Lisia recobrou os sentidos, como se um golpe subito a ferisse; levou a
mão ao peito, e ergueu-se respirando com anciedade, olhando em volta de
si para descobrir que pezo enorme era o que a comprimia e abafava
mortalmente! Sempre a terrivel realidade, a perda irreparavel, a
desolação sem esperança. Lembrava-se do funeral de Viriatho, da fogueira
da gigantesca pyra, e da ventura inexprimivel de acompanhar o Esposo
confundindo-se com elle na mesma chamma, identificando o seu espirito no
mesmo ár ambiente, eternisando-se na energia restituida ao universo!
E pensando n'esta voluptuosidade da morte, acarinhou-a a ideia do
suicidio, notando quanto mais felizes fôram aquelles Companheiros de
Viriatho que tinham jurado a confraternidade para a vida e para a morte;
esses em um duello desvairado bateram-se sobre a sua sepultura até
cahirem exangues e ficarem alli enterrados conjunctamente, em um
sacrificio de amor, sob o mesmo solo! E ella, como esposa de Viriatho,
embora sempre noiva, poderia continuar a viver? Lisia considerava a vida
como uma degradação, um vegetar da animalidade sem motivo. Queria
arrojar de si esta carga, tornada incomportavel pelo tedio da propria
existencia.
Começára a estação hibernal; noites caliginosas e longas tornavam-lhe as
insomnias hallucinantes. Grandes tempestades passando por sobre a Torre
redonda da Ilha de Achale consolavam-a nos seus rugidos de colera e
desespero. Ondas alterosas e alvissimas arrojavam-se d'encontro ás
rochas sobre que estava assente o vetusto monumento.
Lisia começou a passar pela lembrança todos os lances do seu primeiro e
santo amor: como Viriatho lhe tomou as mãos no alto da Torre redonda,
como lhe poz o cinto de ouro, como lhe entregou no dia do consorcio a
Viria do commando; como a beijou suavemente, e o abalo subito em que as
festas do casamento fôram interrompidas pelas palavras:--Cepio rasgou o
tratado de Paz com a Lusitania!--e a brusca despedida de Viriatho para
nunca mais!...
Ao chegar a este ponto, a imaginação de Lisia obscurecia-se, cahia em
deliquio, em um goso de dôr destructiva. Arrancando-se a essa deliciosa
angustia, reflectiu:
--O noivado ficou interrompido. E porque não hade ser finalisado? A
noiva deve acompanhar o esposo; é pela morte que eu tenho de chegar á
vida infinda com Viriatho; tanta delonga estupida, que parece
irresolução covarde...
E logo que foi noite cerrada, desceu ao thezouro da Ilha sagrada, e
mesmo na escuridão, e com o tino de quem sonha acordado, tomou a faixa
de ouro com que Viriatho a cingira, apanhou tambem a Viria que o esposo
lhe lançára ao pescôço, e subindo apressadamente a escadaria, foi
galgando sempre até chegar ao ultimo andar da Torre redonda. A escuridão
era espessissima, cortada a intervallos pela luz fulva e instantanea dos
coriscos. Lisia sentia um goso inexprimivel n'esta harmonia entre a
tempestade exterior e a agitação convulsiva da sua existencia moral.
Cingiu com recolhimento e lentidão o Cinto de ouro; envolveu o pescôço
eburneo e esculptural com a Viria, aquella mesma com que Viriatho,
fazendo-a sua esposa, se entregára á vontade d'ella, e--_para sempre_.
E olhando para aquellas joias, que tanto lhe diziam, no momento em que
um relampago se reflectiu n'ellas, ainda murmurou:
--Assim eu estava, quando elle partiu para sempre; assim mesmo vou ao
seu encontro.
Caminhou resolutamente para o parapeito da Torre redonda, no baixo da
qual marulhavam as ondas arrebentadas nas restingas, deixando na
escuridão tetrica a claridade de uma extensa phosphorecencia; e sobre
esse sudario nitido da ardentia, precipitou-se com toda a sua insondavel
amargura a formosa semnothêa, sepultada nas aguas revôltas, que na
piedade immanente na natureza fizeram que o seu corpo não fôsse
profanado e nunca mais fôsse visto.