Tumultuosamente os pastores chegaram á caverna e o velho, dono do
rebanho, que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e
falou ao patriarcha:
--Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. Já o tinha por tal e quando sahi
para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Bôa Nova.
Os homens que dormiam nas choças, as ovelhas que se apertavam nos
apriscos, as mesmas arvores sem folhas, as mesmas pedras sem vida
estremeceram á minha voz pregoeira.
Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me
ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em
quebrada ou como o trovão tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na
planicie e no valle, na montanha e na furna.
De mim sahia a annunciação e, certo, a minha palavra ainda vai pelos
ares viva, levando ás póvoas mais remotas a venturosa noticia.
O que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares. Os espiritos celestiaes
fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas, tangendo lyras que
sôam docemente.
Não havia uma estrella e todas agora reluzem; astros nunca vistos
brilham no fundo ceu.
Não havia folha em ramo e as arvores estão todas cobertas e cantam
festivamente passarinhos nas montas.
O outono vestiu-se com as galas da Primavera.
Só um Deus faria prodigios taes.
Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo.
Os pastores brandiram os cajados bradando, de novo:
«Hosannah! Hosannah!»
E, como José se afastasse dando-lhes passagem, precipitaram-se
tumultuosamente e, ajoelhando-se, adoraram o Divino Infante.
Todos levavam dádivas campestres: este um anho, de vello fino, a boca
rescendendo a leite; outro um casal de rolas; esse, um favo de mel,
aquelle uma lan sedosa e, cada qual, offertando o seu presente, pedia,
em oração intima, a graça do Menino Deus.
Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como
eram muitos os mais velhos levantavam nos braços os pequenos para que
vissem o Recem-nado e diziam-lhes: «Pede!»
As crianças, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha
alguma morresse, que nunca as aguas seccassem.
Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava
pensativo e calado.
«Pede!» disse-lhe o homem.
--Se Elle fosse Deus... murmurou a criança, e uma lagrima rolou dos
lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se
apenas, de quando em quando, um timido balido.
Repentina, triumphante, uma voz bradou á entrada da caverna:
--Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do
pegureiro, voltou a cabeça e viu uma andrajosa mulher livida, macilenta,
que estendia os braços magros procurando abrir passagem na multidão
reverente.
Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braços que o mantinham, correu ao
seu encontro e, lançando-lhe os braços á cinta, disse commovido:
--Fui eu, mãi, que Lhe pedi. É Deus! Entra e adora-o. Dorme nas palhas.
Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num
estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de pé
sobre uma lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava:
--E tu, tão pobresinho! que lhe deste, meu filho?
--Uma lagrima, minha mãi... e foi tudo que lhe pude dar.
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