XX

Emquanto os Romanos se preparavam para novas operações de guerra,

Viriatho estendeu as suas correrias para o norte, por toda a Celtiberia,

até ao Ebro; veiu depois a léste até á Edetania, Contestania; e passando

por Castalon, Tucci e Obulca, penetrou na Oretanía. Era um

reconhecimento dos territorios e das povoações! sabia aonde teria facil

refugio nas cavernas e antas, e que gentes o apoiariam contra o invasor

estrangeiro. Na sua passagem rapida ia agrupando quantos se insurgiam

contra o dominio romano, lembrados da sangrenta traição de Galba. Quando

Viriatho pisava já o solo da Carpetania, vieram ao seu encontro homens

alemtejanos com uma mensagem; traziam a _Crantara_, a Lança

ensanguentada, e a entregaram ao destemido Cabecilha. Depois que

Viriatho sopezou a Lança, entregou-a a um dos seus companheiros, que a

fôram passando de mão em mão, partindo em seguida os mesmo quatro homens

com ella. Significava aquelle symbolo a convocação dos chefes militares

e dos governadores das Behetrias para comparecerem no Conselho armado.

Ia celebrar-se o Conselho no Castro da Colla, junto da grandiosa Anta da

Candieira, na Serra d'Ossa; alli jaziam as ossadas dos antigos Lusonios,

quando a sua terra não tinha sido ainda invadida pelos Iberos, nem

assaltada pelos Celtas, nem explorada pelos mercadores phenicios, nem

pelos latrocinos dos Romanos. No ádito sagrado das suas sepulturas é que

os Chefes lusitanos consultavam o ecco dos espiritos, nas resoluções

irrevogaveis de sacrificio imposto pela lucta. Em uma das enormes lages

da Anta da Candieira existe um buraco aberto a meia altura do chão,

tendo um palmo em quadrado de diametro; é o unico em toda a peninsula

hispanica. É por esse buraco, que o chefe dos Endres, quando esta

corporação hieratica não estava ainda desmembrada, interrogava os mortos

sobre o destino social das tribus, e sobre a sorte das batalhas;

interrogava para dentro da caverna subterranea, e collocando o ouvido a

esse buraco escutava os eccos mysteriosos que só elle em uma

concentração subjectiva ouvia e explicava aos que vinham alli chamados

ao Conselho armado.

Em poucos dias de marcha Viriatho chegou, atravessando charnecas de mato

curto e enfezado, e por entre montados de zimbro e azinho, até á chapada

de rochas schistosas, aonde no cabeço mais saliente se erguia a Anta

veneranda. Infundia um pavor quasi sagrado a vista d'essas sete fortes

columnas ou esteios talhados sem artificio, implantados na terra: sobre

quatro d'elles assentava uma vasta lage em fórma de mesa, como ára dos

sacrificios. Outras lagens cobriam um subterraneo, que era a sepultura

dos Antepassados. Logo que Viriatho chegou ao cabêço em que a Anta se

eleva, veiu ao seu encontro um velho risonho, que o saudou abençoando-o.

Era Idevor, o derradeiro dos Endres, ou pelo menos aquelle que depois de

todas as perseguições conservava a tradição das tribus lusonicas; era

elle que nas commemorações dos finados, annualmente, alli vinha depôr,

na pedra furada as offerendas do banquete funerario; era elle que

interrogava os mortos, e collocava o ouvido attento no orificio da pedra

que os cobria.

O Conselho armado estava reunido em volta da Anta da Candieira; estavam

alli representados os Carpetanos, os Vettões, os Vacceos, os Callaicos,

os Artabros; tratava-se da defeza contra o Romano implacavel que se

preparava para a desforra de tantas derrotas. Viam-se alli figuras

esbeltas de homens, trigueiros, de cabellos compridos cahidos pelos

hombros; ligeiros, armados com escudos pequenos, e punhal comprido á

cinta; envergavam couraças de linho, tendo por cima a cóta de malha, e

nas cabeças os capacetes de couro. Depois de terem feito os seus jogos

heroicos, alguns offereciam á Divindade lançando sobre a mesa da Anta,

mãos decepadas de vencidos romanos. Idevor avançou para a Pedra furada,

ajoelhou e debruçou-se sobre ella, interrogando para dentro. Sentia-se

um rumor soturno, como a resonancia de funda caverna. Depois, longo

tempo Idevor pareceu escutar; e quebrando inesperadamente o silencio que

pezava sobre todos os guerrilheiros e chefes das Contrebias, vociferou

com intimativa:

--Viriatho? Viriatho! Nunca serás vencido em batalha! Nunca morrerás ás

mãos dos Romanos!

Era isso que Idevor ouvira no rumor do oráculo dos mortos. Repetiu-o

depois fitando com assombro Viriatho. Os companheiros vieram abraçal-o

pela consagração, que o proclamava invencivel; fitavam-o com espanto,

como se, desde aquelle momento, se tornasse um sêr sobrehumano.

Disse-lhe Minouro:

--Agora em vez de um Pretor, póde Roma enviar-nos dois, para aparar

melhor o pezo da derrota.

Andaca, batendo-lhe no hombro:

--Mas, pelo seguro, a força do oráculo está em uma boa espada.

Viriatho apoiando-se na espada que tocava com a ponta o solo, vergou-a

com garbo, como fiado na sua tempéra e flexibilidade; mas com espanto

viu, que mão traiçoeira lh'a tinha destemperado, porque dobrava-se como

se fôsse uma lamina de chumbo:

--Retorcem-se as espadas para serem enterradas com os guerreiros mortos!

Então Ditálcon, vendo a confusão que tomára o Cabecilha:

--Mesmo sem espada serás vencedor; o oráculo não mente.

Idevor tomou a espada torcida das mãos de Viriatho, e disse-lhe com

alegria:

--Esta acabou já o seu destino; serviu emquanto o teu impulso generoso

levantou o espirito de resistencia nas abatidas tribus lusitanas.

Inspiraste confiança! as populações seguem-te, porque vêem em ti o

restaurador da independencia, da liberdade, e do futuro glorioso da

Lusitania. A nossa Lusitania é imperecivel. Aqui na Anta da Candieira

guardara-se a Espada maravilhosa e invencivel, o _Gaizus_, escondido

para não ser tomado e empregado contra nós pelo invasor estrangeiro, e

sempre ignorado, por que até hoje não apparecera um filho d'esta terra

capaz de a defender e sustentar a sua liberdade. Viriatho! o testemunho

dos Antepassados proclama:--Nunca serás vencido! E é da sua sepultura,

d'este Cairn sacrosanto que eu tiro a Espada invencivel, o maravilhoso

Terçado que ahi se guardou até ao momento em que appareceste e te

patenteaste digno de servir o Peito lusitano.

Dizendo estas palavras, Idevor metteu o braço pela pedra furada, e como

revolvendo com a mão um thesouro invisivel, sacou com geito pelo buraco

da lage um montante de aço.

Abeirando-se de Viriatho:

--Entrego-te a Espada invencivel nas batalhas. Tu, e todo aquelle que a

brandir pela Lusitania têm certa a victoria. Que ella passe de mão em

mão, e de edade em edade.

Viriatho apoderou-se da Espada com enthusiasmo; beijou-a, mirou-a com

desvanecimento, e brandindo-a no ár, gritou:

--Hade ser livre a Lusitania.

A espada que o velho endre sacou de dentro da sepultura ancestral era

uma _lamina curva_, tendo afiada a folha por um dos lados inteiramente,

e pelo outro até um terço apenas; tinha a ponta aguçada, terminando a

curva por fórma que servia para ferir de ponta e simultaneamente de

gume. O fio era tão resistente e cortante, que se fôsse a Espada

brandida com força decepava instantaneamente uma cabeça. Quem tivesse

visto mundo, reconheceria que aquella Espada era semelhante em tudo á

_Copide_ oriental, com que batalham os Argivos, ou á _Sicca_ dos Persas

e Thracios; mas emquanto aquellas eram forjadas de ferro batido, esta

que estava occulta ha centenas de annos n'aquella sepultura, tinha uma

tempera tal, que cortava o proprio ferro, e era, de uma flexibilidade

que a tornava inquebrantavel. Não era indifferente a comparação com a

_Sicca_ dos Persas, por que d'esse povo guerreiro se conta que viera á

Peninsula hispanica como invasor, e que Mithra, o Mediador de Ahura, com

uma Espada de _Lamina curva_ matára o _Touro_, que symbolisava as

Crenças e a Cultura dos Povos occidentaes. A Espada começou a apparecer

com um caracter mysterioso! Pertenceria ella ás éras primitivas d'essas

espantosas luctas das raças do Oriente? No seu punho, que terminava com

uma cabeça de Dragão, estavam ornatos de incrustações de ouro com os

desenhos usados pelos Espadeiros de Toletum. Havia o quer que é de

mysterioso; por que o povo ao fallar de uma Espada magica ou invencivel

que existira na Hespanha antiga, diz ainda: que sete vezes fôra

temperada no sangue de um Dragão! A sua tempéra não será esse segredo

que só os armeiros de Toletum conservam no mais absoluto segredo? E as

incrustações de ouro, não serão a prova de que as areias auriferas do

Tagus misturadas no ferro derretido é que lhe dão esse poder cortante o

incomparavel do aço.

Idevor, correndo a mão ao longo da lamina, descobriu sem esforço a face

lisa de uma vaga côr azulada, e que semelhava o cariz do céo; entregou-a

a Viriatho, e elle proprio cingiu-lh'a á cinta do lado direito, dizendo:

--Esta Espada encontrou o braço digno de brandil-a no ár. Ella tem um

nome, como têm todas as Espadas dos Heroes; são como elles uma entidade,

com quem se consorciam; chama-se _Gaizus_, segundo as tradições

religiosas que se transmittiram dos povos scythicos e dacios. E se a

insignia da _Viria dos tres Crescentes_, que hoje usas como supremo

chefe, te dá a rasão do titulo de _Viriatho_, de agora em diante como

portador da Espada maravilhosa serás conhecido entre os que te

acompanharem até á morte pelo nome de _Porto-Gaizus_...

Effectivamente a Espada que symbolisava o Deus da guerra, entre

numerosas tribus scythicas e liguricas tinha o nome de _Gaizus_, e entre

os kimricos _Gaisus_, de _Hesus_ entre as hordas celticas, e _Gaisos_

entre os ramos goticos. Era essa Espada que se espetava no chão,

tornando-o sagrado para ahi se constituir a assembleia ao ár livre e o

tribunal do julgamento. A Espada era a representação divina e o emblema

da fecundidade, por que lampejava como o raio celeste.

Viriatho espetou a Espada _Gaizus_ na terra, reunindo-se todos os

guerreiros em volta; e Idevor proferiu a

*Benção da Espada*

Fita de luz traça no ár o raio,

Quando encastella nuvens a rajada:

É assim esta Espada!

Em botes de alto abaixo e de soslaio,

Ou quando cáe a fundo

Golpe seu iracundo!

*

Contra os tyrannos firma a Liberdade,

E fortalece a Confraternidade.

Quem amal-a não hade?

A Terra em que nascêmos ella cobre,

Tal como um galho secular frondente

Abriga a livre Gente.

Como thesoiro que o valor redobre,

Lampejando no punho de um heróe,

Sempre sagrada foi.

*

Espada de Justiça e de Equidade,

De uma Patria o emblema, a magestade,

Quem amal-a não hade?

*

Se ella cahir do valoroso pulso

Por traição ou por morte,

Ao sumir-se no derradeiro corte,

Da independencia guardará o impulso.

*

Quem descobrir a lamina fulgente

No revolvido chão,

Cumprirá--a missão

De tornar livre a soffredora Gente,

Dando-lhe a consciencia de Nação.

E feito o sacrificio pelo mais sabio dos Endres, os membros do Conselho

armado comeram em commum o que traziam em seus farneis, pães de glande

de carvalho rotundifolio, pernas de carneiro assado, e despejavam os

picheis de céria ou zytho encostados aos grandes esteios da Anta; e

depois de gritos festivos, ouvidas as ordens de Viriatho, debandaram

cantando, pelos campos de Ourique, seguindo para as suas terras em um

*Coral de Tripudio*

Terra da Patria!

Querida terra,

Liberta e altiva!

Na paz, na guerra

A alma idolatre-a,

Para ella viva.

Nosso chão patrio,

Terra querida,

Sempre liberta!

De um mundo és átrio,

Nunca vencida,

Por ti--álerta!

Terra sagrada

Da Patria amada,

Sê triumphante!

Pequena e forte,

Até á morte

Avante! ávante!

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 28 / 81 题