AOS MEUS AMIGOS

_Meu amigo:_

_As resumidas linhas em que eu condensarei as impressões que da leitura

do seu livro me ficaram não podem constituir, de fórma alguma, isso a

que, nas nossas lettras, se chama--um prefacio. Serão apenas uma ligeira

carta sem subtilezas de critica profunda--a critica que nunca soube

formular, porque os criticos são personalidades todos de intellecto

raciocinado e frio e eu sou um homem todo de emoções._

_Esses criticos diriam ao meu amigo que as obras realisadas aos vinte

annos não deviam ser atiradas aos alaridos da publicidade sem que

primeiro os seus auctores tivessem, além de um exacto conhecimento da

vida, completamente afinadas as suas faculdades d'observação, e sem que

o seu temperamento esthetico adquirisse uma perfeita sagacidade, para

que depois, já em pleno triumpho, não se arrependessem dos

inconsiderados impulsos da juventude. Eu, pelo contrario, digo-lhe que

nenhum escriptor deve envergonhar-se da sua actividade artistica dos

primeiros annos, mesmo quando na superior florescencia do seu talento um

dia sentir a viva anciedade de vêr como principiou. Os trabalhos da

iniciação representam até um documento essencial para o estudo das

intelligencias evolutivas e ascendentes..._

_Não affirmarei que o seu livro seja impeccavel. Nem o meu amigo terá a

vaidade d'assim o julgar nem eu desfiguraria a verdade simplesmente para

ser-lhe agradavel--e isto pela viva sympathia que me inspirou. A

novella, para que a illumine a belleza, carece de unidade de concepção e

de realisação, da plasticidade e do vigor da fórma, da perspicacia da

analyse psychologica, de dextreza na modelação das figuras, da

diversidade dos coloridos na pintura dos scenarios: e estes dons apenas

advêm da tenacidade disciplinada e do estudo, porque ninguem nasce com

um quinto sentido capaz de tudo adivinhar e tudo comprehender._

_Não lhe esconderei, no emtanto, que o seu livro me communicou um certo

prazer espiritual pela sua candura, pelo poetico sentimento que

enternece algumas paginas--que é o sentimento d'uma alma pura e com

finas delicadezas emotivas. Ora isto indica, no escriptor que agora

começa, um evidente talento ainda balbuciante mas que ardentemente

deseja orientar-se e que virá a impôr-se ás admirações se fôr animado

por uma vontade sem desfalecimentos. E tão certo estou d'essa victoria

futura que desde já calorosamente o applaudo, lamentando no emtanto que

para a sua apresentação se houvesse lembrado do meu nome humilde e sem

auctoridade para estas ceremonias solemnes._

_Porto, 5 d'Abril de 1909._

_Amigo muito affectuoso_

João Grave.

Scenas da Aldeia · 第 11 / 29 题