Por vicios de organisação ou por natureza, os governos democ

Produced by Pedro Saborano

JAYME DE MAGALHÃES LIMA

A DEMOCRACIA

ESTUDO

SOBRE O GOVERNO REPRESENTATIVO

PORTO

TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

Rua da Cancella Velha, 70

1888

A DEMOCRACIA

JAYME DE MAGALHÃES LIMA

A DEMOCRACIA

ESTUDO

SOBRE O GOVERNO REPRESENTATIVO

PORTO

TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

Rua da Cancella Velha, 70

1888

Creio ser actualmente o momento mais opportuno para discutir o governo

democratico. Embora as questões economicas, vulgarmente denominadas

«questões sociaes», tenham presentemente a preeminencia politica, os

governos representativos apresentam uma tal desordem e corrupção que é

urgente saír d'um estado manifestamente perigoso, cujo ultimo termo é

difficil de prevêr.

A sciencia politica, se não nos dá um remedio seguro e prompto, auctorisa

pelo menos tentativas de melhoria com probabilidades de bom exito. D'este

numero é a representação por classes, para que lentamente se teem

encaminhado os governos representativos.

Os recentes desmandos do parlamento e o ultimo congresso agricola reforçam

esta opinião. Todos concordam em que o regimen parlamentar não póde viver

n'este fogo de guerrilhas, ao mesmo tempo que todos reconhecem que o

congresso agricola, embora chegasse a conclusões em grande parte

inacceitaveis, teve a vantagem de nos tornar bem patentes os soffrimentos e

aspirações da lavoura, significando simultaneamente que o paiz não se julga

representado no parlamento. Esta sobreposição de representantes leva-nos a

perguntar quaes são os representantes legitimos.

Em todo o caso, a situação é difficil e a discussão proveitosa. Por isso

ouso acreditar que não perderei o meu tempo colhendo em duas excellentes

publicações estrangeiras algumas ideias sobre a materia que, sob nova fórma

e coordenação e juntamente com observações proprias, hoje apresento ao

publico portuguez.

Não precisarei decerto encarecer a auctoridade de Sumner Maine, cujo livro

me serviu de texto principal. A perda recente do sabio investigador das

instituições primitivas, que o mundo scientifico unanimemente deplora, deu

logar a que se recordassem os seus serviços e a que mais uma vez se

reconhecesse que foi um dos homens que maior influencia tiveram no

pensamento contemporaneo.

A DEMOCRACIA[1]

I

O futuro da democracia

Quem ha cincoenta annos tivesse a coragem de publicar um livro como o de

Sumner Maine, seria julgado visionario ou apaixonado, que não via ou não

queria vêr os esplendores d'um regimen politico que promettia á humanidade

uma nova era toda radiante de riqueza, de paz e liberdade. Hoje não; o seu

eloquente libello é tido como um livro sincero, que encerra porventura

alguns erros entre punhados de verdades, mas que, não obstante, é credor da

mais larga e serena discussão.

Perderam-se illusões paradisiacas; e a politica, como a litteratura,

tornou-se realista, consciente das condições da vida real, limpa de

abstracções perigosas e das concepções _a priori_ que tão profundamente

revolveram as instituições e com tão hypotheticos beneficios.

Já nos é licito perguntar, sem incorrermos no perigo de sermos accusados de

inimigos da civilisação, se as actuaes fórmas de governo democratico estão

destinadas a durar e alargar-se indefinidamente.

Entretanto, a corrente democratica cresce continuamente, são poucos os que

duvidam e muitos ainda os que teem a democracia como um dogma contra o qual

de nada valem os factos. Para estes, os desastres dos governos democraticos

são qualquer coisa como as manifestações do atheismo que, para os crentes,

em nada prejudicam os attributos dos deuses.

Todavia este facto, esta crença nas virtudes absolutas mas indemonstradas

d'uma fórma de governo, não é garantia bastante dos progressos da

democracia. Em 1758, escrevia Lord Chesterfield que «todos os symptomas que

jámais tinha visto marcarem na historia a approximação de grandes

transformações ou revoluções, no seio d'um governo, existiam áquella hora e

progrediam diariamente em França.» Os historiadores nossos contemporaneos

pasmam de que «a côrte, a aristocracia e o clero não tivessem comprehendido

que em face da irreligião que cada dia estava mais em voga, a crença nos

privilegios de nascimento não podia manter-se por mais tempo. Deveriam vêr

a ameaça de perturbações imminentes na odienta inveja das differentes

classes. A miseria sordida dos camponezes deveria tel-os preparado a um

formidavel levantamento social. Poderiam ter observado as causas immediatas

d'uma revolução na desordem das finanças e na grosseira desigualdade dos

tributos.»

As previsões que seriam possiveis ou que se nos afiguram taes, não se

realisaram; e a revolução rebentou, apesar de ser lenta a accumulação dos

seus elementos. É que oito seculos de monarchia absoluta em que os seus

principios se foram radicando gradual e constantemente, tinham posto aos

olhos de naturaes e estranhos a fórma de governo como perpetua, e não se

percebia como um regimen que tinha feito a unidade e a grandeza da França

podesse algum dia ser destruido. Ainda em 1742, Hume attribuia a

prosperidade da nação francesa ao seu regimen politico e «via mais causas

de degeneração nos governos livres como a Inglaterra, do que na França, o

mais perfeito modelo da monarchia absoluta.»

Assim nós estamos hoje. A democracia victoriosa afigura-se-nos invencivel e

já não concebemos progresso fóra do seu imperio. Mas porque esta cega

confiança? Acaso não nos terá reservado o futuro um desengano semelhante ao

que soffreu a geração que assistiu á Revolução franceza? Não terão os

governos democraticos fermentos de dissolução sufficientes para nos fazerem

duvidar da sua estabilidade? Vejamos.

Mas antes, convém definir o sentido restricto, talvez excessivamente

restricto, que damos aqui á palavra _democracia_.

Maine entende por democracia unicamente uma fórma particular de governo. Ha

duas maneiras de conceber o governo d'uma sociedade, e d'ahi duas

differentes maneiras de apreciar as relações entre governantes e

governados: ou o governante é superior ao vassallo, é seu chefe, tutor e

guia e qualquer que sejam as suas faltas os governados devem-lhe todo o

respeito e em caso algum poderão retirar-lhe a sua auctoridade; ou os

governantes são simples agentes e mandatarios dos governados o n'este caso

a censura é um direito, a origem da auctoridade reside nos governados que a

dão ou a retiram como julgam mais util.

Exceptuando a Russia e a Turquia em que a primeira fórma de governo se

mantem ainda em toda a sua pureza, todos os paizes da Europa, embora

tenham adoptado fórmas mixtas, de transição, reconheceram a soberania

popular, isto é, fazem derivar a auctoridade da vontade dos governados. É

esta fórma de governo que Maine chama democracia; e esta mesma significação

lhe attribuirei n'este estudo para evitar uma confusão tão prejudicial como

seria a de me servir d'um termo com valor differente para cada um de nós.

D'onde nos veio esta fórma de governo? Será difficil dizel-o com rigor, a

meu vêr. A constituição ingleza, a fundação dos Estados-Unidos da America,

a Revolução franceza foram inquestionavelmente dos elementos que mais

concorreram para as transformações politicas em favor da democracia no

ultimo seculo, mas parecem-me insufficientes para darem explicação cabal de

tão largas revoluções. Seria preciso juntar-lhes as obras dos philosophos e

dos sabios que prepararam o espirito popular, e as condições em que o

progresso scientifico collocou a producção da riqueza; seria principalmente

preciso estudar as circumstancias historicas, que determinaram o

estabelecimento da democracia, circumstancias differentes para cada nação.

Passando da questão de origem á historia dos governos democraticos, vemos

que esta fórma de governo se tem mostrado até hoje d'uma grande

instabilidade; e assim como a sua diffusão rapida através de todos os

paizes da Europa nos leva a suppôr que deveriam existir causas de ordem

geral e communs a todos os paizes, assim tambem a instabilidade do novo

regimen em todas as nações que o adoptaram obriga-nos a suspeitar de que

certamente contraría qualquer tendencia ou elemento essencial das

sociedades modernas. É conhecida a historia da França que, em menos d'um

seculo, está na terceira republica e tem visto alternarem-se monarchias,

imperios e republicas com uma regularidade quasi periodica; a Hespanha,

«entre o primeiro estabelecimento popular em 1812 e a accessão do ultimo

rei, não teve menos de quarenta levantamentos militares de natureza grave,

á maior parte dos quaes se associou a plebe: e sabe-se geralmente o que

teem sido e são ainda as republicas da America. Só na Bolivia, de quatorze

presidentes da republica, treze, morreram assassinados ou no exilio. Se

exceptuarmos a Belgica, os Estados-Unidos e ainda a Italia, poderemos dizer

que por toda a parte os governos populares funccionam mal e não raro são

origem de perturbações sociaes quasi permanentes.

Podemos concluir da sua historia que a democracia não se nos apresenta como

tendo um largo futuro, e é mesmo a fórma de governo que se tem mostrado

mais fragil, mais facilmente sujeita a constantes mutações.

«É possivel encontrar as causas d'esta singular falta de equilibrio dos

tempos modernos? É, a meu vêr, em certo modo. É preciso notar que, desde o

começo do seculo presente, dois sentimentos nacionaes bem distinctos actuam

sobre a Europa occidental. Para lhes dar o nome que lhes dão os que os

detestam, um é o Imperialismo e o outro o Radicalismo.»

Todo o homem observador terá notado que em todas as nações modernas ha uma

larga aspiração de engrandecimento, de ordem e de independencia. Isto que

no individuo adquiriu tal desenvolvimento que chega a constituir um dos

generos mais vulgares de loucura, o delirio das grandezas, a sêde de

riqueza e poder, manifestam-se na sociedade com igual intensidade. E um

paiz para ser grande, para dar realisação a este sonho absorvente,

necessita um grande exercito, precisa «ter em armas uma quantidade de

homens quasi igual á totalidade dos varões na flôr da edade.» Ora o

Imperialismo e a democracia são irreconciliaveis; a condição por

excellencia do primeiro é a obediencia, e a base fundamental dos governos

populares é a liberdade de discussão e a faculdade de revolta. Sempre que

estas duas tendencias oppostas se manifestarem, a desordem será

irremediavel: a victoria porém raro deixará de pertencer ao Imperialismo,

porque o sentimento da paz e ordem é superior á liberdade, começará por

impor violentamente a obediencia e depois a acção educativa, o habito

torna-lhe a sociedade absolutamente docil.

A segunda das causas de perturbação enumeradas é o Radicalismo. «Não

poderia haver um «signal do tempo» mais formidavel e mais ameaçador, para o

governo popular, do que o nascimento de grupos irreconciliaveis na massa da

população.» Que estes grupos se formem sobre uma illusão ou sobre uma base

realmente justa, e com o ardor bellicoso e a fé indomavel que lhes dão o

aspecto e a rigidez inquebrantavel d'uma seita religiosa, a democracia terá

dentro de si um cancro incuravel. Porque, com a fraqueza d'acção inherente

aos governos populares e que lhes vem da fragmentação e contínua

substituição do poder, e por outro lado com o espirito de guerra

intransigente do Radicalismo, o perigo para a estabilidade da democracia

será tanto maior quanto mais fracos forem os meios de repressão. E aquella,

especie de Radicalismo que nos apparece com o nome de nihilismo, anarchismo

e semelhantes, até hoje, ainda não encontrou fórma de governo que a

satisfizesse; nem encontrará, por certo, pois que não tem outra aspiração

definida que não seja a desordem permanente. As democracias encontram

realmente n'estas fórmas do radicalismo um inimigo que as faz oscillar

constantemente entre a vida e a morte.

Entre os males constitucionaes dos governos democraticos e que os embaraçam

de alcançar o ideal que no dominio abstracto lhes parecia destinado, é a

pulverisação do poder politico.

Hobbes pensa que, quando um homem aspira a ser livre, o que realmente

deseja é uma parte do governo. É o que a democracia lhe concede; mas esta

parte no governo é effectiva? Ouçamos as palavras de James Stephen que

Maine transcreve: «O individuo que póde amontoar o maior numero de

fragmentos politicos n'um só monte governará o resto... Em certos momentos

um caracter energico, n'outros a astucia, n'outros a capacidade

administrativa, n'outros a eloquencia, n'outros a posse dos logares communs

e a facilidade de os aproveitar n'um fim pratico, permittem a um homem

trepar pelos hombros dos seus visinhos e dirigil-os n'este ou n'aquelle

sentido; mas em todo o caso os que estão na fileira seguem a direcção dos

chefes d'uma proveniencia ou da outra que tomam o commando da força

collectiva.»

A historia das eleições é conhecida. É sabido o que significa o alargamento

do suffragio como meio de alcançar uma justa distribuição do poder

politico. Ha uma verdadeira capitalisação politica como a capitalisação

economica; d'esta resulta o agiota, d'aquella o empresario politico, o

nosso influente. A nação mais democratica do mundo, ou pelo menos apontada

como tal, os Estados-Unidos, é o melhor exemplo da significação que tem o

direito de votar; alli, o voto é uma mercancia como o algodão ou os

cereaes, o poder é para quem mais souber capitalisar. Por isso não será

temeridade affirmar que o suffragio universal «torna-se na pratica a base

natural d'uma verdadeira tyrannia.» Infelizmente para nós, temos conhecido

de sobejo estas guerras do feudalismo politico e a era dos marquezados

eleitoraes parece estar muito longe do seu fim.

Supponhamos porém que este vicio é susceptivel de correcção, supponhamos

que o suffragio universal chega um dia a funccionar em perfeita liberdade.

A hypothese é irrealisavel porque a liberdade implica a concorrencia e,

dada esta, os ambiciosos e os partidos surgem immediatamente nas suas

diligencias de colheita. Mas, se fosse possivel que o suffragio popular

funccionasse em perfeita liberdade, não teriamos n'elle uma garantia de

progresso, porque é sabido quanto o espirito popular é, em regra, adverso

ás transformações que o progresso scientifico indica. Ha mesmo certa

opposição entre a democracia e a sciencia.

Ao mesmo tempo que a vida dos governos democraticos pela instabilidade e

desordem contínuas, nos faz duvidar do seu futuro e nos deixa sem esperança

de podermos alcançar por meio d'elles a ordem e segurança necessarias ao

progresso, por outro lado as lições da historia dão-nos exemplos d'uma

admiravel prosperidade sob regimens politicos bem diversos e até oppostos.

«A historia é fundiariamente aristocrata», diz Strauss. A mais larga

tentativa de regeneração nacional que ha dois seculos tem apparecido entre

nós, o largo plano do marquez de Pombal, se tivesse podido manter-se, com

certeza nos asseguraria um prospero futuro, mas sob uma fórma de governo

que se parecia bem pouco com a democracia. E, todavia, quasi não ha

portuguez intelligente e sincero que não lamente a sua queda.

«A democracia atheniense,--cujos dias foram tão curtos, e ao abrigo da qual

a arte, a sciencia e a philosophia lançaram uma vegetação tão

maravilhosa--não era senão uma aristocracia elevada sobre as ruinas d'uma

outra aristocracia muito mais restricta. Os esplendores que attraíam a

Athenas todo o genio original do mundo então civilisado alimentavam-se pela

imposição de impostos desapiedados sobre um milhar de cidades vassallas; e

os operarios habeis que, sob a direcção de Phidias, levantaram o Parthenon,

eram simples escravos.»

Os Estados-Unidos são dos raros exemplos em que a democracia e o progresso

vão associados. Em capitulo especial veremos o que é na realidade a

democracia na America.

Maine toca n'este ponto uma das questões mais graves das democracias--as

suas relações com a questão social. Crê que desde o momento em que as

classes laboriosas conquistem o poder hão-de pelos seus mandatarios

exercel-o em proveito d'aquellas mesmas classes. Suppoe que a democracia

pretenderá corrigir a injustiça e desigualdade que hoje se dá na

distribuição da riqueza, e d'esta tentativa poderia resultar a sua

aniquilação. Uma parte d'esta destroe-se constantemente pelo consumo e,

para que essa parte se reproduza, é necessario manter a energia dos mobis

da producção: ora estes baseiam-se principalmente na livre concorrencia.

Reconhece que «os mobis que, na hora presente, excitam a humanidade ao

trabalho e ao labor, para resuscitar a riqueza em quantidade sempre

crescente, são de natureza a arrastar infallivelmente a desigualdade na

propria distribuição d'essa riqueza.» Attribue a prosperidade dos

Estados-Unidos ao ardor da lucta pela vida sob um governo «em que todas as

restricções coercitivas se reduzem ao minimo.» A sua «benefica

prosperidade» baseia-se inteiramente na «santidade do contracto e na

estabilidade da propriedade privada: a primeira, instrumento, a segunda,

recompensa do successo na concorrencia universal.»

«Existem duas categorias de mobis, diz, e existem só duas, sob a influencia

das quaes até hoje se pôde produzir e reproduzir a enorme quantidade de

materiaes necessarios á subsistencia e ao conforto da humanidade.» «O

primeiro systema é o da livre concorrencia», o systema seguido na America

do Norte; o segundo «consiste em dar conta simplesmente da sua tarefa

ordinaria, tarefa fixada talvez por senhores equitativos e bons, mas

imposta aos recalcitrantes pela prisão ou pelo chicote.» Foi d'este ultimo

systema que brotou a maravilhosa prosperidade do Perú sob os Incas. E

termina: «Tanto quanto nol-o ensina a experiencia, somos forçados a

concluir que toda a sociedade deve adoptar um ou outro systema, sob pena de

caír da penuria na inanição.»

Examinemos as proposições principaes na sua these.

Em primeiro logar não se prova que a democracia tenha usado em seu proveito

do poder que conquistou. É verdade que o suffragio universal se tornou «a

base d'uma verdadeira tyrannia», segundo a expressão de Maine. Nos governos

democraticos tem-se formado verdadeiras oligarchias administrando os

negocios do Estado em seu proveito. Entre nós, nos ultimos cincoenta annos,

já tivemos dois exemplos de «tyrannias» d'esta especie, uma apoiando-se na

violencia o no favor real, a outra erigindo a corrupção em systema politico

e vivendo por este meio. Estas oligarchias governam em seu exclusivo

proveito; as crises sociaes e economicas que d'ordinario lhes succedem,

provam-n'o superabundantemente.

Mas, quando a democracia tiver conseguido governar realmente, como é de

esperar das reformas possiveis das instituições e dos costumes, é claro que

não poderá deixar de governar em seu beneficio. As leis que resultarão

d'esse novo estado, serão de natureza a modificar a livre concorrencia e

não afrouxarão por esse facto os mobis da producção da riqueza.

Entre uma concorrencia desenfreada e um regimen de escravidão existem

estados intermédios. Está seguro da posse das suas terras o proprietario

cujos bens podem ámanhã ser expropriados em beneficio publico?

Não é o imposto tambem uma parcella do seu trabalho? E, todavia, não

obstante as muitas restricções que já hoje soffre o direito de propriedade,

a lei ainda deixou estimulo bastante para a tornar appetecida. O systema da

livre concorrencia é que na verdade perturba o trabalho, excluindo a plebe

da apropriação dos fructos, mantendo-a invariavelmente na miseria. Maine

sustenta que ha apenas duas categorias de mobis sob a influencia dos quaes

é possivel a conservação e augmento da riqueza--a livre concorrencia e a

escravidão; mas de facto estes systemas são fundamentalmente iguaes. A

livre concorrencia creou o capitalismo que não differe essencialmente da

escravidão; é o que nos estão mostrando claramente as revoluções sociaes

contemporaneas.

É necessario manter a apropriação dos fructos, como recompensa do trabalho,

e por isso mesmo é necessario tambem estabelecer a concorrencia sob uma

base de justiça na distribuição. Seria para desesperar de todo o progresso

se a politica se mostrasse incapaz de resolver este problema.

O contracto deve ser «santo» sem duvida: mas a lei é que regula o

contracto. Reduzindo ao minimo a acção coercitiva da sociedade, elevaremos

ao maximo as probabilidades dos contractos immoraes e injustos.

Ora eu renunciaria de bom grado a toda a politica que não fosse dominada

por um ideal de justiça. Nem só de pão vive o homem, diz o Evangelho;

sacrificar tudo ao exclusivo desenvolvimento da riqueza é abdicar do que no

homem ha de mais digno. Por isso penso que, se porventura as instituições

que teem por fim normalisar a concorrencia conduzirem a um pequeno

afrouxamento da producção, nada teremos a lamentar.

Temos apontado alguns dos vicios e perigos da democracia. _Quid inde?_

Prosigamos a investigação dos seus elementos de fraqueza e procuraremos

depois as conclusões que d'ahi devemos tirar.

II

Natureza da democracia

N'este segundo ensaio, Sumner Maine volta a determinar a significação da

palavra «democracia». Andando ligadas a este termo ideias muito

differentes, é sempre indispensavel precisar a que em certo momento lhe

attribuimos. Por isso repetiremos que no presente estudo sobre o governo

popular «democracia» não significa «senão uma fórma especial de governo». É

o governo do Estado pela multidão, em opposição ao governo por um só ou por

um pequeno numero; é como o avesso da monarchia. Assim a democracia, como a

monarchia e todo outro governo «tem as mesmas funcções a cumprir, posto que

as cumpra por meio de orgãos differentes.»

O primeiro dever de todo o governo é «salvaguardar a existencia nacional.»

Manter a inviolabilidade e a integridade do territorio, e mantel-a sem

quebra do respeito e da auctoridade que constituem a grandeza moral d'um

povo, tal é o primeiro e imprenscindivel dever de todo o governo solido,

forte e digno. é uma verdade de primeira intuição que mal carece de ser

demonstrada; ninguem decerto louvará o regimen que conduzir á morte, ao

desapparecimento e á aniquilação do corpo cuja vida devia alimentar e

engrandecer.

«Se dos deveres externos d'uma nação passamos aos seus deveres domesticos,

vemos que o primeiro de todos é possuir um governo capaz de impôr o

respeito das leis civis e criminaes.» Essa mesma força destinada a defender

o corpo nacional dos ultrajes estranhos, só se tornará totalmente benefica

quando se applicar á manutenção da ordem dentro da mesma individualidade

politica. D'outra fórma a existencia nacional periga igualmente; que a

morte venha d'uma offensa externa ou da desordem e antagonismo dos

elementos constituintes internos, a decomposição é em ambos os casos

inevitavel. Ora a condição de toda a ordem é a obediencia á lei, e o

governo que deixar de a impôr firmemente, arriscando, a existencia nacional

pela permissão da desordem interna, terá faltado a um dos seus mais

imperiosos deveres.

Aquelles a cujos principios repugna a acção do Estado, apresentam-nos como

modelo e ideal a realisar certas communidades em que a obediencia á lei

reveste um tal caracter de espontaneidade que bem se poderia julgar inutil

a intervenção de qualquer auctoridade. Esquece-se a influencia educativa da

repressão, esquece-se que desde o momento em que faltasse o poder que os

creou, esses habitos lentamente iriam afrouxando e desapparecendo até que a

regressão á barbarie fosse completa. Se a obediencia se obtem sem esforço é

«unicamente porque, durante o decorrer de seculos sem numero, o Estado

soube, pelo cumprimento rigoroso dos seus deveres essenciaes, crear habitos

e inspirar sentimentos que lhe poupem a necessidade de recorrer aos

castigos legaes.»

Por vicios de organisação ou por natureza, os governos democraticos que

saíram da Revolução franceza teem vivido n'uma agitação social permanente,

muito ao contrario do que exigem os deveres fundamentaes d'um bom governo.

Devemos reconhecer a sua inferioridade n'este ponto, embora seja licito e

justo investigar as origens de fraqueza e procurar se porventura não haverá

meio de lhe dar remedio dentro do mesmo principio de governo.

Leva-se em conta das qualidades positivas da democracia, a sua actividade

reformadora nos costumes e nas leis, o que carece de ser confirmado pela

historia, se porventura não é radicalmente contrario ao que ella nos

ensina. «As grandes reformas legislativas tiveram por auctores monarchias

poderosas.» «Nós mesmos vivemos na poeira do Imperialismo romano; a parte

mais importante do direito moderno não é outra coisa senão uma formação

sedimentar depositada pelas reformas legaes dos romanos. Esta regra geral

continua a verificar-se em toda a extensão da historia ulterior. O unico

reformador radical do direito na Edade-Média foi Carlos Magno. Foi tambem o

imperio dos Bonaparte que deu curso á nova legislação franceza, a qual como

que inundou toda a superficie do mundo civilisado, porque os governos

immediatamente saídos da Revolução franceza apenas deixaram atraz de si

projectos de leis ou leis praticamente inapplicaveis em consequencia das

contradicções que encerravam.» A verdade é simplesmente que as fórmas de

governo que se apoiam sobre um principio unico são «eminentemente

destructivas». Revestem um caracter absoluto que não consente a existencia

de lei que não seja subordinada aos seus principios.

Que dizer do enthusiasmo pela democracia e dos hymnos d'uma comica

ingenuidade que a cada passo se ouvem em seu louvor? A admiração, quando

não seja guiada por uma sã razão, conduz necessariamente a este estado de

imbecilidade em que se apagou toda a luz do mais elementar raciocinio.

Todos os governos teem tido os seus fanaticos; seria despiedoso escarnecer

do que é condição das enfermidades permanentes da humanidade. Não

esqueçamos porém quanto é moderno este enthusiasmo pela democracia que não

partilharam aquelles mesmos que mais concorreram para o estabelecimento dos

governos populares. «Tocqueville considerava a democracia como inevitavel,

mas observava a sua approximação com desconfiança e receio.» Thiers

acceitou a republica sendo monarchico; acceitou-a e, o que é mais,

defendeu-a nas horas de maior perigo. «Grote fez o melhor que pôde para

explicar e dissipar a mediocre opinião que professavam, quanto á democracia

atheniense, os philosophos que enchiam as escólas d'Athenas; e entretanto é

um facto que os fundadores da philosophia politica, collocados em presença

da democracia, consideravam-na como uma fórma má de governo, posto que ella

estivesse então em todo o seu vigor juvenil.»

«Ha de resto um genero de lisonja que a democracia recebeu sempre e

continúa a receber em extrema abundancia: é a lisonja que dirigem ao rei.

Dêmos os que o temem ou desejam attraíl-o, ou que esperam exploral-o.» E

assim era de prevêr; transferida do rei para o povo a origem do poder,

curvam-se diante do novo idolo os que outr'ora se ajoelhavam nos degraus do

throno. _Parendo vinces._ Entre uma e outra situação não ha differença

fundamental; e, se algumas dissemelhanças existem, são ainda em beneficio

da monarchia. Um só homem, de intenções rectas e intelligencia lucida,

podia encontrar o seu caminho por entre os milhões de reptis que o

obscureciam, mas o povo com que cegueira não julga tanta vez!

É certo e indubitavel que as baixezas da côrte renasceram e medraram nas

democracias. Conhecer os sentimentos e paixões do povo, lisonjeal-os por

todos os modos, embora vão de encontro aos conselhos mais vulgares da razão

e da sciencia, abaixar-se até ao nivel dos mais baixos abdicando de toda a

franqueza e dignidade, tal é o triste calvario que toda a mediocridade tem

pisado para chegar ás regiões supremas do poder.

De resto, andaria bem irreflectidamente quem d'este enthusiasmo e d'esta

subserviencia aos caprichos populares concluisse alguma coisa sobre o

futuro da democracia. Enthusiasmo e lisonja são e serão sempre apanagio dos

governantes, em volta dos quaes, de mistura com a ingenuidade, zumbem as

ambições a que nenhum meio repugna. «O imperio romano, as tyrannias

italianas, a monarchia ingleza sob os Tudors, a realeza franceza com a sua

centralisação, o despotismo napoleonico, todos foram saudados por

acclamações, na maioria, d'uma franca sinceridade, ou porque a anarchia

acabava de ser açaimada, ou porque pequenas tyrannias locaes e domesticas

se viam forçadas a abdicar, ou porque uma energia nova ia infundir-se na

politica nacional.»

Jeremias Bentham «reclamava, para os governos dotados dos caracteres

essenciaes da democracia, o privilegio de escaparem melhor que os outros

governos ao que elle chamava influencias _sinistras_.» Estas influencias

são os motivos que levam a preferir o interesse d'uma classe ou d'um só

homem aos interesses da communidade. Entregue-se o poder á communidade

inteira e será exercido em proveito de todos.

Sumner Maine pretende que esta vantagem que se reclama para a democracia

pertence igualmente ás outras fórmas de governo. Apresenta em abono da sua

asserção factos historicos em que vemos os imperadores e reis cuidarem do

interesse do maior numero com a solicitude e intelligencia que até hoje não

attingiram os governos democraticos. Mas esse interesse não derivaria

exclusivamente d'um pensamento egoista? Não seria antes a necessidade de

procurar na plebe o apoio que as classes privilegiadas lhes recusavam?

Sendo assim, o desvelo facilmente se converteria em oppressão quando os

interesses dos governantes o exigissem. É d'este perigo que a democracia

deverá livrar-nos.

Maior peso me parece ter a segunda reflexão que Sumner Maine faz sobre o

raciocinio de Bentham. «O mundo compõe-se de vulgar», diz Machiavel; e por

isso a plebe desconhece os seus interesses. «Assim, a these fundamental de

Bentham volta-se contra elle. Pretende que se confiaes o poder ás mãos d'um

homem, servir-se-ha d'elle em seu proprio interesse. Applicai a regra á

totalidade d'uma communidade politica,--deverieis obter um systema perfeito

de governo. Mas se a ligardes a este facto notorio que as multidões são

demasiado ignorantes para entenderem o seu interesse, fornece o melhor dos

argumentos contra a democracia.»

D'um e d'outro lado ha uma grande somma de verdade. Não padece duvida que

as monarchias procurarão governar em seu proveito, já apoiando-se n'uma

classe, já associando-se á plebe; e é tambem inquestionavel que a

democracia ainda não logrou extirpar este vicio, substituindo apenas os

interesses dos aventureiros e das oligarchias capitalistas aos interesses

das monarchias e aristocracias d'outro tempo. O problema consiste, não em

rejeitar simplesmente a these de Bentham, fundamentalmente verdadeira, mas

sim em encontrar para as democracias uma maneira de funccionar adequada,

realisando praticamente a abolição das influencias sinistras.

«De todas as difficuldades que encontra uma democracia, a mais grave, a

mais constante, a mais fundamental, liga-se ás proprias entranhas da

natureza humana. A democracia não é senão uma fórma de governo, e em todo o

governo a acção do Estado é determinada pelo exercicio d'uma vontade. Mas

em que sentido póde a multidão querer?» Julga-se vulgarmente que o povo é

capaz de manifestar claramente a sua vontade sobre as questões que a

politica levanta e de facto assim acontece quando estas se apresentam com

simplicidade. Não é este porém o caso mais vulgar; as questões politicas

mais do que nenhumas outras são em extremo difficeis e complexas, e não só

não podemos esperar que a multidão comprehenda e veja o que muitas vezes

não vêem os melhores e mais experimentados espiritos, mas tambem seria

chimera esperar que em tal obscuridade se podesse chegar a um accordo de

opinião. Quando muito, o povo é capaz de adoptar a opinião d'um homem ou

d'um partido, mas seria erro suppôr que procedeu com madureza e reflexão;

ao contrario, os exemplos de todos os dias mostram-nos que a multidão segue

a opinião d'este ou d'aquelle pelo prestigio que o cerca ou por quaesquer

outros motivos estranhos ao seu ideal politico. O mal é tanto mais grave

quanto em nossos dias a democracia se tem mostrado excessivamente zelosa,

sujeitando á censura do povo os mais pequenos actos publicos e embaraçando

toda a administração. O que seria justo, se o governo do povo fosse

effectivo e se aquillo a que chamamos opinião publica fosse mais do que a

opinião «d'uma qualquer personalidade,--ou o chefe d'um grande partido,--ou

um pequeno influente local,--ou uma associação solidamente organisada,--ou

um jornal impessoal.»

Como meio de remediar a impossibilidade de confiar a administração do

Estado directamente á multidão, tem-se usado o governo «representativo».

Ficam remediados em parte os males acima expostos; reduzindo o corpo

eleitoral aos representantes da nação, com a reducção do numero crescem

proporcionalmente as probabilidades de alcançar um accordo de opinião e uma

decisão intelligente e justa. Comtudo, este systema que, em principio,

deixando uma grande liberdade aos representantes do paiz parecia realmente

dever prestar valioso auxilio aos governos democraticos, começa agora a

declinar em vista d'uma nova theoria que julga o representante sujeito a um

«mandato imperativo». Como poderá constituir-se a opinião d'uma camara em

que cada deputado representa a opinião d'um circulo? Onde acabam e onde

começam os poderes do mandato? Porventura o deputado não poderá afastar-se

da circular que de costume dirige aos eleitores em vesperas de eleição? Uma

tal maneira de conceber a representação nacional deve irremissivelmente

conduzir a uma perfeita esterilidade e á mais absoluta desordem. «A

obstrucção que os politicos experimentados deploram com tantas lamentações

e surprezas, não é outra coisa senão um symptoma da doença familiar aos

grandes corpos governativos. Provém do grande numero de deputados e da

diversidade de opiniões que luctam para abrir caminho.» O mal póde muito

bem converter-se no abandono ao poder executivo da maior parte da

auctoridade legislativa das camaras.

Pretende-se ainda corrigir a grande difficuldade dos governos democraticos

por meio do «plebiscito». N'este caso apresenta-se a todo o paiz as

questões sobre que é preciso conhecer a opinião do povo e todo o eleitor

não terá mais do que responder _sim_ ou _não_. Foi por este meio que um

despota militar obteve do povo francez uma resposta favoravel a tudo quanto

quiz para estabelecer o seu imperio.

Sob o titulo de _Referendum_ o plebiscito faz parte da constituição federal

da Suissa, e por muitas vezes o povo d'aquelle paiz tem exercido este

direito. Desde que um certo numero de cidadãos o pretende, uma lei

approvada pelo parlamento só entra em vigor depois de ter recebido a

sancção popular. Sem que se possa dizer que a experiencia deu maus

resultados, «em contrario do que se esperava e com o amargo desapontamento

dos auctores do _Referendum_, leis da mais alta importancia, redigidas

muitas vezes manifestamente com um fim de popularidade, soffreram o _veto_

do povo, depois de terem sido adoptadas pela legislatura.» Maine explica

este resultado pelo cansaço do eleitor que, depois da agitação e das luctas

que um facto d'esta ordem provoca, acaba por dar uma resposta negativa a

quanto lhe propõem.

Demais, as grandes reformas que principalmente a industria moderna tem

realisado seriam igualmente levadas a effeito se dependessem da approvação

popular? Seja-me permittido duvidar: as grandes reformas demandam

qualidades de intelligencia e caracter de que o povo carece. «O mundo

compõe-se de vulgar», na phrase tão verdadeira de Machiavel.

Entre as forças que a democracia tem chamado em seu auxilio como meio de

dar á sociedade politica a cohesão indispensavel para que a auctoridade

governativa se exerça energicamente, entre as forças cujo apoio tem

buscado, estão o espirito de partido e a corrupção.

«Entre as influencias capazes de arregimentar, como o demonstra a historia,

massas de cidadãos sob o jugo d'uma disciplina civil, o espirito de partido

e a corrupção são provavelmente tão velhos como a propria politica. O

grande historiador da Grecia descreveu-nos, em algumas das suas paginas

mais commoventes, a ferocidade selvagem das luctas de partido no seio dos

estados gregos; e nada se approxima, nos tempos modernos, da escala

grandiosa em que se praticava a corrupção, por occasião das eleições da

republica romana, não obstante todos os embaraços accumulados em contrario

por uma fórma antiga de escrutinio.»

O espirito de partido tem qualquer coisa de religioso e muito de militar; é

religioso pela repugnancia que anda ligada á abjuração d'uma primeira

confissão, é militar pela obediencia que impõe. Se alguma coisa prejudica

os seus beneficios, é simplesmente embaraçar por vezes a pratica da

justiça, da franqueza, da lealdade e de tantas outras virtudes que na vida

particular resumem o que ha de mais nobre no coração humano. Todavia, nos

governos democraticos é o seu principal apoio, o elemento politico de maior

energia que encerram, e seria deploravel que afrouxasse ou desapparecesse

emquanto as sociedades não encontrarem novas bases de cohesão.

A corrupção é o maior cancro dos governos populares; e, se não lhes é

peculiar, encontra n'elles um terreno tão adequado que tem sido levantada

ás honras de systema politico. De facto, assim acontece; os homens que na

sua vida particular foram d'uma inteira abnegação e desinteresse, na

politica mais do que uma vez recorreram á corrupção, convencidos de que

ella era o unico meio de crear um grupo politico unido e disciplinado, base

essencial a um governo estavel e fecundo. Erige-se a corrupção em systema

politico, na descrença de todo o sentimento nobre e de todo o mobil d'acção

que não seja um sordido e insaciavel egoismo. Tão baixo desceu o nivel

moral das sociedades contemporaneas!

Os Estados-Unidos da America são famosos pela sua corrupção: são a par da

Russia o paiz em que a corrupção é companheira inseparavel de toda a

funcção publica. Ha porém uma differença: é que na Russia, na opinião d'um

escriptor que a conhece muito bem, aquillo que nós chamamos corrupção,

reveste aos olhos dos naturaes o caracter d'um legitimo tributo,

auctorisado pela tradição oriental.

Na verdade, os Estados-Unidos, que tantas vezes os democratas nos apontam

para exemplo, teem o primeiro logar no rol da politica de corrupção. E a

França foi mais feliz com a sua republica? Os homens de estado que a

dirigem convenceram-se de que, como na America, na dissolução de todos os

vinculos sociaes só poderiam contar com o egoismo. «A corrupção publica

attinge alli proporções incriveis, com projectos de obras publicas

excessivas e extravagantes, n'uma das extremidades da escala, emquanto no

outro extremo se abre o trafico de votos nas associações eleitoraes, para

os innumeraveis pequenos logares que estão á disposição da administração

franceza, uma das mais centralisadas que se conhece.»

Sem pretender que a corrupção seja um mal exclusivo dos governos

democraticos, creio que todo o homem observador reconhecerá comigo que as

democracias assentes n'uma base individualista, activando a concorrencia e

dando entrada na vida publica aos mais pequenos, são um terreno

eminentemente favoravel a este desolador espectaculo de ambições e baixezas

que os tempos modernos nos dão incessantemente.

Resumindo: sem negar muitas das vantagens dos governos populares nem mesmo

contestar a legitimidade do principio em que se baseiam, a representação,

quiz simplesmente mostrar nas presentes considerações as graves

difficuldades do seu exercicio, até agora ainda não resolvidas de maneira a

assegurar a ordem na sociedade e uma administração intelligente e proba.

III

A edade do progresso

Nos governos populares, um dos erros maiores e mais fecundos em

consequencias desastrosas tem sido a confusão entre mudar e progredir. Os

paizes mais ou menos claramente governados pela democracia, nos ultimos

cincoenta annos, entraram n'este «periodo de legislação contínua» que

accumula reformas sobre reformas e, não contente de ter rompido

violentamente com o possado, á falta d'outro alimento devora hoje o que

hontem creou, n'uma fecundidade apparente, mas n'uma esterilidade real. Os

decretos e leis que os parlamentos da Europa votam cada anno constituiriam

só por si uma immensa bibliotheca; chegamos a uma febre legislativa tão

intensa que as camaras quasi não discutem orçamentos e contas, porque o

tempo mal chega para reformas; não ha partidos conservadores, não se cuida

em consolidar, corrigir e desenvolver; para deante, sempre para deante,

caminhar rapida e incessantemente é a aspiração commum e unica. Nos paizes

em que houve uma aristocracia poderosa, e mesmo em Portugal, não é raro

encontrar vastos palacios, traçados sobre largos planos, mas em grande

parte por concluir; o edificio que a democracia se propõe levantar é

magestoso, mas receio que, se não adoptar melhor systema de administração,

lhe aconteça como aos palacios fidalgos em que estavam lançados alicerces

para tudo, mas não havia parede concluida.

«Existe uma certa semelhança entre o periodo das reformas politicas no

seculo dezenove e o periodo da reforma religiosa no seculo dezeseis. Hoje,

como então, um pequeno grupo de chefes emprehendedores distingue-se da

multidão dos sectarios dóceis. Hoje, como então, encontra-se um certo

numero de beatos zelosos que desejam mais do que tudo o reino da verdade.

Ha alguns para quem o movimento que activam, não é senão um meio de se

subtraírem ao que é francamente mau; outros vêem alli o meio de saír d'uma

situação apenas supportavel para ganharem uma situação melhor; para um

pequeno numero é incontestavelmente a elevação a um estado ideal, que

concebem umas vezes como um estado natural, outras como uma especie de

millenio cheio de promessas. Mas atraz d'estes, hoje como outr'ora, vem a

multidão que se embriaga com o prazer de mudar por mudar.» Paixão egoista

ou paixão individualmente desinteressada, imitação inconsciente ou fraqueza

e cega sujeição aos instinctos populares, o prazer de mudar apoderou-se da

nossa época com uma força poderosa em constante actividade. Se esta força

se póde tornar effectiva, se a mudança é real e, n'este caso, se tem como

resultado a melhoria promettida, eis o que convém saber para avaliarmos a

sua influencia e beneficios.

A paixão de mudar é devida «a phenomenos universaes e permanentes da

natureza humana» ou deriva de «causas excepcionaes que affectam

momentaneamente a esphera da politica»? No primeiro caso será invencivel e

a sua acção constante, como a de todos os elementos naturaes; no segundo

caso será susceptivel de destruição e a sua acção transitoria e por vezes

ephemera. Ora, observando a historia dos costumes e instituições, e a vida

social dos differentes povos, somos levados a crer que «o estado normal ou

natural da humanidade não é o estado progressivo; é a estabilidade e não a

instabilidade. A immobilidade da sociedade é a regra, a sua mobilidade a

excepção.»

A todo o mundo musulmano repugna a mais pequena alteração dos seus costumes

e leis, e os negros da Africa detestam-n'a igualmente. A China ha muitos

seculos que attingiu uma completa immobilidade e, não obstante ter andado

tão intimamente envolvida com as raças de espirito e civilização

differente, conserva as suas tradições com uma fidelidade, maravilhosa em

taes circumstancias.

Se estes factos podem ser julgados como demonstração insufficiente, por se

referirem a raças que chegaram ao limite do desenvolvimento compativel com

a sua capacidade, voltemo-nos para a Europa e veremos que, á parte a

esphera mais propriamente chamada politica, as mudanças nunca são tão

radicaes e profundas como apparenta a febre legislativa. O inglez em

Portugal, o portuguez na India, na Africa ou no Brazil, todos os emigrados

revelam por todo o mundo a sua origem pela tenacidade com que conservam os

habitos do seu paiz. Ha individuos e raças com um extraordinario poder de

adaptação e que por momentos parecem invalidar a regra; mas não só os

habitos primitivos nunca se transformam completamente, mas apenas encontrem

condições apropriadas voltarão a manifestar-se energicamente. A faculdade

de adaptação a habitos differentes é, em regra, muito limitada

relativamente ao fundo permanente e indestructivel que caracterisa os

diversos ramos da especie humana.

Passando dos habitos ás maneiras, encontraremos fixidez semelhante. «Um

solecismo de maneiras ou de linguagem», «a irregularidade commettida no uso

d'um garfo», «a pronuncia viciosa d'uma vogal ou d'uma lettra aspirada» são

motivos de antipathia ou repulsão. «Conhecemos de fonte certa a existencia

d'este sentimento. Está longe de ser de apparição moderna; a sua origem é,

pelo contrario, muito antiga, provavelmente tão velha como a humanidade. As

distinções, de antiguidade incalculavel, entre uma raça e uma outra raça,

entre o grego e o barbaro, com toda a reciprocidade de antipathia que

arrastavam, parecem não ter tido, em principio, outro fundamento senão uma

certa repulsão occasionada por variantes de linguagem. Note-se que este

sentimento não se confina nas regiões ociosas, ou, se quizerem, superfinas

da sociedade. Penetra até á mais humilde esphera social em que o quadro das

maneiras, posto que differente, se impõe talvez com mais rigor.»

N'uma parte muito importante das sociedades europeias, nas mulheres, o

espirito conservador revela-se com inteira franqueza. O facto é digno de

notar-se e de valor, se considerarmos que até agora as mulheres se teem

conservado estranhas á politica, com excepção de certos individuos em que a

paixão politica se apresenta com um caracter morbido. Não se póde negar

que, não obstante os aphorismos em contrario, ninguem é mais constante do

que a mulher. No seu espirito, as regras de cortezia e de moral persistem

com singular tenacidade e a mais pequena infracção reveste aos seus olhos

um caracter bem mais grave do que aos olhos dos homens. Note-se como lhe

repugna abandonar os prejuizos aristocraticos e as distincções

convencionaes de classe. Aquillo mesmo a que chamamos _modas_, e que de

ordinario se julga d'uma instabilidade infinda, não varia afinal tão

radicalmente como se imagina ao simples aspecto d'uma renda posta á direita

ou á esquerda. As figurinhas de Tanagra teem no trajar semelhanças

frisantes com as mulheres do nosso tempo. O espirito conservador da mulher

é um facto incontestavel.

A Democracia Estudo sobre o governo representativo · 第 1 / 3 段