Natal

O esplendor é mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante

que encobriu Maria quando se realisou a prophecia do Bem.

Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito clarão

resplandeceu no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que

atravessou o somno em que jaziam o patriarcha e o pastor.

José soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mãos, offuscado pela

claridade vivida que irradiava em stalactites de um brilho augusto,

mudando em rutilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo do aspero

sólo, eriçado em pedrouços, uma área esplendida como se fosse embutida

de gemmas lapidadas.

O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a

mais e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar

maravilhoso a enchesse magnificamente.

Os dois homens, atordoados, não falavam--estendiam as mãos e os seus

dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um

perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento.

Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o

pastor arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia

como o de uma salamandra.

Tremulo, chegou á entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que

vinha dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido.

Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao

ceu aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma

catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillações

de pedrarias.

Não poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das

azas.

Não disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a

transfiguração da noite.

José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor.

Maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as

palhas onde um pequenino infante, as mãosinhas na boca, os olhos

candidos abertos, parecia contemplar a Virgem que sobre Elle inclinava-se.

Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras

de incomparavel belleza.

Uma, as mãos diaphanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos,

concentrada, rezava. Outra, d'olhos enlevados, com uma palma verde na

mão debil, sorria. A terceira, de joelhos, aquecia com o halito,

envolvendo-o nos seus longos cabellos louros, o corpo recem-nado.

Por onde teriam entrado os tres seres? Que anjos seriam? Não os poude

reconhecer o patriarcha, mas chegando-se á Virgem tomou-lhe a mão e

beijou-a.

Ella mostrou-lhe o Filho com uma ternura tão meiga que o sorriso não

poude por si só exprimil-a e lagrimas correram.

Assim deram os olhos, d'uma só vez, todos os seus thesouros: o brilho do

olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor.

Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna.

As Virgens desappareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braços,

chegou-o ao collo, aqueceu-o, afagou-o.

Foi mãi antes de ser serva. Só depois de o beijar estremecidamente ouviu

as vozes que atroavam a noite:

«Gloria a Deus nas Alturas, Paz aos homens na terra de bôa vontade.»

Occorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, então, que o Sêr nascido

do seu seio era o Deus da Promessa.

Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o.

José, afastado do grupo, prestava culto á Virgem e ao Infante e o ceu,

pela voz dos Espiritos eleitos, saudava o Natal messianico, apregoando a

vinda do Filho do Homem, portador da Piedade.

Ergueu-se o pastor, olhou o ceu e, ouvindo os anjos, sahiu a correr

bradando inspiradamente a Bôa Nova.

E os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella

madrugada do mundo.

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Mysterio do Natal · 第 26 / 39 题