PROLOGO

Ex-alumno de um dos seminarios da diocese do Porto e actualmente

estudante mediocre do lyceu, dou á luz o producto de tres longos mezes

de trabalho para a consecução do qual tirei instantes preciosos

destinados á ardua tarefa de que depende a minha vida futura--tarefa

tanto mais ardua, quanto mais consideradas sejam as minhas escassas

luzes intellectuaes.

Eis aqui, pois, uma obra que, apreciada por todos os lados, só tem valor

por ser o fructo de um trabalho em que gastei, mórmente durante um bom

mez, uma parte do tempo precioso destinado ás minhas lições. É

appellando para essa attenuante que espero merecer a complacencia do

publico em geral--tanto dos que convivem commigo de perto e que, vendo

em mim um individuo sem aptidões para qualquer ramo do saber humano, vão

ficar admirados da ousadia de semelhante passo, como dos que, sem nunca

sequer me terem visto, esperam encontrar neste pequeno livro a summula

do valor d'uma intelligencia promettedora que começa a manifestar a sua

tendencia.

Á minha inaptidão vem juntar-se a inexperiencia dos meus vinte e tres

annos; e assim é que o meu livro, fatalmente eivado de todas as especies

de imperfeições, só por uma disposição do leitor benevolo para uma

extraordinaria condescendencia, poderá ser absolvido das faltas que

inconscientemente commetti.

Abstenho-me de appellar para a complacencia dos meus companheiros e dos

meus collegas em geral, porque elles, mais que ninguem, avaliam as

difficuldades com que eu deveria luctar para conseguir o meu intento.

Ha seis mezes, approximadamente, publiquei no _Correio d'Albergaria_ um

artigo sobre a vida do Belbuth, que subordinei ás Scenas da Aldeia, que

eu declarei em preparação, mas que ainda existiam em projecto na minha

mente. Passados perto de dois mezes dei principio ao meu trabalho e

publiquei então no mesmo jornal um excerpto sobre a transformação

psychica de Maria Luiza.

Por varias vezes hesitei se deveria continuar esta empreitada que me

preoccupava o espirito, desviando-o do cuidado dos meus affazeres

quotidianos, e absorvia o melhor do meu tempo que eu não podia dispensar

sem prejuizo das minhas obrigações.

Mas, quando no meu espirito se travava a lucta da obrigação com a

devoção, esta acabava por triumphar, coadjuvada por uma promessa que, de

caracter inteiramente intimo, eu tinha feito um dia.

O meu livro está impregnado, na sua essencia, de um pronunciado sabor

religioso, porque julguei que, tirar á simplicidade da vida aldeã o

sentimento religioso, que caracterisa os seus costumes, era despil-a

d'essa graça original e tão cheia de poesia que lhe dá todo o seu valor;

julguei que era arrancar á vida da aldeia a sua alma.

Obedeci a esse principio, e não á gratidão com que retribuo a meu

pae--um padre catholico que obedeceu ao dever da sua consciencia e do

seu coração quando me perfilhou--os desvelos que um filho recebe de seu

pae carinhoso. Nem tão pouco obedeci á doçura dos fructos que deveria

ter colhido da minha reclusão de alguns annos num seminario.

D'este só me lembro com mágua, quando considero a falta que me fazem os

annos que lá gastei inutilmente. De resto, repressões, o pouco respeito

com que os padres tratam um homem de vinte annos, etc., tudo isso lhes

fica em caracter, e é tudo com o fim de amoldar ao seu o caracter dos

alumnos: finalmente, cumprem o seu dever, porque são, por assim dizer,

uns criminosos inconscientes.

D'elles só conservo um resentimento: alimentarem animadversão contra a

minha terra--Aveiro, talvez por causa das suas tradições de inimiga da

hypocrisia.

Um, chegou a dizer numa aula, na minha presença--quando se discutia no

parlamento o projecto do caminho de ferro do Valle do Vouga--que todos

os que se deixaram levar pelas palavras de José Estevam foram uma corja

de brutos--palavras textuaes--porque a variante da linha ferrea que

então se construiu, além de acarretar enormes dispendios á companhia,

prejudicava immenso, por causa d'uma terra _que não prestava para nada,

sem valôr nenhum_, toda esta região que anceava pela execução do caminho

de ferro do Valle do Vouga.

Tirado d'isso, não tenho d'elles resentimento nennum. Apenas tiveram,

com o culto das suas virtudes, o poder de me abalar algumas [crenças]

que levava arreigadas no coração, e de apagar outras. Se ha quem diga

que actualmente já se não fazem milagres, ou nunca houve quem os

fizesse, engana-se.

Já vê, pois, o leitor, que sou religioso e sou christão; não sou,

talvez, catholico, mas isso dá-se na maioria dos padres, se não na sua

totalidade.

Ponto final sobre este assumpto. Não vá o meu livréco parar ao _Index_.

Terminando este prologo, nada mais tenho a fazer que impetrar mais uma

vez do leitor benevolo a sua complacencia que, em vista das razões que

expuz, não deixo de merecer com alguma justiça; e, confiado em que a

minha petição não será infructifera, agradeço-a antecipadamente, e deixo

aqui consignado tambem o meu agradecimento pelos preciosos momentos que

o leitor haja de dispender na leitura d'este ensaio.

Aveiro, março de 1909.

Scenas da Aldeia · 第 12 / 29 题