Março--1902.
Este homem immenso e louro, o Alpoim, não tem um minuto de seu: não
descansa, não pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a chronica do
_Janeiro_, corre ao parlamento, intriga nos corredores, enche uma pagina
do jornal, recebe toda a gente, encanta e domina toda a gente n'um riso
aberto:--Meu querido amigo...--e, mal se fecha por dentro, arranca os
ultimos pêlos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um pranto:--Ai que
filhos da p...! ai que filhos da p...! Eu não posso! eu morro!--Nem para
ser rei de Portugal valia a pena semelhante esforço.
No fundo é um politico com este fito: o poder. Mas alguma coisa o
distingue dos outros que conheço, do espesso Ferreira d'Almeida, por
exemplo, que exclama diante de mim sem pudor:--Hei-de ser ministro
porque quero mandar! gosto de mandar!--É um fidalgo com talento, e tanto
serve um amigo como um desgraçado de quem nada tem a esperar. O esforço
é identico.--Vou ao inferno por um amigo...--Ha ainda quem se lembre dum
Alpoim de chapeu desabado e capa á espanhola, mas o amor fel-o janota...
Na sua vida, como em todas estas existencias de aparencia e lucta, ha um
trabalho de sapa, que quasi totalmente desconheço. Sabe tudo, pode tudo
com os seus e com os outros. O Hintze tem por elle um fraco, o José
Luciano entrega-lhe nas mãos a meada politica:--Nada se faz sem mim. Sei
tudo!--diz muitas vezes com o olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza
é o seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no os outros. Este
que lhe sorri atraiçoa-o--e elle fala-lhe amavelmente:--Não me podem vêr
porque lhes faço sombra. Eu sei... Mas ninguem exija dos homens mais do
que elles podem dar.--Conspira. Tem nas mãos os mil fios da emaranhada
teia politica. Vae mais alto ou mais fundo?... Não sei, mas é talvez a
isso que elle se refere quando afirma:--Ninguem sabe a que portas vou
bater!
Hoje conta o movimento de protesto quando dos comicios contra o governo
regenerador. Reuniam-se já ha tempos alguns pés de boi em casa de José
Luciano, que um dia sae-se com esta:
--Bem, meus senhores, precisamos de acabar com isto senão cahimos no
ridiculo. A tomar chá não fazemos nada. Que é que os senhores resolvem?
--A revolução! queremos a revolução!--concluiram todos.
--Eu disponho de seis mil homens.
--Vamos para a rua!
--Estamos dispostos a tudo, mas temos um pedido a fazer a V. Ex.^a: é
que se responsabilize a que a guarda municipal não atire sobre nós...
O José Luciano, a puxar pelo bigode, sem sahir da sua pachorra ironica:
--Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal não precisava dos meus
amigos para nada!
--O José Luciano o que tem tido toda a vida é sorte,--observa alguem do
lado.
--Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, atalha logo o Alpoim--que é
um homem inteligentissimo. E senão vejam como elle conseguiu arredar e
vencer todos os do seu tempo. Ninguem luctou mais do que eu para a
eleição do Mariano a chefe do partido progressista, ninguem!... E que
succedeu?... O José Luciano tinha em segredo conseguido pôr o paço de
seu lado. Na vespera da eleição o Mariano disse-me:--Está tudo perdido,
votem no José Luciano...--Se não o elegessemos, o rei nunca mais chamava
o partido progressista.
Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia, é um homem d'uma alta
inteligencia pratica. Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo
destino, e elle, não sendo nem um grande jornalista nem um grande
orador, sem brilho mas solido--e com caracter! com tenacidade e
caracter!--pouco a pouco ficou sosinho em campo: arredou-os todos.
Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini chamava-lhe com desdem:--Essa
vil alforreca...--Diz-se que no salão dos Navegantes se dava tudo o que
se podia dar--e que não lhe pertencia: logares, negocios e empregos.
Talvez. Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os
interesses fataes dentro de certos limites. Não podendo ser nem um santo
nem um genio, manteve essa linha de superioridade, chegando, mais tarde,
a ser uma figura. Sentado na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma
sociedade a liquifazer-se, resistiu até á ultima, e adquiriu relevo e
grandeza como se os alicerces fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou
a lei, e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando algumas
phrases que a historia terá de registar...
Junho--1902.
Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho, e que era vivo ainda ha
quinze annos, o seguinte caso, que mostra bem o medo que D. João VI
tinha a Carlota Joaquina. Um dia o D. João VI, ia de sege para Cintra,
Queluz, ou não sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, com dezasseis
annos, cavalariço do rei. De repente, ao longe, avista-se na estrada uma
nuvem de pó, e o rei, deitando a cabeça de fóra da sege, brada:
--Parem! para traz que ahi vem a p...!
A p...--era a mulher. As palavras são textuaes.
[Figura: _Fernandes Thomaz._]
Março--1903.
Diz o Abel d'Andrade:
Dos oito mil contos de deficit, quatro mil é a casa real que os gasta.
Que ministerio tem força para se impôr ao rei? Ambos os chefes estão com
medo ao João Franco...
* * * * *
Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve mosquitos por cordas para
o dissuadirem...
* * * * *
Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez contos.
* * * * *
O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois de jantar, bateu o fado
com um malandrão. O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu ao de
leve ao caso, achando-o improprio. Á noite encontrou na mezinha de
cabeceira uma carta do rei com estas palavras: _Dispenso-te do meu
serviço_. Seis meses não fez serviço; agora, antes da rainha partir,
pediu-lhe apoquentadissimo a sua intervenção. Outra carta do rei com
estas palavras: _Entra outra vez de serviço, mas nunca mais me dês
conselhos sem t'os pedir_.
Março--1903.
Alpoim:
--Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos...
--?
--Um governo fóra dos partidos, uma dictadura feroz.
E a proposito dos acontecimentos de Coimbra:
--Em Coimbra existem sociedades secretas. O governo sabe. Quando foi da
espera do Carrilho, tinham tudo combinado. Dois grupos fariam
descarrilar o comboio, apoderando-se dos papeis que o Carrilho trazia e
matando-o. Entravam lentes e estudantes...
* * * * *
O Alpoim:
--O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer disse-me:--O unico homem com
quem eu poderia ser ministro era com o José Luciano.--Dantes dizia muito
mal d'elle. D'uma vez estava no Paço, no vão d'uma janella, a dizer
cobras e lagartos de José Luciano; o rei, um pouco afastado, ouviu-o:
--Ó Mousinho cala-te.
--Se incomodo V. Majestade saio d'aqui.
--Não, podes estar, mas acaba lá com a conversa.
* * * * *
--E porque é que o rei não gostava do Mousinho?
--Se lhe parece! Vêr sempre o Mousinho a seu lado, carrancudo, sem
palavra, mas severo como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu mais
d'uma vez foi a rainha.
Abril--1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
--Já por diferentes ocasiões o Estado tem corrido o risco de ir a pique.
Houve mezes em que quasi faltou o dinheiro para pagar á tropa, e mais
que uma vez o Banco de Portugal se viu em transes para arranjar
trezentos contos de reis.
* * * * *
Um architecto do Paço conta que a rainha D. Maria Pia fuma
constantemente charuto como um homem, e atira as pontas para onde calha,
sobre os sofás e os tapetes. Atraz d'ella anda sempre um creado de
farda, com medo que pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado,
antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer umas obras no Paço.
--E não volto sem estar tudo prompto.
Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes de ir outra vez para fóra,
lembrou-se das obras--e mandou deitar tudo abaixo.
--Não volto sem estarem concluidas.
As provas dos vestidos são um martirio para as pobres costureiras, que
mantém de joelhos duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes. Quando as
vê cahir exhaustas, arranca tudo, despedaça tudo...
* * * * *
O Alpoim conta:
O rei é muitissimo bem educado, mas não gosta nada que ponham a rainha
em primeiro logar. Não se importa com o paiz e julga-se um grande rei
constitucional. Os ministros para elle não existem: só ouve e atende o
presidente do conselho. É tão governamental que trata delicadamente os
politicos quando estam na oposição, mas não conversa com elles. Não é
como o D. Luiz, que ás vezes fazia-se com os ministros contra o
presidente do conselho. Chegava a conspirar contra o José Luciano,
partidario da aliança ingleza, com o Barros Gomes, que era pela
Alemanha. Ás vezes andava uma hora de braço dado com o Mariano e Emydio
Navarro, sem fazer caso do presidente do conselho. E depois d'elles
sahirem, perguntava-lhe:
--Olha lá, quando é que tu pões fóra estes gatunos?
O D. Carlos não é assim: para elle os ministros não existem. Trata-os
sempre por tu, menos quando é da assignatura. Não conserva odios. E fica
contentissimo se os ministros descompõem a oposição. Quando foi da
exhoneração do Mousinho pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e
queixou-se ao José Luciano:
--No Paço todos me fazem má cara.
O José Luciano disse-o ao rei, que protestou:
--Não, por mim não é verdade. Quanto á rainha que a trate com todas as
atenções, mas que não faça caso.
E para reforço traz o caso Oliveira Martins: O José Dias Ferreira nunca
chegava a presidente de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou
que manejava facilmente o velho rabula--e escolheu-o para taboleta.
Enganou-se... O Valbom ainda tentou organisar ministerio, mas o Martins,
sem manha politica, teimou no José Dias. Pois ao fim de dois mezes era
elle quem mandava e que o queria alijar... No Paço, nem este rei nem o
D. Luiz, gostavam do José Dias; apezar d'isso, quando o Martins,
aborrecido, se fingiu doente, e o José Dias se queixou, o D. Carlos
disse ao Arnoso:
--Olha lá, diz ao Joaquim Pedro--era assim que elle o tratava--que se
levante ou que se demita. Isto não é vida.
* * * * *
Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito de mentir, e que pensa em
restaurar a monarchia no Brazil.
Maio--1903.
Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D. Amelia não quiz receber o
presidente Loubet, por escrupulos de consciencia. Como é muito religiosa
respondeu, quando lhe foram anunciar a visita:
--Viajo incognita.
--Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles, e o rei mandou-a convidar
para ir a Roma. Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno. O
governo italiano deu immediatamente ordem aos navios que estavam em
Livorno--para sahirem uma hora antes da entrada do _yacht_...
* * * * *
Silva Pinto contado por D. Maria Augusta:
O Silva Pinto escrevia de quando em quando cartas á condessa d'Edla,
pedindo-lhe dinheiro. A condessa architectou um romance: nunca o vira e
imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas, morrendo por ella. E
mandava-lhe ás vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no
atelier de Columbano...
--Então este velho é que é?!...
E não lhe deu mais vintem.
Maio--1903.
Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem da rainha. Acusou-a de não
ter querido receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se e negou.
Comentario do Alpoim:
--Que havia elle de responder? Mentiu como um cão!
De resto o discurso foi cheio de alusões. Chegou a isto: a lançar
suspeitas sobre as relações do Soveral com a rainha. «Que está fazendo o
snr. Soveral em Paris? Façam-no recolher imediatamente a Londres[3]!»
--Triste simptoma--afirma o D. João de Alarcão--n'um paiz monarchico
ninguem se levantou para defender o rei. Alguns como o Ayres de Gouveia
foram cumprimentar o Arroyo; outros, como o José Luciano, sahiram dos
seus logares e chegaram-se mais para perto, para não perderem pitada.
* * * * *
--O que nós fazemos não é discursos, é historia--diz o Arroyo.
* * * * *
Diz-se:
O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo chama-lhe corno...
* * * * *
O Alpoim:
O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama aos outros ladrões. Eu sempre
queria que me dissessem o que elle é...
* * * * *
A quinta da Bacalhôa--continua o Alpoim--foi comprada pela casa de
Bragança. Quem faz as obras é a Casa Real, isto é o Estado.
Maio--1903.
O rei--diz hoje D. João d'Alarcão em conversa com o Alpoim--não se
importa nada com isto. Tomára elle ser kkediva d'este cantinho,
defendido pelas baionetas inglezas.
* * * * *
O rei tem uma lista celebre a que chama _a lista dos ladrões_.
* * * * *
O Arroyo volta á discussão e, a proposito, conta-se de novo a historia
dos tapetes:
«--Havia em Mafra um grande tapete persa, o mesmo que está hoje em
Vila-Viçosa, por signal muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle,
até que um dia disse ao almoxarife que o guardasse. Mas fiquei sempre
com a impressão de que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu
extasiado por ter comprado qualquer tapete insignificante, lembrei-lhe:
--V. Magestade tem em Mafra um muito melhor do que esse...
--Ora adeus!
Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o almoxarife e o tapete, e o
homem instado apresenta, em logar do tapete, dois papelinhos... A saber:
a ordem de Pedro Victor para entregar o tapete e o respectivo recibo.
Não vi o telegrama do rei, mas vi a resposta do administrador da casa
real: «Vossa Magestade manda, obedeço».
Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo tinha-o lobrigado em Mafra e
comprado por 75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e está hoje n'uma
parede do palacio de Vila-Viçosa».
* * * * *
Conversa entre o Soveral e o Alarcão:
--Ninguem diga d'este Soveral não beberei. Ainda has-de ser presidente
do conselho.
--Para quê? Então tu imaginas que deixo a minha situação lá fóra por
isto? Que mais quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado marquez...
E o Alarcão conclue:
--Acredito que elle não queira. Só se fôr para arranjar algum negocio,
que elle anda muito precisado de dinheiro...
Maio--1903.
É certo que o rei falou ao José Luciano na dissolução da camara dos
pares, substituindo-a por outra em bases diferentes. A noticia foi para
os jornaes para assustar o Arroyo--que quer fazer outro discurso
sensacional contra o rei.
* * * * *
O José Luciano procurou o Arroyo em casa:--Venho pedir-lhe que não faça
o discurso contra o rei. É um homem na minha edade, perto da cova, que
lhe pede isto em nome d'interesses superiores.--Sim senhor... se V.
Ex.^a me assevera que por traz d'isto não está o sr. Hintze Ribeiro...
E chorou.
* * * * *
--O rei--diz o Alpoim--está contentissimo. O discurso era tremendo. O
Arroyo afirmava que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma vez pediu
mil e seiscentos contos. Elle proprio, quando ministro, lhe deu muitas
vezes dinheiro.--Aqui estam as provas!--E apresentava-as.--O primeiro a
ser castigado devo ser eu, porque delinqui.
Junho--1903.
Os jornaes trazem a noticia de que o rei partiu para o mar no _yacht_ D.
Amelia e de que o duque d'Orleans chega na segunda-feira a Lisboa.
O rei safou-se de proposito para o mar, para o não receber. Do Paço
mandaram ordem para se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na
Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei supoz que os acontecimentos
de Paris com a rainha se relacionavam com imposições da familia Orleans.
...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu o duque.--Mas houve o
diabo!...--diz o Alpoim.
* * * * *
--O Navarro defende-o, senhor Alpoim...
--O Navarro diz hoje bem de mim, como amanhã diz mal--por doze vintens.
Junho--1903.
O _Diario de Noticias_ publica hoje esta curiosissima informação:
As recepções em casa do sr. conselheiro João Arroyo, constituem
sempre um acontecimento na nossa sociedade elegante. O talento
multiforme do illustre parlamentar, que é um artista de raça,
converteu o antigo palacete da rua do Telhal em uma das residencias
mais notaveis de Lisboa, tanto sob o ponto de vista da decoração
dos salões, como pelas preciosidades do mobiliario e valiosas
collecções de arte ornamental que elles encerram.
Não se encontra ali um "bibelot" que não seja um objecto de arte ou
não faça parte de uma collecção, paciente e sabiamente reunida e
disposta com perfeito gosto e conhecimento. De todos aquelles raros
objectos que se agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e
dos contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e
«vitrines», resalta sempre uma vibrante nota de arte, que define o
criterio do colleccionador e marca fundamente o seu temperamento
esthetico. A sala dos xarões e dos cobres e bronzes esmaltados e
«cloisonnés» é por certo a mais bella que existe no nosso paiz, e
só por si basta para aferir o elevado grau que occupa o
colleccionador no nosso meio artistico. Ha, porem, muito mais, tão
bom ou melhor que admirar nas salas do sr. João Arroyo, as quaes
dão aos «gourmets do bric-a-brac» a impressão de verdadeiros
escrinios de arte. Nestes casos estão a graciosa collecção de
figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposição de leques, cujos
pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores francezes
do seculo XVIII ou são apenas formados de finissimas rendas a
ponto, de Allençon ou de Bruxellas; os limpidos cristaes da Bohemia
e os finissimos vidros de Veneza; as raras faianças da China, e de
Saxe; as soberbas «boiseries» da casa de jantar, bello trabalho
decorativo no estylo Renascença, do architecto Bigaglia, com o seu
fogão monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as
prateleiras dos «lambris» repletas de exquisitas pratas, faianças e
cristaes.
Por toda a parte, emfim, desde o vestibulo e da galeria da escada
até ás salas do jogo, quadros a oleo das escolas italiana,
flamenga, hollandeza e franceza, tapeçarias de Gobelins e do
Oriente, colchas da India e da Persia, tudo quanto o persistente e
criterioso esforço de um artista e o bom gosto de um homem elegante
poude colleccionar, tudo chama a nossa attenção, que só encontra
ali maior attractivo no bondosissimo tracto da illustre dona de
casa, a sr.^a D. Maria Thereza Pinto de Magalhães (Arriaga) e na
conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos e
interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e que tem tido
naquella senhora uma valiosa collaboração artistica, assignalada em
mais de uma das preciosidades que se contem na sua bella
residencia.
Por tudo isto, o «raout» de hontem esteve concorridissimo e
encantou todos os convidados dos illustres amphitriões, entre os
quaes estavam:
Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa, ministros da justiça, obras
publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas, nuncio de S. S. e
secretarios, Rouvier, ministro da França e esposa, ministro de
Hespanha e esposa, conde e condessa de Azevedo, Miguel da Motta e
esposa, monsieur e madame Bruno, marquez da Foz e filha D.
Marianna, duqueza d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell,
marqueza de Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e
esposa, conselheiro José Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos
Ribeiro Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, José
Sassetti e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano
Sequeira e esposa, condes de Paçô Vieira, almirante conde de Paço
d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro Achilles Machado e esposa,
conselheiro José de Azevedo e esposa, conselheiros José e Antonio
Arroyo, conselheiro Matheus dos Santos e esposa e filha, condes de
Sabroso, conselheiro José Ribeiro da Cunha e esposa, José E. de
Barros e esposa, Joaquim Lima, Alberto Braga, João de Freitas Rego,
F. Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de
Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar,
conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro Deslandes e
esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos Blanch e esposa, D.
Elisa Pinto de Magalhães e D. Luiza Pinto de Magalhães, Alberto
Monteiro, conde de Mesquitella, Dr. Furtado e esposa, Virgilio
Teixeira, marquezes de Funchal, monsenhor Santos Viegas,
conselheiro Moraes de Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro
Francisco Mattoso, Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e
esposa, conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de
Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poças Falcão e esposa, José
Fernando de Sousa, barão de S. Pedro, conselheiro Thomaz Rosa,
condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio Caria e esposa, M.
Emygdio da Silva, etc., etc.
* * * * *
O que faltou a esta sociedade foi um Balzac, que os trouxesse desde a
obscuridade e da pobreza, que nos contasse o esforço, as transigencias,
o talento gasto e o fel gasto, até chegarem ao poder--Navarro, filho
d'um mestre de musica de Bragança, Mariano pobre, Arroyo pobre. Alguem
que nos desse a vida occulta, a audacia e o descalabro, a chaga politica
que os engrandece e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o romantico da
_Morgadinha_, até ao ponto de acabar por estas palavras amargas, com o
ultimo suspiro:--A vida é uma comedia!--Alguem que nos mostrasse Arroyo
e os seus phantasmas, Mariano e os seus phantasmas, Navarro e os seus
phantasmas.
Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha e envilece--se lhe falta
ideal, paixão, ou um forte sentimento que caldeie as figuras e as eleve!
Não, a vida não é uma comedia. A vida é profunda. Elles é que lidaram
apenas com inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano acabou quasi
desprezado. O talento não lhe serviu de nada. Talvez o prejudicasse...
Ha um momento tragico na sua vida, aquelle em que João Chrisostomo
d'Abreu e Souza lê em plena camara a declaração, em seu nome e no dos
seus colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos os actos irregulares
praticados pelo ministro da fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo,
livido--com um olhar atono, como nunca vi em mais ninguem. O sceptico! o
sceptico amarfanhado, reduzido a trapo, com um golphão de desprezo, por
si e pelos outros, na bocca, com um golphão de negrume!... Jamais me
esquece esta figura, que vi morta entre os vivos, sentado n'um canto da
camara, sem ninguem fazer caso d'elle, vendo sem vêr, ouvindo sem ouvir,
e não tendo podido realisar nenhuma das suas ambições:--Deixem-me!
deixem-me!--Deixem-no com os seus phantasmas! Arroyo talvez encontrasse
na musica um refugio... Navarro, porém, acabou no mesmo abatimento.
Temiam-no--mas só o temiam. Arredaram-no. No fim da vida ficava horas e
horas absorto ou ia para o fundo d'um camarote do Gimnasio ouvir musica.
Apegara-se--mau simptoma--aos netos. Desconfio que o celebre estadulho
não passava d'um espantalho, e que era grande a sua
sensibilidade:--Sinto-me ferido em pleno coração--Do coração morreu, sem
nunca o deixarem realisar as suas ambições.
[Figura: _Guerra Junqueiro._]
Metidos n'aquella roda de navalhas foram até ao fim do combate, luctando
sempre. Os que tinham de escrever, escrevendo sempre, espremendo o
cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando sempre, com a mascara
livida e sorrindo sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh quem me
dera um momento, só um momento para vêr a série de phantasmas em que se
desdobrou cada um destes sêres, para os lêr até ao amago, para lhes
descobrir o instante de cansaço e o ponto vulneravel--rodeados de
invejas, de odios, de inimigos, que esperavam na sombra e não perdoavam
um desfalecimento--uns fingindo-se cinicos, sorrindo aos insultos, e
cravando as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo da Fonseca
Magalhães, outros respondendo á audacia com audacia, outros sucumbindo
ao nojo, com estas palavras que já surprehendi a alguem n'um momento
supremo:--Não, não valia a pena!
* * * * *
O mundo politico é tão curioso! O que está á vista não tem importancia,
o que se mostra não passa de scenario. Para viver aqui dentro é preciso
habituar a pelle a todas as alfinetadas e afivelar na cara uma mascara
perpetua. Este homem elogia outro e combate-o a occultas. O que se diz
nas camaras precisa de ser explicado nos corredores, para ser
comprehendido. O Cypriano Jardim atacou ha dias o governo. Porquê?
Estava nas colonias a ganhar seis libras em oiro por dia e chamaram-no á
metropole. O artigo _D. Folião_ do Colen fez successo... Já se
diz:--Escreveu-o porque o Mattoso dos Santos lhe não despachou uma
pessoa de familia. Foi preciso um ataque rude, para o ministro lhe dar,
antes de cahir, um logar não sei onde. Ha politicos que se servem de
todos os meios: ha-os--sei eu--que se escrevem cartas anonimas. Parece
até que os ha mais completos... Um franquista barafusta hoje nos
corredores das camaras, ácerca dum deputado da maioria:--O que eu admiro
é o descaramento de Fulano, que se atreve a fazer discursos alli na
minha frente, quando sabe perfeitamente que trago na algibeira uma acta
em que elle se confessa ladrão!--Este mundo tem as suas leis, as suas
convenções, os seus preconceitos, e a sua honra especial. O principal é
o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas côrtes é apenas aparato: o José
Luciano combina tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de Souza. Mas
surge ás vezes o inesperado e deita a frandulagem de pernas ao ar... A
atitude violenta do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria ser do
conselho do Estado, o Hintze prometeu nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze
teimou--o rei teimou:--Vae para casa e pensa...--A atitude do Navarro
explica-se porque o rei nunca o deixou ser par...[4] D'ahi o odio--d'ahi
barafunda... O José Luciano procurou o Arroyo para lhe pedir que não
fizesse o discurso contra o rei:--Sou eu, chefe dum grande partido, que
lhe afirmo que não está inutilisado.--E publica no _Correio da Noite_ o
discurso com alusões á rainha--que o Alpoim manda retirar do _Dia_, por
causa do Paço... Os chefes ainda conservam certa linha, mas cá em baixo
vêm-se referver os interesses, as ambições, os despeitos. O D. Carlos
mantem-se n'uma atitude que faltou ao D. Luiz--e é talvez por isso mesmo
que o atacam e o acusam. Não intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz
ao José Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse
ministerio:--Isso não, meu senhor! E vou já d'aqui dizel-o ao
Braamcamp.--Tudo parece confusão, todos os dias a teia se emaranha.
Ainda ha quem defenda este e aquelle, que pertence ao seu partido, por
interesse, por camaradagem, seja pelo que fôr, mas já não ha ninguem que
defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido ou em plena rua, só se fala no
rei... O rei! o rei! o rei!...
Junho--1903.
--Os Braganças, dizia o Latino Coelho, ou são pedantes ou fadistas.
A este proposito o D. João da Camara conta, que um dia D. Pedro V leu um
discurso á mãe, dizendo-lhe ella no fim:
--O menino ha-de sahir um bom pedante.
Se tarda em morrer acabava odiado.
E acabava. As grandes figuras moraes são sempre uma calamidade para si e
para os outros. O universo é amoral, e não ha como os acomodaticios, com
alguma hipocrisia ao seu dispôr... Os outros só fazem a sua desgraça e a
desgraça dos que os rodeiam.
Junho--1903.
Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira e malvaiscos. Uma fiada de
casas e no extremo o atelier do Columbano. Por traz a quinta... E outra
luz diferente, outra atmosphera... O mestre, pobre e obstinado, fez alli
os seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta, n'uma sala de
trez metros quadrados, creou as suas mais bellas rendas. Lá no fundo
morou Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino e outros
diplomatas ilustres... Alli o mestre, como os artistas da Renascença,
experimentou o _fresco_, as tapeçarias, os trabalhos em cêra e prata. A
senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a maior bondade e carinho e
dizia:
--Quando meu pae morreu ficamos sete irmãos. Criei-os a todos.
--E o Columbano?
--Esse é meu irmão, meu filho e meu mestre. Por alli passaram tambem os
maiores homens de Portugal, de quem o Columbano ás vezes fala:
--O Oliveira Martins contou-me, quando veio ao meu _atelier pousar_ para
o retrato, que um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu
transtornada:
--Salve-nos! salve-nos!
Era depois dos acontecimentos do _ultimatum_. O Martins procurou ou
escreveu--não me lembro--ao Anthero do Quental e elle afastou-se e
abandonou tudo.
São curiosos os grandes homens contados pelo Columbano, que os retratou.
Um levava um pente na algibeira para compor o cabelo, outro pedia para
se lhe não ver a careca. O Junqueiro era mephistophelico. Aparecia,
desaparecia logo: não pousava cinco minutos a fio. Um dia o Columbano
ouviu bater a porta, e entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de
grossos sapatões, apegado a uma bengala, que parecia um bordão de
pedinte:
--Disseram-me que gostava de fazer o meu retrato e aqui estou...
Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias grossas de lã azul--mas
quando falava!... Nunca olhou para o retrato.
--Está prompto?
Foi-se embora como viera...
Junho--1903.
O José de Figueiredo diz-me:
--Copiei por minhas mãos, para o Antonio Candido, a carta em que o
Soveral é durissimo para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que,
se não tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos.
Junho--1903.
--Ninguem me mete na cabeça que esta rainha é boa pessoa--diz o Alpoim
ao vel-a descer o Chiado.
Mas, quando passa, toda a redacção do _Dia_ corre á janella, para a
cumprimentar, e o Moreira d'Almeida, que tem por ella culto e paixão,
põe á pressa o chapeu na cabeça, para se ir desbarretar n'uma grande
cortezia.
* * * * *
Fala-se hoje do Soveral na redacção do _Dia_, e da amizade que o liga ao
rei d'Inglaterra.
--São tão amigos que por occasião do ultimatum, ainda Eduardo VII era
Principe de Gales, este pode prevenil-o da atitude da Alemanha. Iam
ambos n'um cortejo: o principe, de passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e
só lhe disse estas palavras:--A Alemanha está comnosco...
O Soveral correu ao telegrapho.
Junho--1903.
O Adrião de Seixas, que, nos seus tempos aureos, entrou em muitas
combinações de finança, negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers,
etc.:
--Quasi todos os homens publicos recebiam luvas, posso garantir-lh'o.
Todos estendiam a mão. Duma vez trouxe para um, um aparelho de chá,
magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o e, destapando o
assucareiro, afirmou com desplante, sorrindo:--É magnifico... só lhe
falta o assucar.--Eu, que já ia prevenido, tirei das algibeiras alguns
rolos de libras, despejei-os dentro e perguntei:--E agora?--Agora está
optimo.--E concluiu:--Você é uma mercearia ambulante!
Junho--1903.
O marquez de Soveral em conversa com o Alberto Braga:
--É que eu vivo em Londres longe de tudo isto... Se me visse forçado a
viver em Portugal, fazia-me revolucionario.
* * * * *
Tambem o Alpoim diz hoje:
--Quem me dera uma revolução!
E, deante do nosso espanto, explica:
--Para pôr o rei no seu logar... Eu não tenho nada a perder, meus filhos
estão colocados, o que tenho chega-me para viver na Regoa como um
fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo. Mas quê! Agora com a
aliança ingleza é muito peor. Ainda outro dia dizia o José
Luciano:--Podem vir os republicanos todos juntos, os de cá e os de
Hespanha, que não fazem nada. É da aliança que, se houver qualquer
movimento, desembarcam tropas e defendem o rei.
E acrescenta:
--Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas, posso assegurar-lho.
* * * * *
--Elle é mau, é--diz o Alpoim do rei--mas a gente não tem outro.
Junho--1903.
O Abel d'Andrade:
--Conheço muito bem o Hintze. Tem duas qualidades magnificas n'um homem,
pessimas n'um chefe. É delicadissimo. Sorri sempre, mesmo quando sabe
que o enganam--e nunca resolve nada, o que lhe acarreta dificuldades,
que vão crescendo á medida que elle as adia. Tem outro defeito enorme;
não é capaz de dizer _não_ peremptoriamente a ninguem.
Junho--1903.
O Emygdio Navarro está furioso com o rei. Sentiu immenso que o não
convidassem para nenhuma das festas dadas ao rei d'Inglaterra--quando
foi elle que iniciou, defendeu e preparou a aliança anglo-portugueza.
Junho--1903.
Estive hoje em casa do juiz Veiga, lá para o Rato, por causa d'uma
querela do _Dia_. É um homem atarracado e forte, com um ar de falsa
bonhomia. Ha n'elle não sei quê de inquisidor e de satiro, e é tão
desconfiado, que, logo que eu entro, pousa sobre os papeis da secretaria
uma larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala, de cadeiras
doiradas de palhinha e _consoles_ com gatos de vidro, ha varios
mostrengos em exposição: o retrato delle e retratos de familia,
temerosos, o busto do rei D. Carlos em marmore e outro não sei de quem,
ambos de arripiar. E, entre a papelada que trasborda e estas coisas de
mau gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma com uma mulher em
pêlo...
É este o homem que sabe tudo e pode tudo, que conhece os segredos das
familias e os segredos da politica. N'outro dia obrigou um janota a
entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma mulher casada. Contam-se
mais casos curiosos. É omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se, bufos
ilustres de quem ninguem suspeita. Tem um cofre sem fundo á sua
disposição para distribuir dinheiro a rodos. Acode a desgraçados.
Tortura--verdade ou mentira?--no fundo das celulas alguns presos
politicos para lhes arrancar segredos. Ainda ha tempos me contaram que
ao José do Valle não o deixaram dormir sem elle confessar tudo...--É uma
especie de Pina Manique, que pouco abusa do seu lugar e da sua
autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha até quem o diga uma especie de
Providencia. É incontestavelmente um homem esperto, que
protesta:--Quero-me ir embora antes que tudo isto desabe. Esta gente não
sabe ou não quer defender-se...
Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve n'um prompto, como quem
não encontra nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada,
surprehendo duas creadas de avental sujo e chinelos esbeiçados, que dão
de comer, ás escondidas, a um policia. Enganam-no na sua propria casa e
deitam a fugir quando me vêem.
Junho--1903.
O artigo de hontem, das _Novidades_, sobre a mortandade da Servia, cheio
d'alusões ao rei, fez sensação. E dizia-se por ahi:
--Quando se faz cá o mesmo?
--Foi uma limpeza!--phrase do Alpoim.
* * * * *
O Beirão:
--O Alpoim não quer vêr que o partido do João Franco, apezar de pequeno,
é um partido de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e dá-lhe os mesmos
poderes que tem dado ao Hintze ou ao José Luciano.
Junho--1903.
Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade Corvo, conta, a proposito
do rei e do poder pessoal:
--Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre ellas uma ao Corvo,
pedindo-lhe que apresente certa proposta, mas de maneira que não pareça
_poder pessoal_... Os homens desse tempo impunham-se. Um dia ao D.
Augusto meteu-se-lhe em cabeça casar com uma infanta d'Hespanha. Era no
tempo em que se falava muito na união iberica. O Corvo opoz-se, apesar
da insistencia desesperada do infante. Por ultimo procurou-o e
disse-lhe:
--Escusa de insistir, que não casa. É pelo bem do paiz.
* * * * *
O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar a serio na Africa e no
seu engrandecimento. Quiz augmentar o territorio de Angola e
estabelecer-lhe os limites, d'acordo com a Inglaterra. Tudo era possivel
n'esse tempo e tinhamo-nos livrado de dificuldades, do Estado livre do
Congo, etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por causa do tratado
de Lourenço Marques. Deitaram-no a terra, espalhando que recebera
milhões. Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...
Nas camaras o governo d'então declarou que o tratado não tenha ido a
conselho de ministros. O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações
do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. Apesar d'isso calou-se. Se fosse
hoje!...
Junho--1903.
--O rei tem pensado. E tanto que o infante quiz ir agora ao estrangeiro
e pediu dinheiro ao Hintze, que lhe respondeu:--Peço-lhe que desista.--O
infante rasgou a carta furioso. Com a Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa
inventou uma doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que precisava de
ir ao estrangeiro. Resposta do rei:--Cá ha um bom
especialista.--Mandou-lho, e elle disse ao rei que a Maria Pia não tinha
nada. A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe o Antonio
Lencastre. O rei tem pensado...
--Se isso fosse verdade!--exclama o Alpoim.
Junho--1903.
Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em frente do _Dia_, a procissão do
Corpo de Deus. Todos á janella cahiram de joelhos--quando o bispo de
Trajanopolis passou, a barba loura, muito cuidada, e um capachinho no
alto da cabeça, apartado ao meio... O Alpoim exclamou:
--Ó que maroto! Foi a este que o Barros Gomes, quando ministro, disse um
dia: Ajoelhe a meus pés! Peça perdão!--Tinha hypothecado lá fóra os
rendimentos do curia por noventa annos!
Junho--1903.
O D. João da Camara conta que no Algarve encontrou em todas as casas
dois retratos--o de João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz que
um tio de Coelho de Carvalho levava já a galope o comutamento da pena do
Remexido, quando o fuzilaram. E termina:--A Angela Pinto é neta do
Remexido. Aposto que não sabiam!
Julho--1903.
--Vou pedir um logar que está vago no Supremo Tribunal--disse um patusco
ao Marçal Pacheco.
--De juiz?!
--Isso.
--Mas você endoideceu! Não lh'o dão!
--Isso sei eu.
--Mas então porque é que o pede?
--Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir mais esta. Recusam-ma, já
sei, mas é _capital_ de queixa que amontôo.
* * * * *
O Alpoim:
--Um dia o cardeal patriarcha convidou-me para jantar. Estavam muitos
bispos. São jantares que nunca acabam, de quinze pratos, serviço
esplendido--e não calcula a impressão que eu senti, no fim, quando elles
se levantaram muito congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando
charutos enormes e com as saias arregaçadas...
Setembro--1903.
O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, contou-me hoje que o Paço
por trez vezes mandou insistir com o sogro, para elle não continuar com
os ataques nas _Novidades_.
Outubro--1903.
O Alpoim recomenda no _Dia_ que se não publique nada que possa ferir as
susceptibilidades da côrte hespanhola. Afonso XIII está
desconfiadissimo. Além d'isso o nosso rei e rainha de Hespanha não se
podem ver: têem um pelo outro odio figadal.
* * * * *
Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por ordem do seu governo vêr em
que estado tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou tudo.
[Figura: _José Luciano encerra o Parlamento._--Caricatura inedita de
Celso Herminio.]
* * * * *
Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente. Um regabofe. Da
iluminação da Avenida diz-se:--Dos Restauradores para cima dirige o
Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o...
* * * * *
Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e os que o acompanhavam
troçaram tudo isto: o paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto,
emquanto elle tomava café ou chocolate, os particulares e os intimos
maldiziam, n'uma chacota pegada... Só o rei, fracamente, se opunha.
Outubro--1903.
O D. João da Camara conta o seguinte:
--O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer, trezentas libras por mez á
Rosa Damasceno. Todos os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava cem
libras em oiro, que elle nem sequer contava: mandava-as logo á Rosa.
Morreu no dia 19 de Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o
dinheiro.--E o Brazão?--Cuido que não são casados, apezar do que por ahi
se diz. O que é certo é que antigamente, as coisas arranjavam-se por
forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam na mesma peça, e um d'elles
ia sempre passar a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do Brazão:--É o meu
melhor amigo. A Rosa nunca abusou da situação: apenas empregou dois ou
tres homens e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. Traduziu-lhe
a _Odette_ e assistia aos ensaios. A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou
no quarto do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço de rendas a
tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz apresentava-lhe joias para ella
escolher e depois levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro, para
que ella visse o efeito das joias no colo da actriz.
Outubro--1903.
--Vi eu, vi eu!--exclama o Antonio José de Freitas--o Oliveira Martins,
n'uma sala, deslumbrado, solicitar a apresentação d'um janota qualquer,
d'um janota banal.
Dezembro--1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
--Não se fazem descontos, porque não ha dinheiro e o Banco já recorreu
ás reservas de prata. O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine o
meu amigo que todos os annos ha um _deficit_ de 7:000 contos. Ninguem
tem a coragem de dizer as coisas como ellas são e por isso se faz um
orçamento falsificado. Resultado: como o orçamento é falso, pode-se
roubar á vontade!
* * * * *
O José Luciano está a morrer. O que ahi vae com a chefia do partido
progressista! Ao Antonio Candido não o tragam os progressistas, ao
Beirão não o quer o Paço, nem o Navarro, nem o Mariano. Lança-se o nome
de Antonio Candido para encobrir o seguinte proposito: presidente do
conselho o Mathias de Carvalho, com o Alpoim na pasta do reino.
Mathias de Carvalho é uma figura decorativa, sempre de palito na bocca e
de miolos empedernidos, que ficará na presidencia e estrangeiros. Esta
solução é preferida pelo Navarro e pelo Mariano. De Mathias apenas se
sabe que é incapaz: como diplomata foi quem deu ensejo a esfriarem-se as
relações com a Italia.
--Se o José Luciano morrer é á facada!--exclama o Alpoim.
Morrer era ainda--Deus me perdoe!--uma solução... Peor será conserval-o
na cadeira de rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros á espera
do testamento. Toda a politica portugueza vae girar em volta d'este
leito de enfermo, onde o velho continua a dar ordens imperiosas.--Hoje
deitou um litro de pus pela pelle.--Está salvo!--Morre!--Fica
invalido!--Tem sifilis!--Nesta altura da politica portugueza, é elle
quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo, por exemplo, que o não
pode vêr, porque o José Luciano o não deixou realizar as suas
pretenções. É na sua casa que se resolvem as questões maximas. A
politica é pelo menos n'uma grande parte, na melhor parte, representada
nos bastidores... «Vejam a vergonha desta gente! O Campos Henriques vae
a casa do José Luciano com o Julio de Vilhena, para conseguir que as
emendas do codigo civil passem. Não passam e elle fica no ministerio! O
Teixeira de Souza vae lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu
palavra de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...»
Outro facto extraordinario da nossa politica: é sempre no campo adverso
que estes homens tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe
nitidamente que no fundo da lucta só ha uma força, o rei. Por isso mesmo
o rei é sempre o culpado. Quem tudo manda é o Paço--dizem todos os
politicos--e tanto mais que não ha um nucleo de resistencia no paiz. Os
republicanos não estão organizados e o Paço nem sabe o que póde. Uma
revolução no paiz é, segundo a opinião geral, impossivel, a não ser que
se succedam trez annos de fome.--Tudo quanto se faz de mau é o rei quem
o faz...--Ainda hoje ouvi esta conversa:--Foi o Hintze quem disse ao
Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro. «É el-rei que não quer».
Nunca lh'o deveria ter dito.--Os politicos inutilisam-no e
inutilizam-se. Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a proposito
d'uma nota oficiosa que o ministro da fazenda fez publicar no
_Noticias_, no _Seculo_ e no _Diario_, anunciando um grande emprestimo
no estrangeiro, conta-se que é um negocio de acordo com a casa Fonseca,
Santos & Viana, que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira de Souza
de conivencia. Mas já a 2 de junho o Alpoim afirma:--Quem não deixa
passar o emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter a cabeça cortada.
No ministerio da fazenda ha documentos que provam as suas maquinações no
estrangeiro. Elle manda em tudo:--manda no Credito Predial, no Banco de
Portugal, na Companhia Real. É uma desgraça que o emprestimo não passe.
Temos nós de o fazer e em que condições!... E tudo isto com que fim? E o
Burnay a ver se obriga os progressistas ao contracto dos tabacos.--A
esta trapalhada juntem a doença do José Luciano e as ambições, que
levantam a cabeça, a guerra de sapa que se encarniça.--Hoje deitou mais
pus!--Morre!--Com quem está o Paço?--O Moreirinha com a algalia não lhe
sae da cabeceira.--Quem vae ao poder? O João Franco?
--Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe tinha feito. Ha-de pagar-me
caro o discurso que fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!... São
mil os interesses, mil as ambições.--Tudo menos o Beirão, que só tem por
si a gente velha, a gente conhecida pelos _batibarbas_.
Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite sequer a idéa de que alguem,
que não seja elle, vá ao poder. Até á ultima--ambição ou
grandeza?--ha-de disputar e mandar, como o Alpoim, até ao ultimo
suspiro, ha-de conspirar. Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem
apenas os interesses d'uma familia. O drama é maior: são os interesses
dos partidos, com mil e uma ambições e enredos que nem sequer se
suspeitam. A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia comanda o
ataque, á frente dos _batibarbas_, contra o Alpoim, e o Alpoim, que
ainda hontem atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904) diz, depois
do conluio feito pelo Silva Graça:--Com esse me entendo eu!
Fevereiro--1904.
Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo em S. Carlos.
Estava tudo, o rei, a rainha, a côrte... Senhoras decotadas com os
vestidos presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia de vermelho.
Andava no ar uma bola enorme de borracha, e ao janota que quiz saltar
dentro d'um camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota, a
chalaça, a delicia, era um penico em miniatura, que passava de mão em
mão, por entre as grosserias, que é do uso antigo as senhoras dizerem
umas ás outras na terça-feira gorda. O fundo d'estes risos vem sempre da
mesma palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, gordo e louro,
soprava por um canudo setas de papel, botando o olho de revez, e houve
um momento em que o infante mostrou do camarote o quer que era de
borracha, um canudo cheio de vento, immenso e obsceno. Foi um delirio
entre aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda de que se contam
baixinho os escandalos.
Ouçam um destes rapazes que estão na plateia, e que falam das senhoras,
como quem fala com desprezo das mulheres da Antonia. Muita desta gente
não se sabe aonde vae buscar o dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e
correcto, que está além n'uma atitude romantica, ainda ha dias quiz
extorquir alguns contos de reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro
só vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome ilustre, tem um
modesto logar na alfandega, e a mulher usa brilhantes esplendidos.
Aquelle, acolá, tão decorativo, é conhecido pelo conde de Monta-a-Velha.
São raros os que não têm alcunhas. A uma senhora de perfil soberano
chamam-lhe a Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste e de aquella
diz-se alto a chronica escandalosa. A mulher do S. deu este anno grande
escandalo em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um embaixador. Com
aquella, mais além, fina como uma cobra, e que ostenta um colar
magnifico, puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter roubado uma
carteira com trezentos mil reis, depois de terem sido todos seus
amantes. A mulher do J... deixa o marido, pé de boi rico que só lhe
serve para puxar á nora, e gasta-lhe a rodos o dinheiro que juntou. Eis
esta mãe viciosa com a filha ao lado--de olhos limpidos e innocentes.
Peor, ha peor... E mais esta--e mais esta--e mais esta condessa, que
n'outro dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor que equivoca...
Puz-me a ouvir, a ouvir,--verdade? mentira?--e lembrei-me ao mesmo tempo
da côrte da senhora D. Carlota Joaquina e da _Chartreuse de Parma_.
* * * * *
O general Lencastre de Menezes:
--Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas não se tinham passado
assim...
Março--1904.
Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, que quiz por força passar por
branco, o que lhe custou os olhos da cara. Se teima em viver mais algum
tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma corte que lhe custava carissima:
lisongeavam-no e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe
processos, depois demandas... Depois sopravam-lhe á vaidade
incomensuravel. E o preto sorria, o preto dizia sempre que sim.
Tinham-no casado com uma linda rapariga branca--e o preto, á farta,
pagara tudo, dotara tudo, a noiva, os paes da noiva, os parentes da
noiva... E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o enredavam n'uma
vasta teia de interesses, com muitas zumbaias e papel selado.
Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um principe branco: comprou
um _yacht_ de luxo para ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não
havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a madeira entalhada, os
doirados do barco, as portas, os salões, as molduras. E o preto sorria.
Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por uma côdea.
Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe mais brancos infatigaveis,
pressurosos, obsequiadores. E mais papel selado, mais contractos e
procurações para assignar--o enredo, a teia subtil em que o negralhão
foi arrastado e envolvido, o verdadeiro, o authentico drama, emfim, do
preto que quer ser branco... Se elle tinha por acaso um sobresalto,
falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe noticia d'uma coisa que se chama
o Codigo, a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia e que se
sentia feliz, submetia-se sem contestar, com uma grande satisfação por
fazer parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos, por ser
visconde, por pertencer á côrte e á alta sociedade elegante.
...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo golpe--de preto. Os brancos
ficaram-lhe com as roças, e as propriedades de S. Thomé foram
transferidas para uma sociedade por quotas. É o que consta por ahi,
emquanto o negralhão estoira com uma pneumonia dupla--e lá em casa se
toca desaforadamente piano, com as janellas abertas de par em par.
Março--1904.
As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades custaram 180 contos.
* * * * *
O Abel d'Andrade contou-me que a modista da mulher lhe dissera que a
mulher do Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum anno.
Março--1904.
O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva como este. Mas, quando o
caixão chegou ao pé da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e no
vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças amarellas dos
malmequeres. Os passaros começaram a cantar. E viu-se logo o Brito
Aranha, de pera branca, dar um passo em frente e fazer um discurso:--O
amigo... o camarada... descança em paz.--Depois o Cunha e Costa falou na
nossa decadencia, e por fim o Carneiro de Moura mastigou tambem uma
banalidade... Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os passaros não
cessavam de cantar--e a meu lado o D. João da Camara suspirou baixinho:
--Quem me dera que quando eu morrer só o saibam meia duzia de amigos!...
Abril--1904.
O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia Seabra de Castro:
--Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José Luciano estavamos a discutir
umas alterações á Carta Constitucional e ella começou do lado a dar a
sua opinião. O José Luciano mandou-a embora. D'outra vez sahia eu de
casa do José Luciano com o Antonio Candido e vinhamos á porta da sala
grande, quando ella do alto da galeria:
--Ó senhor Antonio Candido então agora é que vae para Amarante, quando é
cá preciso? E é para isto que nós os fazemos pares e os enchemos de
honrarias?...
O Antonio Candido não respondeu. Ficou tão vexado que, de casa até á
baixa, não trocamos palavra.
Março--1904.
As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção de duas, eram tal qual
como a mãe. O Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi casada com o
mais lindo homem do seu tempo, estava um dia, em solteira, á janella,
quando o conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, já vestido de
oiro e prata. Ella chamou-o, trocaram meia duzia de palavras, elle
subiu--e depois desceu e foi tourear...
O marquez de Vallada sabia quem eram os paes de todos os filhos de D.
Carlota Joaquina.
Abril--1904.
A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós não podemos mobilisar quinze
mil homens. Nem dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se ao
Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia de campanha possuimos: a
que temos ficava liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia
do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo os obuzes, serve
apenas para navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento mal
chega para uma hora de combate!
Abril--1904.
O dr. Antonio Centeno protesta:
--Isto não pode ser! O ministro deu pela iluminação electrica do Paço de
Belem quarenta contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora vae dar a
iluminação electrica de todos os paços por trezentos contos. Ha quem a
faça por quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica a Companhia
do Gaz. Vou procural-o e dizer-lho. Se teimar levo a questão para a
camara e para os jornaes.
Abril--1904.
Quem faz a politica externa é o rei e o Several. O ministro dos
estrangeiros chancela.
Abril--1904.
Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum que não enriqueça. Hoje
afirma-se que o Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu machinas á
Companhia por cento e trinta e tres mil francos, que valiam setenta mil.
O Croneau, director do Arsenal, tambem está rico.
Abril--1904.
Diz o Alpoim:
--O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda atendia o general Queiroz,
que era nosso amigo. Agora não: só ouve os presidentes do conselho.
Tratava muito bem o Teixeira de Souza; pois quando o Hintze resolveu
pol-o na rua, passou logo a tratal-o mal.
Maio--1904.
O alferes que no 31 de Janeiro comandava a guarda municipal, por traz do
campo de Santo Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que depois
comandou o fogo na rua de Santo Antonio, garante que o Lencastre e
Menezes, então comandante do 18, não sahiu com o regimento emquanto não
viu tudo decidido. E dentro do quartel havia socego...
--Eu disse-o depois ao rei.
* * * * *
A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José de Figueiredo, que o ouviu
por diferentes vezes ao Antonio Candido, que o rei e a gente do Paço
queriam um castigo exemplar. Antonio Candido opoz-se e ficou mal visto
durante muitos annos.
Junho--1904.
Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou parte, activa no tratado
d'_entente_ entre a Inglaterra e a França. É hoje um dos melhores amigos
de Delcassé.
Julho--1904.
A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro, mandou pedir dinheiro
aos agiotas de Paris sobre hypotheca das suas propriedades--chalet do
Estoril e parte do palacio das Necessidades, que ella afirma
pertencer-lhe... Ao todo cento e oitenta contos. De intermediarios
serviram um agiota do Porto, uma mulher designada na correspondencia
pelo nome de madame Blanche, e que recebia dez mil francos, etc.
* * * * *
Do Antonio José de Freitas:
O marquez da Fronteira nunca poude levar a bem o casamento de D.
Fernando com a _comica_, como elle lhe chamava. Uma senhora da
aristocracia conversando com o marquez:
--Fui visitar el-rei que me disse:--Não queres vêr a condessa?--Falei
com ella e parece-me...--hesitando--muito interessante...
[Figura: _Celso Herminio._]
E o marquez logo:
--A senhora já tinha, é claro, relações anteriores com a condessa...
Dezembro--1904.
O João da Camara repartiu com os netos de Camillo os direitos de auctor
do _Amor de Perdição_. Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia em que
receberam inesperadamente esse dinheiro. O Camara, quando juntou
duzentos e tantos mil reis, escreveu á viuva e mandou-lhe
metade.--N'esse dia--disse ella ao Alberto Pimentel--não tinha que lhes
dar de comer.
* * * * *
O rei e a rainha vivem separados. Os seus aposentos são, uns n'um
extremo, outros no outro extremo do palacio. E por ahi afirma-se que
elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...
Dezembro--1904.
O velho obstinado teima... Não lhe falem na successão! Ainda n'outro dia
fez uma scena, quando a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das
_Novidades_. Um amigo disse-lhe:--Deixe lá o Sebastião Telles ou o
Alpoim ser presidente do conselho.--Essa hypothese não a admito
eu!--protestou logo. O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido no
norte como um Messias. O Beirão fez um discurso nas camaras--talvez
proposital--dizendo que cortaria nos empregos publicos e que não admitia
direitos adquiridos senão dentro da lei.--Elle quer inutilisar-se...--É
um tipo esgalgado, d'astronomo, com uma grande penca--o nariz do
Beirão--motivo facil de caricatura. Homem de costumes simples, alheado e
indiferente a corrilhos, agarrado aos seus livros[5]. Já em Abril, no
conselho d'estado, taes coisas disse que, á sahida, afirmou:--Acabo de
dar uma enxadada na minha reputação!--Quanto ao Alpoim desconfia que o
José Luciano o quer comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças
dentro do seu proprio partido: comprou _A Tribuna_ e parece influenciar
no _Diario_.--Ao Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe
porquê...--Os tumultos nas camaras succedem-se e a situação politica
agrava-se.
Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou muito dinheiro no
Banco d'Inglaterra, (11 de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes
á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella... As questões
prendem-se, e agora com o contracto dos tabacos só se fala em
escandalos. Tudo come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, e um
amigo meu, literato e jornalista, afirma-me:--Se a Companhia dos
Phosphoros tem feito o contracto, eu estava rico.--Corre que os
republicanos se organisam e o Bernardino Machado publicou manifesto,
aproveitando um jornal e um jornalista hespanhol:
...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da
humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão
pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem
instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos.
De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um
periodo de ascensão liberal.
«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela
lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua
elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas
colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir
espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a
liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil.
Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão
morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das
associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as
liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das
minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas
franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio
liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que
começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que
resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.
«Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e
Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande
obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador
Fontes quem mais contribuiu para ella.
«Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da
constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal;
Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde
ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim
em absolutismo.
«No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi
republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da
Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a
carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do
imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria
II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas
fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade
da nação.
«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José
Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que
inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os
actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos
constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas,
constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos,
qual delles mais avançado, da reforma constitucional.
«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez
de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido
progressista faz a centralisação dos serviços materiaes.
Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a
centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois
dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com
as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por
fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução
violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça
sempre suspensa sobre todos os liberaes.
«Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza,
não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a
Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer
uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num
prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz
revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes,
duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as
liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma
Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o
regimen autonomo local nulo.
«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao
antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e
derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em
bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte
restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos
civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu
auge,--toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma
questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de
morte para Portugal...
* * * * *
«A anarchia da nação demonstra-se: no interior pelo desencadeamento
das forças dissolventes do caciquismo, da plutocracia e a agitação
do clericalismo e fóra, pelas mesmas consequencias dolorosas que se
seguem a qualquer dictadura progressista ou regeneradora. Depois da
dictadura progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão
congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da irmã
Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, o convenio
definitivo da divida, e o fanatismo clerical, irrompendo no caso
Calmon.
«Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o
progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança
tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia?
Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira,
visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo
d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia
rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer
para as suas festas, que são oficiaes e não particulares?
«Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes
trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o
sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do
militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia
não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins
morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo.
Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e
suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma,
alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de
Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido
conquistar as massas populares, e para captar as simpathias
internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas
maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os,
porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de
Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.
«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como
tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe
atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da
monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois
erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é
comtudo imputado aos que o rodeiam.
«Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por
grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o
seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo
só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso
peso.
«E não se diga que a monarchia está identificada com a
independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre
monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na
monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot,
no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel
soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente
divorciando do povo.
«E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A
aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de
governo.
* * * * *
«É indispensavel organisar as forças vivas da nação portugueza.
_Organisando-se o partido republicano salvar-se-ha a nação_. É
preciso que o partido republicano se transforme em partido do
governo, e que cesse com a sua obra de demolição, já feita. Se não
pode alcançar logares no parlamento, conquiste-os nos municipios;
se não pode intervir no municipio, intervenha na parochia. Não
deixe ao abandono nenhum logar, por minimo que seja. E faça
sobretudo por apoiar todas as justas reivindicações dos pobres e
dos humildes.
«Deve ser um partido republicano profundamente socialista. Quando
os republicanos, por meio de toda a sua campanha, se mostrarem
homens de governo, podem estar certos de que a Republica se fará em
Portugal como se fez no Brasil, e á maneira do que succedeu em
1871, em França, onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de
monarchicos, elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para chefe
do Estado Thiers, que era um monarchico convertido á Republica.
«A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura,
para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar
á educação do povo. O estado actual o demonstra: _tanto é certo que
quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção_.
«A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a
união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo
trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a
verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da
familia, a cooperação economica e o progresso politico da
sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o
segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia
servil.
«Torna-se necessario defender a religião como um principio
immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um
instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a
religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura,
tornando-a voluntaria e livre.
«A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres
principios: _liberdade politica, liberdade economica e liberdade
religiosa_. Em nome de todos que querem saber, e não podem,
oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas
analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem,
oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios;
em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a
reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade
de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e
arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes,
pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que
hoje a sustenta e defende em Portugal: _o partido republicano_.
«Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito
á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o
santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de
paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra».
D'outubro para novembro cae o governo, abalado pela questão dos tabacos:
os homens estão cada vez mais divididos por ambições e interesses. D'um
lado os Phosphoros, do outro os Tabacos; dum lado o _Seculo_ e o
Navarro, que ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia com o
José Luciano, dizendo depois á familia:--O José Luciano está cada vez
mais velhaco!--De outro o Burnay e o seu grupo... Os homens vão dia a
dia diminuindo de estatura moral! Ainda hontem alguem me contou esta
anecdota que define uma figura:--O Rebello da Silva era muito amigo do
Latino--mas muito mais amigo ainda da sua ambição: queria ser ministro
depressa. Um dia, de repente, cessou com as visitas que fazia ao grande
escriptor. Tinha descoberto um prefacio antigo, em que o Latino advogava
a união iberica, e foi para as camaras atacal-o. A questão durou tres
dias, o governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o Latino na pasta
da marinha. Nessa mesma noite procurou-o de novo, e foi encontral-o a
lêr serenamente uma grammatica russa, cujo estudo interrompera durante o
tempo do governo.
--Tu já sabes, se queres alguma coisa é como se fosses ministro.
--Eu?!...--e sorriu-se, encolhendo os hombros. Mas tão triste, tão
sereno, que o outro ficou gelado...
Dezembro--1907.
O velho major Fumega, em conversa com outro militar reformado:
--Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim, tinham resolvido proclamar o D.
Luiz imperador da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos sargentos.
A mim, que era então sargento, deram-me seis contos, para distribuir
dezoito tostões por soldado. Tornei a entregal-os intactos. Se fosse
hoje gastava-os no brodio.
--Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo d'eles.
--O movimento abortou, porque foi denunciado pelo Graça, mais tarde
celebre como major Graça, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar as
actas, como quartel-mestre, descobriu tudo. Era um denunciante, foi-o
sempre--conclue o Fumega, fumando placidamente o seu cigarro.
Dezembro--1907.
O D. Carlos a um oficial do exercito, depois da lucta com o João Franco,
das descomposturas ao rei, etc.,--e referindo-se aos politicos:
--Tu ouvel-os falar, não é verdade? Pois se lesses as cartas que todos
os dias me escrevem, e que estão alli n'aquella gaveta, enchias-te de
nojo!
Dezembro--1907.
Conta-me o D. João da Camara:
--A rainha era amicissima do meu irmão, o conde da Ribeira Grande.
Visitou-o seis vezes durante a sua doença. N'uma das ultimas noites elle
puxou-a a si, beijou-a, e explicou:
--É como se fosse minha filha.
Já na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle pode ainda dizer-lhe,
n'um ultimo arranco, estas palavras proheticas:
--Os politicos! Cautela com os politicos!
E ella respondeu-lhe:
--Descanse, não ha-de ter duvida, se Deus quizer.
* * * * *
Era um pouco apagado, mas bondosissimo. D'uma vez uma senhora foi
dar-lhe os pezames pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido um
filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar n'elle, cheia de saudade
e de lagrimas. E o conde da Ribeira, esquecendo a propria dôr, passou a
consolal-a...
Janeiro--1908.
O Fialho conta, indignado, que a viuva do Eça de Queiroz, a quem o
Estado dá uma pensão, vae vender uma propriedade no Alemtejo, por cento
e tantos contos.
--Veja você que pouca vergonha! São uns poucos de kilometros de terra de
semeadura e montado de azinho e bolota, que sustenta um cento de
cevados! Bem sei que metade da propriedade é da irmã, da mulher do Luiz
Osorio... Ainda assim são cincoenta contos. Mas n'este paiz faz-se tudo
o que o senhor Arnoso quer!...
Janeiro--1908.
Um oficial d'armada, ao José de Figueiredo:
--Todos os oficiaes d'armada, á excepção de meia duzia, não podem vêr o
rei, a quem chamam _o pulha_. Se houvesse em terra um movimento
republicano, secundavam-no logo.
* * * * *
Diz-se por ahi:
--Venha tudo, venha o peor, venha o diabo do inferno, que nos livre
d'isto!
Janeiro--1908.
No _Turf_ e no _Club Tauromachico_ joga-se sempre escandalosamente. O
conde de... lá vae outra vez para a Africa, arruinado pelo jogo no _Club
Tauromachico_, o visconde de... tambem lá perdeu uma fortuna.
Janeiro--1908.
Grosso escandalo com o livro do Albuquerque, _O Marquez da Bacalhôa_.
Este Albuquerque, conhecido pelo _Lendea_, é o ultimo descendente, pelo
pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e, pela mãe, do grave, do douto
João de Barros. Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma terra de
provincia e se hospedou na casa delle, sahiram das lojas caixotes de
louça da India, que nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma vida de
aventuras: bateu-se em duello em Madrid, caçou no Cabo com lords, tocou
guitarra em Ourville e teve uma loja d'instalações electricas na Italia.
Agora é jornalista, escriptor, poeta e publica este livro d'escandalo,
em que a rainha, Senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de
rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo aquillo--e peor--anda por ahi de
bocca em bocca ha muito tempo. E não vem de baixo--vem de cima...
* * * * *
Do Paço mandaram buscar um exemplar á livraria Ferreira.
Janeiro--1908.
O rei em Villa Viçosa caça; o João Franco em Carnide dorme com a casa
cercada de policia. Fala-se em conspirações, na tropa, em transferencias
d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano d'Azevedo disse hoje na livraria
ao Bernardino Machado:
--Isto cheira a cadaver...
--Cheira a polvora, é que é--respondeu lhe elle.
Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta. Ha prisões--fala-se em
mais prisões ainda e os jornaes estão garrotados.
* * * * *
O Maximiliano d'Azevedo:
--É falso que fosse o Correia de Barros quem matou a Manuela Rey.
Disse-me muitas vezes a Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmão
do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte á Manuela. Ella aceitou-lha, e
uma noite o Correia de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o
brandindo a bengala, saltou por uma janella. A Manuela fugiu e foi para
a rua das Galinheiras, para uma casa onde morava a cabeleireira do
theatro, e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar.
Debalde o Correia de Barros lhe perdoou:
--Não! Não!
Chorou--e morreu. Já estava tisica ha muito tempo.
* * * * *
E conta-me tambem:
--A Emilia das Neves estava n'uma casa de mulheres. Deram com ella por
acaso. Quem primeiro a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal sabia lêr
e toda a vida deu sylabadas.
Janeiro--1908.
O governo retira as munições a alguns regimentos e á marinha: só tem
confiança na guarda. Diz-me o Schwalbach:--«Ouvi-o da bocca do oficial
encarregado d'esse serviço. A noite passada retiraram as munições a um
regimento da capital». Corre com insistencia que o coronel Albano da
Fonseca morreu envenenado... Os navios de guerra foram desarmados, sob
pretexto de estudo de renovação e adaptação das munições, que se
removeram para o serviço de torpedos. O Maximiliano diz-me tambem que
varias peças do campo entrincheirado ficaram assestadas sobre os navios
de guerra.
[Figura: _Gomes Leal._--Desenho de Antonio Carneiro.]
* * * * *
O Fialho está um franquista ferrenho:
--O João Franco já me mandou chamar tres vezes.
E, como eu me espante de o vêr conservador, elle diz:
--Fui-o sempre. Já esse maroto do Arnaldo Fonseca dizia a meu
respeito:--É um bohemio que trata a roupa com nephetalina!
* * * * *
A Angela Pinto está com um preto que lhe poz automovel.
--Ó Angela, então tu agora?!
--Vocês que querem? Não andam todos os dias ahi a prégar que o futuro de
Portugal está nas nossas colonias?
Janeiro--1908.
Prenderam hontem o Antonio José de Almeida. O João Barreira conta-me que
a policia apanhou sessenta rewolveres aos republicanos, mas não
descobriu os depositos d'armamento. O João Pinto dos Santos diz:
--A prisão de Antonio José d'Almeida é um ensaio. Se virem que as massas
populares não protestam, desatam a prender a torto e a direito. Eu estou
aqui estou preso: o João Franco odeia-me.
* * * * *
Um livreiro:
Fizeram mal em prohibir _O Marquez da Bacalhôa_. Já ha quem tenha dado
por um exemplar tres mil reis, e o preço corrente é agora de dez a
quinze tostões... Se o queriam inutilizar aprehendessem-no, tanto mais
que toda a gente sabia onde era impresso.