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TRABALHADORES DO MAR
POR
VICTOR HUGO
traduzido por Machado de Assis
RIO DE JANEIRO
TYP.--PERSEVERANÇA--RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.
PRIMEIRA PARTE
O Sr. Clubin.
Dedico este livro ao rochedo de hospitalidade e de
liberdade, a este canto da velha terra normanda onde
vive o nobre e pequeno povo do mar, á ilha de
Guernesey, severa e branda, meu actual asylo, meu
provavel tumulo.
_V. H._
A religião, a sociedade, a natureza: taes são as tres lutas do homem.
Estas tres lutas são ao mesmo tempo as suas tres necessidades; precisa
crer, dahi o templo; precisa crear, dahi a cidade; precisa viver, dahi
a charrua e o navio. Mas ha tres guerras nestas tres soluções. Sahe
de todas a mysteriosa difficuldade da vida. O homem tem de lutar com
o obstaculo sob a forma superstição, sob a fórma preconceito e sob a
fórma elemento. Triplice ananke pesa sobre nós, o ananke dos dogmas, o
ananke das leis, o ananke das cousas. Na _Notre Dame de Paris_, o autor
denunciou o primeiro; nos _Miseraveis_, mostrou o segundo; neste livro
indica o terceiro.
A estas tres fatalidades que envolvem o homem junta-se a fatalidade
interior, o ananke supremo, o coração humano.
Hauteville-House, março de 1866.
LIVRO PRIMEIRO
Elementos de uma má reputação
I
PALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCA
O christmas (Natal) de 182* foi notavel em Guernesey. Cahio neve
naquelle dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que ha neve, é memoravel:
a neve é um acontecimento.
Naquella manhã de christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre
Port au Valle assemelhava-se a um lençol branco: nevára desde a meia
noite até o romper do dia.
Pelas nove horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda
occasião dos anglicanos irem á igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos
á capella Eldad, o caminho estava quasi deserto. Na parte da estrada
comprehendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas tres
viandantes, um menino, um homem e uma mulher.
Estes tres viandantes, caminhando separados, uns dos outros, não tinham
visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito
annos parára e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo
atras da mulher, uns cem passos, dirigia-se como ella, para o lado de
Saint-Sampson.
Era elle moço ainda e parecia ser operario ou marinheiro. Vestia as
roupas ordinarias, isto é, uma grossa camisa de panno escuro e uma
calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apezar da
festa, não iria á igreja. Os grossos sapatos de couro crú e solas
taixadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se
assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.
A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir á igreja;
envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta,
debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda
da Irlanda com listas brancas e côr de rosa, e, se não fossem as meias
vermelhas, tomal-a-hiam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço
e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a
vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquella graça fugitiva que
indica a mais delicada transição, a adolescencia, a mistura dos dous
crepusculos, o principio de uma mulher e o fim de uma menina.
O homem não reparava nella.
De subito, perto de uma mouta de azinheiras, que fórma o angulo de uma
horta rustica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e
esse movimento chamou a attenção do homem.
Parou, pareceu reparar nelle um instante, abaixou-se, e o homem julgou
vêl-a escrever com o dedo alguma cousa na neve. Levantou-se e poz-se de
novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez
rindo, e desappareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de
sebes, que leva ao castello de Lierre. O homem, quando ella se voltou
pela segunda vez, reconheceu Deruchette, linda mocinha do lugar. Mas
não sentio necessidade alguma de appressar o passo.
Alguns instantes depois estava junto á mouta de azinheiras no angulo da
horta. Já não pensava na passageira, e é provavel que se nessa occasião
pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com
o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente tinha os olhos
baixos, e assim os levou machinalmente ao lugar em que parára a menina.
Dous pésinhos ahi estavam impressos e ao lado delles a palavra escripta
por ella: _Gilliatt._
Era este o nome delle.
Chamava-se Gilliatt.
Ficou por muito tempo immovel, contemplando o nome, os pésinhos, a
neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.
II
O TUTÚ DA RUA
Gilliatt residia na parochia de Saint-Sampson, onde não era estimado e
havia razões para isso.
Em primeiro lugar, morava em uma _casa mal assombrada._
Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e até na cidade,
que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada,
vê-se uma casa, cuja entrada está obstruida. O azevinho cresce á porta,
as janellas do rez do chão estão fechadas por feios emplastros de
taboas pregadas; as dos andares superiores estão fechadas e abertas
ao mesmo tempo: ha ferrôlhos, mas não ha vidros. No pateo, se o ha,
alastra-se a herva e cahem os muros; se ha jardim, nascem a ortiga, o
espinheiro, a cicuta; raros insectos esvoaçam. Racham-se as chaminés,
o tecto se abate; o que se vê dos quartos está arruinado, a madeira
podre, a pedra carcomida; cahe o papel das paredes. Pode-se estudar
ahi os antigos gostos do papel pintado, os gryphos do imperio, as
sanefas em fórma de crescente do Directorio, os balaustres e cippos de
Luiz XVI. A espessura das téas de aranha, cheias de moscas, indicam a
profunda tranquillidade em que vivem aquelles insectos. Algumas vezes
vê-se um pucaro quebrado sobre uma taboa.
É uma _casa mal assombrada._ O diabo apparece lá durante a noite.
A casa, como o homem, pode tornar-se cadaver; basta que uma superstição
a mate. Então é terrivel.
Essas casas mortas não são raras nas ilhas da Mancha.
As populações campesinas e maritimas não vivem tranquillas a respeito
do diabo. As da Mancha, archipelago inglez e littoral francez, tem a
respeito delle noções muito precisas. O diabo possue delegados por todo
mundo. É certo que Belphegor é embaixador do inferno em França, Hutgin
na Italia, Belial na Turquia, Thamuz na Hespanha, Martinet na Suissa
e Mammon na Inglaterra. Satanaz é um imperador, como outro qualquer.
Satanaz Cesar. A casa delle é muito bem servida: Dagon é o saquetario;
Succor Benoth, chefe dos eunuchos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal,
director do theatro; Verdelet, grão-mestre de ceremonias e Nybbas bobo.
Wiérus, homem de sciencia, bom estrygologo e demonographo distincto,
chama Nybbas--_o grande parodista._
Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andam
no mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se que
S. Maclou habitava o grande rochedo quadrado Ortach, situado ao largo
entre Aurigny e Casquets, e muitos velhos marinheiros de outros tempos
affirmavam tel-o visto não poucas vezes sentado e lendo um livro. Por
isso os maritimos, quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diante
do rochedo Ortach, até que um dia dissipou-se a fabula e esclareceu-se
a verdade. Descobrio-se e sabe-se hoje que quem habita aquelle rochedo
não é um santo, mas sim um diabo, chamado Jochmus, que por muitos
seculos teve a malicia de fazer-se passar por S. Maclou. Demais, a
propria igreja cahe em taes enganos. Os diabos Raguhel, Oribel e Tobiel
foram santos, até que em 745 o papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro,
deitou-os fóra. Para fazer taes expulsões, que são muito uteis, é
necessario ser muito conhecedor de diabos.
Conta a gente velha da terra, mas estes casos pertencem ao seculo
passado, que a população catholica do archipelago normando estivera
outr'ora, bem a seu pezar, mais em communicação com o diabo do que a
população huguenote. Ignoramos a razão, mas a verdade é que a minoria
catholica andou outr'ora muito incommodada por elle.
Affeiçoára-se aos catholicos e procurava frequental-os, o que leva a
crer que o diabo é antes catholico que protestante.
Uma de suas mais insupportaveis liberdades era visitar á noite os
leitos conjugaes catholicos, quando os maridos dormiam de todo, e
as mulheres, a meio. Disto resultavam equivocos. Patouillet pensava
que Voltaire nascera assim. Não é inverosimil. É caso perfeitamente
conhecido e descripto nos formularios de exorcismo sob o titulo de
_erroribus nocturnis et de semine diabolorum._
O diabo fez violencias destas especialmente em Saint-Hélier, em fins do
seculo passado: é provavel que para punição dos crimes da revolução.
As consequencias dos excessos revolucionarios são incalculaveis.
Fosse como fosse, essa apparição possivel do demonio durante a noite,
quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres
orthodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é cousa agradavel. Uma
dellas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de
desfazer-se em tempo o quiproquo. O confessor respondeu: para saber se
está com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabeça e se encontrar
pontas, pode estar certa....--de que? perguntou a mulher.
A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal assombrada e já não era;
portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que, quando um feiticeiro
vem habitar uma casa visitada pelo diabo, este, julgando-a bem
guardada, tem a delicadeza de não voltar, salvo o caso de ser chamado,
como medico.
Chamava-se a casa _0 tutú da rua._ Era situada na ponta de uma lingua
de terra ou antes de rochedo, que formava uma pequena angra de bastante
profundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sósinha nessa
ponta, quasi fora da ilha, tendo apenas a terra sufficiente para um
pequeno jardim ás vezes inundado por occasião das aguas vivas.
Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis ha uma
grande coluna, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e de
hera chamado o castello do Valle ou do Archanjo, de sorte que de
Saint-Sampson não se via o _tutú da rua._
Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a profissão em
certas parochias, apezar de vivermos no seculo dezenove. Praticam
acções verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem hervas á
meia noite. Olham de travez para o gado. Consultam-n'os; elles mandam
buscar em garrafas _a agua dos doentes_, e dizem em voz baixa: _a
agua parece bem triste._ Affirmou um feiticeiro em Março de 1857, que
na _agua_ de um doente havia sete diabos. São temidos e temiveis. Ha
pouco tempo um delles enfeitiçou um padeiro e mais o _forno._ Outro
tem a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas, _sem
haver nada dentro._ Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma
taboa, tres garrafas com um B em cada uma. Estes factos monstruosos são
conhecidos. Alguns feiticeiros são complacentes, e por dous ou tres
guinéos incumbem-se de soffrer as nossas molestias. Rolam e gritam em
cima da cama. Enquanto elles se estorcem diz o doente: «E esta! já
estou bom!» Outros curam todas as molestias amarrando um lenço ao redor
do corpo do doente. É um remedio tão simples que admira não se ter
ainda ninguem lembrado delle.
No seculo passado o tribunal real de Guernesey collocava-os sobre uma
porção de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condemna-os
a oito semanas de prisão, quatro a pão e agua e quatro no segredo,
alternando. _Amant alterna catenœ._
A ultima queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo theatro
do espectaculo a praça de Bordage, que de 1565 a 1700 vio queimarem-se
onze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: eram
para isso ajudados pela tortura.
A praça de Bordage prestou serviços á sociedade e á religião.
Queimaram-se ahi os hereticos. No tempo de Maria Tudor, entre outros
huguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe chamava-se
Perrotine Massy. Uma das filhas estava gravida e teve o successo sobre
o brazeiro.
A chronica diz: _Arrebentou-lhe o ventre._ Sahio desse ventre um menino
vivo; o recem-nascido rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. O
bailio, Helier Grosselin, bom catholico, mandou atirar a criança ao
fogo.
III
PARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARES
Voltemos a Gilliatt.
Contava-se na terra que uma mulher, tendo comsigo um menino, viera
em fins da revolução habitar Guernesey. Era ingleza, ou talvez
franceza. O nome della, qualquer que fosse, a pronuncia guernesiana
e a orthographia dos camponezes transformaram em Gilliatt. Vivia
sosinha com o menino, que, diziam uns, era seu sobrinho, outros, filho,
outros neto e, outros, cousa nenhuma. Possuia um dinheirinho, de que
vivia pobremente. Comprara um pedaço de terra na Sergentée e outro em
Roque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa _tutú da rua_, estava nesse
tempo mal assombrada. Havia mais de trinta annos que ninguem morava
nella. Cahia aos pedaços. O jardim sempre innundado pelo mar, já nada
produzia.
Além dos ruidos nocturnos e das luzes, a casa era particularmente
atterradora por isto: se á noite se deixava sobre a lareira um novello
de lã, agulhas e um prato cheio de sopa, no dia seguinte de manhã
encontrava-se a sopa comida, o prato vasio e um par de luvas feito.
Poz-se á venda aquelle pardieiro com o diabo, que estava dentro, por
algumas libras esterlinas. Aquella mulher comprou-o, evidentemente
tentada pelo diabo. Ou pela barateza.
Fez mais do que compra-lo, foi morar lá com o filho, e desde então a
casa socegou. _Esta casa achou o que queria_, dizia a gente da terra.
Cessaram as apparições. Já se não ouvia gritos ao romper do dia. Já não
havia outra luz além do sebo acendido á noite pela boa mulher. Vela de
feiticeira vale a tocha do diabo.
Esta explicação satisfez o publico.
A mulher utilisava o quarto de geira de terra que possuia. Tinha uma
boa vacca de cujo leite fazia manteiga. Colhia frutas e batatas Golden
Drops. Vendia como qualquer outra pessoa, hervas, cebolas e favas. Não
costumava ir ao mercado vender a sua colheita, mandava-a por Guilbert
Falliot. O registro de Falliot mostra que elle vendeu para ella uma vez
doze alqueires de _batatas_ chamadas _de tres mezes, das mais temporãs._
Fizeram-se na casa apenas os reparos necessarios para se poder habitar
nella. Só chovia nos quartos quando fazia muito máo tempo. Compunha-se
de dous pavimentos, um rez do chão, e um celleiro. No terreo havia tres
salas; dormia-se em duas, comia-se na terceira. Subia-se ao celleiro
por uma escada. A mulher cozinhava e ensinava a lêr ao filho. Nunca
ia á igreja, e isto, depois de muito considerado, sendo para que a
declarassem franceza. Não ir a _parte alguma_, é cousa grave.
Em summa, era gente que nada inculcáva.
É provavel que fosse franceza. Os vulcões arrojam pedras, as revoluções
homens. Espalham-se familias a grandes distancias, deslocam-se os
destinos, separam-se os grupos disperos ás migalhas; cahe gente das
nuvens, uns na Allemanha, outros na Inglaterra, outros na America.
Pasmam os naturaes dos paizes. Donde vem estes desconhecidos? Foi
aquelle vesuvio, que fumega além, que os expellio de si. Dam-se nomes
a esses aerolithos, a esses individuos expulsos e perdidos, a esses
eliminados da sorte; chamam-nos emigrados, refugiados, aventureiros.
Se ficam, toleram-nos: alegram-se quando elles vão embora. Algumas
vezes são entes absolutamente inoffensivos, estranhos, as mulheres ao
menos, aos acontecimentos, que os proscreveram, não tendo rancores
nem colera, projectis contra a vontade, espantadissimos de o serem.
Enraizam-se como podem. Não faziam mal a ninguem e não comprehendem o
que lhes acontece. Vi um dia uma pobre mouta de hervas atirada aos ares
pela explosão de uma mina. A revolução franceza, mais do que nenhuma
explosão, fez desses jactos longinquos.
A mulher, que em Guernesey era conhecida pela Gilliatt, foi talvez
aquella mouta de herva.
Envelheceu a mulher. Cresceu o menino. Viviam ambos sós; todos fugiam
delles mas elles bastavam-se a si proprios. Loba e filhote lambem-se
mutuamente. Foi esta uma das formulas que lhes applicou a benevolencia
da visinhança.
O menino tornou-se adolescente, o adolescente homem, e então, devendo
cahirem sempre as velhas crostas da vida, a mãe veio a fallecer.
Constava a herança das terras da Sergentée e da Roque-Crespel, da casa
mal assombrada, e mais, diz o inventario official, de cem guinéos de
ouro, dentro de um pé de meia. A casa estava mobiliada com duas arcas
de carvalho, duas camas, seis cadeiras, uma mesa e os utensilios
necessarios. Havia em cima de uma taboa uns poucos de livros, e a um
canto uma canastra, que nada tinha de mysteriosa, e que devia ser
aberta na occasião do inventario. A canastra era de couro ruivo, cheio
de arabescos de pregos de cobre e estrellas de estanho, e continha um
enxoval de mulher, novo e completo, de excellente linho de Dunkerque,
camisa e saia, cortes de vestidos de seda e em cima de tudo um papel
escripto pela finada:--_Para tua mulher quando te casares._
A morte da mãe acabrunhou o filho. Era rustico, tornou-se feroz.
Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vacuo. Quando ha
duas creaturas, a vida é possivel. Havendo uma só, parece que nem se
póde arrasta-la. Renuncia-se a ella. É a primeira fórma do desespero.
Mais tarde comprehende-se que o dever é uma serie de acceites.
Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na ultima. Mas é
um consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do
coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e
pouco, misturou-se á natureza em redor delle, tornou-se uma especie
de encanto, attrahio-o para perto das cousas e longe dos homens, e
amalgamou cada vez mais aquella alma e a solidão.
IV
IMPOPULARIDADE
Já o dissemos. Gilliatt não era estimado na parochia. Antipathia
natural. Sobravam motivos. O primeiro acabamos de explica-lo, era a
casa em que morava. Depois, a origem delle. Quem era aquella mulher? E
este menino? A gente não gosta de enigmas a respeito de estrangeiros.
Depois, trajava uma roupa de operario, tendo aliás com que viver,
embora não fosse rico. Depois, o jardim, que elle conseguia cultivar
e donde colhia batatas apezar dos ventos do equinoxio. Depois, os
alfarrabios que elle lia.
Outras razões ainda.
Porque motivo vivia solitario? A casa mal assombrada era uma especie
de lazareto; conservavam Gilliatt em quarentena; deste modo era muito
simples que o seu isolamento causasse espanto, e o responsabilisassem
pela solidão, em que o deixavam.
Nunca ia á igreja. Sahia muitas vezes á noite. Fallava aos feiticeiros.
Uma vez viram-n'o sentado sobre a relva com ar espantado. Frequentava
o dolmen do Ancresse e as pedras fatidicas que existem espalhadas
pelo campo. Havia quasi certeza de terem-n'o visto comprimentar
polidamente a _Rocha que canta._ Comprava todos os passaros, que lhe
levavam, e soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas de
Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para não passar por lá.
Pescava muitas vezes e sempre: apanhava peixe. Trabalhava no jardim aos
domingos. Tinha um _bug-pipe_ (especie de samphona) que comprara a uns
soldados escossezes, ao passarem por Guernesey, e tocava nella sobre
os rochedos, á beira do mar, ao cahir da noite. Gesticulava como um
semeador. Que virá a ser uma terra com um homem destes?
Quanto aos livros, que haviam pertencido á mulher finada, esses
eram assustadores. Quando o reverendo Jaquemin Herodes, cura de
Saint-Sampson, entrou na casa para encommendar a mulher, leu no lombo
desses livros os titulos seguintes: _Diccionario de Rosier, Candido_,
por Voltaire; _Aviso ao povo acerca da sua saude_, por Tissot. Dissera
um fidalgo francez, emigrado, retirado em Saint-Sampson que _aquelle
Tissot devia ser o que carregou a cabeça da princeza à Lamballe._
O reverendo notou n'um dos livros este titulo verdadeiramente
extravagante e ameaçador: _De Ruibarbaro._
Cumpre observar que, sendo a obra escripta em latim, como indica o
titulo, era duvidoso que Gilliatt, que não sabia latim, lesse aquella
obra.
Mas são exactamente os livros que a gente não lê, os que mais
condemnam. A inquisição de Hespanha julgou esse caso, e pô-lo fora de
duvida.
Demais, o livro era o tratado do doutor Tilingius _sobre o ruibarbo_,
publicado na Allemanha em 1679.
Não havia certeza de que Gilliatt não fizesse bruxarias, philtros e
sortilegios. Tinha frascos em casa.
Porque motivo ia elle passear, e ás vezes até á meia-noite, nos
penhacos da costa? era evidentemente para conversar com a gente maligna
que anda á noite nas praias, no meio das exhalações.
Ajudou elle uma vez a feiticeira de Torteval a desatolar a carroça. Era
uma velha, por nome Moutonne Gahy.
Tendo-se feito um recenceamento na ilha, perguntou-se-lhe a profissão,
e elle respondeu: _pescador quando ha peixe._ Vejam lá se a gente da
ilha podia gostar de taes respostas.
Pobreza e riqueza são relativas. Gilliatt tinha terras e uma casa, e
comparado aos que não possuem cousa nenhuma, não era pobre. Um dia,
para experimenta-lo, e talvez para inculcar-se, por que ha mulheres
que estariam promptas a desposar o diabo rico, disse uma rapariga a
Gilliatt: _Quando se casa?_ A resposta delle foi: _Casar-me-hei quando
se casar a Rocha que canta._
A Rocha que canta era uma grande pedra collocada a pique n'uma
horta rustica perto do Senhor Lemezurier de Fry. Esta pedra inspira
desconfiança. Não se sabe o que ella faz ali. Ouve-se cantar um gallo
invisivel, cousa extremamente desagradavel. Verificou-se que a pedra
foi posta ali por uns fantasmas.
De noite, quando troveja, se apparecem homens a voar entre as nuvens
avermelhadas, são os taes fantasmas. Ha uma mulher que mora no Grande
Mielles e que os conhece. Uma noite, em que havia fantasmas n'uma
encruzilhada, essa mulher vendo um carroceiro que não sabia por onde
seguir, gritou-lhe: _Pergunte-lhes o caminho; é gente benefica, e bem
educada, com quem se póde conversar._ Aquella mulher é com certeza
feiticeira.
O judicioso e sabio rei Jaques I mandava ferver ainda vivas as mulheres
dessa especie, provava o caldo, e pelo gosto, dizia: É _feiticeira_;
ou: _não é feiticeira._
É para lamentar que os reis hoje não tenham daquelles talentos, que
faziam comprehender a utilidade da instituição.
Gilliatt, não sem motivos serios, tinha fama de feiticeiro. Num
temporal, á meia-noite, estando Gilliatt sozinho no mar, dentro de uma
lancha do lado da Soumeilleuse, ouviram-n'o perguntar:
--Ha lugar para passar?
Respondeu-lhe uma voz de cima dos penhascos:
--Pois não! animo!
A quem fallaria elle senão a alguem que lhe respondia? Parece-nos que
isto é uma prova.
Outra noite de temporal, tão negro que nada se via, pertinho da
Catiau-Roque, que é uma dupla fileira de rochedos onde os feiticeiros
e as cabras vão dansar á sexta-feira, houve quem reconhecesse a voz de
Gilliatt no meio deste terrivel dialogo:
--Como está Vésin Brovard? (Era um pedreiro que tinha cahido de um
telhado).
--Vai sarando.
--Devéras! pois cahio de um lugar tão alto como aquelle estaca. Admira
não ficar despedaçado.
--Bom tempo foi a semana passada para a colheita das praias.
--Melhor do que hoje.
--De certo! não haverá muito peixe no mercado.
--O vento é rijo.
--Não se podem deitar as redes.
--Como vai a Catharina?
--Está embruxada.
A Catharina era evidentemente alguma feiticeira.
Gilliatt, ao que parecia, trabalhava de noite. Ao menos, ninguem
duvidava disso.
Viam-n'o algumas vezes, espalhar pelo chão a agua de um pucaro. Ora a
agua espalhada pelo chão traça a forma dos diabos.
Existem na estrada de Saint-Sampson, tres pedras dispostas em forma de
escada. Na plataforma houve em outro tempo uma cruz, e se não foi cruz,
era forca. Aquellas pedras são malignas.
Muita gente experta, e digna de credito, affirmava ter visto, perto
dessas pedras, Gilliatt conversando com um sapo. Ora, não ha sapos em
Guernesey; Guernesey tem todas as cobras, e Jersey todos os sapos.
Aquelle sapo veio naturalmente de Jersey, a nado, para fallar a
Gilliatt. A conversa era amigavel.
Todos estes factos estavam averiguados; e a prova disso é que as
tres pedras lá estão. Quem duvidar póde ir vel-as, e mesmo á alguma
distancia, ha uma casa em cuja esquina lê-se isto: _mercador de gado
morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e fumo de mascar; é prompto
na paga e na attenção._
Só de má fé se póde contestar a existencia daquellas pedras e daquella
casa. Tudo isso fazia mal a Gilliatt.
Só os ignorantes não sabem que o maior perigo dos mares da Mancha é o
que se chama _rei dos Auxcriniers._ Não ha personagem maritimo mais
temivel. Quem o vê naufraga logo entre uma e outra Saint Michel. É
pequeno e surdo, por ser anão e rei. Sabe o nome de quantos morreram
no mar, e em que lugar estão. Conhece a fundo o cemiterio Oceano.
Cabeça larga em baixo, e estreita em cima, corpo cheio, barriga viscosa
e disforme, nodosidades no craneo, pernas curtas, braços compridos,
barbatanas em vez de pés, garras em vez de mãos, cara larga e verde,
tal é aquelle rei. As garras são achatadas, as barbatanas tem unhas.
Imaginem um peixe, com cara de homem, e fórma de espectro. Para
vencel-o, é preciso exorcismal-o ou pescal-o. Fóra disso, é sinistro.
Vel-o é perigoso. Descobre-se acima das ondas e do marulho, atravez
da espessura do nevoeiro, umas feições de gente; testa curta, nariz
esborrachado, orelhas chatas, boca immensa e sem dentes, beiços
esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e grandes. O rei
torna-se vermelho quando o relampago é livido, descorado quando o
relampago é vermelho. Tem barba gotejante e rigida, cortada em quadro,
que lhe cahe sobre uma membrana em fórma de mantéo de peregrino; o
mantéo é adornado de quatorze conchas, sete na frente, sete nas costas.
As conchas são extraordinarias para os que conhecem conchas. O rei só
é visivel no mar violento. É o dansarino lugubre da tempestade. Vê-se
a fórma delle esboçada no nevoeiro e na chuva. O umbigo é hediondo.
Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris á semelhança de collete. O
rei levanta-se de pé, sobre as vagas que irrompem á pressão dos ventos
e vão rolar-se como os cavacos que sahem do rabote do marcineiro.
Conserva-se todo fora da espuma, e quando avista ao longe navios em
perigo, entra a bailar, descorado na sombra, com a face illuminada por
um vago sorriso, feio e demente no aspecto. Máo encontro esse.
Na epocha em que Gilliatt era uma das preoccupações de Saint-Sampson,
as ultimas pessoas que tinham visto o rei da Mancha, declaravam que já
não havia no mantéo mais de treze conchas. Treze; era mais perigoso
ainda. Mas onde foi parar a outra concha? Deu-a a alguem? A quem seria?
Ninguem podia dizel-o, todos se limitavam ás conjecturas. O que é certo
é que o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem de posição,
proprietario taxado em quatorze bairros, estava prompto a jurar que
vira uma vez, nas mãos de Gilliatt, uma concha muito exquisita.
Não raras vezes se ouviam os camponios conversarem entre si:
--Visinho, não é verdade que este boi é magnifico?
--Inchado, visinho.
--Homem, é verdade.
--Tem mais sebo do que carne.
--Devéras!
--Estaes certo de que Gilliatt não lhe pôz os olhos em cima?
Gilliatt parava nos campos, ao pé dos lavradores, e nos jardins ao pé
dos jardineiros, e dizia-lhes palavras mysteriosas:
--Quando florecer a scabiosa, semea o centeio.
--O freixo enfolha, acaba-se a neve.
--Solsticio de verão, cardo em flôr.
--Se não chover em Junho, o trigo ha de espigar. Tomem cuidado com as
plantas nocivas.
--A cerejeira está dando fructos, desconfia da lua cheia.
--Se o tempo, no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto dia ou
como no quinto, ha de ser o mesmo em toda a lua, nove vezes em doze no
primeiro caso, e onze vezes em doze no segundo.
--Vigia o teu visinho com quem andas em processo. Cautella com as
espertezas. Porco que bebe leite quente, estoira. Vacca que leva alho
nos dentes, não come.
--O peixe está gerando, guarda-te das febres.
--As rãs apparecem, semea os melões.
--A anemona enflora, semea a cevada.
--A tilia enflora, ceifa os campos.
--O choupo enflora, fecha as estufas.
E, cousa terrivel, quem seguisse os seus conselhos acha-los-hia muito
bons.
Uma noite de Junho, em que elle tocava _o bug pipe_, sobre os
cabedellos da praia, do lado da Damie de Fontenelle, não se pode pescar
uma só cavalla.
Outra noite, vasando a maré, aconteceu tombar na praia, em frente da
casa mal assombrada, uma carreta cheia de sargaço. Gilliatt receiou
naturalmente ser chamado á justiça, pois atirou-se a levantar a
carreta, pondo-lhe outra vez toda a carga que se espalhara no chão.
Uma menina da visinhança tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a
Saint-Pierre Port, trouxe de lá um unguento e esfregou a cabeça da
pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova que foi elle quem lh'os
deitou.
Sabe toda a gente que ha feitiço para fazer criar piolhos na cabeça dos
outros.
Dizia-se que Gilliatt olhava para os poços, o que é perigoso quando
é máo olhado; e o caso é que um dia, nos Arculons, a agua de um poço
tornou-se doentia. A dona do poço disse a Gilliatt: _veja esta agua._ E
apresentou-lhe um copo cheio. Gilliatt confessou. _A agua está grossa_,
disse elle; _é exacto._ A boa mulher que desconfiava disse-lhe. _Pois
cure-a._ Gilliatt perguntou-lhe se ella tinha algum curral, se o curral
tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do poço. A boa mulher
disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o rego do esgoto, e
a agua do poço ficou boa. Ora, pensava a gente da terra, nenhum poço
fica insalubre, nem é curado depois, sem motivo; a doença do poço não é
natural; é difficil não acreditar que Gilliatt tenha enguiçado a agua.
De uma vez, tendo ido a Jersey, foi alojar-se em S. Clemente, em uma
rua cujo nome quer dizer _almas do outro mundo._
Nas aldeâs, colhem-se os indicios, comparam-se: o total faz a reputação
de um homem.
Aconteceu um dia que Gilliatt foi sorprehendido a deitar sangue pelo
nariz. Cousa grave. Um patrão de lancha, grande viajante, que fez
quasi a volta do mundo, afirmou que havia uma terra, onde todos os
feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um homem deita sangue pelo
nariz, já toda a gente sabe como se haver com elle. Todavia algumas
pessoas de juizo observaram que aquillo que caracterisa os feiticeiros
em uma terra, pode não caracterisa-los em outra.
Nos arredores de Saint-Michel, vio-se Gilliatt parado em uma horta dos
Huriaux, ao pé da estrada real de Videclins. Gilliatt assobiou, e pouco
depois veio um corvo, e depois uma pega. O facto foi attestado por um
homem notavel que pertenceu depois a uma commissão encarregada de fazer
um novo livro de medidas.
No Hamel, ha mulheres velhas que diziam estar certas de ter ouvido, ao
romper da manhã, umas andorinhas chamando por Gilliatt.
A isto deve accrescentar-se que Gilliatt não era bom.
Um dia um pobre homem battia um asno, que tinha empacado. Deu-lhe
algumas tamancadas na barriga, o animal cahio. Gilliatt correu para
levanta-lo; estava morto. Gilliatt esbofeteou o pobre homem.
N'outra occasião, vendo um rapaz descer de uma arvore com um ninho de
passarinhos ainda implumes, Gilliatt tirou o ninho ao rapaz, e levou a
crueldade ao ponto de restitui-lo ao seu lugar na arvore.
Uns viandantes censuraram-no por isso; Gilliatt não fez mais do que
apontar para o pai e a mãe dos passarinhos que guinchavam por cima da
arvore e voltavam para o ninho. Tinha queda pelos passaros. É um signal
este que faz conhecer geralmente os bruxos.
Os rapazes gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelandos no penedio
das costas. Trazem comsigo grande porção de ovos azues, amarellos, e
verdes, para armar com elles a frente das lareiras. Como os penedos
estão a pique, acontece-lhes ás vezes escorregarem, cahirem e morrerem.
Nada mais lindo que uma varanda adornada com ovos de passaros do mar.
Gilliatt já não sabia que inventar para fazer mal aos rapazes. Trepava,
com risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava ahi molhos
de feno, com chapéos velhos em cima, e tudo quanto pudesse servir de
espantalho, para arredar os passaros, e por consequencia as crianças.
Por tudo isto Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por todos. Não
precisava tanto para se-lo.
V
OUTROS PONTOS AMBIGUOS DE GILLIATT
Não estava fixa a opinião acerca de Gilliatt.
Geralmente era tido por _marcou._ Outros acreditavam mesmo que fosse
filho do diabo.
Quando uma mulher, tem do mesmo homem, sete filhos machos consecutivos,
o setimo é _marcou._ Mas para isso, é necessario, que nenhuma filha
venha interromper a serie dos rapazes.
O _marcou_,--tem uma flôr de liz impressa em uma parte do corpo, donde
resulta que aproveita tanto aos escrophulosos como aos reis de França.
Em França ha _marcous_ em toda a parte, especialmente na provincia
de Orleans. Cada aldêa do Gatinais tem o seu _marcou._ Para curar os
doentes basta que o _marcou_ sopre nas chagas ou lhes faça tocar a
flôr de liz. O remedio é efficaz, principalmente quando applicado na
noite de sexta-feira maior. Ha uma dezena de annos, o _marcou_ d'Ormes,
no Gatinais, appellidado o _Formoso Marcou_, e consultado por toda a
Beauce, era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavallo e carruagem.
Para pôr cobro aos seus milagres foi preciso intervir a policia. Tinha
elle a flôr de liz embaixo do peito esquerdo. Outros _marcous_ têm-n'a
em lugar diverso.
Ha _marcous_ em Jersey, em Aurigny, e em Guernesey. Parece que isto
procede dos direitos que tem a França sobre o ducado da Normandia. A
não ser assim, porque haveria ali a flôr de liz?
Como ha tambem nas ilhas da Mancha muitos escrophulosos, os _marcous_
são necessarios.
Em um dia estando Gilliatt a banhar-se no mar, diante de algumas
pessoas, julgaram estas ter-lhe visto no corpo a flôr de liz.
Interrogado a esse respeito, por unica resposta pôz-se a rir. Gilliatt
ria ás vezes como os outros homens. Mas desde esse dia nunca mais o
viram tomar banho. Começou então a banhar-se em lugares solitarios e
perigosos. Provavelmente á noite, e em noites de luar; o que, hão de
convir, é cousa um tanto suspeita.
Os que se obstinavam em crê-lo filho do diabo (_cambiou_), enganavam-se
evidentemente. Deviam saber que só os ha na Allemanha. Mas o Valle e
Saint-Sampson eram ha cincoenta annos paizes ignorantes.
Acreditar em Guernesey que alguem é filho do diabo, por força que ha
nisso exageração.
Por isso mesmo que Gilliatt inquietava o populacho era muito
consultado. Os camponios aterrorisados iam conversar com elle acerca
dos seus achaques. Aquelle terror equivalia a meia confiança, e no
campo, quanto mais suspeito é o medico mais efficaz é o remedio que
elle dá. Gilliatt tinha medicamentos propriamente seus, herdados da
finada velha. Dava-os a quem lh'os pedia, e não recebia dinheiro.
Curava os panaricios com applicações de hervas; o liquido de um
dos seus frascos cortava a febre; o chimico de Saint-Sampson, que
chamariamos pharmaceutico em França, pensava que era uma decocção de
quina. Os menos benevolos convinham em que Gilliatt era excellente
diabo para os doentes, quando se tratava de seus remedios ordinarios;
mas, como _marcou_ não queriam ouvir nada; se algum escrophuloso
pedia-lhe para tocar a flôr de liz, a resposta de Gilliatt era
fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer milagres, cousa ridicula em
um feiticeiro. Não sejas feiticeiro, mas se o és, faze o teu officio.
Havia uma ou duas excepções nesta antipathia universal. O Sr. Landoys,
do Clos-Landés, era escrivão da parochia de Sain-Pierre Port,
encarregado das escripturas, e guarda dos registros dos nascimentos,
casamentos e obitos. Jactava-se o escrivão de descender do thesoureiro
da Bretanha, Pedro Landoys, enforcado em 1485.
Estando uma vez a banhar-se, o Sr. Landoys affastou-se da praia, e
quasi se affogou; Gilliatt atirou-se á agua, affogou-se quasi, mas
salvou Landoys. Desde esse dia Landoys não fallou mal de Gilliatt. Aos
que se admiravam disso, respondia elle: _Como hei de aborrecer um homem
que não me fez mal, e até me prestou um serviço?_ O escrivão chegou
mesmo a ser amigo de Gilliatt. Não era homem de preconceitos. Não
acreditava em feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro
mundo.
Tinha uma canôa, pescava nas horas de descanço para divertir-se, e
nunca vio cousa alguma extraordinaria, a não ser, em certa noite de
luar, um vulto branco de mulher, que pulava na agua, e ainda assim não
estava muito certo. Moutonne Gahy, feiticeira de Torteval, dera-lhe um
saquinho para atar debaixo da gravata, afim de afugentar os espiritos;
Landoys zombava do sacco, e não sabia o que havia dentro; mas sempre
andava com elle, e sentia-se assim mais seguro.
Algumas pessoas audazes, acompanhando o Sr. Landoys, arriscaram-se
a reconhecer em Gilliatt certas circumstancias attenuantes, algumas
apparencias de qualidades, a sobriedade, a abstinencia do _gin_ e do
tabaco, e chegavam ás vezes a fazer delle este bello elogio. _Não bebe,
não fuma, nem masca._
Mas a sobriedade é uma qualidade, quando o individuo possue outras.
Gilliatt inspirava a aversão publica.
Fosse o que fosse, como _marcou_, Gilliatt podia prestar serviços.
Em uma sexta-feira maior, á meia noite, dia e hora usados para
esses curativos, todos os escrophulosos da ilha, por inspiração, ou
combinação, foram em massa á casa mal assombrada, e com as mãos postas,
pediram a Gilliatt que os curasse. Gilliatt recusou. Reconheceu-se
nisto a sua perversidade.
VI
A _PANÇA_
Tal era Gilliatt.
As raparigas achavam-n'o feio.
Gilliatt não era feio. Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante
ao do barbaro antigo. Quieto, parecia um Dacio da columna trajana.
As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admiravel forma
acustica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem
audacioso e perseverante. Cahiam-lhe os dous cantos da boca; a testa
era de uma curva nobre e serena; o olhar sahia-lhe firme de dentro da
palpebra franca, posto que elle tivesse aquelle piscar d'olhos que os
pescadores adquirem com a reverberação das vagas. O riso era pueril e
delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus dentes. Entretanto,
Gilliatt, tisnado pelo sol, era quasi negro. Não se affronta
impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta annos,
mostrava quarenta e cinco. Tinha a sombria mascara do vento e do mar.
Puzeram-lhe a alcunha de Finorio.
Diz uma fabula da India: Um dia Brahma perguntou á Força: quem é mais
forte que tu? A Força respondeu: É a Astucia. Diz um proverbio chinez:
Quanto não poderia o leão, se fosse macaco?
Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as cousas que elle fazia
apoiavam o proverbio chinez e a fabula indiana. De estatura commum e
força ordinaria, Gilliatt, tão inventiva e poderosa era a sua destreza,
conseguia levantar fardos de gigante e realizar prodigios de athleta.
Era um pouco gymnasta; servia-se tanto da mão direita como da esquerda.
Não caçava, pescava. Poupava os passaros, não os peixes. Ai dos que são
mudos!
Era nadador excellente.
A solidão faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dous
aspectos. Ás vezes mostrava o _ar espantado_, de que fallámos, e
dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma certa profundidade no
olhar. A antiga Chaldea teve homens assim: a certas horas, a opacidade
do pastor tornava-se transparente e deixava vêr o mago.
Em summa, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. É
provavel que estivesse no limite que separa o sonhador do pensador.
O pensador impõe, o sonhador obedece. A solidão domina os animos
simplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A sombra em que
entrava o espirito de Gilliatt compunha-se, em partes quasi iguaes,
de dous elementos, obscuros ambos, mas differentes; dentro delle, a
ignorancia,--enfermidade; fóra delle, o mysterio,--immensidade.
Á força de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar
no archipelago, qualquer que fosse o tempo, de manobrar a primeira
embarcação que apparecesse, de arriscar-se dia e noite nos canaes
mais difficeis, tornou-se, sem tirar lucro disso, e só por fantasia e
satisfação, um admiravel homem do mar.
Nasceu piloto. O verdadeiro piloto é o marinheiro que navega mais no
fundo que na superficie. A vaga é um problema exterior, continuamente
complicado pela configuração sub-marina dos lugares em que sulca
o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos baixios e atravez dos
arrecifes do archipelago normando, que elle tinha debaixo da aboboda do
craneo um mappa do fundo do mar. Sabia tudo e affrontava tudo.
Conhecia as balisas melhor do que os corvos marinhos que lá se
vão empoleirar. As differenças imperceptiveis que distinguem as
quatro balisas do Creux, do Alligande, de Tremies e da Sardrette
eram perfeitamente claras para elle, ainda no meio do nevoeiro. Não
hesitava sobre a estaca de cabeça oval, de Anfré, nem o chuço tridente,
de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de
Longue-Pierre, e não havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com
a espada fincada no chão, de Platte, nem a balisa-martello, de Barbées
com a balisa cauda de andorinha, de Moulinet.
Mostrou singularmente a sua rara sciencia de maritimo num dia em que
houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam regatas.
A questão era esta: ir só em uma embarcação de quatro velas; leval-a de
Saint-Sampson á ilha de Herm, distante uma legua, e trazel-a de novo
de Herm a Saint-Sampson. Manobrar sosinho um barco de quatro velas,
não ha pescador que o não faça, e a differença não é grande; mas eis
o que aggravava o caso; primeiramente, a embarcação era uma dessas
chalupas de outro tempo, com grande bojo, á moda de Rotterdam, que
os marinheiros do seculo passado appellidavam _panças hollandezas._
Acha-se ainda algumas vezes no mar essa velha construcção da Hollanda,
bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas azas que se vão
abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha. A segunda
difficuldade, era a volta de Herm, volta complicada por um pesado
lastro de pedras.
O premio da justa era a chalupa. De antemão estava dada ao vencedor. A
_pança_ servira de barco-piloto; o piloto que navegara nella durante
vinte annos era o mais robusto marinheiro da Mancha; quando morreu não
houve ninguem que quizesse governar o barco e decidiram fazer delle
um premio de regata. A _pança_, embora não tivesse coberta, tinha
qualidades boas e podia tentar um manobrista. Era mastreada na frente,
o que augmentava a força de tracção do velame. Outra vantagem, o
mastro não impedia a carga. Era uma concha solida; pesada, mas vasta,
e supportando bem o mar. Houve empenho em disputal-a; a luta era rude,
mas o premio era magnifico. Apresentaram-se sete ou oito pescadores,
os mais vigorosos da ilha. Tentaram um por um; nenhum delles pôde ir
a Herm. O ultimo que luctou era conhecido por ter passado a remos,
com tempo máo, o terrivel redomoinho, que ha entre Serk e Brecq-Hou.
Escorrendo em suor, trouxe elle a _pança_ e disse: É impossivel. Foi
então que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e
depois a grande escota, e fez-se ao largo. Depois, sem atar a escota, o
que seria imprudencia, e sem largal-a, o que lhe dava o dominio da vela
grande, deixando a escota rolar á feição do vento sem descahir, segurou
com a mão esquerda a cana do leme. Dentro de tres quartos de hora
estava em Herm. Tres horas depois, posto que soprasse então um forte
vento do sul, atravessando a barra, a _pança_, governada por Gilliatt,
entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt
trouxe, por luxo e bravata, além do carregamento, um pequeno canhão de
bronze de Herm, com que a gente da ilha salvava todos os annos, a 5 de
Novembro, em regosijo pela morte de Guy Fawkes.
Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu ha duzentos e sessenta annos;
foi uma grande satisfação.
Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o canhão na
barca, e o vento sul na vela, voltou a Saint-Sampson.
Vendo isto, mess Lethierry exclamou: ora aqui está um marinheiro
atrevido!
E estendeu a mão a Gilliatt.
Tornaremos a fallar de mess Lethierry.
A _pança_ foi entregue a Gilliatt.
Esta aventura não lhe destruio a alcunha de Finorio.
Algumas pessoas declararam que a cousa não era para admirar, visto
que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira sylvestre. Mas
ninguem pôde provar isso.
Desde esse dia, Gilliatt não teve outra embarcação. Naquella
pesada chalupa é que elle ia á pesca. Amarrava-a no excellente
ancoradourosinho que tinha só para seu uso, debaixo do muro da casa mal
assombrada. Ao cahir da noite, atirava a rede ás costas, atravessava
o jardim, galgava o parapeito de pedras seccas, rolava de rochedo em
rochedo, e saltava na barca. Dahi fazia-se ao mar.
Pescava muito peixe, mas affirmava-se que o galho de nespereira
estava sempre atado á chalupa. Ninguem o vio nunca, mas toda a gente
acreditava.
Não vendia, dava o peixe que lhe sobrava.
Os pobres acceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa
do ramo embruchado. Não se deve trapacear com o mar.
Era pescador, mas não era só isso. Tinha aprendido por instincto ou
por distrahir-se, tres ou quatro officios. Era marceneiro, ferreiro,
fabricante de carros, calafate e até um pouco mecanico. Ninguem
concertava uma roda como elle. Fabricava de um modo especial, todos os
seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja
e uma bigorna, e, não tendo a chalupa mais que uma ancora, fez-lhe
outra, elle só. Excellente ancora era essa; a argola tinha a força
requerida, e Gilliatt, sem que ninguem lh'o ensinasse, achou a dimensão
exacta que devia ter o cepo da ancora para que ella não voltasse.
Substituio com toda a paciencia, os pregos das bordas por cavilhas,
tornando assim impossivel a ferrugem.
Deste modo augmentou muito as boas qualidades da _pança._
Aproveitava-se della para ir de quando em quando passar um ou dous
mezes em alguma ilhota solitaria como Chousey ou Casquets. Dizia-se
então: Olhem, Gilliatt está fóra. Ninguem se incommodava por isso.
VII
CASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONARIO
Gilliatt era o homem do sonho. Vinham dahi as suas audacias e as suas
hesitações. Tinha idéas propriamente suas.
Havia talvez nelle a ligação do allucinado e do illuminado. A
allucinação entra na cabeça de um camponio como Martin, do mesmo modo
que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz sorprezas
ao espirito do homem. Rasga-se bruscamente a sombra, deixa ver o
invisivel; depois fecha-se. Taes visões são ás vezes transfiguradoras;
de um conductor de camellos faz Mahomet, de uma cabreira faz Joanna
d'Arc. A solidão desprende uma certa quantidade de desvario sublime.
É o fumo da sarça ardente. Resulta dahi um mysterioso extremecer de
idéas: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o propheta;
resulta Horeb, Cédron, Ombos, a embriaguez do louro mastigado da
Castalia, as revelações do mez Busion; resulta Peleia em Dodona,
Phemonoë em Delphos, Trophonius em Lebadéa, Ezequid no Kebar, Jeronymo
na Thebaida. Na maior parte dos casos o estado visionario abate o
homem, e o embrutece. O embrutecimento sagrado existe. O fakir carrega
a sua visão, como o habitante alpino a sua papeira. Luthero fallando
aos diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o
biombo do seu gabinete, o abi negro dialogando com o deos branco,
chamado Bossum, é o mesmo phenomeno, diversamente produzido, segundo a
força e a dimensão de cada cérebro. Luthero o Pascal são e ficam sendo
grandes; o abi negro é imbecil.
Gilliatt não era tanto, nem tão pouco. Era um pensativo. Nada mais.
Contemplava a natureza de um modo singular.