O cégo

O velho era de Jerichó.

Esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a

Jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras

ou um esgarçado albornoz em que se enrolava, bemdizendo, com palavras

humildes e agradecidas, a generosidade dos homens, recommendando-os ao

deus de Abrahão, de Isaac e de Jacob e indicando-lhes os melhores e mais

seguros caminhos pelos montes.

José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria

adormeceu revendo, em sonho, a sua alegre Nazareth, as moças á beira da

fonte, os pastores nos cerros, á hora macia da tarde, quando as cotovias

baixam e desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam.

Conversaram os dois velhos--José falou da sua viagem, o cégo falou da

sua cegueira.

--Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sycomoro.

Já se habituara á treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado

ao carcere.

Um magico de Suza offerecera-se para cural-o. Pedira cem drachmas,

baixara a cincoenta; faria por vinte se elle lh'as offerecesse.

Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria a somma, mas,

pensando, resolvera deixar-se ficar na cegueira. E suspirou:

--Illude-se quem julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará as

coisas como deixou: as proprias pedras modificam-se e não são varias

como as almas.

Quando me annunciaram a morte de meu filho, pedi que me puzessem junto

do cadaver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levaram a

enterrar, mas não vi o enterro.

Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e,

ainda hoje, vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me

agasalhado pela ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos

passarinhos de outr'ora.

As coisas foram desapparecendo uma a uma, eu mesmo envelhecia, mas a

cegueira conserva a visão do passado.

O sol parou para mim na mocidade como parou sobre os muros de Jerichó á

voz do batalhador.

Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animaes, as

arvores, os lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos.

Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha

senão a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste.

Soltai-a, esvoaçará atordoada e, se não regressar á prisão, morrerá de

fome perdida nas florestas frondosas, se não cahir nas garras dos abutres.

O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? para eu morrer de

saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não!

Vivo no passado, o meu tempo já foi.

Não caminho para a morte, espero-a, sentado no limiar da mocidade,

ouvindo o rumor do tempo devastador, sem vêr os desastres, sem vêr as

lagrimas, sem vêr os enterros.

Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nella vivo. Já agora estou

habituado á sombra. Para que hei de sahir se, lá fóra, só me esperam

ossadas? Se o proprio Deus me offerecesse a luz eu lhe pediria a morte.

Voltar atraz...! A herva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as

nossas pegadas.

O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente

envelheceu ou morreu. Só ha um meio de não caminhar chorando--é seguir

sempre em frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e

cegaria de novo com os olhos afogados em lagrimas. Aonde vos dirigis?

--A Bethleem.

--Casa do pão. É ali que deve nascer o Annunciado. Casa da abundancia,

celleiro do Senhor, Bethleem da fertilidade! De lá é que nos ha de vir o

Messias. O campo de Booz dará o trigo que ha de fartar as almas.

--É para lá que vamos.

--Que as estrellas vos sejam propicias, como fôram a Ruth, a moça de Moab.

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Mysterio do Natal · 第 18 / 39 题