Caminhando

Maria caminhava em silencio, pensando naquella mãi que, repentinamente,

passára da maior desventura á maior felicidade pelo prestigio das

lagrimas misericordiosas.

--O pequenito dormia e a pobre mãi tinha-o por morto. Foi bastante que

eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos.

--É que o despertaste, disse o patriarcha sem alludir ao prodigio que

testemunhara.

Elle ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se

realisavam á passagem da Virgem: ribeiros que sustavam o curso

offerecendo o leito enxuto para a travessia; arvores que se cobriam de

flores, carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos; vozes

que murmuravam; veios limpidos que rebentavam das pedras e, durante os

curtos somnos da donzella, não lhe passavam despercebidos anjos que

rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os caminhos avelludados.

A mais e mais se lhe firmava nalma a certeza de que as palavras que

ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do ceu.

Aquella era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de

Judá, da qual devia nascer o Messias das gentes.

Elle acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de

joelhos quando a via adormecida.

Ella ignorava tudo. Sabia apenas que era mãi porque sentia no seio os

movimentos do Sêr Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor.

Já lhe crescia o collo, pesando, arredondado e turgido.

O amor preparava o alimento para Aquelle que se nutria de mysterio.

--As mãis soffrem tanto pelos filhos!... O amor das mãis é como a rosa

que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não soffra

emquanto fôr pequenino.

As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dôr, de

sorte que a gente não sabe como as ha de alliviar quando soffrem.

--As mãis adivinham.

--São tão fracas as criancinhas que tudo é perigo em torno dellas. Tremo

quando penso no meu pequenino filho que vai nascer, tão franzino e tão

pobre. Onde o agasalharemos nós?

--Entre os nossos braços, como os passaros resguardam o ninho entre os

ramos.

--E o frio?

--Temos o nosso calor.

--E a fome?

--Os peitos maternos são dois celleiros sempre cheios.

--Haveis de amal-o, senhor, e ajudar-me emquanto elle carecer de nós?

--Por ti, por Elle, por todos, disse José enlevado.

Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de

musgo.

Um velho cégo repousava á sombra, ouvindo cantar uma criança que

brincava sentada nas folhas seccas.

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Mysterio do Natal · 第 17 / 39 题