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D. JOANNA DE PORTUGAL
(A PRINCEZA SANTA)
ESBOÇO BIOGRAPHICO
POR
MARQUES GOMES.
AVEIRO
Imprensa Commercial.
1879.
D. JOANNA DE PORTUGAL
(A PRINCEZA SANTA)
ESBOÇO BIOGRAPHICO
POR
MARQUES GOMES.
AVEIRO
Imprensa Commercial.
1879.
OBRAS DO MESMO AUCTOR
MEMORIAS DE AVEIRO (esgotada).
D. DUARTE DE MENEZES, esboço biographico.
O DISTRICTO DE AVEIRO, noticia geographica, estatistica, chorographica,
heraldica, archeologica, historica e biographica da cidade d'Aveiro e de
todas as villas e freguezias do seu districto.
A MULHER ATRAVEZ DOS SECULOS, estudo historico sobre a condição
politica, civil, moral e religiosa da mulher; 1.ª parte sociedades
primitivas. China, India, Persia, Assyria, Egypto e Israel.
A seis de Fevereiro de 1452 nasceu em Lisboa, no paço d'Alcaçoba,[1] D.
Joanna de Portugal. A nova do nascimento foi alegre e enthusiasticamente
celebrada, a ponto da recordação do tristissimo drama de Alfarrobeira
ser quasi que totalmente deslembrada. Os laços conjugaes entre Affonso V
e D. Izabel de Lencastre estreitaram-se de forma, que murcharam de todo
as esperanças alimentadas pelos inimigos do Infante D. Pedro, de verem
realisado o divorcio por elles tão aconselhado[2] e sempre tão
nobremente repellido pelo futuro vencedor d'Arzilla.
Affirmam os seus biographos que D. Joanna foi no berço jurada princeza
herdeira pelos _Tres estados do reino_. A falta de successores á corôa,
obrigou el-rei seu pae, diz Caetano de Sousa, a que no berço fosse
jurada em côrtes Princesa herdeira do reino, titulo com que sempre foi
conhecida, ainda depois de nascido o Principe D. João[3]. E foi logo
jurada por Princeza por todos os estados do reino, que acertaram
achar-se juntos na conjunctura do seu nascimento, refere fr. Luiz de
Souza.[4] As chronicas do tempo não sanccionam esta affirmativa. Ruy de
Pina e Dameão de Goes nem sequer noticiam tal juramento; aquelle diz
apenas que ella sempre se chamou Princeza até 1455, em que nasceu o
Principe D. João; este, que depois do nascimento do Principe ella teve o
titulo de Infante, por não lhe pertencer já o que primeiro usara.[5]
Talvez que fosse jurada Princeza pelos fidalgos e mais pessoas que
compunham a côrte, não obstante d'isso não restar memoria escripta; por
quem de certo não o foi e pelos _Tres estados_ porque estes nem estavam
reunidos, nem se reuniram n'esse anno, nem nos dois annos que se lhe
seguiram.[6] Nem mesmo pela delegação d'elles, ella foi jurada tambem,
porque esta deputação permanente, como lhe chama o sr. Oliveira Marreca,
não existia já.[7]
Amamentada por D. Mecia de Sequeira, D. Joanna ficou orphã de mãe aos
cinco annos de edade. A rainha D. Izabel, que, com o nascimento do
Principe D. João, havia alfim alcançado sepultura para seu pae sob as
abobadas da Batalha, cahiu fulminada em Evora pelo veneno ministrado
pelos partidarios do duque de Bragança, em 2 de dezembro de 1455.[8]
Poucos dias depois do falecimento de D. Izabel, D. Affonso V ordenou que
todos os officiaes, damas e donzeis que estavam ao serviço da finada
rainha, passassem para o de D. Joanna, a quem deu casa, como aquella a
trazia.[9] Pelo que se deprehende da narração de D. Bernarda
Pinheiro[10], D. Joanna, depois do fallecimento da rainha, sua mãe,
assistiu n'um palacio, separado do de seu pae e irmão, talvez o de S.
Bartholomeu, que anteriormente havia sido occupado por suas thias as
infantas D. Leonor, D. Catharina, e D. Joanna.[11]
Entre as damas mais intimas da rainha D. Izabel[12] conta-se D. Beatriz
de Menezes, senhora de nobre linhagem e elevados dotes do coração e do
espirito; foi a ella que D. Affonso confiou a educação moral da filha.
Para seu mordomo-mór nomeou-lhe Fernão Telles de Menezes, e para
governador de sua casa D. João de Lima, segundo visconde de Villa Nova
da Cerveira.[13] O lugar de camareira-mór foi dado a D. Izabel de
Menezes, a _Formosa_, que tambem havia sido dama da rainha D.
Izabel.[14]
Se outras provas não tivessemos para avaliarmos os talentos de D.
Joanna, o espirito esclarecido de seu pae era bastante para nos fazer
acreditar que ella recebeu uma educação esmeradissima, pouco vulgar
n'aquelles tempos. Não só cultivava com esmero a lingua materna, mas a
latina tambem, que então, alem de ser propriamente dita a lingua da
sciencia, era-o igualmente dos altos dignatarios da egreja e da côrte.
Refere D. Bernarda Pinheiro, que D. Joanna aos nove annos, sabendo já
grammatica, começou com grande cuidado a aprender letras, e a querer
entender latim; estando no convento de Jesus trabalhava por haver e
mandar copiar muitos livros, tanto em linguagem, como em latim, dando
preferencia a estes, porque ella muito bem o sabia.
D. Affonso V, que havia tido por mestre o celebre Matheus Pisano, e que
sustentava n'um documento publico que «as sciencias e a sabedoria a
nenhum outro dom podem ser comparadas» decerto não deixou de chamar para
junto da filha, afim de lhe cultivarem o espirito, as maiores
celebridades d'então. D. Filippa de Lencastre, filha do Infante D.
Pedro, havia tambem de necessariamente concorrer immenso para a educação
de D. Joanna, já com os seus prudentes conselhos de thia extremosíssima,
já com as luzes do seu elevado talento e do seu apurado gosto litterario
e artistico, pois esta senhora, alem de varias obras que traduziu do
latim, escreveu coplas e foi uma notavel illuminadora de
manuscriptos.[15] D. Joanna imitou-a. A sua maravilhosa formosura
prestava mais um encanto, diz Ferdinand Dinis, á predilecção que não
deixou de mostrar por tudo quanto se referia á cultura da
intelligencia.[16]
Fr. Luiz de Sousa diz que ella «lia e considerada as vidas e martyrios
das virgens, e tanto se agradava da licção que não queria fallar nem
ouvir fallar d'outra cousa, etc.» Ao historiador monastico decerto
pareceu profana outra qualquer leitura que não fosse a mystica narração
dos feitos das heroinas do christianismo, e por essa rasão limitou a
ellas os livros compulsados por D. Joanna; parece-nos, porem, que não
disse toda a verdade. A filha d'um monarcha tão illustrado como foi
Affonso V, a mulher que havia recebido uma tão apurada educação como
ella recebeu, decerto não se limitava só a lêr vidas de santas, que por
signal escaceavam na régia livraria.[17]
D. Joanna passou o abril da vida instruindo-se e soccorrendo os
indigentes. Onde houvesse lagrimas para enchugar, ou orphãos para
arrancar ás garras da miseria, a sua sombra protectora lá estava.
Milhares de infortunios foram suavisados por ella. Aos carceres e
hospitaes chegava tambem a sua beneficencia. Alli, pelos seus servidores
mais fieis levava o remedio do corpo e a esperança da alma, o pão para a
fome e a fé para lenitivo ás grandes dôres. A sua caridade era conhecida
de Lisboa e de Portugal inteiro; aquillo a que podia chamar propriamente
seu distribuia-o pelos necessitados; quanto tinha era dos pobres e para
os pobres. Mereciam-lhe sempre particular compaixão os desgraçados que,
havendo sido grandes outrora, cahiam em pobreza; e nos soccorros que a
estes ministrava é que o seu animo compassivo e bondoso melhor se
reflectia, pois protegia-os sem lhes ferir o pondunor, sem sequer lhes
fazer pensar d'onde lhe vinha o inesperado auxilio.
Do mesmo modo que seu pae, apparecia ao povo nos lugares publicos, e
escutava com semblante prasenteiro e bom as supplicas dos subditos
obscuros, afim de as depôr e advogar perante o regio throno. Honrava
sempre com todo o pessoal de sua casa as festas e solemnidades da côrte.
Nos seus paços orava e fazia orar Suas damas pela prosperidade do paiz.
Recolhida ao seu oratorio particular, ahi se demorava longas horas em
orações, e entregue á leitura dos livros sagrados, merecendo-lhe
particular estima o Evangelho de S. João. Os trances afflictivos da vida
do Redemptor eram para ella objecto de serias e profundas meditações, e
em memoria d'elles tomou por divisa uma corôa de espinhos. Estavam então
muito em uso as divisas, costume cavalleiresco com que os nobres
exprimiam as tendencias do seu espirito. A Princeza, segundo fr. Luiz de
Souza, «não se quiz desobrigar d'este uso commum; mas no costume do
mundo buscou empreza do céu, que foi uma corôa de espinhos. Esta mandou
pintar em todos os seus aposentos, esmaltar em suas joias, e gravar em
sua porta.[18]
No reinado de D. Affonso V era tal o esplendor das festas da côrte
portugueza, que embaixadores estrangeiros confessavam espontaneamente
que em paiz algum da Europa poderiam ser escedidas em magnificencia.[19]
Os saraus eram muito frequentes; começavam de ordinario por lautas
ceias, servidas em custosas baixellas de prata, e terminavam por danças
e momos de exquisita invenção. «Debaixo dos tectos e das abobadas
artezoadas, lavradas de oiro nos pendurões e bocetes, acotovelavam-se as
damas, diz Rebello da Silva, riam pagens, atravessavam figuras de momos,
pulavam anões ou corcovados, e teniam os cascaveis dos maninellos e
truões.[20] D. Joanna não permittia que no seu paço, diz D. Bernarda
Pinheiro, se fizessem jogos nem momos de vaidades; se queria ter sarau,
fazia-o quando seu pae e irmão lh'o vinham dar e ter com ella. E com
elles, duques, marquezes, condes e todos os outros senhores e fidalgos,
os quaes como a paço d'uma princeza, não tendo outra, vinham assim
desenfadar. E tomava muito prazer em seus saraus com el-rei n'estes dias
festivos, e com suas damas e donzellas, com as quaes a dita senhora
Infante e Princeza sahia a recebel-os, toda coberta de sua pompa e reaes
vestidos e toucado, por satisfazer sempre com a vontade e mandado de
el-rei seu pae.»
Parece que n'estas festas, em que sempre dançava com el-rei, ou com o
infante D. Fernando, seu thio, D. Joanna occultava com cuidado, sob as
sedas dos seus vestidos e os brilhantes dos seus colares, a camisa de
grosseira estamenha e os asperos celicios.
* * * * *
A Africa é a terra promettida de D. Affonso V, diz Schoeffer, o objecto
de seus desejos, dos seus planos favoritos e de seus sonhos,[21] é
finalmente alli, refere Rebello da Silva, que elle corta uma palma, que
D. João I mesmo não julgaria impropria da sua corôa militar.[22] A
conquista d'Arzilla, uma das melhores possessões dos mouros, n'aquella
parte do globo. Em 1471 depois de haver mandado observar por Pedro de
Alcaçoba e Vicente Simões, o meio mais facil de levar a effeito a
desejada conquista, D. Affonso preparou a expedição, composta de
quatrocentos e setenta o sete navios e vinte e quatro mil homens de
desembarque. Contra o voto quasi unanime do seu conselho, o rei
commetteu uma d'aquellas leviandades em que tão facilmente se deixava
cahir. Consentiu que seu filho, o Principe D. João, o acompanhasse,
aventurando assim aos azares da guerra os destinos da corôa de Portugal.
Por governador do reino ficou o duque de Bragança, D. Fernando.[23]
Alguns escriptores, entre elles fr. Luiz de Souza, querem que D. Joanna
fosse a regente, opinião que alem de não ser seguida por Dameão de Goes,
Ruy de Pina e outro qualquer chronista, cahe pela base em presença da
carta patente de D. Affonso V, em que se incumbe a governança do reino
ao velho duque de Bragança. A propria D. Bernarda Pinheiro não diz
explicitamente que ella ficou regente, mas sim «que el-rei lhe deixou
seu reino e tudo ordenado e recommendado como convinha.»
Em 15 de agosto levantou ferro a esquadra com direcção a Africa, e a 24
do mesmo mez dava-se o assalto, hasteando-se, passadas algumas horas de
sanguinolento combate em que D. Affonso V combateu com o seu
incontestavel valor, a bandeira da cruz nos miranetes das mesquitas e
eirados das torres d'Arzilla.
«Tanger, que resistira a tantos assaltos, e que vira do alto dos seus
muros, no reinado de D. Duarte, o desastre dos infantes, e o captiveiro
d'um d'elles, Tanger cortada de temor, despejou-se repentinamente, e D.
João, depois marquez de Montemór, recebia das mãos victoriosas do rei os
estandartes portuguezes, para os hastear n'aquellas ameias
desamparadas.[24]
A feliz nova de que Affonso V engastara na sua dupla corôa de rei e de
cavalleiro duas joias de tão pura agua como eram Tanger e Arzilla, foi
em Portugal alegremente recebida. D. Joanna que na capella dos seus
paços havia mandado fazer preces publicas pelo bom exito da expedição,
communicou logo á camara e cidade de Coimbra o resultado d'ella.[25]
Regulada a administração e defeza das praças conquistadas, o rei voltou
ao reino, onde o esperava a mais brilhante recepção que até então entre
nós se havia presenciado. Os vencedores, diz Dameão de Goes, foram
recebidos com procissões e grandes festas, que em louvor de Deus, e
lembrança de tão assignalada victoria por muitos dias se celebraram por
todo o reino.[26]
D. Joanna, vestindo um habito de rico veludo verde, e ostentando na
cabeça e no collo os melhores brilhantes do real thesouro, foi esperar
el-rei ao desembarque. Acompanhava-a sua thia D. Filippa e bem assim
todas as damas, donzellas e fidalgas de sua casa. Contava então desoito
annos, e a tradicção e a historia apresentam-nol-a formosissima. Vastos
cabellos loiros naturalmente annelados, presos em redor da cabeça por
uma fita de seda cravejada de rubis cahiam-lhe soltos pelas costas
abaixo segundo a moda d'então. O rosto era oval, alvo, ainda que um
pouco rosado; os olhos eram verdes e formosos; o nariz digno rival da
estatuaria grega e a bocca, pequena, entreabria-se n'uns labios
purpurinos. A estatura era um pouco alta, mas donairosa; o seu trajar
simples, mas sempre elegante.[27]
Alguns mezes depois eram taes as necessidades do estado que se pensou na
conveniencia de reduzir as despezas a que D. Joanna era obrigada a
fazer, tendo casa como se fosse rainha. Foram diversos os alvitres
apresentados, resolvendo-se afinal que ella entrasse num mosteiro em
habito secular, em quanto não casava,[28] indo-se assim de accordo não
só com as suas tendencias asceticas, mas tambem com os desejos que mais
uma vez havia manifestado, de trocar a purpura pela estamenha. Não era
novo o exemplo. As Infantas Thereza, Sancha, Mafalda, Branca e Maria,
aquellas filhas de D. Sancho I, e estas de D. Affonso III, haviam
trocado tambem a côrte pelo claustro. Alem d'isto é acto de abnegação
praticado por D. Izabel a _santa rainha_ de mistura com a repentina
resolução de algumas damas mais illustres, que n'esta época abandonaram
Lisboa a fim de professarem nos differentes mosteiros do paiz, fez com
que D. Joanna recebesse jubilosa a resolução do real conselho.
Escolhido o mosteiro de Odivellas, para residencia da Princeza, por ahi
viver sua thia D. Filippa, diz Dameão de Goes que el-rei a foi visitar
com o Principe, e lhe disse o que no conselho se ordenara ácerca da
ordem de sua casa e modo do estado da sua pessoa, pelo que ella lhe
beijou a mão, dizendo-lhe que n'isto lhe fazia grande mercê, porque sua
tenção e vontade fôra sempre de servir a Deus em religião.[29]
Resolvida a deixar para sempre a côrte, D. Joanna distribuiu entre as
damas de sua casa os seus vestidos e joias, e despachou com el-rei os
fidalgos e officiaes, com a maior vantagem e favor que poude, diz fr.
Luiz de Souza.[30]
Em 1472 entrou no mosteiro de Odivellas, onde foi recebida com todas as
honras inherentes ao seu alto nascimento. Foi porem curta aqui a sua
estada. Logo que sahiu do paço deu a conhecer que o mosteiro em que
queria viver era o de Jesus de Aveiro e não aquelle, porem por motivos
que nos são desconhecidos não poude logo realisar o que desejava. O
convento de Jesus havia então poucos annos que fôra fundado; podia-se
apresentar como exemplo de pobreza e austeridade e ao mesmo tempo como
asylo das damas mais illustres de Portugal, em cujo numero se contavam
D. Leonor de Menezes, filha do segundo conde de Vianna D. Duarte de
Menezes, que ahi professou e veio a ser mais tarde prioreza. Parece ser
esta senhora a causa principal de D. Joanna preferir Aveiro a Odivellas,
pelo menos é essa a opinião mais seguida.
Obtida a permissão para vir para o convento de Jesus, D. Joanna deu-se
pressa a communical-a á prioresa Dona Beatriz Leitão. Nos fins de julho
de 1472 chegou a Princeza a Aveiro; acompanhavam-a, alem da côrte, o rei
e o principe, D. Filippa de Lencastre, e soror Mecia d'Alvarenga,
religiosa de Odivellas, e D. Mecia de Sequeira, sua ama. No dia 4 de
agosto, teve lugar a entrada no mosteiro, que foi com a maior
solemnidade e lusimento. El-rei e o Principe foram os unicos que
entraram, acompanhando-a, precedidos da communidade, até aos aposentos
que lhe estavam destinados, que eram a casa denominada das finadas, por
então não haver outra devoluta, nem melhor, diz D. Bernarda Pinheiro.
«Era o mosteiro mui estreito, refere fr. Luiz de Sousa, para aposentar
uma Princeza, mas ella entrou tão humildemente, que tudo lhe parecia
grande; concertaram-lhe uma casa, que ficava junto á capella-mór; aqui
fez logo armar um oratorio, e na parede abriu uma pequena fresta que lhe
servia de tribuna para ouvir os officios Divinos.[31] Seu trajo era já
dominico, quando entrou, vasquinha branca e saio preto, de panno pouco
custoso; os cabellos ennastrados, recolhidos em coifa de lenço, e toalha
lançada; como tudo era tão honesto, não mudou nada. Nas festas descia
muitas vezes ao côro, e tomava assento no esquerdo, entre as noviças, e
nas ultimas cadeiras.[32]
Soror Mecia d'Alvarenga ficou vivendo no convento com D. Joanna; D.
Filippa de Lencastre e D. Mecia de Sequeira, essas ficaram tambem por
algum tempo em Aveiro, mas fóra da clausura. Algumas creadas que havia
trasido comsigo de Odivellas, mandou-as ficar na villa, mais por amor e
para lhes fazer bem e mercê, que por necessidade do seu serviço, diz fr.
Luiz de Sousa. D. Filippa visitava-a amiudadas vezes e parece que tambem
algumas vezes o fizera o Principe D. João antes della tomar o habito, o
que muito lhe recommendara que não fizesse.
Nos primeiros dias de 1475; D. Joanna mostrou immensos desejos de tomar
o habito. Discutido o assumpto pela communidade reunida em capitulo,
determinou ella que a solemnidade tivesse lugar em 25 de janeiro, por
n'esse dia a egreja resar da conversão de S. Paulo. «Chegou o dia, e bem
podemos dizer, diz fr. Luiz do Souza, que foi o mais formoso, e o mais
alegre, que nunca aquella casa teve. Viu-se n'elle uma Princeza jurada
de um reino, sendo encontrada de pae rei, e irmão Principe, thios
Infantes, e a despeito de toda uma provincia, buscar a pobreza e
humildade de Christo, lançar-se por terra, e aos pés de uma pobre
mulher, pedir-lhe por misericordia uma mortalha.
Começou a cerimonia depois do uma devota pratica da Prioreza, com se
chegar a ella a Princeza, e offerecer-lhe a cabeça para dar os cabellos
de ouro em penhor, e primicias do sacrificio, que se fazia a Deus.
Cortou-lh'os a Prioreza, mas com tantas lagrimas, que quasi que nem os
olhos viam, nem as mãos acertavam o que faziam. Não eram menos as de
toda a communidade, nem as da noviça; porem com esta differença, que as
da noviça eram de consolação e alegria, as da Prelada, subditas de
devoção, de espanto e de compunção. Com as mesmas lhe foi vestido o
habito. e no remate, abraçando e dando paz com humildade a todas, se foi
com ellas em procissão ao altar.»[33]
«Começou a Princeza desde este dia um mui austero, e esquivo genero de
vida, não só por qualidade tão alta e compleição tão delicada, como era
a sua, mas para quem no nascimento tivera humilde sorte, e nas forças
muita robustez, espelho em que se deviam vêr, e a elle compôr vidas e
costumes, todos os sugeitos que buscam a religião. Os que nasceram
grandes para se saberem humilhar, e os pequenos para se lembrarem sempre
da pobreza do seu pó, e não pretenderem elevar-se onde os maiores se
abatem...............................................................
.....................................................................
«Famoso exemplo nos deixou esta Princeza; do dia que vestiu o santo
habito, nunca mais se deixou visitar, nem tractar de nenhum senhor, nem
outro secular do reino; nunca mais trouxe peça de ouro, nem de prata, e
até o titulo de Infante quizera deixar, (porque o de Princeza muito
tempo havia que o tinha deixado) se a Prioreza lh'o não tolhera. No
habito, nas tunicas, na cama e em todo o trajo; no serviço de casa, e
communidade, nenhuma differença fazia da mais pequena e humilde noviça.
Habito curto, e sem fralda, tunicas de sarja, cama sem nenhum genero de
lenço, pantufos baixos de inverno, sapatas de sola no verão (quem crêra
isto hoje, ainda em uma mulher ordinaria). No côro fazia todos os
officios das mais noviças, assim como lhe cabia por seu turno: dizia
versos, (antiphonas), registrava as horas, cantava kalendas, accendia
vellas, levava os ceriaes, cruz e agua benta; no refeitorio servia
quando lhe tocava, ajudando a companheira quanto suas forças, quando não
eram mui fracas, abrangiam. Ao comer, tomava sua pitança como cada uma
das outras noviças; se lhe juntavam diante mais alguma cousa, como era
fazer differença em respeito da sua pessoa, ou a dava á freira mais
visinha, ou a deixava sem lhe tocar. Para não faltar em nenhuma
occupação da communidade, aprendeu a fiar, e a coser e lavrar. E como o
sangue nobre para tudo é mais habil se se applica, sahiu grande mestra;
e do seu fiado se faziam corporaes para os altares. Chegou a amassar o
pão, lavar a roupa, varrer as casas, para que corresse o trabalho
egualmente por todas; e se acontecia metter-se lenha em casa, ou trigo,
e ainda que fosse tijollo, telha e barro, que as religiosas, por não
entrarem dentro seculares, e por que não usavam ainda então servidoras,
nem de escravas, costumavam por suas mãos acarretar, accudia com alegre
rosto a ajudar, e levar sua parte, louvando umas, animando outras, e
dando exemplo de humildade a todas.»
«Veio-se a saber na villa, e logo por todo o reino, que estava noviça,
com cabellos cortados e habito vestido. Foi estrondo, e nunca visto o
sentimento, que por toda a parte causou. Entre os moradores da villa
houve pranto geral. Os criados, e criadas se encerraram, e vestiram de
pano de dó, como se a viram enterrar. A senhora D. Felippa não quiz mais
visital-a, ou de sentida do feito, ou de receiar ser havida por
consentidora d'elle; e poucos dias depois se foi da Villa; e deu ordem
com a Prelada de Odivellas, que lhe tirasse a amiga D. Mecia
d'Alvarenga.»[34]
Mal se divulgou nas provincias que D. Joanna havia tomado o habito,
muitas e importantes povoações mandaram a Aveiro representantes seus
afim de protestarem contra uma tal deliberação. Chegados que foram aqui,
dirigiram-se ao convento, onde foram recebidos na Casa da Roda pela
Prioreza D. Beatriz Leitão, a quem asperamente censuraram, chegando a
ameaçal-a com o lançarem o fogo ao convento se ella não fizesse com que
D. Joanna despisse o habito. D. Beatriz desculpou-se o melhor que poude,
dizendo que não tinha feito mais do que obedecer ás ordens da Princeza;
estas explicações satisfizeram em parte os representantes dos concelhos,
que se retiraram em seguida, depois de haverem feito lavrar instrumentos
publicos pelos tabeliães que comsigo haviam trazido, pelos quaes o
Convento se obrigou a não pôr estorvo algum nem demora á sahida da
Princeza em qualquer tempo que se tornasse necessario para bem do reino.
Veio depois o Principe D. João, trazendo em sua companhia alguns dos
principaes fidalgos e varios bispos, dos quaes um era o d'Evora, D.
Garcia de Menezes. Entrou iradissimo no convento, e sahindo-lhe ao
encontro a Prioreza, reprehendeu-a asperamente tambem, perguntando-lhe
como a tal se atrevera.
Ella toda cheia de humildade, mas humildade que não avilta, antes
enobrece, respondeu-lhe: «Senhor, a senhora Princeza, jurada herdeira do
throno, é por nós todas obedecida, como se fosse Rainha de Portugal: a
senhora Princeza mandou, senhor, e soror Beatriz cumpriu.»
D. João, surprehendido com esta tão respeitosa submissão, passou aos
aposentos de D. Joanna, que sahiu a recebel-o, «fazendo-se força, diz
Sousa, por mostrar alegria com sua vinda: porém elle, pondo os olhos
n'ella, e quando lhe viu o rosto secco, pallido e enfiado, effeitos do
rigor com que vivia, e notou a pobreza do vestido, a novidade do
toucado, não poude conter as lagrimas; e trocada a paixão pela ira, com
que vinha, em uma não cuidada brandura, fallou-lhe amorosamente,
pedindo-lhe que deixasse aquelle genero de vida e trajo, com que tinha
desgostado a seu Pae, e a elle, inquietado e alterado todos os Estados
do Reino: que lhe lembrasse a necessidade que havia da sua pessoa para
na falta d'elle Principe: caso em que estava obrigada, não só a cortar
por seu gosto, pelo dar a tantos, mas ainda a sacrificar-se. Que
folgasse de agradar a um Pae velho, que muito lhe queria; fazer a
vontade a um irmão enfermo, e sem filhos, e não desprezar os
requerimentos de um Reino inteiro. Respondeu a Princeza com poucas, e
humildes palavras, como a Principe, que reconhecia por Senhor, e como a
irmão, que muito amava; que bem sabiam El-Rei seu Pae, e elle, que era
tão antigo n'ella o amor da vida religiosa, como o uso da rasão; que a
esta conta de beneplacito de ambos, e com sua licença, de longo tempo
requerida, viera para aquella casa. E sendo assim, bem deviam entender,
que não podia estar bem a sua pessoa, entrando em companhia de professas
de estado austero, e rigoroso estar á vista de seus trabalhos, sem tomar
parte n'elles; e viver em casa de religião, isempta das obrigações
d'ella: que fazendo conta, que ambos d'isso eram contentes, começara
aquella vida, vida que buscara com vontade, e proseguia com gosto; e
ajudando-a Deus levaria ao cabo, com a firmeza, e constancia, que devia
a seu sangue: e assim pedia a sua alteza fosse servido parecer-lhe bem.
Estas rasões e as lagrimas piedosas, com que as acompanhava, atalharam o
principe de sorte, que não mais fez instancia. Mas tomando a Princeza
pela mão levou-a para uma varanda. Alli chamou o bispo de Evora Dom
Garcia de Menezes, que com outros senhores o viera acompanhando, e
queixou-se-lhe da dureza, que achara n'ella. Tomou então o bispo a mão,
e como era dotado de singular eloquencia, de que até nossa edade
chegaram vestigios (devia cuidar, que esperava o Principe elle désse fim
a esta empreza) começou a propor-lhe com elegantes, e bem pensadas
palavras toda a substancia das que o principe tinha dito, e ajuntando
outras rasões de vivo e esperto engenho: e emfim resolvendo com termo
demasiado livre, que se todavia insistisse em proseguir um genero de
vida, que tinha mais de apetite, e meninice, que de prudencia de
Princeza, e em querer passar os termos da obediencia, que devia a
el-rei, como filha a seu pae, e como qualquer vassallo a seu rei, e
senhor natural, que para isso estava alli o Principe para lhe não
soffrer, que tivesse mais habito, nem religião, nem mosteiro. Viu-se
n'este passo o que tanto de antemão avisou Christo a seus discipulos no
santo Evangelho; quando por causa sua se achassem diante dos reis, e
grandes do mundo, não se matassem por estudar respostas a seus ditos,
que elle se obrigava a dar-lh'as feitas, e postas nas linguas.
Revestiu-se a Princeza de um brio real e valor senhoril, que bem pareceu
communicado do céu, e respondeu-lhe assim: Bispo reverendo, tudo o que
me tendes dito, devo, e quero crer por obrigação de christã, que vol-o
faz dizer o zelo que tendes do serviço de el-rei meu senhor, e pae, e do
bem de seus povos, e por esta parte não mereceis reprehensão; mas que
conta haveis de dar a Deus, sendo successor de Christo Jesus seu filho
no habito de sacerdote, e profissão de prelado atreverdes-vos a
persuadir-me uma cousa tão encontrada com as obrigações, que
prometestes, que jurastes? Como havieis de desculpar com vossa
consciencia atissardes o fogo da ira do Principe meu senhor, e irmão,
com rasões mais apparentes, que verdadeiras, mais artificiosas, que bem
fundadas, só porque vos parece, que o agradaes n'isso? Vós, que tinheis
obrigação, como padre espiritual, de o mitigar, e trabalhar, que não
chegasse a colera a inficcionar-lhe a alma, e commetter culpa contra
Deus: vós, que como outro Ambrosio deverieis aconselhal-o, que temesse
entrar por estes claustros sagrados, se não fosse a honral-os, e
veneral-os; e fazei-o tanto ao revés, que em sua presença, e minha,
tendes bocca para fallar em tirar habito, e religião; e não tendes
consideração para vêr, que o haveis com um Deus, que vos pode castigar
(e temei-o muito) só pelo que dizeis; e a el-rei meu senhor só por me
conservar n'este estado, que com sua licença busquei, havieis de ter por
fé (se sentis bem d'ella) que dará vida e honra, e novas victorias: e ao
Principe muitos filhos, e nétos, e saude e vida para os vêr e lograr. Se
os ecclesiasticos não discursam, como ecclesiasticos, não fallam como
ecclesiasticos, que se ha de esperar do vulgo? Se a vossa theologia vos
ensina, que nem nas cousas humanas se move a folha d'uma arvore sem
vontade de Deus, como nas divinas, e no que foi inspiração do céu, e
quasi nascida comigo, haveis de pôr nome de apetite? Estando escripto,
que nem o nome de Jesus podemos pronunciar, nem vós, nem eu, sem
especial movimento do Espirito Santo. Se isto ignoraveis, não merecieis
de mim resposta; e se o sabieis, como sei que sabeis, mereceis nome de
adulador para com o Principe, e de enganador para comigo. E qualquer que
seja vossa tenção e entendimento, sabei de certo (e com isto concluo)
que a causa é de Deus, que se não sujeita a poderes humanos: e pela
mesma rasão não haverá nenhum na terra, que me tire o proseguil-a: e se
elle fôr servido, que me custe a vida tal demanda, isso terei por
ventura, por reino e por imperio. Assim concluiu a Princesa, e com a
ultima palavra fez signal de se querer recolher, porque enxergava no
gesto do irmão enfiado ondas de nova paixão. Parece que houve por dito
contra si tudo o que a Princeza respondeu ao Bispo; sentiu-se, e
desconfiou de vêr sua inteireza e liberdade; e vêr juntamente ficar o
Bispo corrido, e pouco airoso com o que ouvira.
Dizem que soltou contra ella muitas palavras pesadas, e foi uma, que em
pedaços lhe havia de tirar o habito, e assim a deixou.
«Desbaratam muito a saude corporal desgostos da alma, e se estes cahem
sobre vida acossada de trabalhos, como acham materia disposta, são os
effeitos maiores, e mais nocivos. Tinha esta Senhora passado alguns
mezes de noviça com tão rigoroso tractamento de sua pessoa, que toda a
communidade havia por impossivel chegarem ao cabo do anno membros tão
fracos, e compleição tão delicada. E com tudo a força do espirito, e
gosto, que tinha de se dar a Deus, fazia, que levasse alegremente tudo,
e se vencesse a si mesma. Mas como se juntou o sobresalto dos povos, e
desamparal-a sua thia, e a indignação do Principe, rendeu-se, e acurvou
a natureza, opprimida de tantos males juntos: como acontece sossobrar o
navio com demasiado pezo, e arrebentar a peça de bronze, se lhe lançam
mais carga daquella com que pode. Passados poucos dias depois de ido o
Principe, adoeceu gravemente.»
A noticia da doença chegou aos ouvidos de D. Affonso V. Differentes
prelados e physicos distinctos foram logo enviados a Aveiro, e, chegados
aqui, decidiram em conferencia que D. Joanna não podia continuar a vida
que até então levara, pois a sua existencia corria grave risco se
continuasse a insistir em querer professar.
D. Joanna, tendo conhecimento do que se havia deliberado a seu respeito,
consultou o então vigario geral da ordem, fr. Antão de Santa Maria,
homem de grande saber e ainda de maior virtude, se devia continuar o seu
anno de provação, se despir o habito. O sabio religioso, ouvidos os
padres mais qualificados, fez-lhe vêr que, visto estar tão debilitada
pela doença e ser de natureza tão franzina, como manifestamente se via,
não poderia cumprir com os encargos e austeridades da ordem, ficava em
consciencia obrigada a deixar a pretensão, que tinha de professar
n'ella. D. Joanna recebeu pesarosa a ordem do Geral; o seu espirito
estava já de todo absorto em sensações mysticas, para não lhe parecer
cruel uma tal determinação. Mas humilde como sempre obedeceu de prompto
ao que se lhe havia ordenado.
Reunida a communidade no seu oratorio particular, apresentou-se á
Prioreza, e de joelhos e banhada em lagrimas, declarou-lhe que por
obediencia e não por vontade desistia de professar; e tirando o habito
collocou-o sobre o altar, tudo com um respeito tão devoto, que revelava
bem quanto lhe custava deixal-o, diz fr. Luiz de Sousa. Passados que
foram alguns dias, tornou a vestir o habito, mostrando assim que o
trazia por devoção e não por obrigação.
Nos fins da primavera de 1479 a peste oriental que havia annos já
assolava Portugal, entrou em Aveiro com o seu funebre cortejo de
calamidades. Havendo-se desenvolvido em Esgueira, de uma maneira
verdadeiramente assustadora, principiou a fazer sentir aqui os seus
horrorosos effeitos, ainda que com menos intensidade. Infelizmente,
todas as condições hygienicas de Aveiro, eram de forma para fazer
receiar o desenvolvimento do fatal contagio. A villa, como a maioria das
povoações de então, com as suas altas muralhas e fossos profundos, com
as suas ruas e viellas estreitas e immundas, cerrada por todos os lados
de pantanos, estava adquada sobremaneira para a epidemia se desenvolver
espantosamente, como com effeito se desenvolveu.
D. Affonso V, vendo o risco eminente que corria sua filha, permanecendo
aqui, ordenou que sem demora abandonasse o convento e a villa e se
dirigisse ao Alemtejo, ainda não inficcionado, e aos Bispos, de Coimbra
e do Porto, bem como a varios fidalgos visinhos que se lhe apresentassem
para a acompanharem. «Tendo ella escrupulisado em dar cumprimento
áquella determinação, diz D. Bernarda Pinheiro, e chegando isto ao
conhecimento do Provincial, veio aqui com alguns religiosos mais
auctorisados, e lhe fizeram vêr, que devia cumprir o que lhe era
ordenado; pois mesmo que quizesse fazer sacrificio da sua vida, cuidando
que Deus lha aceitaria, tal sacrificio não era meritorio, por lhe faltar
a devida obediencia, a qual devia muito escrupulisar, de não satisfazer,
principalmente sendo o preceito tão justo, pois vinha de quem podia
mandal-a e tinha por fim prevenir o gravissimo prejuizo, que poderia
seguir-se ao reino se a sua pessoa fosse victima da peste; e podia levar
comsigo, as religiosas que quizesse, mesmo a Prioreza; e n'esta occasião
o dito Provincial as intimou por santa obediencia para que nenhuma se
recusasse.»
Feitos os necessarios preparativos, D. Joanna deixou o convento de Jesus
em 27 de setembro, e dirigiu-se a Aviz. Alem dos Bispos do Porto e
Coimbra, e varios fidalgos e escudeiros, acompanharam-n'a D. Beatriz
Leitão e mais algumas religiosas, e bem assim sua ama D. Mecia de
Sequeira. Viajava sempre em andas[35] cerradas, cobertas de panno azul
escuro, pois então entre nós ainda se não havia introduzido o uso das
carruagens.
Depois de alguns mezes de residencia em Aviz, partiu para Abrantes,
aonde em 3 de agosto de 1480 falleceu a Prioreza D. Beatriz que comsigo
levara, e passados alguns dias depois de haver orvalhado com muitas
lagrimas a sepultura d'aquella virtuosa senhora, voltava ao convento de
Jesus, por haver noticia que a peste havia finalmente abandonado Aveiro.
No anno seguinte de 1481 perdia el-rei seu pae, fallecido a 28 de agosto
no paço de Cintra, na propria camara que em que havia nascido. Feitas
que foram na egreja do convento as exequias solemnes pelo eterno
descanço do que fôra seu pae e rei, mandou alli alguns frades do
convento de Nossa Senhora da Mizericordia e differentes fidalgos,
cumprimentar o novo monarcha, e prestarem-lhe em seu nome juramento de
fidelidade. D. João II recebeu prasenteiro e agradecido os emissarios de
sua irmã, e por elles mesmos lhe fez saber que procuraria ministrar-lhe,
tão depressa as circumstancias do real thesouro o permitissem, os meios
de que carecesse para poder sustentar, como era mister, o decoro
inherente á sua pessoa.
D. Affonso V havia declarado em seu testamento, que não instituia sua
filha herdeira em cousa alguma porque, segundo o costume do reino, tudo
o que possuia o rei passava a seu filho primogenito, o qual tinha o
encargo de manter e agasalhar todos os outros irmãos.[36] O novo rei
cumpriu cavalheirosamente as disposições testamentarias de seu pae, como
mostraremos, e se não o fez logo é porque lhe foi totalmente impossivel
fazel-o. A nobreza estava senhora absoluta de Portugal inteiro; quasi
que todos os rendimentos do estado eram absorvidos por ella; taes haviam
sido as doações, tenças e moradias concedidas por D. Affonso V. De seu
filho pode-se dizer com justificada rasão, que herdou de seu pae unica e
simplesmente, as estradas de Portugal.
Antes poucos dias de D. João subir ao throno, nasceu-lhe um filho
illegitimo, D. Jorge de Lencastre, de D. Anna de Mendonça, mulher muito
fidalga, e moça formosa de mui nobre geração, diz Garcia de Rezende.[37]
Os primeiros vagidos de D. Jorge despertaram logo no coração de D. João
II aquelle intenso amor que mais tarde o levaram a tentar legitimal-o,
para lhe poder succeder no throno, o que não se chegou a realisar pela
resistencia tenacissima que a isso oppoz a rainha D. Leonor.
Por escusar desgostos caseiros--escreveu fr. Luiz de Souza,--determinou
(el-rei) tirar diante dos olhos o Principe. Este meio de _tirar deante
dos olhos_ para _evitar desgostos caseiros_ é vulgar, diz o sr. Alberto
Pimentel, em reis e vassallos. O que não é vulgar é encontrarem os
bastardos de uns e outros, educadora tão carinhosa e meiga como a
Princeza Santa Joanna, que no mosteiro de Aveiro recebeu e educou o
sobrinho.[38]
O pedido de D. João II para que o futuro Mestre de S. Thiago fosse
educado no convento de Jesus, foi feito a D. Joanna por o então
Provincial dos Dominicos e que em tempo fôra tambem confessor de el-rei
seu pae. Obtidas as licenças necessarias, mandou D. Joanna preparar-lhe
aposentos por cima da _casa da roda_, para onde veio, não tendo ainda
trez mezes, diz D. Bernarda Pinheiro, não trazendo em sua companhia
ninguem mais do que a ama que lhe dava leite, mulher d'aqui natural.
Em 1485 desenvolveu-se de novo a peste em Aveiro, e D. Joanna viu-se
obrigada a deixar o seu convento. Todos os seus biographos, incluindo
mesmo D. Bernarda Pinheiro, affirmam que ella se retirou para o mosteiro
das religiosas dominicas da cidade do Porto. Parece-nos que não dizem
toda a verdade. Alli não havia nem nunca houve mosteiro algum de
religiosas dominicas; alem d'isto, no archivo da camara de Coimbra
existe uma carta autographa de D. Joanna, datada de 14 de janeiro
d'aquelle anno, em que agradece aos vereadores d'aquella cidade a boa
vontade que tinham ao seu serviço, e lhes offerece tambem a sua para com
a cidade, na villa de Monte-mór (velho) para onde el-rei a mandara
ir.[39] De Monte-mór dirigiu-se a Alcobaça onde el-rei então estava,
deixando comtudo alli seu sobrinho D. Jorge.
Diz-se geralmente que fôra o chamamento de D. João II que alli a levara,
e a causa d'isto as negociações d'um projectado casamento com Ricardo
III de Inglaterra. Todos os biographos de D. Joanna são concordes em que
ella fosse pedida em casamento por differentes Principes da Europa, e
bem assim nos successos milagrosos que foram a causa principal na sua
opinião, d'elles, de se não chegarem a realisar.[40]
A historia séria, debaixo do ponto de vista humano, a historia, como no
seculo XIX se escreve, e como diz o sr. Pinheiro Chagas, não acceita nem
regeita estes factos milagrosos, passa-lhe de largo; por isso
abster-nos-hemos de apreciar aquillo que em materia de tão alta
transcendencia se não basear em documentos sobre cuja autenticidade não
haja a maior duvida. Não existe documento algum, ou ainda mesmo qualquer
referencia nos chronistas contemporaneos, por onde se prove que D.
Joanna foi pedida em casamento.
Todos os escriptores que se occuparam de D. Joanna, e que foram muitos,
principalmente os que escreveram anteriormente ao seculo XVIII, affirmam
que Luiz XI e Carlos VIII, de França, Frederico VI, d'Allemanha, e
Henrique VIII, de Inglaterra, a pretenderam para esposa. Aquellas
affirmativas, em quanto a nós, baseam-se unica e simplesmente na
tradição, mas na tradição adulterada pelo espirito dos chronistas
monachaes, cujo fim principal era sempre referir só o bem, e admittir
facilmente prodigios, de forma que na mór parte das chronicas regulares,
como diz um dos mais brilhantes luminares que o episcopado portuguez tem
tido,[41] se destacam «tantos milagres absurdos em muitos casos para não
dizer ridiculos, recebidos sem exame, abraçados com pouco credito do
entendimento, propostos ou antes apregoados com mais boa fé e singeleza
do que discripção[42].»
Os biographos de D. Joanna sahidos com rarissimas excepções dos
claustros, não podiam talvez deixar de cercar de successos milagrosos o
vulto sympathico da filha de Affonso V, e é só assim que se explica a
sua convicção, aliás na apparencia sincera, com que relatam factos, que
de forma alguma podiam ter lugar, como são os do casamento com alguns
d'aquelles monarchas. Seria demasiado longo, e até mesmo fastidioso, o
rebater, n'esta parte, os biographos, cada um de per si, e mesmo porque
todas as suas affirmativas estão compendiadas na _Historia de S.
Domingos_, pelo classico e brilhante chronista d'esta ordem. Fr. Luiz de
Sousa, seguiu é verdade, pela vereda dos mais chronistas, mas fel-o tão
primorosamente, escreveu num estylo tão arrebatador, que a elle só
podemos e devemos pedir as narrações dos factos de que nos estamos
occupando e que temos de condemnar como absurdos.
Escreve fr. Luiz de Souza:
«Entraram n'esta conjuncção em Lisboa embaixadores de el-rei de França
Ludovico Undecimo. Era a missão da embaixada, que el-rei houvesse por
bem, que para mais firmeza de amor, e, paz, que entre as duas corôas
havia, interviesse novo vinculo de sangue, contrahindo-se matrimonio
entre a Princeza Dona Joanna, e o Delfim de França (tal é o titulo dos
Principes d'aquelle reino). Não havia quem duvidasse em estar bem o
negocio a el-rei D. Affonso seu pae, e ao reino, e á mesma Princesa; só
ella, quando seu pae lho communicou para saber sua vontade, ficou dentro
em sua alma com sobresalto, e desconsolação. Mas sem dar a entender o
que sentia, desviou o tracto com rasões tão sabias, que el-rei ficou
satisfeito d'ellas, e de sua tenção, não descontente. Disse, que o
Principe Dom João seu irmão era moço, e enfermo; e parecia temeridade,
em quanto não tinha edade para casar, nem disposição, e saude firme,
desterrarem-n'a a ella para tão longe, sendo, como era herdeira e
successora do reino; que se podia responder aos francezes com palavras
geraes de boa amizade, e gosto do parentesco; porem differindo a
resolução, e dando por causa os poucos annos do Delfim, que não eram
mais de quinze, e tambem os d'ella; que havia mister ser mais crescida,
e ter mais pratica do que lhe convinha saber para tal estado, e para em
terras estranhas. Instou el-rei todavia, e porfiou, porque não tinha por
acertado perder tal occasião. Mas emfim, considerando de vagar a
resposta da Princeza, foi julgada por mais conveniente, e seguida por
todos os do conselho.»
«Era rei dos romanos Miximiliano, filho do imperador Frederico, e da
infanta D. Leonor, irmã de el-rei D. Affonso, diz fr. Luiz de Souza;
como nascido de portugueza, e affeiçoado ao reino, desejou casar n'elle.
Houve da sua parte muitas instancias, que a Princeza rebateu com seu
valor, e emfim as desviou outro casamento, que se offereceu ao
pretensor, e teve effeito com herança do senhorio de Borgonha e
Flandres; porem, não tardaram outras que lhe deram maior cuidado. Estava
herdado el-rei Carlos VIII, de França, para quem fôra pedida em vida de
seu pae Luiz XI, como atraz escrevemos; pediu-a agora de novo. Pareceu a
el-rei que convinha muito a seu reino a alliança, com tão poderoso
principe para continuação da paz antiga, e segurança das navegações
portuguezas.[43]
.........................................................................
«Tinha-se feito rei, e senhor de Inglaterra, e conde Henrique de
Rixemont, vencendo em batalha ao duque de Clucestra, Ricardo, que,
contra elle injustamente se levantara. Presava-se de portuguez, porque
trazia sua descendencia da casa real de Portugal. Tanto que se viu rei
pacifico, desejou renovar o parentesco, e juntamente a paz e amizade,
que seus antecessores tinham com este reino. Despacha embaixadores,
offerece pazes com particularidades de importancia, e para firmeza pede
a Princeza D. Joanna por mulher.»[44]
Com relação a todos estes projectos de casamento, cumpre-nos dizer, que
não tiveram nem podiam ter lugar. A boa fé de fr. Luiz de Souza, foi
illudida mais uma vez, com as narrações dos chronistas que o
antecederam, e que por santa obediencia teve de seguir e imitar. D.
Joanna não podia casar com nenhum d'aquelles principes, não só porque a
polygamia não estava em pratica n'aquelles paizes, como tambem porque
não podia ter por maridos homens que nem sequer haviam ainda nascido.
Luiz XI não pediu, nem podia pedir, a mão de D. Joanna para o Delfim,
que depois foi Carlos VIII. Pelo que se deprehende da narração de fr.
Luiz de Souza, este pedido deveria ter lugar antes da conquista de
Arzilla (1471), época em que o Delfim ainda não era nascido, ou se o era
já, poucos mezes contava ainda, não podendo por forma alguma ter quinze
annos, como affirma o chronista, pois nasceu em 1470.[45]
Tambem não tem minimo fundamento a vinda a Lisboa n'aquella época de
embaixadores de Luiz XI, porque o unico embaixador enviado por este
monarcha a D. Affonso V, foi Ollivier Le Roux, e isto em 1485.[46] Diz
mais fr. Luiz de Souza, que Carlos VIII, já rei, pedira em casamento D.
Joanna; poderia ser que assim fosse, porém, de taes negociações não
resta memoria. Na _Carta Patente_ de 6 de setembro de 1483, em que
aquelle monarcha renova as antigas allianças e amisades que desde
antigos tempos existiam entre Portugal e a França não ha a mais leve
referencia com relação a este objecto.[47] O que se torna completamente
inadmissivel e chega até a tocar as raias do ridiculo, é a causa
assentada por Souza de se não chegar a realisar o casamento. Diz que D.
Joanna, respondeu a el-rei seu irmão, que consentia no matrimonio, se
n'aquelle dia e hora, que tal consentimento dava, estivesse el-rei
Carlos vivo; mas em caso, que fosse morto, houvesse sua alteza por bem
deixal-a livre para em nenhum tempo mais se lhes fallar em mudanças de
estado.
Deu-se el-rei por satisfeito, contentou o embaixador com palavras de
matrimonio, como quem ignorava o que a sua irmã fôra manifestado. Mas
não passaram muitos dias, que lhe viesse nova de ser morto o que já
tinha por cunhado; e que acabara de morte subita, e antes do termo, em
que a Santa dera seu consentimento.»[48]
Fr. Luiz de Souza foi aqui o verdadeiro chronista monastico; julgou ser
ensejo de arranjar um milagre, e não recuou perante cousa alguma; cremos
mesmo que elle conhecia sufficientemente a historia de França e que
sabia muito bem que Carlos VIII sobrevivera a D. Joanna, pois, fallecera
só em 1498[49] mas narrou o facto d'aquella forma, não só porque se
tornava necessario povoar a historia de successos milagrosos, não talvez
por convicção propria, mas sim por lho haverem ordenado, porque elle,
como diz o douto prelado por nós já citado, «escreveu porque o mandaram
escrever, e escreveu o que lhe mandaram.[50]
Maximiliano tambem não podia pedir a mão de D. Joanna, pois havia já
casado em 1477 com Maria de Borgonha; Henrique VII esse podia pretender
desposal-a, pois só veio a casar em 1486 com Izabel York, o que não
podia era morrer a fim de impedir de se realisar o casamento, como quer
fr. Luiz de Souza, que faz dizer D. Joanna a D. João II «que era morto e
enterrado o mesmo para quem a buscava»[51] pois só conseguiu passar
d'esta para melhor vida em 22 de abril de 1509. Estes factos foram já
combatidos por Caetano de Souza que, dizendo que «elles padecem muito na
verdade da historia,» demonstra com dados irrecusaveis que não podiam
ter lugar.[52]