Entraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmãos de
Filippe, desconfiados da demora do irmão, saíam a procura'-lo no caminho
de Arouca. Ás dez horas da manhã d'esse dia, celebrou-se o casamento na
capella da casa, por ministerio de um abbade parente do noivo, homem que
não lera no Evangelho o preceito do consentimento paterno para a
validade do sacramento. Foram testemunhas os irmãos do esposado, e
padrinhos os paes.
Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado
fôra buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde
d'aquelle dia da fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria,
com um commandante, pedindo novas de um tenente, que desertára; e que
n'essa mesma tarde tinham saído para outros sitios.
Comprehendeu Filippe o perigo da sua situação, e quiz fugir, antes que a
Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura.
A parentella votou unanime pela resistencia, confiada no poderio
que exercia sobre o povo. Filippe combateu o denodo inopportuno, por
amor de sua esposa, a quem tristes festas de nupcias seria uma briga
sanguinaria do povo com a tropa.
Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e
internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se
queriam por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes
amores de seus amos, já agora unidos sagradamente para sempre.
Deixemo'-los em Hespanha procurar o remançoso eden de seus anhelos. Irão
a Sevilha? a Granada? a Cordova? Irão a toda a parte, hão de encontrar
as delicias reflectidas do céo que levam na alma.
Deixa'-los, que é delicadeza não irmos de pós elles. A suprema
felicidade de dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de
olhos alheios.
Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.
Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da
má nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitára a
saída do destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou
menos surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dôres, e exclamou:
--Maria Henriqueta fugiu do convento!
--Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!--disse a esposa.
--Alli está o portador de Arouca! Fugiu sua filha, senhora! Ahi tem
a sua obra! Faltava-me esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a,
como ultimo golpe, que me ha de matar!
Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não
aclarados ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou á camara da
esposa, e bradou:
--A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a
ignominia que pesa sobre nós! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos
insultados pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus
brazões de armas, em todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de
negro! Maldita seja a mãe que perdeu sua filha!