A atmosphera é electrica.--Isto não pode ser! isto não pode
ser!--ouve-se a cada passo. Toda a gente espera acontecimentos. O boato
corre de ouvido para ouvido: o comandante da municipal afirmou ao rei
que não podia contar com a guarda para combater a tropa; ha tumultos no
Porto e Villa Real; está assignado um decreto expulsando do paiz
republicanos e dissidentes; e--sabem? sabem?--o movimento é preparado
pelo João Franco para tomar medidas d'excepção... O Coelho de Carvalho,
de grandes barbas brancas, sempre ironico, pontifica na livraria
Ferreira:--Tudo isto obedece a um plano para estabelecer o protectorado
inglez, com o rei gordo e replecto, e a dotação augmentada em cento e
sessenta contos, pagos em oiro.
Ás sete da noite encontro o Alpoim que me pergunta ancioso:--Que ha? que
ha?...--Eu sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem no Arco
da Bandeira....--Só?--E arranca-me das mãos o _Correio da Noite_:--Vem
feroz! vem optimo!...--No comercio não se desconta uma letra. A rua do
Oiro não tem metade do movimento habitual. Consta que o João Franco
disse hontem:--Dá-se-lhes uma sangria...--O que eu lhe posso garantir, e
sei-o por uma senhora de relações intimas do João Franco--diz o
Fialho,--é que elle passa as noites sem dormir.--Medo--ou revolução? As
mulheres vão buscar os maridos ás repartições e aos bancos, outras, na
previsão de acontecimentos, fornecem-se á pressa nas lojas. Ha nervos na
atmosphera. A questão dos adeantamentos levantou todo o paiz contra o
rei. Ha muito que o D. Carlos é visado, discutido e injuriado.
Atribuem-se-lhe todos os males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o
Hintze com desgostos. Os Braganças são todos ingratos. Que quer o rei? O
rei só quer dinheiro, o rei chama ao paiz, que despreza, a _piolheira_,
o rei é um ladrão. Dizem-no até os cavadores d'enxada da provincia:--O
rei é um ladrão! o rei é um ladrão!--Gera-se não sei que excitação que
se apega e propaga. Todos estamos debaixo da mesma pressão a que não ha
fugir. Nas esquinas ainda se vêem farrapos de cartazes, anunciando o
folhetim _Soror Amelia_, com o retrato da rainha vestida de freira...
O que os jornaes de grande circulação não se atrevem a dizer, o
_Seculo_, o _Mundo_, o _Noticias_, propala-se de ouvido para ouvido, ou
publica-o o _Correio da Noite_, do velho José Luciano, que ataca com
violencia o rei e o governo.--Que há? Que há?--Um policia aliciado pelo
João Chagas denunciou a revolução; o juiz ao lêr o depoimento do Antonio
José d'Almeida, exclamou:--Ora até que emfim encontro um homem!--O Cunha
e Costa pequenino, d'oculos e olho esperto atravez dos vidros:--Vocês
que querem? Está tudo minado. Hoje, ao entrar na Boa Hora, deparei com
este quadro: d'um lado da porta um municipal lia _O Mundo_, do outro,
outro municipal lia _A Lucta_.
E no entanto a vida segue o seu curso habitual: todas as noites
enchentes nas revistas, _Ou vae... ou racha, Pr'a frente!_ Todas as
noites o mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro humano seguindo
as suas manias, as suas ambições, os seus interesses...
* * * * *
Os populares atacaram as esquadras. No largo do Rato um bando, que
queria matar o João Franco, entrou n'um café. A policia tentou
apalpal-os--defenderam-se a tiro. Um cahiu varado: e retiraram em ordem,
fazendo fogo. Na esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas com os
guardas. Havia um plano de revolução? É fóra de duvida. Lançaram-se
bombas que não explodiram a varias esquadras--á do Campo de Sant'Anna,
por exemplo. A policia estava, prevenida, e prendeu-os, quando um grupo
de dissidentes, Alpoim, João Pinto, Ameal, etc., se dirigia para o
elevador da Bibliotheca, no intuito de lançar um foguetão, que desse o
signal á esquadra e a varios grupos que, ao mesmo tempo e em diferentes
pontos, deviam assaltar os quarteis. Só o Alpoim e o Ameal conseguiram
fugir. No elevador havia armas, destinadas ao ataque dos correios e
telegraphos. No forte de Caxias estão presas 93 pessoas, e presos estão
tambem o Afonso Costa, o João Pinto dos Santos, o Ribeira Brava, etc. A
policia desandou então a prender a tôrto e a direito. O José de
Figueiredo que mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra, ouviu
isto: Ao telefone, o chefe da esquadra para o governo civil:--Já
prendemos quatro.--Prendam mais.--Era preso quem passava na rua.
Á revolução adheriam varios oficiaes e toda a armada. Havia fanaticos
decididos a correr a municipal á bomba, e todo o trabalho do directorio
parece que foi sustel-os á ultima hora. Varios bandos foram prevenidos
logo que o signal falhou. Os que esperavam no café do Rato, a hora do
assalto á casa do João Franco, foram presos. Um creado do Moura Cabral,
que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra da Graça--e
deram-lhe um rewolver e bebidas. Em diversas partes tem sido encontradas
bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito d'armas, escondido em
casa d'um negociante, foi uma irmã dum actor de D. Maria.
* * * * *
--Isto--toda a gente o afirma--acaba logicamente no atentado pessoal.