XXI

Quando os chefes das Contrebias pisaram terras a que não tinha chegado a

devastação da guerra, encontraram ranchadas de mulheres trabalhando nos

campos, alegres e risonhas, ouvindo-se de longe as cantigas com que

aligeiravam a faina do dia. Approximaram-se da lavrada, e notaram que

vigorosas mocetonas, de olhos castanhos e cabello preto, com arrecadas

de ouro nas orelhas, contas de ambar e crystal raiado de preto e azul ao

pescoço, descalças de pé e perna, andavam n'aquella encosta fazendo a

sementeira do linho. Ellas não se apavoraram com a passagem da

cavalgada. Os Cavalleiros que se deixaram ficar atraz, fôram-se

approximando do rancho, simulando interesse pela suavidade das cantigas,

que lhes faziam saudades dos seus casaes e villares, de que andavam

ausentes desde que se empenharam na resistencia contra os romanos. É

certo que a alguns d'esses guerrilheiros, requeimados pelo sol e pelas

geadas, acudiram as lagrimas aos olhos. Cantavam tres raparigas

alternadamente uma Cantilena dos _Trabalhos do Linho_, que na sua emoção

fazia sentir o perfume da terra, por que todos elles combatiam. Entoava

uma d'ellas, como deitando o pé da cantiga:

Quem anda a semear o linho,

Bem sabe que hade viçar

Para trabalhos passar.

Tambem quem semêa amores

Aqui, além, á ventura,

Sem se arrecear de dôres

Doce esperança procura;

E nascem-lhe em vez de flôres

Trabalhos para passar.

Antes o linho semear

Pelos vallados e encosta,

Do que um olhar sem resposta,

Desdens que são de matar;

O amor que se não desgosta

Não póde raíz deitar.

E emquanto as outras moças iam fazendo a sementeira, disse uma para a

que cantava:

--Caenia! não descubras o teu segredo; deixa cantar Nilliata.

E começou logo outra rapariga, continuando na mesma toada, mas com um

timbre de arrancar a alma:

Pelos trabalhos do linho

Está-se a gente a entender:

Nasce o amor para soffrer.

D'entre abrolhos do caminho

Quantas flôres a nascer!

Foi quando vim a entender

Que me davas com carinho

Tua vontade e querer,

Pondo fim ao meu soffrer.

A mesma voz que interrompeu a que levantára a cantiga:

--Aponia! não fiques para traz; ou tu já não és cantadeira de fama?

Ouviu-se logo outra voz ainda mais terna, de uma frescura de mocidade, e

de paixão commovente:

Bota uma flôr azulada

O linho, estando a florir:

Tem essa côr teu sorrir!

Sabendo que eras amada,

Segredaste de mansinho:

--Para sempre!--Sonho lindo.

Ainda te estou ouvindo...

Foi pelo semear do linho,

Ou mesmo na espadellada.

Antes que o fio mais fino

Chegue a fiar-se na roca,

O que ouvi de tua bocca

Fiou o nosso destino,

Teceu o casto cendal

Para o cortêjo nupcial.

Os cavalleiros, que se tinham atrazado da comitiva, atiraram com o

dinheiro que levavam para o grupo das raparigas; e mettendo-se a

caminho, a trote largo, iam dizendo:

--As mulheres fazem por nós o trabalho dos campos, em quanto por aqui

andamos empenhados n'esta guerra sem treguas.

--E eu que jurei não tornar mais a entrar em casa, a abraçar a mulher e

os filhos, em quanto não vir estes romanos escorraçados. Heide cumprir o

juramento, ainda que me arrebentem as saudades.

--Dá vontade de morrer por esta terra, quando bebemos estes áres, quando

nos banha esta luz de um céo tão azul! A cantiga das raparigas fez-me

vêr isto tudo, como até hoje eu nunca tinha visto.

E no trote largo em que iam, incorporaram-se na cavalgada, que foi

diminuindo á medida que cada um dos cavalleiros tomava a direcção do

solar em que residia.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 29 / 81 题