II

O Tribuno da plebe Aulo Scribonio, estimulado pela accusação de Galba no

Senado, convocou o povo de Roma para o Forum, para pedir-lhe o

julgamento do Proconsul pelo crime de infanda traição. O concurso foi

enorme, tanto mais que desde muitos annos a competencia judiciaria dos

Concilios estava cerceada pela delegação d'esses poderes a um jury ou

Conselho perpetuo.

O Tribuno fallou á multidão, com nitidez e segurança:

--Sabeis que ao Senado, como corpo dirigente da Republica, pertencem os

poderes sobre o Culto, sobre a administração das riquezas do Estado e

principalmente a administração das Provincias. Competia-lhe por isto a

iniciativa da accusação de Galba; mas é obrigação do Tribuno impulsionar

a acção publica, sobretudo quando se trata do crime de alta traição,

como agora, em que é réo Servio Galba! Eis o facto na sua espantosa

crueza: numerosas cidades da Lusitania, que estavam na situação

angustiosa de estipendiarias, vexadas pelos pezados impostos extorquidos

pelos magistrados romanos, tinham requerido ao Senado para lhes ser

concedida em premio de sua fidelidade a situação de confederadas ou

immunes, podendo assim governar-se pelas suas leis consuetudinarias,

pelas suas magistraturas locaes, sem comtudo aspirarem ao goso dos

direitos politicos de cidadãos romanos. Era a base da pacificação da

Lusitania! O Proconsul Galba servindo-se da magestade do povo romano

garantindo esse pedido, convocou as povoações desarmadas para lhes

communicar o Edito do Senado que o legislava, e envolvendo-as nas suas

legiões trucidou traiçoeiramente para mais de trinta mil pessoas, em que

a par dos homens validos estavam velhos, crianças e até mulheres!

O povo permaneceu mudo, sem mostrar commoção alguma pelo quadro da

horrenda carnificina. O advogado Fulvio Nobilior, que fôra encarregado

da defeza de Galba, notou esta circumstancia da insensibilidade moral da

plebe. O Tribuno continuou:

--Para o julgamento d'este attentado contra a magestade do Povo romano,

bem sei, é preciso um exame dos factos, e por felicidade das nossas

instituições sempre perfectiveis, o processo de Galba será formado pelos

Questores, que appresentarão ao Concilio da plebe os seus quesitos,

sobre os quaes effectuareis a votação. O que outr'ora fôra um motivo de

discordia entre o Povo e o Senado é hoje uma harmonia social, por que se

reconhece, que assim como os negocios judiciaes carecem de sciencia

juridica para serem tratados, os assumptos de jurisdicção criminal não

pódem ser sentenciados senão mui reflectidamente. E se a lei tribunicia

Calpurnia avocou estas questões a um jury perpetuo, o Povo sem perder a

sua prerogotiva delegou este poder judiciario aos Questores. Que Servio

Sulpicio Galba seja processado pelo Conselho dos Questores, sendo as

suas conclusões appresentadas á vossa deliberação no mais breve lapso de

tempo.

Depois de se ter calado o Tribuno, appresentou-se diante do povo, que

enchia o Forum, o advogado Fulvio Nobilior, conhecido pela sua extrema

argucia, por um espirito sarcastico, que chegava a tocar as raias do

cynismo. O seu poder nos tribunaes consistia em fazer desvairar as

opiniões, em actuar nas consciencias suscitando a dissolução moral,

tornando ridiculos os sentimentos de piedade ou de humanidade. Era

sempre ouvido com interesse; a multidão comprehendia-o. Quando veiu á

barra, um rumor surdo foi o prenuncio de um grande silencio; o seu

discurso ficou memoravel:

--É accusado o Proconsul Servio Galba de latrocinios na Hespanha

Ulterior, n'essa região, que assenta sobre jazigos de ouro e prata, a

Lusitania! O que tem a fazer um homem culto entre gente barbara, senão

levantar do chão as joias que vê calcadas inconscientemente? Tambem da

Hespanha Citerior, acabado o seu governo de dois annos, regressa a Roma

o Consul Lucio Licinio Lucullo, carregado de assombrosas riquezas, e não

foi accusado de latrocinio, nem de rapinas ou extorsões. E por que,

tendo os dois magistrados seguido os mesmos processos administrativos? A

rasão é evidente. É por que Lucullo soube captar as sympathias,

compartilhando o seu ouro e prata, e gemmas preciosas com os patricios

influentes, que ahi têm assento no Senado; e para desviar a ideia dos

roubos, teve o pensamento de edificar um Templo á Deusa Felicidade, a

quem attribuiu a posse de tantas riquezas! Servio Galba só commetteu um

erro:--quiz tudo para si, dando apenas algumas migalhas aos legionarios,

que o acompanharam nas depredações! D'ahi o odio dos Tribunos da Plebe.

Mas, para que dispender aqui o tempo com uma moral especulativa, se

esses pretendidos roubos ou concussões fazem que Roma regorgite em

riquezas espantosas, trazidas d'essa Hespanha inesgotavel á avidez do

estrangeiro? Só lembrarei, que quando Roma se viu assaltada pelos

Gaulezes, difficil foi ajuntar mil libras de ouro para pagar a imposição

de guerra! E desde que fômos a Hespanha, sete annos antes da terceira

Guerra punica, 16:800 libras de ouro já se achavam no fundo do thezouro

romano! E no começo da Guerra social, o Erario regorgitava com 1:620$829

libras de ouro! Quem não comprehende que a riqueza de Roma não lhe vinha

do trabalho agricola e fabril, mas da guerra em paizes ricos? Foi esta

sempre a nossa politica. Combater, vencer, para civilisar, pagando-nos

por nossas mãos d'este beneficio. Desde que as Legiões romanas pisaram o

sólo da Lusitania, conheceu-se que o ouro nativo ahi abundava em

assombrosos filões, e em palhetas nas areias do Tejo! Nada mais claro

para um Governo intelligente:--submetter esse povo, fazendo-o trabalhar

ao serviço de Roma na exploração das minas de ouro e prata, e de

convertermos esses metaes em ornatos pessoaes, baixelas, e sobretudo em

moedas, que facilitam o commercio do mundo! Evidentemente Roma é a

civilisadora do orbe! Quando Scipião Africano veiu receber em Roma a

apotheose pelas suas victorias sobre os Carthaginezes e Iberos, entregou

ao Erario de Roma trezentas e dez arrobas de prata lavrada, pilhada em

outenta villas e cidades da Iberia! Mas não resam os Annaes romanos da

que o general reservou para si. E o seu successor, Lucio Cornelio

Lentulo? Tambem depositou no Erario mil e trezentas arrobas de prata

lavrada. É incalculavel a quantidade de arrobas de prata que os Consules

e Pretores, que administraram as duas Hespanhas, transferiram das suas

prezas para Roma. E os celebrados dinheiros de Osca? Porém, essa riqueza

só chegava ao Povo romano em alguma festa publica de apotheose; pelo

processo moderno, o povo é mais favorecido, porque essas riquezas

pilhadas na Iberia e na Lusitania são dispendidas em Roma pelos seus

detentores na vida faustosa com que tornam a Cidade a capital da

Civilisação do mundo. E depois, de quem tomou Galba as riquezas que está

espalhando em Roma? De ladrões despreziveis e abjectos, que occupam o

sólo da Lusitania, raça de escravos, impando de ignorancia e orgulho,

indignos do bello céo que os cobre. Eis ahi o crime. Expoliar ladrões,

do que possuem estólidamente, e enriquecer Roma, que mais será preciso

para a apotheose? Galba bem merece do Povo. Fique ao Senado a gloria de

condemnar o valente e magnanimo Proconsul pela affectada questão de

humanidade, da qual nada consta nos sublimes Annaes das nossas glorias

militares, que serão sempre o assombro do mundo! E, que justiça é esta,

que accusa Galba, e deixa no doce olvido o Consul Lucio Licinio Lucullo,

que passou tambem á Lusitania, trucidando os Vacceos a titulo de vingar

os Carpetanos, e mandando a um signal dado passar a fio de espada todos

os habitantes da cidade de Caucia? Se, como dizem os nossos

jurisprudentes, a Justiça é só uma, os historiadores tambem proclamam,

que ha uma só gloria militar:--Vencer! Se hesitarmos nos meios... Roma

perderá o imperio do mundo.

O Povo comprehendeu as cynicas palavras de Fulvio Nobilior; e até o

proprio Tribuno, cumprido o dever do seu cargo, concordava no fôro

intimo com essa doutrina, reveladora de uma crise da consciencia

nacional, em que se preparava para futuro não remoto a transformação das

instituições sociaes e politicas de Roma.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 12 / 81 题