D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido:

--Queira retirar-se, que vem as creadas vestir-me.

Entraram as creadas de baldão, quantas havia na casa, e a senhora disse

a uma d'ellas:

--Vae dizer ao capellão que procure os primos Mellos e os primos

Peixotos, e lhes diga que venham cá ter mão no sr. Gonçalo que foi

atacado de um accesso de demencia.

Foi a creada dar o recado. O capellão ouviu-o, e benzeu-se com a mão

direita; saíu do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmittir a

infausta noticia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mãos.

Acudiram os primos e Gonçalo recusou-se a recebe'-los, cuidando que

vinham ao cêvo do escandalo para ultraja'-lo com fingidas caramunhas.

Ouviram a prima Maria, e convieram em que a fuga de Maria

Henriqueta para casar com Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, tão

fidalgo como ella, não merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura do

primo Gonçalo, por tal motivo, captivaria a compaixão publica.

Repellidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos

saíram a divulgar o caso sem o classificarem de deshonra, imputando,

porém, a culpa d'ella, se culpa havia, ao pyrronismo de Gonçalo

Malafaya, que sonhava com enxertar um conde na familia, ainda que o

conde fosse um tolo e um perdulario.

Ao meio dia estava Gonçalo vestido de rigoroso lucto, e os lacaios de

lucto tambem.

D. Maria das Dôres vestia de azul claro e ordenava ás suas creadas que

se escusassem de completar a irrisão da casa.

Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados

do crime pedir justiça. Acolheram-n'o com respeitosa compaixão, e

prometteram precatorias para os fugitivos serem presos, onde quer que a

policia os descobrisse. Gonçalo a todos disse que dava os seus haveres

pela captura de Filippe, e a si proprio se venderia para pagar os

ultimos ceitis aos esbirros.

As cartas precatorias saíram desde logo para differentes pontos do

reino, e algumas para Hespanha. E, ao mesmo tempo, as justiças militares

tiravam summario despacho para a captura do desertor.

Maria das Dôres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua

confiança a Mirandella, avisando o pae de Filippe Osorio, e

escrevendo a sua filha uma carta mais de indulgencia que de

recriminação. «O mal está feito,--dizia-lhe ella--mas em parte

considero-o sanado pelo casamento. Escondei-vos cautellosamente, em

quanto a tempestade ameaça fulminar-vos com a vergonha de uma prisão.

Não entreis em Portugal sem que eu vo'-lo diga; nem vos mostreis em

Hespanha, porque as ordens hão de lá chegar, em mãos de quem primeiro as

encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.»

A carta foi dar ás mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de

homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmão de D. Pedro de

Castro, nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.

Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ebrios de seu amor, que

nem a carta os alvoroçou. «N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho

á vista) figurando ella de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das

hespanholas, que morriam por elle; e _D. Luiz de Castro_ sustentava os

namoros, para rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes

daria.»

Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da

capital da provincia, recommendando os dois _Castros_, cavalheiros

portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no

dia seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se

apaixonára do seu Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e caíu a

proposito perguntar o alcaide aos seus hospedes se conheciam um

Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de cavallaria 6, que

havia roubado de um mosteiro a filha de um _fidalgo_ de linhagem,

solarengo no Porto.

Disse _D. Pedro de Castro_ que sobejamente conhecia o desertor. Contou

miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e

tão a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de

ouvi'-la, e o alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de

prende'-los se alguma vez reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu

districto. A intimidade cresceu tanto entre a auctoridade e os hospedes,

que, decorridos alguns dias, Luiz de Castro appareceu vestido de Maria

Henriqueta ao alcaide e ás filhas, que ouviram d'ella a historia,

repetida com mais graça e affectuosa tristeza, dos seus amores com

Filippe Osorio.

Desde essa hora, o magistrado hespanhol não velaria com mais zelo a

segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a

influencia do alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os

dois cavalheiros portuguezes, e requestados de quantas damas os

abrasavam com os olhos e com o chocolate.

Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões ás

provincias, e onde as cartas do reino iam dar com elles.

Na casa do alcaide deu á luz Maria Henriqueta uma menina, findo o

primeiro anno de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a

uma quinta dos arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem

das ficções, e viverem em toda a ingenuidade de esposos e paes. Lá

lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso hespanhol,

proprietario da quinta. Alli vieram os irmãos de Mirandella visitar o

irmão, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua

deserção. N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das

Dôres, que, em resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando

o coração do pae, tendo já dito que antes queria ver a filha e

perdoar-lhe, que receber a noticia da morte d'ella. Accrescentava que

este dizer não a auctorisava a chamar a filha; porque o pae tinha

intercadencias de prostração, quando perdoava, e de cólera quando pedia

vingança aos céos, e insultava os magistrados como inertes. Terminava,

recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de sua

mãe, quando a chamasse.

Decorreram seis mezes. Sempre o céo claro sem nevoa; sempre a ventura

candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do céo

a completar o grupo da suprema bemaventurança na terra. Para cumulo de

felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dôres, dizendo á

filha:

«Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. Só por

amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos.

Sabe que tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me

estupefacto como eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em

suma, que eu fôra sempre mãe. Fitou-me de um certo modo, que me

incutiu receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou á sua

segunda natureza compadecida. O peor, filha, será o crime de teu marido,

que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que

são severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos

a vencer, antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos

mais com as leis se teu pae quizer protege'-lo etc.»

Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandella dizia a seu filho que andava

dispondo as cousas para elle ser julgado e absolvido. Que alcançára

promessas favoraveis, e esperava em breve manda'-lo recolher á patria,

com a certeza da absolvição.

Que luz tão formosa as estrellas funestas irradiam ás vezes! Como a

desgraça negaceia com as suas victimas dilectas! Que pena me faz ir

d'aqui através cincoenta annos, e por entre o pó de uma geração dispersa

no ar, áquella quinta suburbana de Segovia, e contemplar aquelles dois

esposos com a filhinha entre os peitos de ambos, arrobados de alegria,

dando-se os parabens da sua final victoria, e saudando as alegrias da

patria, só inferiores ás alegrias de dois corações triumphantes sem

infamia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu quebraria aqui a

penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois tão

dignos, tão abençoados, tão bemquistos da leitora que amou ou ama, do

pae que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou já

sentenciou paixões, que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria

inventar, antes mentir, antes lançar de mim com asco estes

apontamentos!

Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a phantasia. Quantas

vezes, em historias imaginadas, eu levo posto o fito n'uma caverna onde

os meus personagens vão caír; e já perto, já com elles á borda do

despenhadeiro, sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes

a gloria, em vez do inferno que lhes fôra talhado! Como eu fico então

contente de mim, e o leitor contente d'elles! Só n'estes conflictos é

que eu avalio os thesouros da imaginação, e o segundo _fiat_ de mundos

moraes que a magnanimidade divina concede aos romancistas.

N'esta historia queria, e não posso. Estou coacto e maniatado ás

gramalheiras da noticia, que me foi ministrada por pessoa, que me

obrigou o juramento de não falsear a verdade.

E, de mais, se eu conseguir levar ao tumulo dos meus infelizes uma

lagrima da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao céo

dos martyres, não será esse favor da piedade um bem tão consolativo para

elles? A quem hão de elles agradecer o pensamento e a lagrima se não a

mim, que lhes contei os infortunios, e, em vez de um epitaphio, lhes

colloquei uma urna para os que lá quizessem chorar, e a mais triste

pagina d'este livro para quem quizer consolar-se das suas nas

desventuras alheias?

Estrellas Funestas · 第 26 / 36 题