Á primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dôr
aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém,
de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao
sublime martyrio, com a alma a brilhar nos olhos que a dôr orvalhara de
lagrimas.
Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo,
rasgava passagens como a torrente que se despenha da altura vincando a
terra e arrastando o que se lhe antolha á levada.
O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas
de leite--sangue e agua fundidos em candura--o ceu commungava na terra.
A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no
Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de
Jesus, de onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios
julgamentos, a benção e o perdão.
A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o
patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da
fogueira, cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna.
Fóra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.
Por vezes um clarão relampejava diante da gruta á esplendida passagem
rapida de um anjo.
Maria, inclinada sobre o Filho, só a elle sentia, ouvindo apenas o lento
gorgulhar do leite que elle sugava soffrego.
Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com os seus vergeis
floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas.
Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam
na cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar
olhos de mãi!
Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da
criança, via dois pequeninos seraphins alegres?
Que lhe importava a immensa alegria universal, se o seu coração
transbordava de felicidade com aquelle amor!
Levantou-se um alarido fóra, na estrada obscura. José sahiu ao limiar.
Um bando de homens corria em tropel em direcção ao abrigo agreste. Á
frente delles, voando e alumiando-lhes o caminho com o esplendor das
azas, um anjo estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam
longe, em enxames claros.
No cimo dos cerros grupos resplandeciam.
Subito uma grita atroou o silencio:
«Hosannah! Hosannah!»
O pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno. Maria
beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.
«Hosannah! Hosannah!»
bradavam fora. Ella sobresaltou-se e, chamando o esposo, perguntou:
--Quem clama assim, meu senhor?
--Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o Infante. E ella, cuidadosa:
--Comtanto que o não despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o
junto do coração.
* * * * *