Viriatho não desvairou com a inesperada victoria. Reconheceu
promptamente que se salvára d'esta vez de um perigo evidente, e que para
luctar com Serviliano carecia de mais gente. Deu ordem, logo que partiu
o exercito romano, de lançar fogo ao arraial, fazendo uma retirada
cautelosa e tratando com a maxima urgencia de ir buscar levas de
montanhezes ás serranias do Herminio, por que lhes reconhecera a
valentia impetuosa dos assaltos.
Serviliano, uma vez abastecido em Ituca, e refeitas as suas tropas pelo
descanso, debalde procurou Viriatho; convinha-lhe fixar o seu quartel de
inverno não longe, para recomeçar a campanha contra os Lusitanos, e
avançou sobre a Beturia, essa parte montanhosa da Betica, entre a
planicie do Betis e o valle do Anas. Habitava ahi gente que se
confederara na grande insurreição suscitada por Viriatho; o Consul
occupou-a por conquista, avançando para o paiz dos Cuneos, castigando-os
pelo mesmo pacto, e fixando ahi na Cynesia o seu quartel de inverno.
No anno DCXIII, no comêço da estação propicia, iniciou Serviliano a nova
campanha contra Viriatho, avançando para o norte; quando ia em marcha
com o poderoso exercito, vieram ao seu encontro dois guerrilheiros, que
andavam pela Cynesia, com uma partida de mais de dez mil homens. Eram
Curio e Apuleio, que por uma temeridade inaudita se atreveram a atacar
Serviliano. O Consul, com incomparavel vantagem, bateu a partida,
ficando morto no campo Curio com todos os seus despojos, e debandando
Apuleio com o resto da sua gente cruamente destroçada. Serviliano
prosegue na impetuosa marcha, e reconquista a cidade da Baccia, toma
dentro em poucos dias as cidades revoltadas contra o jugo romano,
Scandiam ou Escambola, Gemella e Obucula, fazendo ahi dez mil
prisioneiros, que vendeu como escravos, e mandando degolar uns
quinhentos individuos mais importantes, que considerava como partidarios
de Viriatho e fomentadores da revolta. E era a grande e generosa Roma,
que acoimava de barbaros os povos da Hespanha, querendo civilisal-os
pelas carnificinas e pelas depredações. Era a Lusitania, na sua parte
oriental e na occidental, que se atrevia a resistir contra este regimen
de latrocinios, batalhando pela sua liberdade.
Serviliano ia arrebatado por um pensamento exclusivo: encontrar
Viriatho, derrotal-o! Sem isso não era possivel a submissão ou
pacificação da Hespanha. Nas suas marchas o Consul não encontrava o
Cabecilha lusitano; os seus espiões não davam noticia d'elle. Em quanto
os soldados se regosijavam, conclamando, que Viriatho estava cansado da
lucta; que perdera a esperança na causa da Lusitania; que já lhe faltava
gente e recursos, Serviliano conhecia bem a tactica do caudilho, e
suspeitava que Viriatho andaria por longe recrutando novos reforços. E
seguro de que só mais tarde o encontraria, o Consul, para ir entretendo
as tropas e satisfazendo-as com os saques das cidades devastadas, chegou
ás cercanias de Erisane, cidade rica e populosa, e resolveu apoderar-se
d'ella. Nem sequer mandou intimar a rendição aos habitantes de Erisane;
pôz logo o cêrco á cidade, e deu ordem a que, em todo o seu circuito, se
abrissem fóssos, fazendo da terra revôlta uma alta trincheira detraz da
qual ficariam os hastarios, para que ninguem podesse fugir, e
forçando-os a entregarem-se, assenhorear-se de tudo quanto em Erisane se
guardava. De resto contava que os habitantes eram tambem uma rica
mercadoria de escravos, e um meio para quebrantar as outras cidades pelo
terror passando á espada alguns centenares. Serviliano procedia com
tranquilidade e segurança, por que uma cidade sem defeza, como Erisane,
não tem melhor recurso do que entregar-se ao invasor. A soldadesca
romana achava-se em grande parte dividida em volta da cidade abrindo os
fóssos, quando inesperadamente de dentro dos seus muros irrompem em
tropel esquadrões sobre esquadrões de cavalleiros, de longas grenhas,
com trajos e armas ao modo lusitano. Parecia que a cidade se desfazia em
chusmas de cavallerias, e que de cada pedra se formava um cavalleiro. A
violencia e rapidez da erupção, os gritos estridentes e a sanha
vertiginosa bem revelaram logo que era gente de Viriatho! Como
conseguira o Caudilho introduzir-se sem ruido dentro de Erisane
n'aquella noite? E sem dar tempo a que Serviliano podésse metter em
fórma o exercito, que estava esparso e em descanso no acampamento, na
lisongeira espectativa do saque da cidade, Viriatho, com aquelles
movimentos que só elle sabia dirigir, lança-se com todos os seus bravos
Soldurios, e com os Terços mais firmes chacinando na massa desmembrada
do exercito de Serviliano, multiplicando a sua força sobre as hesitações
de espanto causadas pela instantanea surpreza.
O exercito romano, sem ensejo para entrar em ordem, vae abandonando o
terreno, vae recuando, sem plano; Viriatho, com a lucidez dos momentos
decisivos, vae-o impellindo para o desfiladeiro apertado entre dois
montes cobertos de penhascos, sem que o proprio Serviliano désse pela
audaciosa cilada. Logo que Viriatho conseguiu encurralar o grosso do
exercito consular, deu ordem a um trôço de companheiros para a um signal
sabido fazerem rolar do alto das duas montanhas aquelles penhascos
acavallados. Dispostas assim as cousas, mandou parlamentarios a Serviliano:
--«Que o Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, conhecendo a situação em
que se collocára o exercito romano n'aquelle desfiladeiro, devia
consideral-o perdido para o combate ou qualquer resistencia;
Que do alto das duas montanhas rolariam ao primeiro signal sobre o
desfiladeiro os penhascos que alli negrejavam, esmagando todo o exercito
ahi comprimido;
Que, antes de proceder e de pôr as suas condições, mandava perguntar a
Serviliano que vantagens offerecia para que o exercito romano fôsse
salvo.»--
Os parlamentarios, que tinham partido levando ao alto ramos de oliveira,
não se demoraram muito tempo; traziam a mensagem de Serviliano:
--«Que da parte do Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, pelos poderes
que lhe tinham sido conferidos pelo Senado, lhe entregavam um Cinto de
ouro, como insignia de auctoridade soberana;
Que poderia Viriatho desde aquelle momento considerar-se _Rei da
Lusitania_, e fiel _Alliado de Roma_, sendo o seu primeiro acto a
assignatura de um Tratado de Paz e a dissolução do exercito.»--
Quando Viriatho leu essas condições sorriu-se com um superior desdem; e
sem demora tornou a enviar os Parlamentarios com os Cavalleiros romanos
que os acompanhavam, para dizerem a Serviliano:
--«Que das suas propostas só acceitava a Paz firmada pelo Consul e
ratificada pelo Senado, em que se assentasse para sempre o
reconhecimento da liberdade e independencia do Povo lusitano na sua
terra, e da propriedade dos fructos do seu trabalho.
Que a Lusitania nada queria de Roma; e quanto a elle Viriatho não
acceitava o titulo de Rei, mas unicamente a simples denominação de
_Amigo_, dada pelo Senado romano.»--
A mensagem de Viriatho não podia deixar de ser adoptada por Serviliano,
porque se limitava exclusivamente ao Tratado de Paz. E o Consul
comprehendia o intuito leal de Viriatho, porque aquelle mesmo homem, que
estando o exercito lusitano perdido recusou a Paz que Vetilio concedera,
era quem agora, tendo o exercito romano entregue ao seu arbitrio,
propunha como resultado da victoria uma simples clausula: um Tratado de
Paz assignado pelo Proconsul e ratificado pelo Senado e Povo romano. Era
nada menos do que a pacificação da Hespanha e o poder de Roma assentando
sobre o Direito em vez da espada.
O Tratado foi redigido com todas as formalidades do Direito das Gentes,
e Serviliano assignou-o como Proconsul; Viriatho firmou-o tambem
enumerando os povos lusitanos que representava. Trocaram-se os diplomas
authenticos, um que devia ser apresentado por Serviliano ao Senado em
Roma, e o que ficava em poder de Viriatho, como garantia da Paz. N'esse
dia os dois exercitos passaram em festa, ficando no campo as tropas de
Viriatho, até que o exercito proconsular deixasse de ser visto seguindo
em marcha para o seu quartel de inverno.