Quando os chefes das Contrebias pisaram terras a que não tinha chegado a
devastação da guerra, encontraram ranchadas de mulheres trabalhando nos
campos, alegres e risonhas, ouvindo-se de longe as cantigas com que
aligeiravam a faina do dia. Approximaram-se da lavrada, e notaram que
vigorosas mocetonas, de olhos castanhos e cabello preto, com arrecadas
de ouro nas orelhas, contas de ambar e crystal raiado de preto e azul ao
pescoço, descalças de pé e perna, andavam n'aquella encosta fazendo a
sementeira do linho. Ellas não se apavoraram com a passagem da
cavalgada. Os Cavalleiros que se deixaram ficar atraz, fôram-se
approximando do rancho, simulando interesse pela suavidade das cantigas,
que lhes faziam saudades dos seus casaes e villares, de que andavam
ausentes desde que se empenharam na resistencia contra os romanos. É
certo que a alguns d'esses guerrilheiros, requeimados pelo sol e pelas
geadas, acudiram as lagrimas aos olhos. Cantavam tres raparigas
alternadamente uma Cantilena dos _Trabalhos do Linho_, que na sua emoção
fazia sentir o perfume da terra, por que todos elles combatiam. Entoava
uma d'ellas, como deitando o pé da cantiga:
Quem anda a semear o linho,
Bem sabe que hade viçar
Para trabalhos passar.
Tambem quem semêa amores
Aqui, além, á ventura,
Sem se arrecear de dôres
Doce esperança procura;
E nascem-lhe em vez de flôres
Trabalhos para passar.
Antes o linho semear
Pelos vallados e encosta,
Do que um olhar sem resposta,
Desdens que são de matar;
O amor que se não desgosta
Não póde raíz deitar.
E emquanto as outras moças iam fazendo a sementeira, disse uma para a
que cantava:
--Caenia! não descubras o teu segredo; deixa cantar Nilliata.
E começou logo outra rapariga, continuando na mesma toada, mas com um
timbre de arrancar a alma:
Pelos trabalhos do linho
Está-se a gente a entender:
Nasce o amor para soffrer.
D'entre abrolhos do caminho
Quantas flôres a nascer!
Foi quando vim a entender
Que me davas com carinho
Tua vontade e querer,
Pondo fim ao meu soffrer.
A mesma voz que interrompeu a que levantára a cantiga:
--Aponia! não fiques para traz; ou tu já não és cantadeira de fama?
Ouviu-se logo outra voz ainda mais terna, de uma frescura de mocidade, e
de paixão commovente:
Bota uma flôr azulada
O linho, estando a florir:
Tem essa côr teu sorrir!
Sabendo que eras amada,
Segredaste de mansinho:
--Para sempre!--Sonho lindo.
Ainda te estou ouvindo...
Foi pelo semear do linho,
Ou mesmo na espadellada.
Antes que o fio mais fino
Chegue a fiar-se na roca,
O que ouvi de tua bocca
Fiou o nosso destino,
Teceu o casto cendal
Para o cortêjo nupcial.
Os cavalleiros, que se tinham atrazado da comitiva, atiraram com o
dinheiro que levavam para o grupo das raparigas; e mettendo-se a
caminho, a trote largo, iam dizendo:
--As mulheres fazem por nós o trabalho dos campos, em quanto por aqui
andamos empenhados n'esta guerra sem treguas.
--E eu que jurei não tornar mais a entrar em casa, a abraçar a mulher e
os filhos, em quanto não vir estes romanos escorraçados. Heide cumprir o
juramento, ainda que me arrebentem as saudades.
--Dá vontade de morrer por esta terra, quando bebemos estes áres, quando
nos banha esta luz de um céo tão azul! A cantiga das raparigas fez-me
vêr isto tudo, como até hoje eu nunca tinha visto.
E no trote largo em que iam, incorporaram-se na cavalgada, que foi
diminuindo á medida que cada um dos cavalleiros tomava a direcção do
solar em que residia.