Em Roma não se formava uma ideia clara das monstruosidades praticadas
por Galba. Diante d'estes planos de forte administração, e pelas
doutrinas da politica de interesse, o quadro da mortandade de trinta mil
individuos desarmados, convocados juridicamente pela auctoridade do
Pretor, e chacinados traiçoeiramente, pouca impressão fazia na alma do
povo romano: a falta de sensibilidade moral preparava a sua marcha
decadente para a servidão. Mas o crime de Galba era d'aquelles que fazem
levantar as pedras! D'entre os montões de cadaveres, meio incinerados e
cobertos de pedregulhos, quando a noite viera pôr termo á carnificina,
levantaram-se cautelosamente algumas das raras victimas, que a
casualidade resguardára dos golpes successivos que esmagavam aquella
multidão inerme; e esses desgraçados, fugindo por entre as trevas
cerradas, espalharam-se pelas montanhas e valles, e fôram, de povoação
em povoação, de cidade em cidade, clamando, bradando, fazendo a
narrativa da tremenda catastrophe com que os romanos invasores queriam
extinguir os Povos Lusitanos.
Esses foragidos, ainda cobertos de sangue e de lama tábida, rôtos e
estropeados, levados em um desvario de quem perdeu a rasão pela
enormidade do terror, dispersaram-se pelos campos e fôram dar ás grandes
cidades municipaes como Ollissipo, aos Conventos juridicos como Scalabis
e Jerabriga, narrando o espantoso successo. Por pobras e aldeias, por
casaes e villares, por citanias no alto dos montes, por toda a parte
correu o rumor sinistro da mortandade atrocissima e iniqua, e não houve
folego vivo que se não extorcesse em impetos de colera impotente, em
revolta moral contra o maior attentado que á luz do sol se tinha
praticado contra a lei humana. O grito delirante dos foragidos, que iam
de terra em terra repetindo a tragica narração, tornava-se contagioso, e
acordava um profundo instincto de revolta, que ia crescendo como uma
onda até rebentar em uma convulsão irreprimivel. Os Arevacos, os Tittes
e os Belli, povos que andavam sempre em mortaes conflictos, agora
achavam-se unidos no mesmo protesto. Rugidos de colera irrefreavel
irrompiam entre os Asturios, Callaecos, Vacceos e Carpetanos; estes
olhavam com anciedade quem daria começo a uma lucta, para a qual nada
estava preparado, a não ser um temperamento sempre resistente. Para o
sul os Oretanos, Bastitanos e Edetanos ardiam em um rancor exacerbado
pela inqualificavel traição de Galba, legitimo representante da fé
romana. Já sôavam no ár Cantigas de guerra, que levantavam as almas; e
até por essas povoações remotas e mal conhecidas, como Lubara, Aritium,
Elbocoris, Araducta, Verurio, Vellade, Arabriga, Tacubis, cujos nomes os
geographos romanos e naturalistas não queriam repetir por consideral-os
barbaros, por onde quer que passaram os foragidos que escaparam
casualmente da horrifica matança, já se formavam trôços de gente armada
com hozes, ou fateixas de arrêmeço, catanas grossas, pelo instincto
natural da defeza de seus lares.
Esses poucos foragidos levavam na palavra o incendio, que se espalhava
de cidade em cidade, de povoado em povoado, narrando desenfeitadamente o
crime do governo de Roma. É certo que a população lusitana estava
cansada das recentes e inefficazes luctas; as cidades confederadas e
estipendiarias queriam o socego da sua vida laboriosa, supportando
sacrificios da liberdade. Nas cidades dos Turdetanos, como Balsa,
Salacia, Cetobriga eccoara imprevistamente o caso nefando da
carnificina, e lamentavam não existirem chefes que organisassem a
resistencia contra o brutal e monstruoso attentado. E se esta
impotencia, ao menos, assegurasse alguns annos de tranquillidade para o
sul da Peninsula! Outro Pretor que venha, diante da impunidade d'este,
até onde levará as depredações e os morticinios!
Os povos que gosavam das garantias de Municipio romano não queriam
mover-se para não decahirem dos privilegios que fruiam concedidos pelo
conquistador; os povos que participavam dos direitos do antigo Lacio
obedeciam á mesma tendencia egoista. Sómente entre os povos na situação
de tributarios poderia surgir um impulsivo instincto, mas impotente de
revolta. Nas cidades dos povos denominados Celticos e Iberos havia um
certo ciume contra a aspiração hegemonica dos Lusitanos; mas nem por
isso se ligou menos interesse ás narrativas dos foragidos da matança de
Galba. Os seus gritos repetidos de terra em terra chegaram a Laucobriga,
a Castraleuco, Arandis, Mirebriga, e os trabalhadores do campo
interrompiam as bessadas para escutarem esse caso estupendo; as festas
religiosas e as nupciaes suspendiam-se á chegada d'essas figuras
sangrentas, que pareciam phantasmas resurgidos do campo da matança para
virem reclamar a eterna vindicta.
Ouvireis o que bradavam esses foragidos, quasi em delirio, alguns
d'elles cahindo no chão esgotados de sangue que ainda vertiam das
feridas, outros borbotando sangue pela bocca, aos gritos convulsivos com
que narravam o caso da mortandade.
--«O Pretor Servio Sulpicio Galba convocou para uma assembléa nas
campinas da margem direita do rio Tagus, os trez Conventos da Lusitania
Emeritense, Pacense e Scalabitano com as trinta e seis Cidades
estipendiarias, recommendando que viessem sem armas, porque se tratava
da distribuição de terras, do estabelecimento de novas Colonias, e de
elevar alguns Povos tributarios aos privilegios de Cidades Confederadas,
de Municipio romano e do antigo Lacio.
«Confiados nas palavras do Edito do Pretor, concorreram ao local que
lhes fôra aprazado, muitos povos, interrompendo as suas lavouras; e como
se fôsse para uma festa de paz e congratulação levaram comsigo suas
mulheres e filhos, e os anciãos mais venerandos das tribus, como
arrefens do seu animo pacifico.
«O Pretor ordenou que se ajuntassem na campina em que tinha mandado
plantar uma _Arvore de Maio_, junto da qual se devia assignar o pacto
perpetuo da concordia com as Tribus lusitanas.
«Emquanto se esperava o Pretor cercado da sua Cohorte, começaram a
apparecer quatro Legiões, que se formaram em _orbis_, estendendo em
ordem de batalha as suas tres fileiras, e envolvendo como em uma grande
muralha toda aquella multidão inerme! Ninguem suspeitava o intuito do
subito envolvimento.
«Os manipulos da Legião, com as suas bandeirolas fôram marcando os
logares, que á frente de todos occuparam os Hastarios; por traz d'estes
ficaram os Principes dispostos de modo a por entre elles poderem recuar
os que lhe estavam em frente; na terceira linha estendiam-se os
_Triarios_, como barreira de resistencia.
«Depois d'isto appareceu a Cavalleria, correspondendo quinhentos
Cavalleiros a cada Legião, armados com o gladio hispanico de dois gumes.
Foi então que um gelido terror se apoderou d'aquelle povo indefenso. As
lanças e chuços dos Hastarios collocaram-se por um movimento repentino
em riste, como formando uma muralha cerrada de espetos.
«O Pretor Galba não apparecia! Um presentimento de morte se estampou na
lividez de todos os rostos, quando viram por detraz dos triarios
moverem-se torres de madeira, catapultas e balistas.
«Com certeza Galba planeára uma infamissima traição! Como fugir-lhe? As
mulheres, em lamentos atroadores, abraçavam os filhos, sem perceberem
ainda o perigo. Os velhos aconselhavam prudencia, esperando serenos as
ordens do Pretor.
«N'este momento de angustia pezados calháos fôram de longe arremessados
por catapultas contra aquella multidão compacta, esmagando alli algumas
centenas de lusitanos. O grito de espanto parecia uma tempestade; os que
tentavam fugir fôram espetar-se e morrer nas fileiras cerradas dos
Hastarios; os que se estreitavam uns aos outros n'um panico
inconsiderado abafavam-se.
«E emquanto iam chovendo os grandes calháos arrojados pelas catapultas,
cahiam sobre a multidão as _Falaricas_ ou lanças incendiarias, que os
Romanos tinham tomado dos costumes hispanos, e outros engenhos
arremessavam panellas de pez e estôpa ardendo, que os Cestrophendones
faziam cahir no meio da assembléa.
«E como se não bastasse tudo isto para destruir aquella gente desarmada,
os Fundibularios baleares mantinham um chuveiro de pedras sempre
certeiras, coadjuvados pelos Arcubalistas.
«A multidão ainda se movia, embora não offerecesse resistencia alguma;
mas Galba, querendo terminar a sua hediondissima traição e vendo que o
sol já declinava, resolveu o final exterminio antes do descer da noite.
Os Cavalleiros recusavam-se á fadiga de passar á espada tantissima gente
inerme que ainda sobrevivia. Foi então que Galba se lembrou de como na
guerra de Macedonia, Paulo Emilio deveu a victoria decisiva ao emprego
da tactica dos Elephantes; e deu logo ordem a que os dez Elephantes
offerecidos por Massinissa aos Romanos para servirem nas guerras contra
os Celtiberos, se empregassem agora para acabarem de esmagar os
temerosos rebeldes Lusitanos.
«Os Elephantes couraçados com chapas guarnecidas de espadas fôram
conduzidos para aquelle montão de gente, cuja carne e sangue formava com
a terra recalcada uma massa horrenda. De baixo das patas dos dez
Elephantes sentiam-se fracassar os ossos das victimas, e o sangue
respingava-lhes até aos peitos, prendendo-se-lhe nas pernas as tripas
que eram casualmente arrancadas na sua passagem.
«A noite vinha descendo caliginosa e um vapor espêsso se erguia dos
valles fundos. Foi então, que ainda d'entre o montão dos cadaveres se
ergueu um vulto surrateiramente, e saltando ao pescoço de um Elephante,
o pezado animal cahiu redondamente morto em terra! As trévas iam-se
engrossando, e o vulto agil e escorreito foi assim saltando sobre cada
um dos Elephantes, que por seu turno iam cahindo mortos! Quem seria esse
vulto extraordinario, que sabia o segredo de dar a morte instantanea a
tão poderosos animaes, em cuja pelle não penetravam os mais pujantes
dardos? Quem quer que fôsse, elle sabia o segredo apprendido nas Guerras
punicas: de que a mais leve picadela no bolbo pela vertebra que toca no
craneo do Elephante fazia-o cahir fulminado instantaneamente. Assim
fôram mortos os dez Elephantes.
«A noite era já cerrada; e enquanto Galba mandára lançar fogo ao montão
dos cadaveres entre os quaes fôram encontrados os dez Elephantes de
Massinissa, d'entre esses cadaveres escaparam-se alguns individuos que
se tinham occultado debaixo dos corpos exânimes, e que se fingiram
mortos: são esses os que andam de cidade em cidade da Lusitania e da
Turdetania pedindo vingança! Vingança! Vingança!»
Por valles e serras, e resoando de monte a monte, entoava-se um Canto de
guerra, que fazia referver o sangue nas veias, exaltando os espiritos
ainda os mais acabrunhados. O Canto podia mais do que a reflexão, e cada
povo accrescentava-lhe uma nova estrophe, como a aspiração do resgate. A
palavra poetica é alada, o pelo prestigio da tradição transpõe as edades
repercutindo-se na alma dos vindouros.
*Baladro de guerra*
Terra da Lusitania,
Ensopada de sangue
Por horrendo baldão!
Chamou-nos o Romano
Para a alliança de paz,
Mata-nos á traição!
Virus de iniquidade,
D'esse fermento de odio
Brote a destruição.
Que a lança dos Quirites
Se quebre, e em nossa frente
Não se erga Legião!
Quem sobrevive ao crime,
E escuta estes lamentos
Da atroz desolação;
Quem perdeu lá seus filhos,
Os paes, entes queridos,
O esposo, o irmão;
Que se revoltem todos,
Peitos sejam escudos,
Lanças raios na mão!
Soffrimento e opprobrio,
A morte e a vingança
Forçam á união!
Vós, Povos da Callaecia,
De Oretania, Beturia,
Cynesia região;
Robustos Carpetanos,
Tartessios, desmembrados
Da Lusonia nação!
Que o mesmo odio nos una,
Vingae mortos, e os vivos
Salvae da escravidão!
Reviva a Lusitania,
Ensopada no sangue
Da romana traição.
V
De todas aquellas povoações até onde chegára o rumor da horrente
catastrophe, partiram homens audaciosos, movidos pela curiosidade para
observarem com os seus olhos os despojos que restavam; alguns não
voltaram mais aos seus lares, porque iam engrossando uma onda dos
revoltados contra tamanha traição. Os que regressavam espavoridos
contavam o assombro que lhes causára o vêr uma ampla campina coberta de
cadaveres incompletamente carbonisados, em volta dos quaes uivavam lobos
em numerosas alcateias, e aguias e abutres que esvoaçavam em bando sobre
a vasta presa, cujo fetido os attrahira de longe. As calmas estivaes
tornavam-se mais intensas, apressando a putrefação de tantos cadaveres;
as fortes nortadas levavam até muito longe os miasmas, e n'uma e n'outra
cidade da Lusitania appareciam ameaços aterradores da peste. Era a
perspectiva de uma mais horrivel devastação, porque se não via o látego
mortifero que flagellava os povos. Um pensamento de piedade pelos mortos
occorreu suscitado pelas calamidades:
--É certo que esses corpos insepultos reclamam dos vivos o cumprimento
de um dever sagrado! Em quanto lhes não dermos sepultura condigna, suas
almas andarão errantes diante de nós, perturbando-nos, perseguindo-nos
até acordarmos do nosso desdem egoista. Carecemos para propria segurança
de lhes darmos sepultura segundo o patrio e antigo costume, quando se
encontra um morto n'um ermo ou n'uma encruzilhada. Que cada cidade,
villar ou aldeia, faça suas peregrinações ao campo da matança, e
seguindo a tradição da piedade, cada um arroje uma pedra para cima dos
cadaveres até que se formem Montes Gaudios, que serão os tumulos
venerandos dos nossos desventurados conterraneos.
Segundo aquelle costume, vogou de cidade em cidade a ideia da funebre
peregrinação, e não eram ainda bem passadas duas luas quando por toda a
Lusitania se operára um movimento que ligava todas as povoações no mesmo
affecto. Os mortos podiam agora mais de que os vivos, porque por via
d'elles se uniam tribus até aquelle dia inconciliaveis, que iam visitar
o campo da matança e lançar suas pedras para erguerem bem alto os Montes
Gaudios, que deviam tornar-se não um simples monumento funerario, mas
uma como torre de protesto e de eterna revolta. Muitos povos dispersos
nas regiões de entre Durio e Minio, entre o Durio e o Tagus e mesmo os
que se achavam para lá da banda de Traz dos Montes, desde a foz do Anas
até ao Mar Cantabrico, adheriram á desolação dos Lusitanos, e mandaram
tambem peregrinações ao campo da matança para que os Montes Gaudios
attestassem aos vindouros que elles se consideravam formando parte
d'este valente e activo povo ribeirinho que dos seus portos de _Lez_ e
das suas bem trabalhadas _Lezirias_ tomára o nome nacional de
_Lusitania_. O ecco da grande catastrophe produzida pela perfidia impune
de Galba chegára egualmente aos confins dos territorios dos Asturios e
Celtiberos. Os Povos denominados Carpetanos, os Vettões, os Vacceos e
Callaecos, que sempre se tinham conservado apartados para o norte da
Hespanha esperando constituir uma Confederação e unidade política sob o
nome de Callaecia, agora sentiam-se dominados pela insondavel fatalidade
que arrastára os destemidos e independentes Lusitanos á maior das
ruinas; elles vierão em magotes vêr de perto a horrorosa mortandade, e
arrojar piedosamente mais pedras para os Montes Gaudios. Esses tumulos
cresciam, como attestando ao mundo, que eram innumeros os corações que
pulsavam por inultos mortos, e que os mesmos braços que arrojaram
aquellas pedras, serão os mesmos que arremessarão as suas lanças e
brandirão as pezadas lorigas contra o fautor da execranda iniquidade.
Assim se fôram formando bandos e numerosas guerrilhas, imperfeitamente
armadas, que clamavam por vingança; e vendo que muitas cidades alliadas
dos Romanos, e outras por temor ou covardia, não tinham vindo celebrar a
cerimonia dos Montes Gaudios, foi contra ellas que arremeteram na sua
ancia de vindicta. Passavam ja de dez mil os Lusitanos que se ajuntaram
em differentes guerrilhas, entregues á aventura e audacia de destemidos
Cabecilhas, que fôram descendo para o sul da Peninsula, devastando e
roubando quantos povos encontravam que estavam no goso do patronato
romano. Chegaram até á Turdetania, essa opulenta região banhada pelo
Betis, tendo por limite da parte do norte o curso do Anas; e levaram a
sua audacia até ao ponto de atacarem a importante fortaleza de Gades, ou
Gadir, como lhe chamaram os Phenicios. Não era sem rasão que os
viajantes phenicios, gregos e romanos diziam que os Lusitanos eram o
povo mais numeroso e valente entre as nações de toda a Iberia.