Estavam acabadas as guerras de Viriatho, mas não estava pacificada a
Hespanha lusitana. Decio Junio Bruto tinha transposto o rio Lima, e
entrado na Galliza victorioso, refugiando-se a pobre gente nas cavernas
do Monte Medulio. Dentro em Numancia, o chefe celtibero Salóndico
resiste tenazmente contra os generaes romanos; elle tinha a valentia de
Viriatho, mas faltava-lhe a astucia e promptidão em inventar uma cilada.
Roma não o temia tanto, embora diante d'elle combatessem successivamente
Marco Pompilio Lenas, Caio Hostilio Mancino, Marco Emilio Lepido, Lucio
Furio Philo, Quinto Calpurnio Pisão, até Cornelio Scipião Emiliano.
Pela indomavel bravura com que Salóndico sustentou Numancia, chegou a
correr entre o povo a voz mysteriosa, que era em suas mãos que estava a
Espada de Viriatho, a invencivel espada. Verdadeiramente quem sabe aonde
está occulta essa espada, que synthetisa a energia para a independencia
da Lusitania? Sabe-o Tantalo, que a salvou de perder-se com generoso
intuito, na rendição junto do Turia.
Passaram-se esses terriveis acontecimentos, que deixarão inolvidavel o
anno de DCXIV; Lisia, sómente ignorava no seu retiro em Vacca a sorte da
campanha, e nem suspeitava a morte de seu esposo. Mas a demora de
Viriatho, a falta de novas, o silencio de todos em volta d'ella, o ár de
ternura com que illudiam as perguntas que fazia aos que passavam,
lançaram Lisia em uma melancholia deprimente. E ouvindo cantar uma
rapariga gaditana debaixo do seu miradouro, notou que insistentemente
lhe chamava:
--Sempre noiva! a Sempre noiva.
E quando Lisia disse para seu pae, o velho druida Idevor:
--O coração adivinha-me, que Viriatho está morto!
O velho respondeu com firmeza:
--Viriatho não podia morrer em batalha! Se não apparece, é porque anda
lá por esses montes da Celtiberia, ou talvez pelo sul da Lusitania, ou
Cynesia, organisando a resistencia. Não desesperemos!
Lisia, cansada de incerteza, teceu uma corôa de Verbena, a erva da
segunda vista, e collocou-a na cabeça. Desde esse instante lhe occorreu
o pensamento de consultar os oraculos para saber a verdade
completamente, ainda que lhe causasse a maior dôr. E o oraculo mais
sacrosanto e irreparavel nas suas revelações era o das _Pedras
baloiçantes_, os Loghans, visitados na região dos Cynesios, junto dos
quaes nunca ninguem se atrevia a ficar durante a noite.
Lisia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuarios de condição
livre, partiu com seu pae até á Ilha sagrada de Achale, aonde se
recolheu o velho druida, e ella continuou a jornada com impaciencia,
para ouvir a sentença definitiva dos Loghans, na região procurada por
tantos crentes. Não tinha descanso emquanto não soubesse a verdade, mas
verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existencia:
--Viriatho está vivo? Viriatho estará morto?
E seguindo em temerosa jornada por desertos infestados por lobos, e por
cidades occupadas por subditos de Roma, Lisia caminhava incolume, como
no somnambulismo da concentração de uma saudade inconsolavel.