Era aquelle o dia em que devia entrar no Porto o conde de Monção. As
carruagens da fidalguia, convidada por Malafaya a esperar o seu illustre
hospede, estacionaram á porta do palacio, condemnado ás chammas,
esperando que o dono descesse. Gonçalo, quando a parentella ia entrando,
compoz o semblante, vestiu-se a primor, e saíu a entrar na sua melhor
equipagem. Era tarde para sacudir a carga, que tão vaidosa e
jubilosamente tomára.
O conde vinha pela estrada de Coimbra, onde passára alguns dias,
visitando quintas suas nos arrabaldes d'aquella cidade. A comitiva
chegou aos Carvalhos e esperou.
Era o conde de Monção um fidalgo creado em côrtes, e conhecido nas
extrangeiras; mas, em todas, o mais graduado titulo de sua recommendação
era a tolice, o dom de engranzar parvoiçadas, que relevavam de chiste
por serem ditas n'uma algaravia de linguas, só perceptiveis por alguns
vocabulos irrisoriamente pronunciados. Fôra menos exacto, ou nimiamente
credulo Gonçalo Malafaya, dizendo que o conde de Monção sabia falar
francez, por ter estado em França. O conde era refractario aos idiomas,
e com o seu, propriamente, andava tão desavindo, que os fidalgos de
Lisboa não o entendiam melhor que os de Pariz. A visinhança de Galliza,
que defronta com Monção, introduzira na linguagem familiar do conde
muitos termos espurios, cuja versão fiel só os aguadeiros de Lisboa
podiam faze'-la competentemente. Galhofavam d'elle muito na côrte as
damas e os moços intolerantes. A mim me quer parecer que a pecha de
agallegados, que os de Lisboa gratuitamente nos põem, data das visitas
do conde áquella cultivissima terra, que tem lá tambem os seus dizeres
ridiculos, mas no proferi'-los vae tanta graça e tal affectação que não
ha ahi cousa que mais diga!
Saía o conde de Coimbra em direitura ao Porto, quando ouviu tropel de
cavallos que o seguiam. Olhou, e viu um cavalheiro com insignias
militares, acompanhado de seu lacaio. Ao perpassar por elle o açodado
cavalleiro, perguntou-lhe o conde:
--Vae para o Porto?
--Sim, senhor.
--Então podemos ir de camaradas.
--Com o maior prazer, se o cavalheiro esporear o seu bello alazão.
--Se não é mais do que isso, ahi vamos--disse o conde, atirando o
acicate aos ilhaes do cavallo.
Filippe Osorio riu-se d'aquelle verbo--_vamos_, se é que Filippe Osorio
podia rir.
Praticaram largamente n'aquelle dia de jornada, sobre diversos
assumptos. As damas tiveram grande parte, como de direito deviam ter,
nas palestras dos cavalleiros. Dizia o conde que as francezas tinham
grande pancada na mola, e as inglezas costumavam cheirar os homens de
longe, antes de lhes apertarem a mão. O tenente de cavallaria aventou
logo que falava com um inepto, e cavou solicitamente na materia em que
elle mais necedades dizia. Se alguma vez o conde revelou intervallo
lucido de sensatez, foi quando disse que as senhoras do Porto eram muito
formosas. Mencionou as que conhecia, e ajuntou que ia hospedar-se em
casa de uma, cujo retrato possuia em marfim, e que era a mais linda
mulher que seus olhos enxergaram na Europa. Proseguiu no mesmo theor
esperando que o seu companheiro lhe perguntasse quem era a mulher mais
linda da Europa; mas Filippe tão abstraído ia que nem a curiosidade o
espertou.
--O meu nobre amigo, disse o conde arrebentando por dizer o nome da
dama, talvez tenha ouvido falar na familia dos Malafayas...
--Tenho...--disse Filippe, empertigando-se na sella, como se uma barra
de ferro lhe batesse no peito.
--Tem? pois a menina de que lhe falo é d'esta familia.
--Conheço um fidalgo chamado Gonçalo Malafaya.
--Sem tirar nem pôr. É o pae d'ella.
--Pae d'ella!... Como veio ás suas mãos o retrato de...
Susteve-se Filippe tão bruscamente, que só o conde de Monção deixaria de
notar as perturbadas perguntas de companheiro.
--O retrato d'ella mostrou-m'o o pae, aqui ha um anno, quando veio de
Lisboa, onde a mandou pintar. De mais a mais, a menina foi lá ensinada
n'um collegio, e fala o francez perfeitamente.
Filippe, com quanto alvoroçado, estava longe de presentir o desfecho de
taes revelações, e proseguia no inquirimento d'ellas para se recrear
falando de Maria, quando mais não fosse.
--Mas,--insistiu elle--com que fim o sr. Gonçalo Malafaya mostrou ao meu
amigo o retrato d'essa menina?
--Isso são contos largos; mas lá vae a historia. Em primeiro logar, o
senhor não me conhece?
--Não tenho a honra...
--Eu sou o conde de Monção.
Filippe, d'esta feita, devia de sentir duas barras de ferro, uma ao
peito, e outra nas costas, porque ficou hirto e rijo sobre o selim.
--Nunca ouviu falar de mim?--tornou o conde, notando a nenhuma
reverencia com que o militar ouvira o seu nome.
--Ouvi, sim, senhor.
--Agora, se lhe não custa, diga-me o senhor quem é.
--Sou um official de patente; mas os meus appellidos são populares, e
escuso de os dizer a v. ex.ª como recommendação.
--Isso que tem? Se não é fidalgo ainda o póde ser, que d'essa massa se
fazem. Armas ou lettras, diz lá o ditado dos velhos. De cá se vae a lá.
Meus avós tambem foram da militança, e eu ainda conheci na minha casa
tres generaes velhos como a Sé de Braga.
--Mas vamos á historia, se lhe não custa--disse Filippe com simulado e
affectuoso sorriso.
--Vamos á historia... Vinha-lhe eu dizendo que sou conde; mas, a
falar-lhe a verdade, com as viagens estraguei um pouquito a minha casa,
porque lá por fóra era umas mãos rotas. Aquellas francezas foram os meus
peccados, meu caro senhor! Dei lá jantares a duquezas que era um pasmar!
E olhe que em Pariz um jantar, que faz pasmo, já ha de ser de um tal
tamanho!... Como lhe vinha contando, quando voltei a Portugal, e vi o
empenho em que estava a minha casa, resolvi tomar estado com menina
rica, ainda que me ficasse a perder de vista em fidalguia. Não póde ser
tudo, meu amigo! Aquelle maldito pombal deu-nos cresta ás regalias, e
fez com que o dinheiro se espalhasse por todas as mãos. No inferno
esteja elle, e mais as suas leis!... Andava eu a cogitar n'isto, quando
o negocio me saíu mesmo ao pintar, ainda melhor do que eu queria! Botei
as minhas vistas ás ricas herdeiras da provincia, e soube que o melhor
morgadio era o de Gonçalo Malafaya, por ter só uma filha. Fui até ao
Porto, ha tres annos, assim como quem não quer a cousa, e fiz por me
encontrar com o Malafaya. Comecei a tirar nabos do pucaro, como o outro
que diz, e deixei-me dizer que me não desconviria ligar á minha
casa uma menina que fosse tão nobre e tão boa herdeira como a filha
d'elle. Não arranjei bem o palavreado?
--Perfeitamente--disse Filippe ancioso pelo remate, como se o não
tivesse adivinhado, desde que soube que falava com _um conde_, que
tantas lagrimas custára a Maria Henriqueta:
Continuou o conde:
--O Malafaya esteve a conversar muito tempo comigo, levou-me a casa,
deu-me um bom jantar, e disse-me ao outro dia:--Deixemos completar a
educação de minha filha, e depois falaremos.--Passados quasi dois annos,
recebi em Monsão uma carta do Malafaya com o retrato da menina. Ó meu
amigo! confesso-lhe que fiquei de bocca aberta! Era a cousa mais
perfeita que cobre a roda do sol! Sabe o senhor o que é apaixonar-se um
homem, não atinar mais com a cabeça? Foi o que me aconteceu a mim! Vim
logo ao Porto, e disse a meu futuro sogro! «Eu quero a sua filha, mesmo
sem nada, se é possivel!» Elle entrou a rir, e disse-me: «A minha filha,
além da riqueza e da formosura, tem o melhor coração que Deus formou em
peito de mulher.» Nunca me esqueceram estas palavras!...
Andei com o negocio de afogadilho para que o casamento se fizesse logo:
mas metteram-se umas desordens tamanhas entre elle e a mulher--que é o
diabo de saias segundo ouço--de modo que foram para Lisboa um por cada
vez, e por lá se deixaram estar até ha pouco, que vieram para o Porto.
Ha de haver quinze dias que o Gonçalo me escreveu, dizendo-me que
era chegado o tempo de eu ser apresentado á minha noiva, e effectuar-se
o casamento. Ora aqui tem a historia com todos os pontos e virgulas. Vou
casar-me. Acabam-se as rapaziadas e as viagens; mas fico senhor de uma
grande casa e da mulher mais bonita da Europa... Que diz o senhor a isto?
--Digo que faz muito bem; mas se me dá licença--continuou Felippe com a
mais destra e bem fingida serenidade--farei uma advertencia.
--Diga lá sem cerimonia.
--Tem o senhor conde a certeza de ser amado pela sr.ª D... Chama-se ella?
--É Maria.
--Pela sr.ª D. Maria?
--Se tenho certeza de ser amado? Eu sei cá! Ella ainda me não viu.
--Pois por isso mesmo. Que certeza tem v. ex.ª de que ella o ame, vendo-o?
--O senhor está muito enganado comigo. Saiba que todas as mulheres
gostam de mim. Ponto é que eu as metta á bulha! Diziam lá os meus
caseiros, quando eu fazia em rapaz muitas travessuras, que eu tinha o
besouro diabolico. Em França, onde eu estivesse, conhecia-se logo. Olhe
que estive para me bater muitas vezes por causa de namoros muito serios
com as açafatas da côrte.
--Tudo creio, porque reconheço em v. ex.ª meritos para tudo; mas
supponha por um momento que D. Maria o não ama?
--Porque não ha de amar-me? Essa é fina!
--Supponha que ella ama outro homem?
--Se ama outro homem, faz de conta que nunca o viu.
--E v. ex.ª tambem faz de conta que o não sabe.
--Está claro.
--E se ella dér a esse homem a preferencia para casar com elle? Queira
desculpar esta pergunta.
--Diz o senhor que ella póde rejeitar-me para casar com outro?
--É uma supposição...
--Ora deixe-se d'isso!... Nem o pae a deixava, nem eu era homem para
essas brincadeiras. Ou eu ou elle.
--Iria v. ex.ª disputar a vida ao sujeito que D. Maria amasse?
--Se elle fosse fidalgo ia; senão, mandava-o varrer do meu caminho pelos
meus lacaios.
Filippe, se outro fosse o interlocutor, tinha-se denunciado, quando
soltou uma franca e estridula risada. O conde, afeito a provocar o riso,
entendeu que a sua ameaça afidalgada dos lacaios tivera muito chiste. E
riu tambem, em prova de que sabia avaliar o quilate do seu espirito.
Nunca mais o tenente de cavallaria pôde encarar no seu companheiro de
jornada. Respondia-lhe sem fita'-lo; e de proposito se retardava ou
adiantava para não emparelhar com elle.
Pernoitaram em Albergaria. Cada qual recolheu ao seu quarto depois da
ceia, durante a qual o conde esteve em ferias de palavreado. Filippe
chamou á meia noite o seu lacaio, e mandou arrear os cavallos.
Cavalgou, e partiu para o Porto, deixando o conde no seu primeiro somno,
o somno da felicidade estupida que lhe derramára nas palpebras as suas
narcoticas urnas, e lhe instillava, talvez, na alma as dulcissimas
visões de um noivo da mais formosa mulher da Europa.
Quando, pois, as carruagens dos fidalgos subiam a encosta de Gaya,
descia a trote Filippe Osorio. De longe, conheceu que a primeira
carruagem era de Malafaya, por ser das mais luxuosas que se ostentavam
em Lisboa. Conheceu-lhe os creados da libré, tudo reconheceu, porque em
tudo se atavam recordações de Maria Henriqueta. Desviou-se da estrada
larga para uma travessa marginal, e deixou passar o prestito.
Desempedida a estrada, ganhou o Porto em poucos minutos, apeou, e subiu
a procurar o palacio de Malafaya. Parou diante do portão indicado, e
ousou entra'-lo, e perguntar ao guarda, revestido de rica libré, se
podia falar a uma mulher chamada Eugenia.
Eugenia era a ama de Maria Henriqueta. Nenhuma duvida lhe estorvou falar
com a creada no seu proprio aposento, que distava muito das camaras das
senhoras. A ama fez apavoradas visagens de espanto; mas ouviu-o. Urgia
elle, lançando-lhe dinheiro em ouro ao regaço, que Maria alli viesse. Da
negativa passou Eugenia á hesitação e d'ahi, movida pela angustia do
moço--angustia com liga de ouro--foi disfarçadamente procurar a menina.
E a menina entrou no quarto da ama, e a ama com ella.