Tinha visto algumas vezes na agua do mar, completamente limpida,

animaes inexperados, de grandes dimensões, de formas diversas, os

quaes fóra d'agua assemelhavam-se a crystal molle, e tornados á agua,

confundiam-se com ella, pela identidade de transparencia e de côr;

disto concluia elle que, se a agua era habitada por transparencias

vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparencias

igualmente vivas. Os passaros não são os habitantes, são os amphibios

do ar. Gilliatt não acreditava no ar deserto. Dizia elle: se o mar está

cheio de creaturas, porque motivo a atmosphera será vasia creaturas côr

do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova

que essas creaturas não existem? A analogia indica que o ar deve ter

os seus peixes, como o mar; os peixes do ar serão talvez diáphanos,

beneficio da providencia creadora, tanto a nosso favor, como a favor

delles; deixando passar a luz atravez da sua forma, e não fazendo

sombra, ficam ignorados de nós, e nada poderemos saber. Gilliatt

imaginava, que, se se podesse esvaziar a atmosphera, pescando-se no ar

como num tanque, achar-se-hia uma porção de creaturas sorprehendentes.

E, accrescentava elle, na sua scisma, muitas cousas se explicariam.

A scisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o somno,

e preoccupa-se a respeito delle, como de sua propria fronteira. O ar

habitado por transparencias vivas, seria o começo do Desconhecido;

além, abre-se a vasta porta do possivel. Outros seres e outros factos.

Nada sobrenatural; mas a continuação occulta da natureza infinita.

Gilliatt, no ocio laborioso que compunha a sua existencia, era um

observador extranho e phantastico. Chegava a observar o somno. O somno

está em contacto com o possivel, que tambem chamamos o inverosimil. O

mundo nocturno é um mundo. A noite é um universo. O organismo material

humano, sobre o qual pesa uma columna atmospherica de quinze leguas de

altura, chega á noite fatigado, cahe de fraqueza, deita-se, repousa;

fecham-se os olhos da carne; então, naquella cabeça adormecida, menos

inerte do que se crê, abrem-se outros olhos, apparece o Desconhecido.

As cousas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhas do homem, ou

porque haja verdadeira communicação, ou porque as distancias do abysmo

tenham crescimento visionario; parece que as creaturas invisiveis do

espaço vem contemplar-nos curiosas a respeito da creatura da terra; uma

creação fantasma sobe ou desce para nós, no meio de um crepusculo; ante

a nossa contemplação spectral, uma vida que não é a nossa, aggrega-se

e dissolve-se, composta de nós mesmos e de um elemento estranho; e

aquelle que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente,

entrevê as animalidades extranhas, as vegetações extraordinarias,

as cores lividas, terriveis ou risonhas, as larvas, as mascaras,

os rostos, as hydras, as confusões, os luares sem lua, as obscuras

decomposições do prodigio, o crescer e o decrescer no meio da espessura

turvada, a fluctuação de fórmas nas trevas, todo esse mysterio que

chamamos sonho, e que não é mais do que a approximação de uma realidade

invisivel. O sonho é o aquarium da noite.

Assim sonhava Gilliatt.

VIII

A CADEIRA GILD-HOLM-'UR

Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt, não a encontraria, nem

o jardim, nem a enseada onde elle guardava a chalupa. A casa mal

assombrada já não existe. A peninsula onde essa casa estava edificada

cahio ao picarete dos demolidores, e foi conduzida, ás carradas, para

os navios dos alborcadores de rochedos e commerciantes de granito.

A peninsula fez-se caes, igreja e palacios na capital. Toda aquella

crista de rochedos partio ha muito para Londres.

Aquelles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas e recortes, são

verdadeiras cadêas de pequenas montanhas; vendo-as, recebe-se a mesma

impressão que teria um gigante contemplando as cordilheiras. O idioma

local chama-os bancos. Ha-os de diversas figuras. Uns assemelham-se a

uma espinha dorsal; cada rochedo é uma vertebra; outros a uma espinha

de peixe; outros a um crocodillo bebendo agua.

Na extremidade da peninsula da casa mal assombrada havia uma grande

rocha, que os pescadores do Hommet chamavam _Corne de la Bête._ Essa

rocha, especie de pyramide, assemelhava-se, posto que menos elevada, ao

Pinaculo de Jersey. Nas marés cheias, o mar separava-a da peninsula, e

a _Corne de la Bête_ ficava isolada. Nas vazantes ia-se até lá por um

isthmo de rochas praticaveis. A curiosidade do rochedo era, do lado do

mar, uma especie de cadeira natural cavada pelas aguas e polida pela

chuva. Era perfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada

até ali pela belleza da vista; parava _por amor da perspectiva_, como

se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horisontes retinha, lá o

observador curioso.

A cadeira offerecia-se logo aos olhos delle; era uma especie de nicho

na fachada a pique do rochedo; trepar áquelle nicho era cousa facil;

o mar que o talhara tinha feito em baixo uma especie de escada de

pedras chatas, commodamente disposta; o abysmo tem destas attenções,

desconfia sempre da sua cortezia; a cadeira tentava, a gente subia

e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito

gasto e arredondado pela escuma, e por braços duas anfractuosidades

que pareciam feitas de proposito; por encosto toda a alta muralha

vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade

de escalal-a; era simples esquecer-se sentado naquella poltrona;

descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sahir,

podia-se acompanhar com os olhos uma vela até mergulhar-se além dos

Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se,

gosava-se; sentia-se o afago da briza e do mar; ha em Cayenna um

vespertilio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso

agitar de azas; o vento é esse morcego invisivel; quando não devasta,

faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o

letargo do extase. Quando os olhos se enchem de um excesso de belleza e

de luz, fechal-os é voluptuosidade. Acordava-se de subito. Era tarde. A

maré crescera a pouco e pouco. A agua cingia o rochedo.

Estava-se perdido.

Tremendo bloqueio é o mar que sobe!

A maré cresce insensivelmente ao principio, depois com violencia.

Chegando ás rochas, encolerisa-se, escuma. Nem sempre se póde nadar

junto aos cachopos. Excellentes nadadores morreram affogados naquelle

lugar.

Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno.

É o que acontece, ás vezes, olhando para uma mulher.

Os antiquissimos habitantes de Guernesey chamavam outr'ora aquelle

nicho talhado na rocha pela vaga _a cadeira Gild-Holm-'Ur_, ou

_Kidormur._ Palavra celtica, dizem, não entendida pelos que sabem

celtico, e entendida pelos que sabem francez _Quem-dorme-morre._ (_Qui

dort-meurt._) Tal é a traducção rustica.

Póde-se escolher entre esta traducção, _Quem-dorme-morre_, e a

traducção dada em 1819, creio eu, no _Armoricano_, por Mr. Athenas.

Segundo este conhecedor da lingua celtica, _Gild-Holm-'Ur_ quer

dizer-_Alta-dos-bandos-de-passaros._

Ha em Aurigny outra cadeira deste genero que se chama Cadeira do Frade,

tambem aranjada pelo mar, e com uma saliensia de pedra ajustada tão a

proposito que se póde dizer que o mar teve a complacencia de pôr um

tamborete debaixo dos nossos pés.

Nas marés cheias, não se podia ver a cadeira Gild-Holm-'Ur. A agua

cobria-a inteiramente.

A cadeira-Gild-Holm-'Ur era visinha da casa mal assombrada. Gilliatt

ia lá sentar-se muitas vezes, Meditava? Não. Já o dissemos, Gilliatt

sonhava. Não se deixava sorprehender pela maré.

LIVRO SEGUNDO

Mess Lethierry

I

VIDA AGITADA E CONSCIENCIA TRANQUILLA

Mess Lethierry, o homem notavel de Saint-Sampson, era um marinheiro

terrivel. Tinha navegado muito. Foi grumete, gageiro, timoneiro,

contra-mestre, mestre de equipagem, piloto, arraes. Agora era armador.

Ninguem conhecia o mar como elle. Era intrepido para salvar gente.

Quando havia temporal mess Lethierry ia passear á praia, com os olhos

no horisonte. Que é aquillo lá ao longe? é alguem que está em perigo.

É um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o hiate

de um lord, é um inglez, um francez, um pobre, um rico, é o diabo,

fosse quem fosse, elle saltava dentro da lancha, chamava dous ou tres

homens valentes, dispensava-os quando não tinha, equipava elle só,

desatava a amarra, travava do remo, fazia-se ao largo, subia e descia

nas cavas das ondas, mergulhava no furacão, ia ao perigo. Viam-n'o

assim de longe, no meio das lufadas do vento, de pé sobre a embarcação,

gotejante de chuva, confundido com os relampagos, face de leão e juba

de espuma. Passava assim ás vezes um dia inteiro no perigo, e nas

vagas, á saraiva e ao vento, costeando os navios que sossobravam,

salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava

á noite para casa, e tecia um par de meias.

Passou esta vida cincoenta annos, desde os dez até os sessenta,

emquanto foi moço. Aos sessenta annos, vio que já não podia levantar

com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava aquella bigorna

trezentas libras; foi atacado repentinamente, do rheumatismo. Teve de

deixar o mar. Passou da idade heroica á idade patriarchal. Já não era

mais que um bonachão.

Mess Lethierry alcançou a um tempo o rheumatismo e a abastança. Estes

dous productos do trabalho acompanham-se voluntariamente. Quem chega a

ser rico, fica inutilisado. É a corôa da vida.

Diz-se então: vamos gozar agora.

Nas ilhas como Guernesey, a população é composta de homens que passaram

a vida a andar á roda do campo, e de homens que passaram a vida a

viajar á roda do mundo. São duas especies de lavradores, uns da terra,

outros do mar. Mess Lethierry era dos ultimos. Conhecia, porém, a

terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no continente. Foi algum tempo

carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.

Fallámos nas viagens á roda do mundo; Mess Lethierry viajou a França

toda como carpinteiro. Trabalhou nos apparelhos para esgoto das salinas

de Franche-Comté. Aquelle honrado homem teve uma vida de aventureiro.

Em França aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez

extrahio a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A agua

lhe pertencia. Os peixes estão em minha casa, dizia elle. Em summa toda

a sua existencia, com excepção de dous ou tres annos, foi consagrada ao

oceano; _atirada á agua_, dizia elle. Navegara nos grandes mares, no

Atlantico e no Pacifico; mas preferia a Mancha. _Aquelle é que é rude_,

exclamava elle com amor. Nasceu alli, alli queria morrer. Depois de

ter feito duas ou tres vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia

escolher, voltou a Guernesey, e não se mecheu dalli. As suas viagens,

então, eram Granville e Saint-Malo.

Mess Lethierry era guernesiano, isto é, normando, inglez, francez.

Tinha essa patria quadrupla, immersa e como que afogada na sua grande

patria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda a parte, conservou os

costumes de pescador normando.

Isso, porém, não tolhia que elle abrisse de quando em quando um

alfarrabio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos philosophos

e poetas, e taramellar em vasconço um poucochinho de cada lingua.

II

UMA PREFERENCIA DE MESS LETHIERRY

Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.

Este, porém, era um selvagem elegante.

Era exigente a respeito de mãos de mulheres.

Ainda moço, quasi menino, estando entre marinheiro e grumete, ouvio

dizer ao _bailio_ de Suffren: _Bonita rapariga, mas que grandes mãos

vermelhas que ella tem!_ Um dito de almirante impõe, em qualquer

assumpto que seja. Acima de um oraculo está uma senha. A exclamação do

_bailio_ de Suffren fez com que Mess Lethierry se tornasse delicado e

exigente acerca de mãos alvas. A delle era uma larga spatula, escura na

côr; na agilidade era uma clava, nas caricias uma torquez; quebrava um

seixo com um socco.

Não era casado. Não quiz ou não encontrou mulher. Naturalmente o

marinheiro queria mãos de duqueza. Não se encontram mãos dessas nas

pescadoras de Port-Bail.

Conta-se entretanto que, em Rochefort (Charente) achou elle um dia

uma _grisette_ que realisava o seu ideal. Linda moça e lindas mãos.

Detrahia e arranhava. Affrontal-a era perigoso. As suas unhas,

extremamente asseiadas, tornavam-se garras destemidas, quando era

necessario. Tão bellas unhas encantaram Mess Lethierry; mas depois,

receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu não

levar aquelle namorico á presença do senhor _maire._

De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. Já cuidava dos

esponsaes, quando um residente do lugar lhe disse: _Dou-lhe os meus

parabens. Leva uma boa esterqueira._ Lethierry pedio explicações deste

elogio. Em Aurigny ha uma moda. Apanha-se esterco de vacca e deita-se

ás paredes. Depois de secco, cahe o esterco e serve para aquecer a

gente. Ninguem casa com uma rapariga, senão quando é boa esterqueira.

Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.

De mais, em assumpto de amor ou de namoro, tinha elle uma boa

philosophia rustica, uma sciencia de marinheiro apanhado sempre,

encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer sempre

pela _vasquinha_, no tempo da sua mocidade. O que hoje se chama

crinolina, chamava-se então vasquinha. Significa mais e menos que uma

mulher.

Os rudes marinheiros do archipelago normando são intelligentes. Quasi

todos sabem ler. Vê-se ao domingo rapazitos de oito annos, assentados

em um grande rolo de cabos, com um livro na mão. Os marinheiros

normandos foram sempre sardonicos, e sabem dizer cousas chistosas.

Foi um delles, o atrevido piloto Queripel quem atirou a Montgomery

refugiado em Jersey depois da funesta lançada contra Henrique II, esta

apostrophe: _cabeça douda ferio a cabeça vasia._ Outro marinheiro, por

nome Touzeau, arraes em Saint-Brelade, fez o trocadilho philosophico

attribuido ao bispo Camus: _Après la mort les papes deviennent

papillons et les sires deviennent cirons._ (Depois da morte tornam-se

os papas borboletas, e os reis ouçãos).

III

A VELHA LINGUA DO MAR

Os marinheiros das Channel-Islands são puros gaulezes. Estas ilhas que

se vão fazendo inglezas, conservaram-se muito tempo autocthones. O

camponez de Serk falla a lingua de Luiz XIV.

Ha quarenta annos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey

e de Aurigny o idioma maritimo classico. Fazia crer que estavamos em

plena marinha do seculo XVII. Um archeologo especialista poderia ir

estudar alli a antiga linguagem de manobra e de batalha esbravejada por

Jean Bart naquelle porta-voz que aterrava o almirante Hidde.

O vocabulario maritimo dos nossos paes, quasi inteiramente renovado

hoje, era ainda usado em Guernesey, em 1820. O navio que supporta

o vento era _bon boulinier_ (bom de bolina); dizia-se do navio que

se affeiçoa ao vento, por si mesmo, apezar das velas de prôa e do

leme, _vaisseau ardent_ (navio que se aguça): entrar em movimento

era _prendre aire_ (tomar o vento); pôr-se á capa era _capeyer_

(capear); apanhar o vento por cima, era _faire chapelle_ (tocar em

vento); aguentar bem sobre a amarra, era _faire teste_; estar em

confusão a bordo, era _être en pantenne_; ter o vento nas vellas era

_porter-plain_, (levar em cheio).

Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje: _louvoyer_ (bolinar), dizia-se:

_leauvoyer_, diz-se: _naviger_ (navegar), dizia-se _nager_, diz-se:

_virer vent devant_ (virar por d'avante), dizia-se: _vidonner vent

devant_, diz-se: _aller de l'avant_ (seguir avante), dizia-se: _tailler

de l'avant_, diz-se: _tirer d'accord_ (allar á uma), dizia-se:

_haller d'accord_, diz-se: _déraper_, (arrancar o ferro), dizia-se:

_déplanter_, diz-se: _embraquer_ (tezar), dizia-se: _abraquer_, diz-se:

_taquets_ (cunhos), dizia-se: _billons_, diz-se: _burins_ (passadores),

dizia-se; _tappes_, diz-se: _balancines_ (amantilhos), dizia-se:

_valancines_, diz-se: _tribord_ (estibordo), dizia-se: _stribordo_,

diz-se: _les hommes de quart à bâbord_ (homens de quarto a bombordo),

dizia-se: les _basbourdis._

Tourville escrevia a Hoequincourt: _Nous avons singlé_ (singrámos).

Em vez de _la rafale_ (a lufada), _le raffal_; em vez de _bossoir_

(tureos), _boussoir_: em vez de _drosse_ (bossa) _drousse_; em vez de

_loffer_ (arribar), _faire une olofée_; em vez de _elonger_ (alongar)

_alonger_; em vez de _forte brise_ (vento fresco), _survent_; em vez

de _sout_ (paiol) _fosse_; em vez de _jouail_ (cepo d'ancora) _jas_;

tal era, no começo deste seculo, a lingua de bordo nas ilhas da Mancha.

Ouvindo fallar um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Emquanto

no resto do mundo as velas _faseyaient_ (pannejavam), _barbeyaient_ nas

ilhas de Mancha. _Saute-de-vent_ (cambar o vento) era _folle-vente._ Só

alli se empregavam os dous modos gothicos de amarração, a _valturre_ e

a portugueza. Só alli se davam ordens destas: _Tour-et-choque!--Bosse

et Bitte!_--Já um marinheiro de Granville dizia _le clan_ (o gorne), e

ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia _le canal

de pouliot._ O que era _bout-d'alonge_ (postura) em Saint-Malo, era em

Saint-Helier _oreille d'âne._ Mess Lethierry, como o duque de Vivonne,

chamava o tozado do convez _la tonture._

Foi com este idioma estravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay

Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a

primeira galera que bombardeou Argel. Hoje é lingua morta. A giria do

mar é outra. Duperré não poderia entender Suffren.

Não menos se transformou a lingua dos signaes; e ha grande distancia

entre as flamulas encarnada, branca, azul e amarella de Labourdonnaye e

os dezoito pavilhões de hoje, que, arvorados dous a dous, tres a tres,

e quatro a quatro, dão para as necessidades da combinação distante,

setenta mil combinações, suprem tudo, e por assim dizer, preveem o

imprevisto.

IV

VULNERABILIDADE POR AMOR

Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração grande.

O defeito delle era a admiravel qualidade da confiança. Tinha uma

maneira especial de contrahir uma obrigação; era solemne: _Dou a minha

palavra de honra a Deos._ Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em

Deos, e nada mais. Ia poucas vezes á igreja, e isso mesmo por cortezia.

No mar, era supersticioso.

Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que elle era

pouco accessivel á contradicção. Não a tolerava, nem num homem, nem

no occeano. Queria ser obedecido; tanto peor para o mar se resistia;

tinha de luctar com elle. Mess Lethierry não cedia nunca. Vaga que se

impinasse, visinho que contendesse, nada lhe detinha a mão. O que dizia

estava dito, o que planeava estava feito. Não se curvava, nem diante

de uma objecção, nem diante de uma tempestade. _Não_, para elle, era

palavra que não existia, nem na bocca de um homem, nem no ribombo de

uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se lhe recusasse nada.

Dahi vinha a sua pertinacia na vida e a sua intrepidez no occeano.

Era elle proprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que porção

de sal, pimenta e hervas era preciso, e gostava tanto de fazel-a como

de comel-a.

Creatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece,

assemelhando-se, com os cabellos soltos, a Jean Bart, e, com chapéo

redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e temivel no mar,

espadua de carregador, sem imprecações, quasi sem colera, voz doce

e meiga que o porta-voz transforma em trovão, camponio que lêo a

Encyclopedia, guernesiano que vio a revolução, ignorante, instruido,

ermo de carolice, dado ás visões, mais fé na Dama Branca que na Santa

Virgem, logica de ventoinha, vontade de Christovão Colombo, um tanto de

touro e um tanto de criança, nariz quasi rombo, faces grossas, boca com

todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo

mar, beijada pelos ventos durante quarenta annos, ar de tempestade na

fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe agora um olhar bom neste

rosto agreste, e terás mess Lethierry.

Mess Lethierry tinha dous amores: Durande e Deruchette.

LIVRO TERCEIRO

Durande e Deruchette.

I

GARRULICE E EFFLUVIOS

O corpo humano é talvez uma simples apparencia, escondendo a nossa

realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra.

A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma mascara. O verdadeiro

homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma sorpreza haveria

se se podesse vel-o agachado e escondido debaixo da illusão que se

chama carne. O erro commum é ver no ente exterior um ente real. Tal

creaturinha, por exemplo, se podessemos vel-a como realmente é, em vez

de moça, mostrar-se-hia passaro.

Passaro com fórma de moça, que ha ahi de mais delicado? Imagina que a

tens em casa. Suppõe que é Deruchette. Deliciosa creatura! Dá vontade

de dizer: Bom dia, mademoiselle arveloa. Não se lhe veem as azas, mas

ouve-se-lhe o gorgeio. Canta ás vezes. Na tagarellice, está abaixo do

homem; no canto, está acima delle. Tem mysterios aquelle canto; uma

virgem é o involucro de um anjo. Feita a mulher, desapparece o anjo;

volta, porém, depois, trazendo uma alma de criança á mãe. Esperando

a vida, aquella que hade ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo

criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se ao vel-a:

que boa que ella é em não bater as azes para ir-se embora!

A meiga e familiar creatura acommoda-se em casa, de ramo em ramo, isto

é, de quarto em quarto, entra, sahe, acerca-se, afasta-se, alisa as

pennas ou pentea os cabellos, faz toda a especie de rumores delicados,

murmura um não sei que de inneffavel aos teus ouvidos. Quando ella

interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorgeia. Tagarella-se com

ella. A tagarellice serve para descançar de fallar. Ha uma porção

celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu pensamento

negro. Alegras-te por vel-a tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva;

agradeces-lhe a bondade de não ser invisivel, ella, que poderia, creio

eu, ser impalpavel. Neste mundo o lindo, é o necessario. Ha mui poucas

funcções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero

na floresta se não houvesse o colibri! Exhalar alegrias, irradiar

venturas, possuir no meio das cousas sombrias unia transudação de

luz, ser o doirado do destino, a harmonia, a gentilesa, a graça, é

favorecer-te. A belleza basta ser bella para fazer bem. Ha creatura

que tem comsigo a magia de fascinar tudo quanto a rodea; ás vezes

nem ella mesma o sabe, e é quando o prestigio é mais poderoso; a

sua presença illumina, o seu contacto aquece; se ella passa, ficas

contente; se pára, és feliz; contemplal-a é viver; é a aurora com

figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é

quanto basta para edenisar o lar domestico; de todos os poros sahe-lhe

um paraiso; é um extase que ella distribue aos outros, sem mais

trabalho que o de respirar ao pé delles. Ter um sorriso que,--ninguem

sabe a razão,--diminue o peso da cadêa enorme arrastada em commum

por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Deruchette

tinha esse sorriso. Mais ainda, era o proprio sorriso. Ha alguma

cousa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa physionomia; e outra

mais parecida que a nossa physionomia, é o nosso sorriso. Deruchette

risonha, era Deruchette.

É particularmente seductor o sangue de Jersey e de Guernesey. As

mulheres, as raparigas sobretudo, teem uma belleza florida e candida.

É a combinação da alvura saxonia com a frescura normanda. Faces

rosadas e olhos azues. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação ingleza

amortece-os. Serão irresistiveis aquelles olhos limpidos no dia em que

tiverem a profundesa do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez

ingleza, felizmente. Deruchette não era parisiense, mas tambem não era

guernesiana. Nascera em Saint-Pierre Port, mas mess Lethierry foi quem

a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

Deruchette tinha o olhar indolente, e aggressivo sem que o soubesse.

Não conhecia talvez o sentido da palavra amor, e fazia com que a gente

se apaixonasse por ella. Mas era sem má intenção. Deruchette nem

pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fôra residir em

Saint-Sampson, dizia: _Esta rapariga seduz a matar._

Os Trabalhadores do Mar · 第 2 / 28 段