SUMMARIO

O sr. _Alexandre Herculano_, opusculista. Os semi-deuses e os rapazes.

As armaduras e as flanellas. _A Voz do Propheta_, geremiada de salão. A

biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os

egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os

fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com

Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de

Radway. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa,

Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e

Carl Marx. O sr. Herculano Salomão e nós o bôbo Marcullo.--João Felix

Pereira, historiador. Os compendios da instrucção publica e as

equarissages.--O sr. D. Fernando em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e

seus principios politicos.--A casa de detenção nas Monicas. O edificio,

as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a

catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia

penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem

se fazendo-se dezembargadores ou coroneis--As curiosidades infantis da

Republica Portugueza--_Duas palavras aos leitores das Farpas_, folheto

brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil:

testemunho insuspeito e juizo final. O sr. Mathias de Carvalho e a

actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero

e a nossa.--O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O

Sport e o Lagoia. Perfil do _high-life_. Os srs. De Lagrange, De Mouchy,

Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas

tipoias vencedoras--Representação da comedia _Magdalena_. Os caracteres,

os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas honestas.--Um anjo

catholico e uma jovem deusa da Razão, typos da litteratura e da moda.--O

leilão do espolio de sua magestade imperial.

O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de _Opusculos_

um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e

inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino

Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do

illustre escriptor.

Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas

com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou

1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a

combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu,

formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés

empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.

* * * * *

Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os

accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com

as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de

uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras

primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos

capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de

cera côr de rosa e olhos de vidro.

E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos

instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo

dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de _stick_ do

primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois

dedos de Proudhon e de um copo de Champagne!

Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a

corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que,

n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas

futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina _veste

Bênoiton_ a que triumpha.

Ai! perdoae-nos ... Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos

gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro,

a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos

macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se

abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos,

graças ás capsulas ferruginosas e ao _Rob Lafecteur_, podendo

impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan,

chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.

Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de

todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses,

inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca--na attitude

classica dos Abrahões de jardim--suspendem os seus alphanges, como

poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta

gerações de pardaes!

* * * * *

Aqui temos nós, por exemplo, _A voz do propheta_, cem paginas sybilinas,

em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo.

É uma especie de _Dies irae_--de salão.

Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado

n'um figle.

Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da

caveira de um cyclope.

A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos

desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem

tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso

esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do

onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende--ella,

desvairada, tambem o não sabe!--mas pisa o tablado a largos compassos

tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido

apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de

rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores

angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae

occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para

acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita

natureza humana se desencarrega--ai de nós!--pelo nariz....

O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa

melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas

palavras:

«O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze

resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu

obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos ...»

E conclue assim:

«N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e

repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro

houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que

diziam:--Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor

me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.»

Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor

se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam

contristadas e attonitas:

Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o

propheta _banhado em suor frio_ e _repassado de amargura_?!

Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito

de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma

o _ultimo clarão de esperança_?

Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido

directamente por Deus de _fazer resoar palavras de terror_, explica

satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e

dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção,

destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham

promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes

consentissem penetrar o sentido da _Voz do propheta_.

A explicação d'essa voz que diz ao povo «_que a sua hora extrema vae

soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e

pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé_»,--a explicação da voz

que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de

morte para o povo e para o paiz, é que:

A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre

Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação

interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das

proprias ambições _as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque

invejosas, espoliadoras, porque miseraveis_;» e Elle, o propheta, Elle,

o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações ... Elle

era--cartista!

* * * * *

Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «_O

espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze,

resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror_ ...»--é que

naturalmente Deus era tambem--cartista.

E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de

um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia

e de rhetorica!

* * * * *

Permitta-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande

historiador:

Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: _Vae_,

o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o

mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe

tivesse dito--_Vence_? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que

precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a _Voz

do propheta_. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus

appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não

poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio?

Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos

cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina,

authentico e legitimo?

* * * * *

Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos:

Primeiro--Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca

do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo

em relação aos documentos ainda n'elles existentes»--questão que se acha

resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.

Segundo--«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe

desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor

da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado

hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos

obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este

ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros

de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho.

Terceiro--«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que

a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei

para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»--especie de

carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr.

Herculano quer _um jurado especial encarregado de defender a moralidade,

punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em

offensa da moral_,--o que nos parece ser, sem a minima duvida, o

restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos

da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano,

sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua.

Quarto e ultimo--Uma _advertencia preliminar_, na qual o autor explica

que compoz a sua obra _com o fim de_--matar o tédio das longas noites

de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que

os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos--no inverno

pelo menos--são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para

s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue--a bisca sueca. O fim

moral retira-se, havendo uma perna para o _voltarete_.

E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle

que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes!

* * * * *

Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da

razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as

pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto,

firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que

Michelet chama a _indigente correcção de Malherbe_: tem portanto as

condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue,

nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem.

Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica

e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica

da revolução, que essas conferencias propagavam.

Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a

carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem

Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um

desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que

se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma

theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais

adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho

ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «_La légalité nous

tue_».

Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que

constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as

_caixas economicas_, escondendo que a questão de coarctar a miseria não

é de estabelecer o _mealheiro_ mas sim de crear o trabalho.

Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um

jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não

sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra,

justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a

arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este

ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que

o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o

pensamento ou de disfarçar a verdade.

* * * * *

No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na

polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a

justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a

negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que

ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios,

nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz,

no bem estar e na virtude,--n'este momento supremo, um dos mais graves

em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa

para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos--, um

philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais

auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a

reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno,

lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações

theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em

Cartago e Attila nas margens do Danubio.

* * * * *

Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido,

desalentado ...

D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os

annos nem os desgostos justificam?

Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma

grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se

acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada.

Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria.

«Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar

a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse

tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda,

e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão

secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica:

«Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da

minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve

o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se

Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico

depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua

herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás

pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando

finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo--por ter chegado!

Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr.

Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua

obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.

Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se

póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em

substituição da vida artistica.

Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua

granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na

saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente

effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é

o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A

padecer o que? Esta molestia:--a nostalgia da arte.

* * * * *

A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um

homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A

tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as

aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é

então uma lesão profunda e mortal.

O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na

applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo,

publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes,

amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais

póde sem perigo retirar-se d'esse meio.

Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma

luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o

tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle,

elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa,

immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e

grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam,

tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na

immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce

mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao

trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.

Veja o sr. Herculano aquelles que deixou nas lettras, ha alguns annos,

muito mais edosos que elle! Como ainda hoje são novos!

Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha

das idéas modernas a que o illustre agricultor de Santarem se oppõe, no

seu recente livro de torna-viagem, com epigrammas cacheticos e vetustos?

Veja-os s.ex.ª, escute-os, attenda-os: como teem os labios vermelhos, a

voz clara e metallica, os cabellos loiros, os musculos fortes, o sangue

vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?...

São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx.

Companheiros de infancia de s.ex.ª eil-os ahi ainda, na mais perfumada e

viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa annos!

* * * * *

Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é

impossivel o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos

interesses praticos e positivos. A mão que por vinte annos manejou uma

penna, não poderá jámais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se

á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a

porção de luz e de verdade que tinhas no teu cerebro e que subtrahiste

do thesouro commum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó

triste foragido, irá sempre comtigo, pungindo-te na parte mais nobre do

teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde

procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que

atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua

patria! a unica gloria official da litteratura do teu paiz! tu sempre

lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus

pretendidos desgostos todos aquelles que tiveram no mundo uma idéa, que

se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ella!

Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de album, da tua

pequenina cruz de berloque, aquelles que realmente tiveram um martyrio e

uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!... Spinoza,

que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e

sete annos, sendo cinco vezes julgado e soffrendo sete vezes a tortura;

João Jacques dormindo n'um fosso por não ter outro asylo; Diderot

desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando

oitenta leguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido,

caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos

tamancos das suas montanhas do Jura!

* * * * *

Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser litterato,

restitua-se á sua patria, á sua geração e ao seu tempo.

Se definitivamente não quer ser mais um escriptor, poupe então a nossa

sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples

proprietario rural os jubilos ou as melancolias do sr. Herculano são

absolutamente indifferentes á humanidade.

Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob

uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á

similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a

publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir

um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e

recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella,

radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo

d'elle uma força moral.

Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos

com o seu desalento.

Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de

antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa

reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas

phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso

contentamento de uma alma perseverante e forte.

Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o;

ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me

pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa,

a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a

realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais

poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse

tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas

que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se

apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na

luz.

São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram

essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu

passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o

cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço

maior do que escrevel-o; é calal-o.

* * * * *

Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada

franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia

criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em

esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis

ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É

preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de

Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons,

bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico

insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo

esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei.

Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem

não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio

plebeu.

Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do

bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano

tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que

escreveu o _Cantico dos canticos_ e edificou o templo.

* * * * *

Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o

sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.--É a logica do

absurdo.

* * * * *

A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do

latim. As primeiras linhas d'esta versão bastam para dar aos leitores

uma, idéa da obra.

_O imperio romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por

seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode

recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia,

virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo

ermão Remo, d'um só parto. Elle como andasse roubando entre pastores,

chegando á edade de dezoito annos, fundou uma pequena cidade no monte

Palatino_ ...

Tal é Eutropio--traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma

coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez--se por ventura houvesse

alguem no mundo que fosse capaz de advinhar perante a lingua de Felix,

qual a grammatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil,

agronomo, e auctor de opusculos para instrucção da mocidade!

Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos officios--medico,

engenheiro civil e agronomo--vós, que sois na sciencia o mesmo que são

na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra

batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com

a bocca do estomago, engenheiro civil com os cotovellos, agronomo com o

nariz e escriptor publico com os calcanhares, porque não deixaes vós de

ser, pelo menos, um preceptor da infancia, um escriptor das escolas?!...

Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso

João, ó feliz Felix.

Em segundo logar pouparieis á infancia o desgosto de desaprender a sua

lingoa lendo nas aulas os vossos escriptos, os quaes a benemerita Junta

Consultiva da Instrucção Publica não deixa nunca de approvar, servindo

assim na primeira communhão dos que estudam, em vez das sagradas

particulas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas

equarissages litterarias.

A verdade, encyclopedico Felix, é que vós escreveis muito peior do que

fallam os botucudos do rio Mucury e os Pelles Vermelhas, no interior dos

sertões.

A verdade é que ninguem vos entende.

Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana

prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir

directamente estudar a geographia antiga, a ethnologia, a geologia, a

linguistica, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia;

ser-nos-ia mais facil, mais rudimentar, do que analysar e reduzir á

grammatica qualquer dos vossos periodos, ir á Asia Menor estudar as

epigraphes funerarias sobre as ruinas do templo de Herodes Atticus,

interpretar e comparar os textos da escripta hieroglyphica, hierotica e

demotica, os documentos originaes bysantinos e orientaes, e as

inscripções babylonicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos

baixo-relevos, nos cylindros e nos amuletos ... Tudo isso, ó João, antes,

mil vezes antes, do que procurar entender-vos!

* * * * *

Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente

continuar a escrever compendios, em vez de seguirdes outro officio, não

nos afflijaes pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de

vossas obras que continuaes sempre a ser medico, agronomo e engenheiro

civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa

vida sem vergonhas da grammatica dos vossos paes e do senso commum dos

vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros:

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-03/04) · 第 7 / 10 题