IV

Em Roma não se formava uma ideia clara das monstruosidades praticadas

por Galba. Diante d'estes planos de forte administração, e pelas

doutrinas da politica de interesse, o quadro da mortandade de trinta mil

individuos desarmados, convocados juridicamente pela auctoridade do

Pretor, e chacinados traiçoeiramente, pouca impressão fazia na alma do

povo romano: a falta de sensibilidade moral preparava a sua marcha

decadente para a servidão. Mas o crime de Galba era d'aquelles que fazem

levantar as pedras! D'entre os montões de cadaveres, meio incinerados e

cobertos de pedregulhos, quando a noite viera pôr termo á carnificina,

levantaram-se cautelosamente algumas das raras victimas, que a

casualidade resguardára dos golpes successivos que esmagavam aquella

multidão inerme; e esses desgraçados, fugindo por entre as trevas

cerradas, espalharam-se pelas montanhas e valles, e fôram, de povoação

em povoação, de cidade em cidade, clamando, bradando, fazendo a

narrativa da tremenda catastrophe com que os romanos invasores queriam

extinguir os Povos Lusitanos.

Esses foragidos, ainda cobertos de sangue e de lama tábida, rôtos e

estropeados, levados em um desvario de quem perdeu a rasão pela

enormidade do terror, dispersaram-se pelos campos e fôram dar ás grandes

cidades municipaes como Ollissipo, aos Conventos juridicos como Scalabis

e Jerabriga, narrando o espantoso successo. Por pobras e aldeias, por

casaes e villares, por citanias no alto dos montes, por toda a parte

correu o rumor sinistro da mortandade atrocissima e iniqua, e não houve

folego vivo que se não extorcesse em impetos de colera impotente, em

revolta moral contra o maior attentado que á luz do sol se tinha

praticado contra a lei humana. O grito delirante dos foragidos, que iam

de terra em terra repetindo a tragica narração, tornava-se contagioso, e

acordava um profundo instincto de revolta, que ia crescendo como uma

onda até rebentar em uma convulsão irreprimivel. Os Arevacos, os Tittes

e os Belli, povos que andavam sempre em mortaes conflictos, agora

achavam-se unidos no mesmo protesto. Rugidos de colera irrefreavel

irrompiam entre os Asturios, Callaecos, Vacceos e Carpetanos; estes

olhavam com anciedade quem daria começo a uma lucta, para a qual nada

estava preparado, a não ser um temperamento sempre resistente. Para o

sul os Oretanos, Bastitanos e Edetanos ardiam em um rancor exacerbado

pela inqualificavel traição de Galba, legitimo representante da fé

romana. Já sôavam no ár Cantigas de guerra, que levantavam as almas; e

até por essas povoações remotas e mal conhecidas, como Lubara, Aritium,

Elbocoris, Araducta, Verurio, Vellade, Arabriga, Tacubis, cujos nomes os

geographos romanos e naturalistas não queriam repetir por consideral-os

barbaros, por onde quer que passaram os foragidos que escaparam

casualmente da horrifica matança, já se formavam trôços de gente armada

com hozes, ou fateixas de arrêmeço, catanas grossas, pelo instincto

natural da defeza de seus lares.

Esses poucos foragidos levavam na palavra o incendio, que se espalhava

de cidade em cidade, de povoado em povoado, narrando desenfeitadamente o

crime do governo de Roma. É certo que a população lusitana estava

cansada das recentes e inefficazes luctas; as cidades confederadas e

estipendiarias queriam o socego da sua vida laboriosa, supportando

sacrificios da liberdade. Nas cidades dos Turdetanos, como Balsa,

Salacia, Cetobriga eccoara imprevistamente o caso nefando da

carnificina, e lamentavam não existirem chefes que organisassem a

resistencia contra o brutal e monstruoso attentado. E se esta

impotencia, ao menos, assegurasse alguns annos de tranquillidade para o

sul da Peninsula! Outro Pretor que venha, diante da impunidade d'este,

até onde levará as depredações e os morticinios!

Os povos que gosavam das garantias de Municipio romano não queriam

mover-se para não decahirem dos privilegios que fruiam concedidos pelo

conquistador; os povos que participavam dos direitos do antigo Lacio

obedeciam á mesma tendencia egoista. Sómente entre os povos na situação

de tributarios poderia surgir um impulsivo instincto, mas impotente de

revolta. Nas cidades dos povos denominados Celticos e Iberos havia um

certo ciume contra a aspiração hegemonica dos Lusitanos; mas nem por

isso se ligou menos interesse ás narrativas dos foragidos da matança de

Galba. Os seus gritos repetidos de terra em terra chegaram a Laucobriga,

a Castraleuco, Arandis, Mirebriga, e os trabalhadores do campo

interrompiam as bessadas para escutarem esse caso estupendo; as festas

religiosas e as nupciaes suspendiam-se á chegada d'essas figuras

sangrentas, que pareciam phantasmas resurgidos do campo da matança para

virem reclamar a eterna vindicta.

Ouvireis o que bradavam esses foragidos, quasi em delirio, alguns

d'elles cahindo no chão esgotados de sangue que ainda vertiam das

feridas, outros borbotando sangue pela bocca, aos gritos convulsivos com

que narravam o caso da mortandade.

--«O Pretor Servio Sulpicio Galba convocou para uma assembléa nas

campinas da margem direita do rio Tagus, os trez Conventos da Lusitania

Emeritense, Pacense e Scalabitano com as trinta e seis Cidades

estipendiarias, recommendando que viessem sem armas, porque se tratava

da distribuição de terras, do estabelecimento de novas Colonias, e de

elevar alguns Povos tributarios aos privilegios de Cidades Confederadas,

de Municipio romano e do antigo Lacio.

«Confiados nas palavras do Edito do Pretor, concorreram ao local que

lhes fôra aprazado, muitos povos, interrompendo as suas lavouras; e como

se fôsse para uma festa de paz e congratulação levaram comsigo suas

mulheres e filhos, e os anciãos mais venerandos das tribus, como

arrefens do seu animo pacifico.

«O Pretor ordenou que se ajuntassem na campina em que tinha mandado

plantar uma _Arvore de Maio_, junto da qual se devia assignar o pacto

perpetuo da concordia com as Tribus lusitanas.

«Emquanto se esperava o Pretor cercado da sua Cohorte, começaram a

apparecer quatro Legiões, que se formaram em _orbis_, estendendo em

ordem de batalha as suas tres fileiras, e envolvendo como em uma grande

muralha toda aquella multidão inerme! Ninguem suspeitava o intuito do

subito envolvimento.

«Os manipulos da Legião, com as suas bandeirolas fôram marcando os

logares, que á frente de todos occuparam os Hastarios; por traz d'estes

ficaram os Principes dispostos de modo a por entre elles poderem recuar

os que lhe estavam em frente; na terceira linha estendiam-se os

_Triarios_, como barreira de resistencia.

«Depois d'isto appareceu a Cavalleria, correspondendo quinhentos

Cavalleiros a cada Legião, armados com o gladio hispanico de dois gumes.

Foi então que um gelido terror se apoderou d'aquelle povo indefenso. As

lanças e chuços dos Hastarios collocaram-se por um movimento repentino

em riste, como formando uma muralha cerrada de espetos.

«O Pretor Galba não apparecia! Um presentimento de morte se estampou na

lividez de todos os rostos, quando viram por detraz dos triarios

moverem-se torres de madeira, catapultas e balistas.

«Com certeza Galba planeára uma infamissima traição! Como fugir-lhe? As

mulheres, em lamentos atroadores, abraçavam os filhos, sem perceberem

ainda o perigo. Os velhos aconselhavam prudencia, esperando serenos as

ordens do Pretor.

«N'este momento de angustia pezados calháos fôram de longe arremessados

por catapultas contra aquella multidão compacta, esmagando alli algumas

centenas de lusitanos. O grito de espanto parecia uma tempestade; os que

tentavam fugir fôram espetar-se e morrer nas fileiras cerradas dos

Hastarios; os que se estreitavam uns aos outros n'um panico

inconsiderado abafavam-se.

«E emquanto iam chovendo os grandes calháos arrojados pelas catapultas,

cahiam sobre a multidão as _Falaricas_ ou lanças incendiarias, que os

Romanos tinham tomado dos costumes hispanos, e outros engenhos

arremessavam panellas de pez e estôpa ardendo, que os Cestrophendones

faziam cahir no meio da assembléa.

«E como se não bastasse tudo isto para destruir aquella gente desarmada,

os Fundibularios baleares mantinham um chuveiro de pedras sempre

certeiras, coadjuvados pelos Arcubalistas.

«A multidão ainda se movia, embora não offerecesse resistencia alguma;

mas Galba, querendo terminar a sua hediondissima traição e vendo que o

sol já declinava, resolveu o final exterminio antes do descer da noite.

Os Cavalleiros recusavam-se á fadiga de passar á espada tantissima gente

inerme que ainda sobrevivia. Foi então que Galba se lembrou de como na

guerra de Macedonia, Paulo Emilio deveu a victoria decisiva ao emprego

da tactica dos Elephantes; e deu logo ordem a que os dez Elephantes

offerecidos por Massinissa aos Romanos para servirem nas guerras contra

os Celtiberos, se empregassem agora para acabarem de esmagar os

temerosos rebeldes Lusitanos.

«Os Elephantes couraçados com chapas guarnecidas de espadas fôram

conduzidos para aquelle montão de gente, cuja carne e sangue formava com

a terra recalcada uma massa horrenda. De baixo das patas dos dez

Elephantes sentiam-se fracassar os ossos das victimas, e o sangue

respingava-lhes até aos peitos, prendendo-se-lhe nas pernas as tripas

que eram casualmente arrancadas na sua passagem.

«A noite vinha descendo caliginosa e um vapor espêsso se erguia dos

valles fundos. Foi então, que ainda d'entre o montão dos cadaveres se

ergueu um vulto surrateiramente, e saltando ao pescoço de um Elephante,

o pezado animal cahiu redondamente morto em terra! As trévas iam-se

engrossando, e o vulto agil e escorreito foi assim saltando sobre cada

um dos Elephantes, que por seu turno iam cahindo mortos! Quem seria esse

vulto extraordinario, que sabia o segredo de dar a morte instantanea a

tão poderosos animaes, em cuja pelle não penetravam os mais pujantes

dardos? Quem quer que fôsse, elle sabia o segredo apprendido nas Guerras

punicas: de que a mais leve picadela no bolbo pela vertebra que toca no

craneo do Elephante fazia-o cahir fulminado instantaneamente. Assim

fôram mortos os dez Elephantes.

«A noite era já cerrada; e enquanto Galba mandára lançar fogo ao montão

dos cadaveres entre os quaes fôram encontrados os dez Elephantes de

Massinissa, d'entre esses cadaveres escaparam-se alguns individuos que

se tinham occultado debaixo dos corpos exânimes, e que se fingiram

mortos: são esses os que andam de cidade em cidade da Lusitania e da

Turdetania pedindo vingança! Vingança! Vingança!»

Por valles e serras, e resoando de monte a monte, entoava-se um Canto de

guerra, que fazia referver o sangue nas veias, exaltando os espiritos

ainda os mais acabrunhados. O Canto podia mais do que a reflexão, e cada

povo accrescentava-lhe uma nova estrophe, como a aspiração do resgate. A

palavra poetica é alada, o pelo prestigio da tradição transpõe as edades

repercutindo-se na alma dos vindouros.

*Baladro de guerra*

Terra da Lusitania,

Ensopada de sangue

Por horrendo baldão!

Chamou-nos o Romano

Para a alliança de paz,

Mata-nos á traição!

Virus de iniquidade,

D'esse fermento de odio

Brote a destruição.

Que a lança dos Quirites

Se quebre, e em nossa frente

Não se erga Legião!

Quem sobrevive ao crime,

E escuta estes lamentos

Da atroz desolação;

Quem perdeu lá seus filhos,

Os paes, entes queridos,

O esposo, o irmão;

Que se revoltem todos,

Peitos sejam escudos,

Lanças raios na mão!

Soffrimento e opprobrio,

A morte e a vingança

Forçam á união!

Vós, Povos da Callaecia,

De Oretania, Beturia,

Cynesia região;

Robustos Carpetanos,

Tartessios, desmembrados

Da Lusonia nação!

Que o mesmo odio nos una,

Vingae mortos, e os vivos

Salvae da escravidão!

Reviva a Lusitania,

Ensopada no sangue

Da romana traição.

V

De todas aquellas povoações até onde chegára o rumor da horrente

catastrophe, partiram homens audaciosos, movidos pela curiosidade para

observarem com os seus olhos os despojos que restavam; alguns não

voltaram mais aos seus lares, porque iam engrossando uma onda dos

revoltados contra tamanha traição. Os que regressavam espavoridos

contavam o assombro que lhes causára o vêr uma ampla campina coberta de

cadaveres incompletamente carbonisados, em volta dos quaes uivavam lobos

em numerosas alcateias, e aguias e abutres que esvoaçavam em bando sobre

a vasta presa, cujo fetido os attrahira de longe. As calmas estivaes

tornavam-se mais intensas, apressando a putrefação de tantos cadaveres;

as fortes nortadas levavam até muito longe os miasmas, e n'uma e n'outra

cidade da Lusitania appareciam ameaços aterradores da peste. Era a

perspectiva de uma mais horrivel devastação, porque se não via o látego

mortifero que flagellava os povos. Um pensamento de piedade pelos mortos

occorreu suscitado pelas calamidades:

--É certo que esses corpos insepultos reclamam dos vivos o cumprimento

de um dever sagrado! Em quanto lhes não dermos sepultura condigna, suas

almas andarão errantes diante de nós, perturbando-nos, perseguindo-nos

até acordarmos do nosso desdem egoista. Carecemos para propria segurança

de lhes darmos sepultura segundo o patrio e antigo costume, quando se

encontra um morto n'um ermo ou n'uma encruzilhada. Que cada cidade,

villar ou aldeia, faça suas peregrinações ao campo da matança, e

seguindo a tradição da piedade, cada um arroje uma pedra para cima dos

cadaveres até que se formem Montes Gaudios, que serão os tumulos

venerandos dos nossos desventurados conterraneos.

Segundo aquelle costume, vogou de cidade em cidade a ideia da funebre

peregrinação, e não eram ainda bem passadas duas luas quando por toda a

Lusitania se operára um movimento que ligava todas as povoações no mesmo

affecto. Os mortos podiam agora mais de que os vivos, porque por via

d'elles se uniam tribus até aquelle dia inconciliaveis, que iam visitar

o campo da matança e lançar suas pedras para erguerem bem alto os Montes

Gaudios, que deviam tornar-se não um simples monumento funerario, mas

uma como torre de protesto e de eterna revolta. Muitos povos dispersos

nas regiões de entre Durio e Minio, entre o Durio e o Tagus e mesmo os

que se achavam para lá da banda de Traz dos Montes, desde a foz do Anas

até ao Mar Cantabrico, adheriram á desolação dos Lusitanos, e mandaram

tambem peregrinações ao campo da matança para que os Montes Gaudios

attestassem aos vindouros que elles se consideravam formando parte

d'este valente e activo povo ribeirinho que dos seus portos de _Lez_ e

das suas bem trabalhadas _Lezirias_ tomára o nome nacional de

_Lusitania_. O ecco da grande catastrophe produzida pela perfidia impune

de Galba chegára egualmente aos confins dos territorios dos Asturios e

Celtiberos. Os Povos denominados Carpetanos, os Vettões, os Vacceos e

Callaecos, que sempre se tinham conservado apartados para o norte da

Hespanha esperando constituir uma Confederação e unidade política sob o

nome de Callaecia, agora sentiam-se dominados pela insondavel fatalidade

que arrastára os destemidos e independentes Lusitanos á maior das

ruinas; elles vierão em magotes vêr de perto a horrorosa mortandade, e

arrojar piedosamente mais pedras para os Montes Gaudios. Esses tumulos

cresciam, como attestando ao mundo, que eram innumeros os corações que

pulsavam por inultos mortos, e que os mesmos braços que arrojaram

aquellas pedras, serão os mesmos que arremessarão as suas lanças e

brandirão as pezadas lorigas contra o fautor da execranda iniquidade.

Assim se fôram formando bandos e numerosas guerrilhas, imperfeitamente

armadas, que clamavam por vingança; e vendo que muitas cidades alliadas

dos Romanos, e outras por temor ou covardia, não tinham vindo celebrar a

cerimonia dos Montes Gaudios, foi contra ellas que arremeteram na sua

ancia de vindicta. Passavam ja de dez mil os Lusitanos que se ajuntaram

em differentes guerrilhas, entregues á aventura e audacia de destemidos

Cabecilhas, que fôram descendo para o sul da Peninsula, devastando e

roubando quantos povos encontravam que estavam no goso do patronato

romano. Chegaram até á Turdetania, essa opulenta região banhada pelo

Betis, tendo por limite da parte do norte o curso do Anas; e levaram a

sua audacia até ao ponto de atacarem a importante fortaleza de Gades, ou

Gadir, como lhe chamaram os Phenicios. Não era sem rasão que os

viajantes phenicios, gregos e romanos diziam que os Lusitanos eram o

povo mais numeroso e valente entre as nações de toda a Iberia.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 14 / 81 题