Emquanto os Romanos se preparavam para novas operações de guerra,
Viriatho estendeu as suas correrias para o norte, por toda a Celtiberia,
até ao Ebro; veiu depois a léste até á Edetania, Contestania; e passando
por Castalon, Tucci e Obulca, penetrou na Oretanía. Era um
reconhecimento dos territorios e das povoações! sabia aonde teria facil
refugio nas cavernas e antas, e que gentes o apoiariam contra o invasor
estrangeiro. Na sua passagem rapida ia agrupando quantos se insurgiam
contra o dominio romano, lembrados da sangrenta traição de Galba. Quando
Viriatho pisava já o solo da Carpetania, vieram ao seu encontro homens
alemtejanos com uma mensagem; traziam a _Crantara_, a Lança
ensanguentada, e a entregaram ao destemido Cabecilha. Depois que
Viriatho sopezou a Lança, entregou-a a um dos seus companheiros, que a
fôram passando de mão em mão, partindo em seguida os mesmo quatro homens
com ella. Significava aquelle symbolo a convocação dos chefes militares
e dos governadores das Behetrias para comparecerem no Conselho armado.
Ia celebrar-se o Conselho no Castro da Colla, junto da grandiosa Anta da
Candieira, na Serra d'Ossa; alli jaziam as ossadas dos antigos Lusonios,
quando a sua terra não tinha sido ainda invadida pelos Iberos, nem
assaltada pelos Celtas, nem explorada pelos mercadores phenicios, nem
pelos latrocinos dos Romanos. No ádito sagrado das suas sepulturas é que
os Chefes lusitanos consultavam o ecco dos espiritos, nas resoluções
irrevogaveis de sacrificio imposto pela lucta. Em uma das enormes lages
da Anta da Candieira existe um buraco aberto a meia altura do chão,
tendo um palmo em quadrado de diametro; é o unico em toda a peninsula
hispanica. É por esse buraco, que o chefe dos Endres, quando esta
corporação hieratica não estava ainda desmembrada, interrogava os mortos
sobre o destino social das tribus, e sobre a sorte das batalhas;
interrogava para dentro da caverna subterranea, e collocando o ouvido a
esse buraco escutava os eccos mysteriosos que só elle em uma
concentração subjectiva ouvia e explicava aos que vinham alli chamados
ao Conselho armado.
Em poucos dias de marcha Viriatho chegou, atravessando charnecas de mato
curto e enfezado, e por entre montados de zimbro e azinho, até á chapada
de rochas schistosas, aonde no cabeço mais saliente se erguia a Anta
veneranda. Infundia um pavor quasi sagrado a vista d'essas sete fortes
columnas ou esteios talhados sem artificio, implantados na terra: sobre
quatro d'elles assentava uma vasta lage em fórma de mesa, como ára dos
sacrificios. Outras lagens cobriam um subterraneo, que era a sepultura
dos Antepassados. Logo que Viriatho chegou ao cabêço em que a Anta se
eleva, veiu ao seu encontro um velho risonho, que o saudou abençoando-o.
Era Idevor, o derradeiro dos Endres, ou pelo menos aquelle que depois de
todas as perseguições conservava a tradição das tribus lusonicas; era
elle que nas commemorações dos finados, annualmente, alli vinha depôr,
na pedra furada as offerendas do banquete funerario; era elle que
interrogava os mortos, e collocava o ouvido attento no orificio da pedra
que os cobria.
O Conselho armado estava reunido em volta da Anta da Candieira; estavam
alli representados os Carpetanos, os Vettões, os Vacceos, os Callaicos,
os Artabros; tratava-se da defeza contra o Romano implacavel que se
preparava para a desforra de tantas derrotas. Viam-se alli figuras
esbeltas de homens, trigueiros, de cabellos compridos cahidos pelos
hombros; ligeiros, armados com escudos pequenos, e punhal comprido á
cinta; envergavam couraças de linho, tendo por cima a cóta de malha, e
nas cabeças os capacetes de couro. Depois de terem feito os seus jogos
heroicos, alguns offereciam á Divindade lançando sobre a mesa da Anta,
mãos decepadas de vencidos romanos. Idevor avançou para a Pedra furada,
ajoelhou e debruçou-se sobre ella, interrogando para dentro. Sentia-se
um rumor soturno, como a resonancia de funda caverna. Depois, longo
tempo Idevor pareceu escutar; e quebrando inesperadamente o silencio que
pezava sobre todos os guerrilheiros e chefes das Contrebias, vociferou
com intimativa:
--Viriatho? Viriatho! Nunca serás vencido em batalha! Nunca morrerás ás
mãos dos Romanos!
Era isso que Idevor ouvira no rumor do oráculo dos mortos. Repetiu-o
depois fitando com assombro Viriatho. Os companheiros vieram abraçal-o
pela consagração, que o proclamava invencivel; fitavam-o com espanto,
como se, desde aquelle momento, se tornasse um sêr sobrehumano.
Disse-lhe Minouro:
--Agora em vez de um Pretor, póde Roma enviar-nos dois, para aparar
melhor o pezo da derrota.
Andaca, batendo-lhe no hombro:
--Mas, pelo seguro, a força do oráculo está em uma boa espada.
Viriatho apoiando-se na espada que tocava com a ponta o solo, vergou-a
com garbo, como fiado na sua tempéra e flexibilidade; mas com espanto
viu, que mão traiçoeira lh'a tinha destemperado, porque dobrava-se como
se fôsse uma lamina de chumbo:
--Retorcem-se as espadas para serem enterradas com os guerreiros mortos!
Então Ditálcon, vendo a confusão que tomára o Cabecilha:
--Mesmo sem espada serás vencedor; o oráculo não mente.
Idevor tomou a espada torcida das mãos de Viriatho, e disse-lhe com
alegria:
--Esta acabou já o seu destino; serviu emquanto o teu impulso generoso
levantou o espirito de resistencia nas abatidas tribus lusitanas.
Inspiraste confiança! as populações seguem-te, porque vêem em ti o
restaurador da independencia, da liberdade, e do futuro glorioso da
Lusitania. A nossa Lusitania é imperecivel. Aqui na Anta da Candieira
guardara-se a Espada maravilhosa e invencivel, o _Gaizus_, escondido
para não ser tomado e empregado contra nós pelo invasor estrangeiro, e
sempre ignorado, por que até hoje não apparecera um filho d'esta terra
capaz de a defender e sustentar a sua liberdade. Viriatho! o testemunho
dos Antepassados proclama:--Nunca serás vencido! E é da sua sepultura,
d'este Cairn sacrosanto que eu tiro a Espada invencivel, o maravilhoso
Terçado que ahi se guardou até ao momento em que appareceste e te
patenteaste digno de servir o Peito lusitano.
Dizendo estas palavras, Idevor metteu o braço pela pedra furada, e como
revolvendo com a mão um thesouro invisivel, sacou com geito pelo buraco
da lage um montante de aço.
Abeirando-se de Viriatho:
--Entrego-te a Espada invencivel nas batalhas. Tu, e todo aquelle que a
brandir pela Lusitania têm certa a victoria. Que ella passe de mão em
mão, e de edade em edade.
Viriatho apoderou-se da Espada com enthusiasmo; beijou-a, mirou-a com
desvanecimento, e brandindo-a no ár, gritou:
--Hade ser livre a Lusitania.
A espada que o velho endre sacou de dentro da sepultura ancestral era
uma _lamina curva_, tendo afiada a folha por um dos lados inteiramente,
e pelo outro até um terço apenas; tinha a ponta aguçada, terminando a
curva por fórma que servia para ferir de ponta e simultaneamente de
gume. O fio era tão resistente e cortante, que se fôsse a Espada
brandida com força decepava instantaneamente uma cabeça. Quem tivesse
visto mundo, reconheceria que aquella Espada era semelhante em tudo á
_Copide_ oriental, com que batalham os Argivos, ou á _Sicca_ dos Persas
e Thracios; mas emquanto aquellas eram forjadas de ferro batido, esta
que estava occulta ha centenas de annos n'aquella sepultura, tinha uma
tempera tal, que cortava o proprio ferro, e era, de uma flexibilidade
que a tornava inquebrantavel. Não era indifferente a comparação com a
_Sicca_ dos Persas, por que d'esse povo guerreiro se conta que viera á
Peninsula hispanica como invasor, e que Mithra, o Mediador de Ahura, com
uma Espada de _Lamina curva_ matára o _Touro_, que symbolisava as
Crenças e a Cultura dos Povos occidentaes. A Espada começou a apparecer
com um caracter mysterioso! Pertenceria ella ás éras primitivas d'essas
espantosas luctas das raças do Oriente? No seu punho, que terminava com
uma cabeça de Dragão, estavam ornatos de incrustações de ouro com os
desenhos usados pelos Espadeiros de Toletum. Havia o quer que é de
mysterioso; por que o povo ao fallar de uma Espada magica ou invencivel
que existira na Hespanha antiga, diz ainda: que sete vezes fôra
temperada no sangue de um Dragão! A sua tempéra não será esse segredo
que só os armeiros de Toletum conservam no mais absoluto segredo? E as
incrustações de ouro, não serão a prova de que as areias auriferas do
Tagus misturadas no ferro derretido é que lhe dão esse poder cortante o
incomparavel do aço.
Idevor, correndo a mão ao longo da lamina, descobriu sem esforço a face
lisa de uma vaga côr azulada, e que semelhava o cariz do céo; entregou-a
a Viriatho, e elle proprio cingiu-lh'a á cinta do lado direito, dizendo:
--Esta Espada encontrou o braço digno de brandil-a no ár. Ella tem um
nome, como têm todas as Espadas dos Heroes; são como elles uma entidade,
com quem se consorciam; chama-se _Gaizus_, segundo as tradições
religiosas que se transmittiram dos povos scythicos e dacios. E se a
insignia da _Viria dos tres Crescentes_, que hoje usas como supremo
chefe, te dá a rasão do titulo de _Viriatho_, de agora em diante como
portador da Espada maravilhosa serás conhecido entre os que te
acompanharem até á morte pelo nome de _Porto-Gaizus_...
Effectivamente a Espada que symbolisava o Deus da guerra, entre
numerosas tribus scythicas e liguricas tinha o nome de _Gaizus_, e entre
os kimricos _Gaisus_, de _Hesus_ entre as hordas celticas, e _Gaisos_
entre os ramos goticos. Era essa Espada que se espetava no chão,
tornando-o sagrado para ahi se constituir a assembleia ao ár livre e o
tribunal do julgamento. A Espada era a representação divina e o emblema
da fecundidade, por que lampejava como o raio celeste.
Viriatho espetou a Espada _Gaizus_ na terra, reunindo-se todos os
guerreiros em volta; e Idevor proferiu a
*Benção da Espada*
Fita de luz traça no ár o raio,
Quando encastella nuvens a rajada:
É assim esta Espada!
Em botes de alto abaixo e de soslaio,
Ou quando cáe a fundo
Golpe seu iracundo!
*
Contra os tyrannos firma a Liberdade,
E fortalece a Confraternidade.
Quem amal-a não hade?
A Terra em que nascêmos ella cobre,
Tal como um galho secular frondente
Abriga a livre Gente.
Como thesoiro que o valor redobre,
Lampejando no punho de um heróe,
Sempre sagrada foi.
*
Espada de Justiça e de Equidade,
De uma Patria o emblema, a magestade,
Quem amal-a não hade?
*
Se ella cahir do valoroso pulso
Por traição ou por morte,
Ao sumir-se no derradeiro corte,
Da independencia guardará o impulso.
*
Quem descobrir a lamina fulgente
No revolvido chão,
Cumprirá--a missão
De tornar livre a soffredora Gente,
Dando-lhe a consciencia de Nação.
E feito o sacrificio pelo mais sabio dos Endres, os membros do Conselho
armado comeram em commum o que traziam em seus farneis, pães de glande
de carvalho rotundifolio, pernas de carneiro assado, e despejavam os
picheis de céria ou zytho encostados aos grandes esteios da Anta; e
depois de gritos festivos, ouvidas as ordens de Viriatho, debandaram
cantando, pelos campos de Ourique, seguindo para as suas terras em um
*Coral de Tripudio*
Terra da Patria!
Querida terra,
Liberta e altiva!
Na paz, na guerra
A alma idolatre-a,
Para ella viva.
Nosso chão patrio,
Terra querida,
Sempre liberta!
De um mundo és átrio,
Nunca vencida,
Por ti--álerta!
Terra sagrada
Da Patria amada,
Sê triumphante!
Pequena e forte,
Até á morte
Avante! ávante!