Falta fallar de duas secÁıes, ainda: desenho a claro-escuro e arte

applicada. Na primeira das secÁıes ha um trabalho delicioso de Torquato

Pinheiro, um fino desenho do _Convento de Santa Clara_ de Villa do

Conde, trabalho impeccavel de correcÁ„o e firmeza.

Luiz Bastos, traz-nos retalhos d'essa linda Coimbra a cidade dos

Bachareis, apanhados em estudos varios do Choupal, do Rio Mondego, de

Santo Antonio dos Olivaes, etc. Alguns feitos com mestria.

Na arte applicada, Jorge CollaÁo, o distincto caricaturista do

_Supplemento de O Seculo_. Os seus azulejos s„o interessantes e dignos

de nota, especialisando o grande quadro _Reviravolta_, estudado com

interesse e executado com cuidado.

E eis, meu amigo publico, a impress„o sincera de quem viu a exposiÁ„o

com a independencia caracteristica do seu pensar e com a antecipada

disposiÁ„o de n„o regatear merecimentos a quem os tivesse, nem adular

aquelles que, sendo mediocres, aspiram · enfatuada bazofia de serem

notaveis. Sinceridade e nada mais.

… provavel que os _verdadeiros_ entendedores n„o pensem como eu, mas l·

diz o dictado:--que seria, do amarello se n„o houvesse mau gosto.

Deveria fechar j· aqui a minha informaÁ„o mas vejo l· expostos uns

azulejos, _panneaux_, etc., que se desculpam por serem o reclame de uma

fabrica de Ceramica, porque, se tem sido apresentados como trabalhos

artisticos, ent„o deveriam ser exautorados rigorosamente.

E adeus, que n„o tenho tempo para mais, nem sei mesmo se alguem ter·

coragem de ler isto atÈ ao fim.

[Figura: Barcos de pesca--JULIO RAMOS]

XXIII

AMADORES PORTUENSES

ALBERTO AYRES DE GOUVEIA

Discipulo de MARQUES DE OLIVEIRA

Este meu biographado n„o È precisamente um amador; poderia, sem receio

ele ser contraditado, e sem medo de errar, incluil-o francamente no

numero dos nossos mais distinctos pintores, e isso porque os seus

trabalhos artisticos s„o de molde a dar-lhe esse fÙro.

Alegro-me ao escrever este artigo, e alegro-me porque È sempre com

consolo que me refiro ·quelles que, possuidores de algum valor, se n„o

deixam adormecer · sombra ele alguns louros colhidos na paz doce da

mandria, antes tentam a mais e mais fixar as suas aptidıes, n'um

trabalho serio e proveitoso.

E, Alberto Ayres tem feito isto. Desde que se emprehendeu a pintar tem

trabalhado com afinco e muitissimo proveito.

[Figura: Alberto Ayres de Gouveia]

Conhecia de ha muito este rapaz, que, pela sua avultada fortuna, pelas

relaÁıes de familia, e por viver na alta roda, onde se dava o prazer de

ser um dos eleitos, eu tinha na conta de um excellente cavalheiro, um

fino homem de sala, cavaqueador com espirito e mais nada!

Mas, enganei-me redondamente, o que n„o È para admirar, porque acontece

a muito boa gente.

O meu biographado era tudo aquillo e ainda mais alguma coisa:--um amador

_enragÈ_ da pintura.

Como soube eu isto e como tive emfim a confirmaÁ„o do seu merecimento

artistico? Vou tentar dizel-o em poucas palavras.

Nas noites frias de inverno temos por costume reunirmo-nos alguns amigos

em cavaqueira alegre e discutimos n'essas occasiıes muitissimas coisas,

problemas d'Arte, mundanismo, casos alegres do dia, philosophando de vez

em quando sobre politica, litteratura, celebridades, theatros, etc.,

etc. N„o È um cenaculo, nem uma academia, È um _cercle_ algo espiritual,

onde a alegria tem especialmente o seu logar.

Pois n'uma d'essas cavaqueiras abordou-se o assumpto pintores e

amadores, e entre outros nomes veiu · tela da discuss„o o nome de

Alberto Ayres de Gouveia, que um dos circunstantes conhecia

perfeitamente.

Elogiou-o, fez a historia da sua aprendizagem d'Arte e eu fiquei como se

costuma dizer com a _pedra no sapato_ e, como observador que sou, tratei

immediatamente de me informar do merecimento verdadeiro ou falso d'este

amador.

De divagaÁ„o em divagaÁ„o e de informe a informe, vim a concluir que o

meu amigo tinha muita raz„o e que Alberto Ayres era de facto um rapaz de

incontestavel merecimento artistico.

Mas, n„o sÛ como pintor elle deveria ser apreciado, como auctor e amador

dramatico tambem. Eu me explico.

Um anno, estando a banhos como de costume, na formosa e aristocratica

praia da Granja, alli deu as suas provas de amador, desempenhando, n'uma

festa de caridade, alguns papeis de umas deliciosas comedias, que elle

proprio tinha escripto, e que, segundo entendedores do genero, eram

verdadeiras joias litterarias finamente buriladas.

E, com esta minha eterna mania de conversar, uma tarde, no atelier do

meu muito amigo e infeliz Manuel San Rom„o, fallando-lhe dos

divertimentos da Granja e a respeito do baile Luiz XV que alli se dera,

das finas recitas que a gentil colonia alli a banhos, costuma realisar,

o nome de Ayres de Gouveia foi citado e eu disse como me tinham

inspirado sobre o seu merito litterario e artistico.

Manuel San Rom„o, com aquelle seu modo correcto e fino e aquelle seu

espirito ousado e emprehendedor, n'um gesto todo de enthusiasmo

fallou-me d'elle dizendo, que no que elle era notavel era na pintura e

citava um formoso retrato do Snr. D. Antonio Ayres de Gouveia, ent„o

Bispo de Bethesaida, hoje Arcebispo da Calcedonia e tecendo-lhe os mais

rasgados elogios, affirmou-me que elle era um amador que havia de futuro

marcar epocha entre os artistas (mestres) portuguezes.

[Figura: A palavra do Mestre--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

A opini„o de Manuel San Rom„o, era para mim como uma pagina do

Evangelho; elle que lhe via merecimento era porque na verdade o tinha.

O retrato se n„o era uma maravilha, dizia San Rom„o, era no entanto uma

obra acceitavel e cheia de bellos predicados, um verdadeiro quadro

tocado com proficiencia, desenhado com saber, d'um colorido doce e d'uma

mais que regular semelhanÁa.

Ao ouvir isto, logo se me arreigou no espirito a ideia de que elle tinha

talento e me nasceu o desejo de ter de _vizu_ a confirmaÁ„o d'isso, o

que sÛ poderia conseguir visitando o seu atelier e a sua galeria, pois

que elle, nem expunha, nem vendia os seus trabalhos.

Como conseguir porÈm isto? Quasi impossivel, porque o amador fugia ·

visita que eu tentava fazer-lhe, querendo assim deixar-se ficar no

encoberto mysterio d'uma modestia, que n„o tinha raz„o de existir.

Passara-se tempo, muito tempo, sem que eu tivesse o prazer de,

encontrando-o, lhe manifestar o desejo que tinha de n'uma visita ao seu

atelier, vÍr o que elle tinha realisado em Arte.

Em 1902, abre uma das exposiÁıes que o Instituto de Estudos e

Conferencias t„o proveitosamente tem organisado e realisado no Pateo da

Misericordia. Era um magnifico dia de _vernisage_, e eu ao entrar sou

immediatamente attrahido d'um modo particular e suggestivo, por umas

poucas de telas que me saltam · vista impressionantemente. Tomo do

catalogo e folheando inquiri quem È o seu auctor. O nome de Alberto

Ayres de Gouveia era o que se lia por cima dos numeros que eu procurava.

Eram, de facto, de molde a impressionar os trabalhos expostos. ¡ mente

me saltou, como uma doce recordaÁ„o, a conversa que tivera com Manuel

San Rom„o e immediatamente me convenci de que quem pintava aquelles

quadros n„o podia ser apellidado de simples amador.

Era indiscutivelmente muito mais do que isso, era um verdadeiro artista

e com trabalhos taes, que alguns pintores, com nome feito, n„o

desdenhariam assignar.

Em artigo que n'outro logar publÌco a elles me referi e alli disse

alguma coisa do que pensava a tal respeito. Agora porÈm que dedico ao

seu auctor duas paginas do meu livro, em especial, n„o ser· demais

tornar a fallar d'elles.

Eram para mim esses trabalhos primorosos, mas, se alguns defeitos tinham

eram elles por si t„o insignificantes que apenas mereciam o reparo

ligeiro e unicamente indicativo, sem que viesse aggravado com a

investida descortez e brutal de certa critica imperduravel e muitas

vezes inconsciente. Porque os trabalhos expostos eram indicados no

catalogo simplesmente como d'amador, mas d'amador distincto e correcto

em verdade.

E bastava sÛ isto, que elles fossem de amador, mas feitos firmemente com

largueza de traÁo, precis„o de cÙr, correcÁ„o de desenho e de

perspectiva, definidos emfim como de verdadeiro artista, para espantar a

critica de campanario e os entendedores _bon marchÈ_.

E tudo isto porque? Porque habitualmente os amadores quando apparecem em

publico com trabalhos seus, s„o estes t„o banaes e t„o simples que

passam perfeitamente desapercebidos entre os trabalhos dos artistas, sem

lhe fazerem mossa, ou sem lhe provocarem confrontos.

Com Alberto Ayres, porÈm, n„o se dava isso, apparecia pela primeira vez,

mas t„o desassombradamente e com trabalhos de tal folego, que atÈ houve

quem n„o quizesse acreditar que eram d'elle. Mas eram e t„o bons que

poderiam entrar com gloria em qualquer concurso, pois tenho a certeza

que ao seu auctor seria dada uma primeira classificaÁ„o.

[Figura: Christo morto--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

Ent„o È que mais e mais se me encasquetou na cabeÁa a ideia de observar

toda a sua obra, conhecel-o no seu intimo, na sua maneira de vÍr e de

pintar, e depois de um assedio em forma consegui que elle me desse a

honra de permittir-me uma visita d'Arte. E visitei ent„o a sua

formosissima casa, onde se espalham artisticos _bibelots_ e bellos

trabalhos de muito valor artistico. Fiz esta visita cheio d'uma suave

uncÁ„o que se deve aos templos onde se sacrifica a um Deus. N'aquella

casa sacrificava-se a Deusa Arte e por isso reverente alli me conservei.

Conversando durante algum tempo contou-me a sua iniciaÁ„o na arte de

pintar, e como, sob a competente e abalisada inspecÁ„o do grande Marques

d'Oliveira, pÙde conseguir o que fazia.

Desenhou muito, e quando lanÁava os seus vÙos para mais alto, sob

indicaÁıes do professor, foi em viagem artistica pela Europa, aos paizes

onde mais afincadamente se rende culto · Arte e alli estudou nos museus

e nas escolas de pintura alguma coisa que lhe dÈsse conhecimentos uteis.

E assim, analysando e estudando os quadros geniaes dos mestres e

acompanhando os adeantamentos e os progressos das novas escolas,

percorreu os muzeus de Madrid, Paris, Londres e Italia, n„o com a

despreoccupaÁ„o de um _touriste_, mas com a observaÁ„o religiosa d'um

crente, sob a indicaÁ„o e a companhia de Marques de Oliveira, seu

professor e que È entre os que pontificam na Pintura, um dos que mais

sabiamente sabem vÍr, porque È dotado d'um espirito critico especial e

finissimo.

Da visita que fiz ao atelier d'este distincto amador, ficou a mais grata

e a melhor das impressıes.

D'entre as telas que vi, as que mais fundamente me impressionaram foram

a _Leitura das prophecias_, _Retrato do Ex.^{mo} e Rev.^{mo} Snr.

Arcebispo de Calcedonia_, _A palavra do Mestre_, _Retrato do proprio

auctor_, _Retrato de A. Burnay_, _Estudo_, _Baixo imperio_, _Appolo_ e

_CabeÁa d'estudo_ (carv„o), que s„o admiraveis.

[Figura: S. Jo„o lendo as prophecias--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

D'alguns d'estes trabalhos, apresento as gravuras, que pude conseguir,

quebrando quasi · forÁa a modestia do meu biographado.

El-Rei D. Carlos, n'uma visita que fez · ExposiÁ„o de Bellas-Artes em

Lisboa, fez menÁ„o especial dos seus quadros, chamando-lhe pintor

notavel e de pulso.

E de facto El-Rei n„o se enganou porque Alberto Ayres de Gouveia est· na

galeria dos artistas de pintura portuguezes mais distinctos.

[Figura: Paisagem--CANDIDO da CUNHA]

[Figura: Estudo--JO√O AUGUSTO RIBEIRO]

XXIV

Uma ExposiÁ„o de Estatuetas

FRANCISCO GOUVEIA

J· era tempo de dedicar algumas palavras de justiÁa, ao distincto

artista Francisco Gouveia, ·cerca da visita que fiz · sua magnifica

exposiÁ„o de esculptura, aberta aqui no Porto, no Sal„o da Photographia

Guedes, e cumprir o dever gratissimo de corresponder · galanteria e ao

modo penhorante como elle me acolheu.

E faÁo-o, porque nunca antepuz · manifestaÁ„o de admiraÁ„o pelos

trabalhos de qualquer artista de valor, outra qualquer manifestaÁ„o.

[Figura: Francisco Gouveia]

A Arte, para mim a mais sublime das cousas, a mais insinuante das

manifestaÁıes, tem um logar t„o alto, t„o deslumbrante, t„o culminante

que em frente d'ella eu julgo-me insignificantemente pequeno, e

curvando-me reverente, fico depois extatico, cheio d'uncÁ„o na mais

santa e na melhor das adoraÁıes.

Por isso, ao abalanÁar-me ao cumprimento d'um dever sagrado, eu

commetteria um crime de lesa-religi„o artistica se n„o dedicasse algumas

paginas · deliciosa exposiÁ„o, que ha tempos tive o prazer de visitar.

J· o tenho dito varias vezes e hoje o repito: eu sempre que tenho ensejo

de admirar uma obra de arte, pintura, esculptura, musica, ou seja o que

fÙr, nunca falto; sou dos que vou primeiro, e, quasi sempre, dos que

sahem no fim.

… facil ficar perfeitamente embasbacado em frente d'um quadro, ou d'uma

esculptura, durante horas, alheio a tudo quanto se passa em volta de

mim, tal me tem succedido ante as obras de MalhÙa, Salgado, Carlos Reis,

Marques de Olivieira, etc., e como em nenhumas outras, ante as

extraordinarias creaÁıes do sublime Teixeira Lopes.

Por isso, como um fanatico pela Arte eu accorri ao Sal„o da Photographia

Guedes a vÍr os trabalhos, j· para mim conhecidos de nome, do nosso

querido concidad„o Francisco Gouveia.

Que este artista, como todos os bons esculptores portuguezes, tambem È

filho do Porto.

Francisco Gouveia, era um nome que se impunha j· de ha muito ·

consideraÁ„o e · admiraÁ„o de todos nÛs, porque l· fÛra, no estrangeiro,

affirmava exhuberantemente, com os seus trabalhos, que nÛs os

portuguezes tambem somos capazes de dar provas evidentes e definidas de

intellectualidade e aptid„o artisticas.

[Figura: Teixeira Lopes--F. GOUVEIA]

Entre muitos dos seus bellos trabalhos destacarei, para fazer notar

aqui, o seu _Beatriz de Portugal_, que marcou d'uma fÛrma confirmativa e

energica o seu saber e o seu modo de esculpir.

Este trabalho ao apparecer em Paris, de tal nomeada foi cercado, que

mereceu a honra de ser reproduzido em diversas illustraÁıes

estrangeiras, onde se fizeram referencias honrosamente dignas ao nome do

nosso artista.

Mas, como diz Xavier de Carvalho n'um pequeno esboÁo critico a respeito

de Francisco Gouveia: ´quiz ser o artista naturalista no minucioso

detalhe, comeÁando por nos dar um _EÁa de Queiroz_ apanhado n'uma _pose_

verdadeiramente natural e sincera. Depois temos a serie das suas

esplendidas estatuetas, t„o cheias de vida plastica, d'um correctissimo

desenho, mesmo quando o esculptor passa da maneira emocional do seu

mestre querido Injabert · larga _Èbauche_ de Rodin que mesmo chegou a

attingir na silhueta do grande artista rebeldeª.

E de facto assim È. Francisco Gouveia realisou este _desideratum_ e ao

abrir ao publico indifferente e · critica honrada e honesta d'uns,

venenosa e malsinada d'outros, a sua exposiÁ„o, fel-o, sem aspirar as

louvaminhiches dos primeiros nem temer boas ou m·s apreciaÁıes dos

segundos. Fel-o como affirmaÁ„o publica do seu talento artistico e da

sua persistencia do trabalho, fel-o como era justo que o fizesse.

Para isso traz-nos 78 trabalhos qual d'elles o mais fino, qual d'elles o

mais correcto, qual o mais bem estudado, e mais bem executado.

Desde a estatueta sÈria · estatueta caricatural, desde os medalhıes

graves ·s mascarasitas patinados, nada ha alli que n„o seja correcto e

que n„o seja perfeito.

Estudos regularmente anatomisados, dando o individuo em todo o seu ser,

em todo o seu aspecto, com todo o ar natural, parecendo mover-se regular

e compassadamente, vivificados, com movimentaÁıes naturaes, express„o

definida no rosto. E tudo isto em estatuetas que variam entre 40 e 60

centimetros d'alto.

Mas, ha para mim, entre todos os trabalhos expostos, um, que È dos mais

extraordinarios--a caricatura psychologica do grande morto _EÁa de

Queiroz_!--Fulgurantissima de genio. Vemos n'ella, n'aquelle bronze,

atravez da esgrouviada figura do romancista que nos assesta o monoculo

n'uma persistente meticulosidade de observador a sua alma analysta, com

um quÍ de sarcastico, como sorrindo-se interiormente de toda esta nossa

sociedade, que elle olha atravez da sua impertinente lente. …

simplesmente assombroso.

[Figura: EÁa de Queiroz--F. GOUVEIA]

A minha vontade era fazer notar uma a uma as estatuetas, as composiÁıes,

as caricaturas, as medalhas, mas isso È impossivel e portanto, em mais

duas palhetadas vou fechar este artigo.

Entre os trabalhos _estatueta-retratos_, muitos d'elles de pessoas

nossas conhecidas, ha alguns com quem appetece conversar um pouco. A do

_Marcos Guedes_, a do _Pae Ramos_, (ambos estes collegas do _Janeiro_),

a do _Snr. Caetano Pinho da Silva_, a do nosso querido _Teixeira Lopes_,

a de _Guedes d'Oliveira_ s„o magnificas. Ha tambem um retrato do grande

poeta _Guerra Junqueiro_ (phantasia), que È muito interessante. Guerra

Junqueiro È apresentado com uma tunica que lhe cae sumptuosamente como a

um propheta, tendo o braÁo direito levantado em menÁ„o de quem prÈga o

Evangelho, e no braÁo esquerdo as taboas da lei. … delicioso de

concepÁ„o e de execuÁ„o.

Na _estatueta-composiÁ„o_ destacarei: _A viajante_, _A primeira

esculptura_, _A parisiense_, _A tristeza_, _MeditaÁıes_, _Grupo de

leitoras_, _Saudades_ e _Ama parisiense_ (do jardim de Luxemburgo).

[Figura: Marcos Guedes--Guedes d'Oliveira--Guerra Junqueiro--_Pae

Ramos_--FRANCISCO GOUVEIA]

Mas que estou eu aqui a destacar, se todas ellas s„o boas, se todas

ellas me encantaram?!...

As outras, terras-cotas, bronzes, etc., s„o, como estas, deliciosas

obras, que merecem ser vistas e apreciadas devida e detalhadamente.

N„o È esta exposiÁ„o de molde a ser visitada como uma exposiÁ„o de

quadros, onde as cÙres nos venham de longe em varias tonalidades, ·

vista. N„o, aqui precisamos de parar, analysar feiÁıes, expressıes,

linhas, tudo, emfim. … preciso deixar a vista pousar durante um pouco,

para examinar toda aquella perfeiÁ„o, toda aquella correcÁ„o, que n„o se

pÛde vÍr · _vol d'oiseau_. … preciso fazer como eu fiz, estar l· horas e

voltar l· mais vezes, que de cada vez que se l· volta novas cousas se

descobrem nos trabalhos expostos. Quem vÍ sÛ uma vez, quasi sempre n„o

vÍ nada.

Vou acabar por aqui, antes, porÈm, devo dizer que Francisco Gouveia È um

d'estes rapazes insinuantes, com quem se sympathisa logo que se falle

com elle uma vez.

Modesto em extremo, È um trabalhador de verdadeiro merito, e um espirito

lucidissimo. E eu, ao fechar o meu artigo para as Notas d'Arte, aqui lhe

deixo significadas, ainda que muito pallidamente, a minha admiraÁ„o ao

seu grande talento artistico e a convicÁ„o de que o seu nome tem o

direito indiscutivel de figurar a par do dos nossos primeiros artistas,

pois exuberantemente conquistou um dos primeiros logares, como sacerdote

magno, no templo da sublime Arte Portugueza.

[Figura: Paisagem--LUCILIA ARANHA GRAVE]

[Figura: Teixeira Lopes]

[Figura: Caim--TEIXEIRA LOPES]

XXV

MANUEL MONTERROSO

Tenho para mim este modo de pensar, talvez exotico, mas convicto, de que

a caricatura È um maravilhoso remedio para muitas doenÁas sociaes.

Bem sei que nem sempre a cura se faz e a caricatura È applicada sem

resultados praticos. Mas, muitas vezes, a maior parte d'ellas, a

applicaÁ„o adquada, d'uma caricatura, no momento psychologico, produz

tal revoluÁ„o no meio onde È lanÁada, que a doenÁa social desapparece

como por encanto.

[Figura: Manuel Monterroso]

Com todos os remedios acontece a mesma coisa. Quantas vezes um illustre

clinico applica um caustico, cheio de confianÁa, convencido que dentro

de duas horas a pelle do doente estar· levantada e suppurante, e apesar

do medicamento estar em pleno effeito, o caustico falha, ou porque o

doente j· n„o d· reacÁ„o para que o resultado seja satisfatorio, e

n'esse caso est· morto, ou ent„o por que a pelle È de tal fÛrma grossa e

callejada que n„o ha nada que a possa atravessar e remover!

As doenÁas da sociedade s„o tal qual as doenÁas dos homens. E ella

propria tambem tem anomalias como qualquer doente.

Uma sociedade morta, ou quasi a dar o ultimo suspiro, pÛde ser

causticada com caricaturas, que n„o resurgir·. E o mesmo succeder· se

ella pela desfarÁatez dos seus caracteres fÙr uma sociedade _estanhada_,

endurecida e callejada. Mas se entre essa sociedade alguma coisa houver

ainda que vitalmente sinta as picadas ardentes da caricatura, ent„o ella

resaltar· e viver· pondonorosamente espurgada do mal que a amortecia e

definhava.

[Figura: Dr Leopoldo Mour„o--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada

na _Voz Publica_]

A mesma revoluÁ„o se faz na vida social dos homens isoladamente.

Caricaturados por um lapis mordaz, mas fino, que os apresente · irris„o

publica, sob qualquer dos seus aspectos ridiculos, elles remorder-se-h„o

na sua vaidade intima e, procurar„o, embora disfarÁadamente, curar-se

dos seus defeitos, se È que o mal da desfarÁatez os n„o contaminou t„o

intimamente, que os tenha posto por completo fÛra da acÁ„o benefica,

embora torturante do medicamento.

Muitos, muitissimos factos poderiam ser apontados como provas

indiscutiveis e irrefutaveis, se quizessemos d'um modo affirmativo e

terminante impÙr a nossa opini„o. Mas, n„o, n„o temos nem esse desejo,

nem essa vaidade. Ao delinear estas linhas, simplesmente o fazemos como

o _avant-propos_ · apresentaÁ„o que tentamos fazer d'um dos mais

distinctos medicos portuenses, e no momento presente o primeiro

caricaturista portuguez.

Hoje que infelizmente perdemos o maior de todos os nossos

caricaturistas--o grande, o incomparavel mestre--Bordalo Pinheiro, posso

dizer abertamente que Manuel Monterroso È entre nÛs o unico capaz de

seguir t„o gloriosamente como o Mestre, as suas deslumbrantes pisadas e

seu genio fulgurante e radioso.

[Figura: Uma pagina da _Parodia_--MANUEL MONTERROSO]

E, n„o quero que Monterroso me agradeÁa estas verdades sinceras que me

saltam da penna, ditadas pelo pensamento, espontaneamente, lealmente,

taes como as sinto. N„o, nem o meu fim È esse. Se lhe dedico algumas

palavras È porque na minha pequenez de insignificante amador de Arte,

tenho por elle, pelo seu lapis fino e caustico e pelo seu muito talento

artistico, uma profunda admiraÁ„o.

Extasiava-me diante das caricaturas de Bordalo com a veneraÁ„o adoravel

de verdadeiro admirador, do engraÁado, do mordaz, do bello e do

correcto.

Hoje ante o traÁo fino, seguro, preciso e mordaz de Monterroso tambem me

permitto ficar extasiado. E tudo isto porque o considero um optimo

caricaturista, um perfeito desenhista.

Incapaz, como sou, de faltar · verdade, n„o escrevia que o achava

grande, nem o diria t„o afoitamente, se n„o estivesse, como estou,

convencido de tal.

N„o digo isto, È bom que se saiba, para me dar ares; digo-o porque

rebuscando e procurando na pequena galeria dos caricaturistas

portuguezes, n„o encontro nenhum que possa passar-lhe adiante. Nem mesmo

o Manuel Gustavo, que ainda assim, para, mim, È um dos melhores.

[Figura: Jo„o Oliveira Ramos--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada

na _Voz Publica_]

Pois, nem mesmo esse, que t„o intimamente conviveu com o Mestre, que t„o

de perto recebeu as suas liÁıes, pÛde dizer ousadamente a Manuel

Monterroso:--eu valho mais do que tu... o primeiro logar pertence-me...

Por que de facto n„o vale. Manuel Monterroso tendo a intuiÁ„o natural de

_fazer bonecos_, (como elle diz), conhecendo anatomicamente o homem (ou

elle n„o tivesse sido um dos bons discipulos do terrivel Lebre[1],

possuidor d'uma retentiva verdadeiramente photographica, elle, vendo uma

vez um individuo, apanha-lhe immediatamente, n„o sÛ as linhas geraes,

mas os mais pequenos detalhes caricaturaes: e, n'estas condiÁıes, com

estes predicados e alem de tudo isto uma boa dÛse de talento, realisa

desenhando verdadeiras obras primas.

[Figura: Raphael Bordallo Pinheiro--Caricatura em barro de MANUEL

MONTERROSO]

Fulgurantissimas de graÁa s„o as varias paginas, que muitas vezes, de

collaboraÁ„o com os litteratos Campos Monteiro e Guedes d'Oliveira,

viram a luz na _Parodia_.

Notavel como trabalho de verve fina e delicadissima a caricatura que foi

offerecida ao Dr. Jo„o Pereira Dias Lebre, professor de anatomia da

Escola Medica do Porto, no anno em que elle se jubilou.

Notaveis os seus trabalhos, que tem distribuidos por amigos, em

amistosas dadivas.

Notas d'arte · 第 9 / 10 段