XVIII

Viriatho foi visitar as officinas dos Espadeiros de Toletum, que eram

afamados no mundo pela tempéra rija que sabiam dar ao ferro com que

fabricavam as armas hespanholas. O seu nome já era conhecido entre os

Espadeiros, e um d'elles com aspecto de auctoridade deixou a forja e

veiu ao encontro do Cabecilha com alegria:

--Bem esperava vêr-vos, e saudar-vos! As espadas que temperâmos carecem

de braços firmes como os vossos.

Viriatho tocando-lhe com a mão no hombro, e avançando pela officina ao

ruido das bigornas em que se rebatiam a martello as laminas já frias,

volveu-lhe:

--Andergus! ás espadas que fabricaes póde-se-lhes chamar magicas, porque

tornam invencível o homem que as brande.

O espadeiro sorriu-se com orgulho, e começou a explicar a Viriatho o

valor das armas que se fabricavam n'aquelle fóco de uma antiga tradição

metalurgica:

--Sabereis, que os Romanos quando vieram á Hespanha combater os

Carthaginezes usavam ainda uma miseravel espada de cobre forjado a que

chamavam _Ligula_, a qual vergava com a força do golpe e que elles

durante o combate endireitavam com o pé. Quando os Romanos viram as

nossas espadas de ferro, adoptaram esse typo para o seu armamento, que

mandaram fabricar em Astorga, Valencia e a quantos armeiros encontraram

espalhados por essas Hespanhas. Mas, o segredo da tempera do aço só nós

os Espadeiros de Toletum o possuimos, e é esta a superioridade das

espadas lusitanas. Os Romanos nunca nos poderam apanhar esse segredo.

Viriatho escutava com encanto e assombro a observação de Andergus, e

sentiu-se animado de uma intima confiança com aquella revelação: as

espadas lusitanas eram de aço. E Andergus appresentou-lhe uma espada:

--Vêdes! aqui está uma espada romana; tem de extensão um pé e quatro

polegadas, larga de tres dedos, cortando com dois gumes, e de ponta

aguçada, punho do proprio metal. Serve para ferir de golpe de alto a

baixo, ou de estocada a fundo. Mas... reparae como esta espada se

entorta e fica vergada.

E calcando a espada debaixo do pé esquerdo curvou-a:

--É romana; cá está a marca gravada. Reparae: ABVRBCDCIII. Não conheceis

talvez o que querem dizer estas letras: _Ab urbe condita_, da fundação

de Roma, no anno _seiscentos e tres_.

--Ah! do anno da matança. Acudiu Viriatho.

--Agora vêde esta nossa espada toledana; um golpe d'ella corta no ferro

como se fôsse em chumbo. É mais comprida do que a romana uns dois

palmos, e de folha mais estreita. É mais leve, e incute o golpe mais

longe, porque a tempéra do aço dispensa a grossura, necessaria ao ferro

doce. É com estas espadas que nos havemos achar frente a frente com os

Romanos; elles não conhecem esta nossa vantagem.

No semblante de Viriatho transluziu um raio de alegria; e abraçando

Andergus, como um d'aquelles de quem dependia a liberdade da Lusitania:

--Não temeis que um dia vos roubem o segredo da tempéra do aço?

--Esse segredo está n'estas aguas do Tagus, e nas suas areias auriferas.

É aqui n'esta região que sómente se póde dar ao ferro em brasa a dureza

impenetravel.

Viriatho ficou pensativo, e como que voltando a si de um transporte,

exclamou com jubilo:

--Uma terra que tempéra com as suas forças occultas o ferro por essa

fórma unica, essa terra só póde ser pisada por homens livres

communicando ás suas fibras a rijeza do aço. Ah, sinto em mim alguma

cousa d'essa tempera das espadas de Toletum.

Andergus fallou-lhe mysteriosamente:

--Não é só a agua e as areias auriferas do Tagus que dão ao ferro essa

força inquebrantavel; nem tampouco ser o ferro das minas de Mondragon;

este céo tambem entra para ahi em alguma cousa. Reparae para este céo

azul e profundo. Quando o metal está derretido, e á sua superficie a

calda reflecte esse azul ferrete do céo, é quando álgum influxo da

abobada etherea diamantina desceu e veiu dar-lhe tão assombrosa qualidade.

Andergus fallava com uma confiança absoluta em Viriatho, e n'aquelle

momento para o caudilho lusitano não guardava segredos. Depois, com um

certo orgulho de tratar com Viriatho, de quem tanto se fallava, e

maravilhado de o encontrar lhano e despido de toda a soberba,

confessou-lhe:

--Muito quizera forjar por minha mão uma Espada, que fôsse a vossa

companheira nas batalhas que ainda tendes de dar contra o Invasor

romano. Não devo fazel-o; ha uma Espada heroica já consagrada por

victorias, com o poder que torna invencivel aquelle que a cingir, e é

essa a que vos compete.

--Eu nunca ouvi fallar d'essa Espada.

--É a espada _Gaizus!_ devolveu promptamente Andergus: Não sei aonde

ella está occulta, mas ha por certo quem o saiba. É um talisman de

liberdade. Dizem que está enterrada, e creio que em chão lusitano, ou

com certeza na sepultura de algum bravo. Se Indibilis, Mandonio e

Salondico a tivessem brandido! Ah, se a espada _Gaizus_ apparecer, e

vier á vossa mão, saberão os romanos o que é um raio...

Viriatho presentiu que uma força maravilhosa se ia desvendando; mas

Andergus fallava de uma tradição vaga, e nada mais podia adiantar. E

levando o caudilho lusitano pelas officinas, parando ao pé das forjas,

das bigornas e rebolos, em que trabalhavam activos armeiros,

mostrava-lhe as armas diversas que estavam fabricando:

--Já podestes vêr a _Spatha_ e o _Gladius_, comparando-os com a nossa

Espada hispanica de aço puro, com uma nevrura ao meio ou especie de

quina; agora reparae para esta Espada curta, é a _Machoera_, á maneira

de punhal, para combater corpo a corpo, mas é propriamente uma adaga.

Verdadeiramente lusitana é a _Rhanda_, a faca ou naifa de quasi dois

palmos, pendurada á cinta, e que acompanha sempre o homem quer nos

trabalhos dos campos ou nos da guerra. Até isto os Romanos nos roubaram,

porque de ha muito deram em usar a _Rhanda_ pendurada ao lado direito.

Se nós fossemos a reclamar o que nos pertence, tambem como conhecedor

pratico posso attestar, que a _Lancea_ romana é imitada da nossa lança

ou chuço peninsular: tem uma ponta de cobre, outra de ferro, e algumas

como a _Soliferrata_ são completamente de ferro. Mas, deixemos aos

homens que nos devastam dizendo que nos querem civilisar, a gloria dos

seus roubos; aqui estão as _Tragulas_, com a sua ponta em fórma de

anzol, arma terrivel que tem ferido generaes carthaginezes e consules

romanos.

--Tenho mais confiança na Falcata, uma gadanha que chega a dar os

resultados de uma boa espada.--Acudiu Viriatho, terminando o seu

pensamento:--Quando o povo quer, com as suas foices, gadanhos,

forquilhas e engaços, é capaz de levar adiante de si o poder do mundo.

Em Roma já se diz, que o mais destemido general não é capaz de fazer

virar as costas a um Cantabro. Resta-me a esperança de que ainda hão de

tremer ao encarar um Lusitano, que nenhuma calamidade descorçôa.

Viriatho despediu-se de Andergus, que voltou para a sua incude, quando

viu apparecer o vulto de Idevor, que o procurava. Pouco fallaram; mas um

movimento repentino de todos os terços e catervas lusitanas, postos em

marcha instantaneamente, era revelador de que já pisava terras da

Hispania Ulterior um general romano, um Pretor de confiança. Sobre os

escudos feitos de couro crú e cordas de tripa entretecidas de arâme, os

soldados lusitanos batiam pancadas rythmadas, a cujo som cantavam os

seus hymnos triumphaes e os clamores do Tripudio antes de entrarem em

combate. A marcha fazia-se a esta cadencia das Cetras, que resoavam com

estridor de alegria, em passos e saltos em que antegostavam os impetos

da acção.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 26 / 81 题