Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento d'este papel,
onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da sua
historia. Esta forca intentava escrever as suas tragicas _Memorias_.
Deviam ser profundos documentos sobre a vida. Arvore, ninguem sabia
tão bem o mysterio da natureza; forca, ninguem conhecia melhor o
homem. Nenhum tão espontaneo e verdadeiro como o homem que se torce na
ponta d'uma corda--a não ser aquelle que lhe carrega sobre os hombros!
Infelizmente, a pobre forca apodreceu e morreu.
Entre os apontamentos que deixou, os menos completos são estes que
copío--resumo das suas dôres, vaga apparencia de gritos instinctivos.
Pudesse ella ter escripto a sua vida complexa, cheia de sangue e de
melancolia! É tempo de sabermos, emfim, qual é a opinião que a vasta
natureza, montes, arvores e aguas, fazem do homem imperceptivel.
Talvez este sentimento me leve ainda algum dia a publicar papeis
que guardo avaramente, e que são as _Memorias d'um Atomo_ e os
_Apontamentos de Viagem d'uma Raiz de Cypreste_.
* * * * *
Diz assim o fragmento que eu copío--e que é simplesmente o prologo das
_Memorias_:
«Sou d'uma antiga familia de carvalhos, raça austera e forte--que já na
antiguidade deixava caír, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era
uma familia hospitaleira e historica: d'ella tinham saído navios para
a derrota tenebrosa das Indias, contos de lanças para os hallucinados
das Cruzadas, e vigas para os tectos simples e perfumados que abrigaram
Savonarola, Espinosa e Luthero. Meu pae, esquecido das altas tradições
sonoras e da sua heraldica vegetal, teve uma vida inerte, material e
profana. Não respeitava as nobres moraes antigas, nem a ideal tradição
religiosa, nem os deveres da historia. Era uma arvore materialista.
Tinha sido pervertida pelos encyclopedistas da vegetação. Não tinha
fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do sol, da seiva e da agua.
Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, em quanto
sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol,
acolhia os grandes concertos de passaros bohemios, cuspia a chuva
sobre o povo curvado e humilde das hervas e das plantas e, de noite,
enlaçado pelas heras lascivas, resonava sob o silencio sideral. Quando
vinha o inverno, com a passividade animal d'um mendigo, erguia para a
impassivel ironia do azul os seus braços magros e supplicantes!
«Por isso nós, os seus filhos, não fômos felizes na vida vegetal.
Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços: ramo
contemplativo e romantico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa,
pelo escarneo, pela farça e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de
sol, de poeira, aspero solitario da vida, luctador dos ventos e das
neves, forte e trabalhador, foi arrancado d'entre nós, para ir ser
taboa d'esquife!--Eu, o mais lastimavel, vim a ser forca!
«Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes intimidades
na floresta. Eu só queria o bem, o riso, a dilatação salutar das
fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o a
umas pobres violetas, que viviam por baixo de nós, doces raparigas
lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da
vegetação. Agasalhava todos os passaros na vespera dos temporaes. Era
eu quem asylava a chuva. Ella vinha, com os cabellos esguedelhados,
perseguida, mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens
e as folhas, e escondia-a alli, ao calor da seiva. O vento passava,
confundido e imbecil. Então a pobre chuva, que o via longe, assobiando
lascivo, deixava-se escorregar silenciosamente pelo tronco, gotta
por gotta, para o vento a não perceber, e ia, de rastos, por entre a
herva, acolher-se á vasta mãe Agua! Tive por esse tempo uma amisade
com um rouxinol, que vinha conversar commigo durante as longas horas
constelladas do silencio. O pobre rouxinol tinha uma pena d'amor!
Tinha vivido n'um paiz distante, onde os noivados teem mais molles
preguiças: lá se enamorára: commigo chorava em suspiros lyricos. E tão
mystica pena era que me disseram que o triste, de dôr e desesperança,
se deixára caír na agua! Pobre rouxinol! Ninguem tão amante, tão viuvo
e tão casto!
«Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do campo
vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens,
como dedos, para apontar á pobre alma afflicta de lagrimas todos os
caminhos do ceu!
«Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante!
«Emfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um d'aquelles
homens metallicos que fazem o trafico da vegetação veiu arrancar-me á
arvore. Não sabia eu o que me queriam. Deitaram-me sobre um carro e,
ao caír da noite, os bois começaram a caminhar, emquanto ao lado um
homem cantava no silencio da noite. Eu ia ferido e desfallecido. Via as
estrellas com os seus olhares lancinantes e frios. Sentia-me separar
da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido e arrastado das
arvores. Eram vozes amigas que me chamavam!
«Por cima de mim voavam aves immensas. Eu sentia-me desfallecer, n'um
torpor vegetal, como se estivesse sendo dissipado na passividade
das coisas. Adormeci. Ao amanhecer, iamos entrando n'uma cidade. As
janellas olhavam-me com olhos ensanguentados e cheios d'um sol irado.
Eu só conhecia as cidades pelas historias que d'ellas contavam as
andorinhas, nos serões sonoros da espessura. Mas como ia deitado e
amarrado com cordas, apenas via os fumos e um ar opaco. Ouvia um rumor
aspero e desafinado, onde havia soluços, risos, bocejos, e mais o surdo
roçar da lama, e o tinido sombrio dos metaes. Eu sentia emfim o cheiro
mortal do homem! Fui arremessado para um pateo infecto, onde não havia
o azul e o ar. Comecei então a comprehender que uma grande immundicie
cobre a alma do homem, porque elle se esconde tanto das vistas do sol!
«Uns homens vieram, que me deram despresivelmente com os pés. Eu estava
n'um estado de torpor e de materialidade, que nem sentia as saudades da
patria vegetal. Ao outro dia, um homem veiu para mim e deu-me golpes
de machado. Não senti mais nada. Quando voltei a mim, ia outra vez
amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava os bois, cantando.
Senti lentamente renascer a consciencia e a vitalidade. Parecia-me
que eu estava transformado n'uma outra vida organica. Não sentia a
magnetica fermentação da seiva, a energia vital dos filamentos e a
superficie viva das cascas. Em redor do carro iam outros homens, a
pé. Sob a brancura silenciosa e compassiva da lua, tive uma saudade
infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, das relvas, de toda
a grande alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu
sentia que ia para uma vida real, de serviço e de trabalho. Mas qual?
Tinha ouvido fallar das arvores que vão ser lenha, aquecem e criam, e,
tomando entre a convivencia do homem a nostalgia de Deus, luctam com os
seus braços de chammas para se desprender da terra: essas dissipam-se
na augusta transfiguração do fumo, vão ser nuvens, ter a intimidade das
estrellas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos immortaes,
e sentir os passos de Deus!
«Eu tinha ouvido fallar das que vão ser vigas da casa do homem: essas,
felizes e privilegiadas, sentem na penumbra amorosa a doce força dos
beijos e dos risos; são amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a ellas
os corpos dolorosos dos Christos, são os pedestaes da paixão humana,
têem a alegria immensa e orgulhosa dos que protegem; e risos das
creanças, ais namorados, confidencias, suspiros, elegias da voz, tudo
o que lhes faz lembrar as murmurações da agua, o estremecimento das
folhas, as cantigas dos ventos--toda essa graça escorre sobre ellas,
que já gosaram a luz da materia, como uma immensa e bondosa luz da alma.
«Eu tinha ouvido fallar tambem das arvores de bom destino, que vão ser
mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as legendas do
temporal, viajar, vêr, luctar, viver, levadas pelas aguas, atravez do
infinito, entre surprezas radiosas--como almas arrancadas do corpo que
fazem pela primeira vez a viagem do ceu!
«Que iria eu ser?...--Chegamos. Tive então a visão real do meu destino.
Eu ia ser forca!
«Fiquei inerte, dissolvida na afflicção. Ergueram-me. Deixaram-me só,
tenebrosa, n'um campo. Tinha, emfim, entrado na realidade pungente
da vida. O meu destino era matar. Os homens, cujas mãos andam sempre
cheias de cadeias, de cordas e de pregos, tinham vindo aos carvalhos
austeros buscar um cumplice! Eu ia ser a eterna companheira das
agonias. Presos a mim, iam baloiçar-se os cadaveres, como outr'ora as
verdes ramagens orvalhadas!
«Eu ia dar esses negros fructos: os mortos!
«O meu orvalho seria de sangue. Ia escutar para sempre, eu a
companheira dos passaros, doces tenores errantes, as agonias
soluçantes, os gemidos da suffocação! As almas, ao partir,
rasgar-se-iam nos meus pregos. Eu, a arvore do silencio e do mysterio
religioso, eu, cheia de augusta alegria orvalhada e dos psalmos sonoros
da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora, havia de mostrar-me
ás nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas puros e justos, eu, a
arvore viva dos montes, d'intimidade com a podridão, do camaradagem com
o carrasco, sustentando alegremente um cadaver pelo pescoço, para os
corvos o esfarraparem!
«E isto ia ser! Fiquei hirta o impassivel como nas nossas florestas os
lobos, quando se sentem morrer.
«Era a afflicção. Eu via ao longo a cidade coberta de nevoa.
«Veiu o sol. Em roda de mim começou a juntar-se o povo. Depois, atravez
d'um desfallecimento, senti o ruido de musicas tristes, o rumor pesado
dos batalhões, e os cantos dolentes dos padres. Entre dois cirios,
vinha um homem livido. Então, confusamente, como nas apparencias
inconsistentes do sonho, senti um estremecimento, uma grande vibração
electrica, depois a melodia monstruosa e arrastada do canto catholico
dos mortos!
«Voltou-me a consciencia.
«Estava só. O povo dispersava-se e descia para os povoados. Ninguem! A
voz dos padres descia lentamente, como a ultima agua d'uma maré. Era ao
fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de mim, hirto, esguio,
com a cabeça caída e deslocada, estava o enforcado! Arrepiei-me!
«Eu sentia o frio e a lenta ascensão da podridão. Ia ficar alli, de
noite, só, n'aquelle descampado sinistro, tendo nos braços aquelle
cadaver! Ninguem!
«O sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma d'aquelle cadaver? Tinha
passado já? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibrações?
Eu sentia os passos da triste noite, que vinha. O vento empurrava o
cadaver, a corda rangia.
«Eu tremia, n'uma febre vegetal, dilacerante e silenciosa. Não podia
ficar alli só. O vento levar-me-ia, atirando-me, aos pedaços, para
a antiga patria das folhas. Não. O vento era brando: quasi sómente
a respiração da sombra! Tinha vindo então o tempo em que a grande
natureza, a natureza religiosa, era abandonada ás féras humanas? Os
carvalhos já não eram pois, uma alma? Podiam, com justiça, vir o
machado e as cordas buscar os ramos creados pela seiva, pela agua e
pelo sol, trabalho suado da natureza, fórma resplandecente da intenção
de Deus, e leval-os para as impiedades, para os tablados da forca onde
apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem os corpos? E as
ramagens puras, que fôram testemunhas das religiões, já não serviam
senão para executar as penalidades humanas? Serviam só para sustentar
as cordas, onde os saltimbancos bailam, e os condemnados se torcem? Não
podia ser.
«Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos,
que sabem o segredo e comprehendem a vegetação, achariam grotesco que
as arvores, depois de terem sido collocadas por Deus na floresta com os
braços estendidos, para abençoar a terra e a agua, fôssem arrastadas
para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o braço da forca
para abençoar os carrascos!
«E depois de sustentarem os ramos de verdura--que são os fios
mysteriosos, mergulhados no azul, por onde Deus prende a terra--fôssem
sustentar as cordas da forca, que são as fitas infames, por onde o
homem se prende á podridão! Não! se as raizes dos cyprestes contassem
isto em casa dos mortos--faziam estalar de riso a sepultura!
«Assim fallava eu na solidão. A noite vinha lenta e fatal. O cadaver
baloiçava-se ao vento. Comecei a sentir palpitações de azas. Voavam
sombras por cima de mim. Eram os corvos. Poisaram. Eu sentia o roçar
das suas pennas immundas; afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se,
ruidosos, cravando-me as garras.
«Um poisou no cadaver e poz-se a roer-lhe a face! Solucei dentro do
mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente. Era uma arvore das
florestas a quem os ventos fallavam! Servia agora para afiar os bicos
dos corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cadaveres,
como vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus--soluçava
eu ainda--eu não quero ser reliquia de tortura: eu alimentava, não
quero aniquillar: era a amiga do semeador, não quero ser a alliada do
coveiro! Eu não posso e não sei ser a justiça. A vegetação tem uma
augusta ignorancia: a ignorancia do sol, do orvalho e dos astros. Os
bons, os angelicos, os maus são os mesmos corpos inviolaveis, para a
grande natureza sublime e compassiva. Oh meu Deus, liberta-me d'este
mal humano tão aguçado e tão grande, que se trespassa a si, atravessa
de lado a lado a natureza, e ainda te vae ferir, a ti, no ceu! Oh!
Deus, o ceu azul, todas as manhãs, me dava os orvalhos, o calor
fecundo, a belleza immaterial e fluida da brancura, a transfiguração
pela luz, toda a bondade, toda a graça, toda a saude:--não queiras que,
em compensação, eu lhe mostre, ámanhã, ao seu primeiro olhar, este
cadaver esfarrapado!
«Mas Deus dormia, entre os seus paraisos de luz. Vivi tres annos
n'estas angustias.
«Enforquei um homem--um pensador, um politico, filho do bem e da
verdade, alma formosa cheia das fórmas do ideal, combatente da luz. Foi
vencido: foi enforcado.
«Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com ella.
O seu crime era o amor, que Platão chama _mysterio_, e Jesus chamou
_lei_. O codigo puniu a fatalidade magnetica da attracção das almas, e
corrigiu Deus com a forca!
«Enforquei tambem um ladrão. Este homem era tambem operario. Tinha
mulher, filhos, irmãos e mãe. No inverno não teve trabalho, nem lume,
nem pão. Tomado d'um desespero nervoso, roubou. Foi enforcado ao sol
posto. Os corvos não vieram. O corpo foi para a terra limpo, puro e
são. Era um pobre corpo que tinha succumbido por eu o apertar de mais,
como a alma tinha succumbido por Deus a alargar e a encher.
«Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dôr
intima; não me desprezou: o sol allumiava-me com glorificação, as
nuvens vinham arrastar por mim a sua molle nudez, o vento fallava-me
e contava a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegetação
saudava-me com meigas inclinações da folhagem: Deus mandava-me o
orvalho, frescura que promettia o perdão natural.
«Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegetação, que me sentia
esfriar, mandou-me os seus vestidos d'hera. Os corvos não voltaram:
não voltaram os carrascos. Sentia entrar em mim a antiga serenidade
da natureza divina. As efflorescencias, que tinham fugido de mim,
deixando-me só no solo aspero, começaram a voltar, a nascer, em roda de
mim, como amigas verdes e esperançosas. A natureza parecia consolar-me.
Eu sentia chegar a podridão. Um dia de nevoas e de ventos, deixei-me
caír tristemente no chão, entre a relva e a humidade, e puz-me
silenciosamente a morrer.
«Os musgos e as relvas cobriram-me, e eu comecei a sentir-me dissolver
na materia enorme, com uma doçura ineffavel.
«O corpo esfria-me: eu tenho a consciencia da minha transformação lenta
de podridão em terra. Vou, vou. Oh terra, adeus! Eu derramo-me já pelas
raizes. Os atomos fogem para toda a vasta natureza, para a luz, para
a verdura. Mal ouço o rumor humano. Oh antiga Cybele, eu vou escorrer
na circulação material do teu corpo! Vejo ainda indistinctamente
a apparencia humana, como uma confusão de ideias, de desejos, de
desalentos, entre os quaes passam, diaphanamente, bailando, cadaveres!
Mal te vejo, oh mal humano! No meio da vasta felicidade diffusa do
azul, tu és apenas, como um fio de sangue! As efflorescencias, como
vidas esfomeadas, começam a pastar-me! Não é verdade que ainda lá em
baixo, no poente, os abutres fazem o inventario do corpo humano? Oh
materia, absorve-me! Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta!
Eu vejo já os astros correrem como lagrimas pela face do ceu. Quem
chora assim? Eu sinto-me desfeita na vida formidavel da terra! Oh mundo
escuro, de lama e d'oiro, que és um astro no infinito,--adeus! adeus!
--deixo-te herdeiro da minha corda pôdre!»