A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o
fragor de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se
despenhavam, aos jorros, pelos algares. Nas chans ainda o transito era
facil, sem o varejo da ventania que repulsava os caminhantes, como a
impedir-lhes a marcha; mas nas gargantas, entre alcantis, as lufadas,
abocando á entrada, esfusiavam desabridas, uivando com a furia de
alcatéas famintas em ronda céva, a fariscar redis.
Todas as estrellas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como
lumareu de vigilia em torre, a que surgira e brilhava sobre Bethleem.
Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho secco.
Um ramo que bolisse, o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras
levantavam ruidos temerosos.
Ás vezes José detinha-se, hesitante na bifurcação de duas trilhas, mas
pouco durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais, ao
passo que a outra rutilava fulgida, como calçada a diamantes,
offerecendo-se, clara e segura, aos peregrinos.
Como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem, murada de rochas
anfractuosas, eriçada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna,
ouviram leve, frouxo ruido como de esfrolar d'azas.
Uma aguia, talvez, que acordara em algum teso e de pé, attenta,
alargando as azas, ficára em attitude hostil prompta a arremetter em
defeza do ninho.
O patriarcha, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve,
apertou com força o cajado e levantou os olhos.
Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, timida e tremula, uma oração ao
Senhor. O receio de um ataque em sitio tão desolado, longe de toda
habitação, onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem.
Os corações batiam. Nella era o pavor do desconhecido, o grande medo
tragico das sombras do Scheól, que erram, á noite, pelos descampados;
nelle era temor por ella.
Não falavam, de olhos muito abertos, quietos, immoveis como os rochedos
que os emparedavam.
De repente um clarão fulgurou. A passagem illuminou-se, as pedras
scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E elles
viram uma grande luz á flor da terra e clareando as rochas.
Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada.
Levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que
os precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas,
pousando nos alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria
retardava a marcha.
A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de commoção, não se atrevia a
encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de
luar. E as azas aflavam docemente no silencio.
A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudára com as palavras
mysteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissario
que lhe apparecera em sonho, sob a figueira do horto, defendendo a
innocencia de Maria, em cujo seio, cemo em corolla de flor, a Graça
perpassava em genese immareavel, fecundando-o como o sol fecunda a
leiva, eternamente pura.
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