maus cidadãos, para
só os interromper com murmurios de reprovação, soprados nos centros
de conversa contra os politicos... que ella empurrára para o mau
caminho e ajudara a despenhar no precipicio.