Viriatho foi visitar as officinas dos Espadeiros de Toletum, que eram
afamados no mundo pela tempéra rija que sabiam dar ao ferro com que
fabricavam as armas hespanholas. O seu nome já era conhecido entre os
Espadeiros, e um d'elles com aspecto de auctoridade deixou a forja e
veiu ao encontro do Cabecilha com alegria:
--Bem esperava vêr-vos, e saudar-vos! As espadas que temperâmos carecem
de braços firmes como os vossos.
Viriatho tocando-lhe com a mão no hombro, e avançando pela officina ao
ruido das bigornas em que se rebatiam a martello as laminas já frias,
volveu-lhe:
--Andergus! ás espadas que fabricaes póde-se-lhes chamar magicas, porque
tornam invencível o homem que as brande.
O espadeiro sorriu-se com orgulho, e começou a explicar a Viriatho o
valor das armas que se fabricavam n'aquelle fóco de uma antiga tradição
metalurgica:
--Sabereis, que os Romanos quando vieram á Hespanha combater os
Carthaginezes usavam ainda uma miseravel espada de cobre forjado a que
chamavam _Ligula_, a qual vergava com a força do golpe e que elles
durante o combate endireitavam com o pé. Quando os Romanos viram as
nossas espadas de ferro, adoptaram esse typo para o seu armamento, que
mandaram fabricar em Astorga, Valencia e a quantos armeiros encontraram
espalhados por essas Hespanhas. Mas, o segredo da tempera do aço só nós
os Espadeiros de Toletum o possuimos, e é esta a superioridade das
espadas lusitanas. Os Romanos nunca nos poderam apanhar esse segredo.
Viriatho escutava com encanto e assombro a observação de Andergus, e
sentiu-se animado de uma intima confiança com aquella revelação: as
espadas lusitanas eram de aço. E Andergus appresentou-lhe uma espada:
--Vêdes! aqui está uma espada romana; tem de extensão um pé e quatro
polegadas, larga de tres dedos, cortando com dois gumes, e de ponta
aguçada, punho do proprio metal. Serve para ferir de golpe de alto a
baixo, ou de estocada a fundo. Mas... reparae como esta espada se
entorta e fica vergada.
E calcando a espada debaixo do pé esquerdo curvou-a:
--É romana; cá está a marca gravada. Reparae: ABVRBCDCIII. Não conheceis
talvez o que querem dizer estas letras: _Ab urbe condita_, da fundação
de Roma, no anno _seiscentos e tres_.
--Ah! do anno da matança. Acudiu Viriatho.
--Agora vêde esta nossa espada toledana; um golpe d'ella corta no ferro
como se fôsse em chumbo. É mais comprida do que a romana uns dois
palmos, e de folha mais estreita. É mais leve, e incute o golpe mais
longe, porque a tempéra do aço dispensa a grossura, necessaria ao ferro
doce. É com estas espadas que nos havemos achar frente a frente com os
Romanos; elles não conhecem esta nossa vantagem.
No semblante de Viriatho transluziu um raio de alegria; e abraçando
Andergus, como um d'aquelles de quem dependia a liberdade da Lusitania:
--Não temeis que um dia vos roubem o segredo da tempéra do aço?
--Esse segredo está n'estas aguas do Tagus, e nas suas areias auriferas.
É aqui n'esta região que sómente se póde dar ao ferro em brasa a dureza
impenetravel.
Viriatho ficou pensativo, e como que voltando a si de um transporte,
exclamou com jubilo:
--Uma terra que tempéra com as suas forças occultas o ferro por essa
fórma unica, essa terra só póde ser pisada por homens livres
communicando ás suas fibras a rijeza do aço. Ah, sinto em mim alguma
cousa d'essa tempera das espadas de Toletum.
Andergus fallou-lhe mysteriosamente:
--Não é só a agua e as areias auriferas do Tagus que dão ao ferro essa
força inquebrantavel; nem tampouco ser o ferro das minas de Mondragon;
este céo tambem entra para ahi em alguma cousa. Reparae para este céo
azul e profundo. Quando o metal está derretido, e á sua superficie a
calda reflecte esse azul ferrete do céo, é quando álgum influxo da
abobada etherea diamantina desceu e veiu dar-lhe tão assombrosa qualidade.
Andergus fallava com uma confiança absoluta em Viriatho, e n'aquelle
momento para o caudilho lusitano não guardava segredos. Depois, com um
certo orgulho de tratar com Viriatho, de quem tanto se fallava, e
maravilhado de o encontrar lhano e despido de toda a soberba,
confessou-lhe:
--Muito quizera forjar por minha mão uma Espada, que fôsse a vossa
companheira nas batalhas que ainda tendes de dar contra o Invasor
romano. Não devo fazel-o; ha uma Espada heroica já consagrada por
victorias, com o poder que torna invencivel aquelle que a cingir, e é
essa a que vos compete.
--Eu nunca ouvi fallar d'essa Espada.
--É a espada _Gaizus!_ devolveu promptamente Andergus: Não sei aonde
ella está occulta, mas ha por certo quem o saiba. É um talisman de
liberdade. Dizem que está enterrada, e creio que em chão lusitano, ou
com certeza na sepultura de algum bravo. Se Indibilis, Mandonio e
Salondico a tivessem brandido! Ah, se a espada _Gaizus_ apparecer, e
vier á vossa mão, saberão os romanos o que é um raio...
Viriatho presentiu que uma força maravilhosa se ia desvendando; mas
Andergus fallava de uma tradição vaga, e nada mais podia adiantar. E
levando o caudilho lusitano pelas officinas, parando ao pé das forjas,
das bigornas e rebolos, em que trabalhavam activos armeiros,
mostrava-lhe as armas diversas que estavam fabricando:
--Já podestes vêr a _Spatha_ e o _Gladius_, comparando-os com a nossa
Espada hispanica de aço puro, com uma nevrura ao meio ou especie de
quina; agora reparae para esta Espada curta, é a _Machoera_, á maneira
de punhal, para combater corpo a corpo, mas é propriamente uma adaga.
Verdadeiramente lusitana é a _Rhanda_, a faca ou naifa de quasi dois
palmos, pendurada á cinta, e que acompanha sempre o homem quer nos
trabalhos dos campos ou nos da guerra. Até isto os Romanos nos roubaram,
porque de ha muito deram em usar a _Rhanda_ pendurada ao lado direito.
Se nós fossemos a reclamar o que nos pertence, tambem como conhecedor
pratico posso attestar, que a _Lancea_ romana é imitada da nossa lança
ou chuço peninsular: tem uma ponta de cobre, outra de ferro, e algumas
como a _Soliferrata_ são completamente de ferro. Mas, deixemos aos
homens que nos devastam dizendo que nos querem civilisar, a gloria dos
seus roubos; aqui estão as _Tragulas_, com a sua ponta em fórma de
anzol, arma terrivel que tem ferido generaes carthaginezes e consules
romanos.
--Tenho mais confiança na Falcata, uma gadanha que chega a dar os
resultados de uma boa espada.--Acudiu Viriatho, terminando o seu
pensamento:--Quando o povo quer, com as suas foices, gadanhos,
forquilhas e engaços, é capaz de levar adiante de si o poder do mundo.
Em Roma já se diz, que o mais destemido general não é capaz de fazer
virar as costas a um Cantabro. Resta-me a esperança de que ainda hão de
tremer ao encarar um Lusitano, que nenhuma calamidade descorçôa.
Viriatho despediu-se de Andergus, que voltou para a sua incude, quando
viu apparecer o vulto de Idevor, que o procurava. Pouco fallaram; mas um
movimento repentino de todos os terços e catervas lusitanas, postos em
marcha instantaneamente, era revelador de que já pisava terras da
Hispania Ulterior um general romano, um Pretor de confiança. Sobre os
escudos feitos de couro crú e cordas de tripa entretecidas de arâme, os
soldados lusitanos batiam pancadas rythmadas, a cujo som cantavam os
seus hymnos triumphaes e os clamores do Tripudio antes de entrarem em
combate. A marcha fazia-se a esta cadencia das Cetras, que resoavam com
estridor de alegria, em passos e saltos em que antegostavam os impetos
da acção.