LIX

Lisia recobrou os sentidos, como se um golpe subito a ferisse; levou a

mão ao peito, e ergueu-se respirando com anciedade, olhando em volta de

si para descobrir que pezo enorme era o que a comprimia e abafava

mortalmente! Sempre a terrivel realidade, a perda irreparavel, a

desolação sem esperança. Lembrava-se do funeral de Viriatho, da fogueira

da gigantesca pyra, e da ventura inexprimivel de acompanhar o Esposo

confundindo-se com elle na mesma chamma, identificando o seu espirito no

mesmo ár ambiente, eternisando-se na energia restituida ao universo!

E pensando n'esta voluptuosidade da morte, acarinhou-a a ideia do

suicidio, notando quanto mais felizes fôram aquelles Companheiros de

Viriatho que tinham jurado a confraternidade para a vida e para a morte;

esses em um duello desvairado bateram-se sobre a sua sepultura até

cahirem exangues e ficarem alli enterrados conjunctamente, em um

sacrificio de amor, sob o mesmo solo! E ella, como esposa de Viriatho,

embora sempre noiva, poderia continuar a viver? Lisia considerava a vida

como uma degradação, um vegetar da animalidade sem motivo. Queria

arrojar de si esta carga, tornada incomportavel pelo tedio da propria

existencia.

Começára a estação hibernal; noites caliginosas e longas tornavam-lhe as

insomnias hallucinantes. Grandes tempestades passando por sobre a Torre

redonda da Ilha de Achale consolavam-a nos seus rugidos de colera e

desespero. Ondas alterosas e alvissimas arrojavam-se d'encontro ás

rochas sobre que estava assente o vetusto monumento.

Lisia começou a passar pela lembrança todos os lances do seu primeiro e

santo amor: como Viriatho lhe tomou as mãos no alto da Torre redonda,

como lhe poz o cinto de ouro, como lhe entregou no dia do consorcio a

Viria do commando; como a beijou suavemente, e o abalo subito em que as

festas do casamento fôram interrompidas pelas palavras:--Cepio rasgou o

tratado de Paz com a Lusitania!--e a brusca despedida de Viriatho para

nunca mais!...

Ao chegar a este ponto, a imaginação de Lisia obscurecia-se, cahia em

deliquio, em um goso de dôr destructiva. Arrancando-se a essa deliciosa

angustia, reflectiu:

--O noivado ficou interrompido. E porque não hade ser finalisado? A

noiva deve acompanhar o esposo; é pela morte que eu tenho de chegar á

vida infinda com Viriatho; tanta delonga estupida, que parece

irresolução covarde...

E logo que foi noite cerrada, desceu ao thezouro da Ilha sagrada, e

mesmo na escuridão, e com o tino de quem sonha acordado, tomou a faixa

de ouro com que Viriatho a cingira, apanhou tambem a Viria que o esposo

lhe lançára ao pescôço, e subindo apressadamente a escadaria, foi

galgando sempre até chegar ao ultimo andar da Torre redonda. A escuridão

era espessissima, cortada a intervallos pela luz fulva e instantanea dos

coriscos. Lisia sentia um goso inexprimivel n'esta harmonia entre a

tempestade exterior e a agitação convulsiva da sua existencia moral.

Cingiu com recolhimento e lentidão o Cinto de ouro; envolveu o pescôço

eburneo e esculptural com a Viria, aquella mesma com que Viriatho,

fazendo-a sua esposa, se entregára á vontade d'ella, e--_para sempre_.

E olhando para aquellas joias, que tanto lhe diziam, no momento em que

um relampago se reflectiu n'ellas, ainda murmurou:

--Assim eu estava, quando elle partiu para sempre; assim mesmo vou ao

seu encontro.

Caminhou resolutamente para o parapeito da Torre redonda, no baixo da

qual marulhavam as ondas arrebentadas nas restingas, deixando na

escuridão tetrica a claridade de uma extensa phosphorecencia; e sobre

esse sudario nitido da ardentia, precipitou-se com toda a sua insondavel

amargura a formosa semnothêa, sepultada nas aguas revôltas, que na

piedade immanente na natureza fizeram que o seu corpo não fôsse

profanado e nunca mais fôsse visto.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 79 / 81 题