XLI

Viriatho não desvairou com a inesperada victoria. Reconheceu

promptamente que se salvára d'esta vez de um perigo evidente, e que para

luctar com Serviliano carecia de mais gente. Deu ordem, logo que partiu

o exercito romano, de lançar fogo ao arraial, fazendo uma retirada

cautelosa e tratando com a maxima urgencia de ir buscar levas de

montanhezes ás serranias do Herminio, por que lhes reconhecera a

valentia impetuosa dos assaltos.

Serviliano, uma vez abastecido em Ituca, e refeitas as suas tropas pelo

descanso, debalde procurou Viriatho; convinha-lhe fixar o seu quartel de

inverno não longe, para recomeçar a campanha contra os Lusitanos, e

avançou sobre a Beturia, essa parte montanhosa da Betica, entre a

planicie do Betis e o valle do Anas. Habitava ahi gente que se

confederara na grande insurreição suscitada por Viriatho; o Consul

occupou-a por conquista, avançando para o paiz dos Cuneos, castigando-os

pelo mesmo pacto, e fixando ahi na Cynesia o seu quartel de inverno.

No anno DCXIII, no comêço da estação propicia, iniciou Serviliano a nova

campanha contra Viriatho, avançando para o norte; quando ia em marcha

com o poderoso exercito, vieram ao seu encontro dois guerrilheiros, que

andavam pela Cynesia, com uma partida de mais de dez mil homens. Eram

Curio e Apuleio, que por uma temeridade inaudita se atreveram a atacar

Serviliano. O Consul, com incomparavel vantagem, bateu a partida,

ficando morto no campo Curio com todos os seus despojos, e debandando

Apuleio com o resto da sua gente cruamente destroçada. Serviliano

prosegue na impetuosa marcha, e reconquista a cidade da Baccia, toma

dentro em poucos dias as cidades revoltadas contra o jugo romano,

Scandiam ou Escambola, Gemella e Obucula, fazendo ahi dez mil

prisioneiros, que vendeu como escravos, e mandando degolar uns

quinhentos individuos mais importantes, que considerava como partidarios

de Viriatho e fomentadores da revolta. E era a grande e generosa Roma,

que acoimava de barbaros os povos da Hespanha, querendo civilisal-os

pelas carnificinas e pelas depredações. Era a Lusitania, na sua parte

oriental e na occidental, que se atrevia a resistir contra este regimen

de latrocinios, batalhando pela sua liberdade.

Serviliano ia arrebatado por um pensamento exclusivo: encontrar

Viriatho, derrotal-o! Sem isso não era possivel a submissão ou

pacificação da Hespanha. Nas suas marchas o Consul não encontrava o

Cabecilha lusitano; os seus espiões não davam noticia d'elle. Em quanto

os soldados se regosijavam, conclamando, que Viriatho estava cansado da

lucta; que perdera a esperança na causa da Lusitania; que já lhe faltava

gente e recursos, Serviliano conhecia bem a tactica do caudilho, e

suspeitava que Viriatho andaria por longe recrutando novos reforços. E

seguro de que só mais tarde o encontraria, o Consul, para ir entretendo

as tropas e satisfazendo-as com os saques das cidades devastadas, chegou

ás cercanias de Erisane, cidade rica e populosa, e resolveu apoderar-se

d'ella. Nem sequer mandou intimar a rendição aos habitantes de Erisane;

pôz logo o cêrco á cidade, e deu ordem a que, em todo o seu circuito, se

abrissem fóssos, fazendo da terra revôlta uma alta trincheira detraz da

qual ficariam os hastarios, para que ninguem podesse fugir, e

forçando-os a entregarem-se, assenhorear-se de tudo quanto em Erisane se

guardava. De resto contava que os habitantes eram tambem uma rica

mercadoria de escravos, e um meio para quebrantar as outras cidades pelo

terror passando á espada alguns centenares. Serviliano procedia com

tranquilidade e segurança, por que uma cidade sem defeza, como Erisane,

não tem melhor recurso do que entregar-se ao invasor. A soldadesca

romana achava-se em grande parte dividida em volta da cidade abrindo os

fóssos, quando inesperadamente de dentro dos seus muros irrompem em

tropel esquadrões sobre esquadrões de cavalleiros, de longas grenhas,

com trajos e armas ao modo lusitano. Parecia que a cidade se desfazia em

chusmas de cavallerias, e que de cada pedra se formava um cavalleiro. A

violencia e rapidez da erupção, os gritos estridentes e a sanha

vertiginosa bem revelaram logo que era gente de Viriatho! Como

conseguira o Caudilho introduzir-se sem ruido dentro de Erisane

n'aquella noite? E sem dar tempo a que Serviliano podésse metter em

fórma o exercito, que estava esparso e em descanso no acampamento, na

lisongeira espectativa do saque da cidade, Viriatho, com aquelles

movimentos que só elle sabia dirigir, lança-se com todos os seus bravos

Soldurios, e com os Terços mais firmes chacinando na massa desmembrada

do exercito de Serviliano, multiplicando a sua força sobre as hesitações

de espanto causadas pela instantanea surpreza.

O exercito romano, sem ensejo para entrar em ordem, vae abandonando o

terreno, vae recuando, sem plano; Viriatho, com a lucidez dos momentos

decisivos, vae-o impellindo para o desfiladeiro apertado entre dois

montes cobertos de penhascos, sem que o proprio Serviliano désse pela

audaciosa cilada. Logo que Viriatho conseguiu encurralar o grosso do

exercito consular, deu ordem a um trôço de companheiros para a um signal

sabido fazerem rolar do alto das duas montanhas aquelles penhascos

acavallados. Dispostas assim as cousas, mandou parlamentarios a Serviliano:

--«Que o Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, conhecendo a situação em

que se collocára o exercito romano n'aquelle desfiladeiro, devia

consideral-o perdido para o combate ou qualquer resistencia;

Que do alto das duas montanhas rolariam ao primeiro signal sobre o

desfiladeiro os penhascos que alli negrejavam, esmagando todo o exercito

ahi comprimido;

Que, antes de proceder e de pôr as suas condições, mandava perguntar a

Serviliano que vantagens offerecia para que o exercito romano fôsse

salvo.»--

Os parlamentarios, que tinham partido levando ao alto ramos de oliveira,

não se demoraram muito tempo; traziam a mensagem de Serviliano:

--«Que da parte do Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, pelos poderes

que lhe tinham sido conferidos pelo Senado, lhe entregavam um Cinto de

ouro, como insignia de auctoridade soberana;

Que poderia Viriatho desde aquelle momento considerar-se _Rei da

Lusitania_, e fiel _Alliado de Roma_, sendo o seu primeiro acto a

assignatura de um Tratado de Paz e a dissolução do exercito.»--

Quando Viriatho leu essas condições sorriu-se com um superior desdem; e

sem demora tornou a enviar os Parlamentarios com os Cavalleiros romanos

que os acompanhavam, para dizerem a Serviliano:

--«Que das suas propostas só acceitava a Paz firmada pelo Consul e

ratificada pelo Senado, em que se assentasse para sempre o

reconhecimento da liberdade e independencia do Povo lusitano na sua

terra, e da propriedade dos fructos do seu trabalho.

Que a Lusitania nada queria de Roma; e quanto a elle Viriatho não

acceitava o titulo de Rei, mas unicamente a simples denominação de

_Amigo_, dada pelo Senado romano.»--

A mensagem de Viriatho não podia deixar de ser adoptada por Serviliano,

porque se limitava exclusivamente ao Tratado de Paz. E o Consul

comprehendia o intuito leal de Viriatho, porque aquelle mesmo homem, que

estando o exercito lusitano perdido recusou a Paz que Vetilio concedera,

era quem agora, tendo o exercito romano entregue ao seu arbitrio,

propunha como resultado da victoria uma simples clausula: um Tratado de

Paz assignado pelo Proconsul e ratificado pelo Senado e Povo romano. Era

nada menos do que a pacificação da Hespanha e o poder de Roma assentando

sobre o Direito em vez da espada.

O Tratado foi redigido com todas as formalidades do Direito das Gentes,

e Serviliano assignou-o como Proconsul; Viriatho firmou-o tambem

enumerando os povos lusitanos que representava. Trocaram-se os diplomas

authenticos, um que devia ser apresentado por Serviliano ao Senado em

Roma, e o que ficava em poder de Viriatho, como garantia da Paz. N'esse

dia os dois exercitos passaram em festa, ficando no campo as tropas de

Viriatho, até que o exercito proconsular deixasse de ser visto seguindo

em marcha para o seu quartel de inverno.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 51 / 81 题