Era a hora silenciosa e triste do crepusculo.
Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o
horizonte abrazado. Abriam-se as primeiras estrellas. Subiam da terra,
como o fumo das aras, pannos alvos de nevoa.
Pelos caminhos esbarrondados, em aspero acclive, beirando grotas
espontadas de cardos, cantaro ao hombro, as tunicas arrepanhadas á
cinta, desfilavam donzellas conversando e rindo.
Juntas, em passo miudo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e
de silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanhos. Um rude e mazorro
pastor seguia-as cabisbaixo.
Esbatiam-se as nuvens de ouro quando José e Maria appareceram no limiar
da casa promptos para a longa jornada, por valles e montanhas, em
direcção á terra farta de Bethleem onde iam cumprir a lei de Augusto.
Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela
saudade.
O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e
logo, limpando os olhos que as lagrimas nublavam, a donzella seguiu.
Elle grisalho, alto, robusto, ainda que um tanto curvado pelo pendor
constante em que vivia, sempre inclinado sobre o lenho do officio,
falquejando-o, acepilhando-o, dando-lhe fórma e lustro. Ella, mean de
altura, fina e fragil.
Suavemente morena, os olhos grandes e tristes eram dum limpido verde
d'agua, e como dois lagos purissimos num areal, ao sol; e os cabellos,
escapando-se do cairel do manto, punham-lhe na fronte uma frisa de ouro.
Mal se lhe adivinhava o collo abotoado.
Os pés, alvos e pequeninos, assentavam em sandalias e toda a sua riqueza
consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam
graciosamente os pulsos finos.
Trilhando a estrada que ia ter á fonte e seguia direita aos campos,
paravam para falar ás moças, companheiras e amigas de Maria, para
corresponder á saudação dos homens, para attender ás crianças que
deixavam os seixos tomando-lhes o passo, pedindo que lhes trouxessem das
terras de além conchas, como as de Ascalon, que conservam no bojo o
soluço das ondas.
E Maria, commovida, chorava sobre o sorriso.
Os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pallida folhagem faziam
no recosto das collinas como estendaes de nevoa.
Ainda havia quem trabalhasse a leira na ancia do fruto. Chiava um carro
de lavoura, o guieiro afalava aos bois animando-os no lance abrupto de
uma rampa.
Chegando ao planalto esteril, que dominava os horizontes e onde o vento
zunia, os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos
montes.
Lá ficava Nazareth no valle feliz, com o seu casario, em cubos brancos,
como um pacifico rebanho adormecido.
Ao longe tudo era carregado e lugubre.
A noite chegava primeiro ás alturas.
Isolado, com a lua pairando acima do seu viso, o Thabor era como um
peito de gigante de onde houvesse espirrado aquella gotta de leite.
Maria ignorava o mundo. Nunca houvera passado além da fronteira da terra
natal. Alongando os olhos pela vastidão que a vista alcançava, montes,
varzeas, esplanados desertos tristes, sentia-se mesquinha e com medo.
Voltou-se, ainda uma vez, para olhar o tranquillo recanto em que sempre
vivera em pobreza e virtude. Mas a noite baixára; raros lumes picavam a
tréva. Ouvia-se vago murmurio, como escachôo d'aguas, subindo do fundo
obscuro onde jazia a cidade. Sahiu-lhe do coração um suspiro maguado:
--Onde fica Bethleem? José levantou o braço e estendia o cajado na
direcção da terra de David, quando uma estrella fulgurou, illuminando
radiosamente o ceu profundo.
--Ali! disse o patriarcha, numa voz que tremia, comprehendendo,
maravilhado, que aquelle astro surgira dentro da noite como uma resposta
de Deus á moça predestinada.
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