No _Fausto_, de Charles Gounod, a figura dramatica e synthetica é
Mephistopheles.
Em volta d'elle, Fausto canta artificialmente como um lyrico histrião
d'operas; Margarida sente as primeiras rebelliões nervosas do
desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo
Cherubim; a alma legendaria do rei de Thule canta na sua torre que
molha a espuma do mar; o povo celebra as kermesses, e os judeus dizem
a musica da avaresa: mas só Mephistopheles vive! E a sua grande
figura angulosa, nervosa, elastica, incisiva, atravessa, sinistra, o
drama--os seus lyrismos nostalgicos, as suas sensualidades tristes,
os seus mysticismos artificiaes--glorificando a força brutal do
dinheiro, escarnecendo as castidades expirantes, empurrando o Fausto
espiritualista para a violencia lasciva, combatendo a serena inspiração
do Christo, negociando em almas, e abatendo toda a penosa construcção
da honra, do dever, do perdão, do amor, da purificação--com o riso
tragico do mal!
Aquella opera é uma simples aventura do antigo Diabo.
N'ella, o Fausto não é o sabio que penetrou a medicina, a physica, a
logica, a dialectica, a dogmatica, a theologia, a metaphysica, para
quem os seis mil annos do passado são apenas o prefacio do saber
humano, que procura o X terrivel da equação dos astros, e que ao ruido
que faz a sua alma buscando atravez da natureza o Deus fugitivo,
o Mysterio, só consegue despertar os dormentes do seu coração, os
desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: não é o
homem que se enoja das vasias realidades da vida e da paixão, e que
se recolhe n'um stoicismo tragico, tendo todavia, sempre, dentro do
peito, o côro soluçante e rebelde dos desejos infinitos e das asperas
curiosidades, até que em fim, mais sereno e transfigurado, vae ao fundo
do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem d'ella, que é o
ideal da fórma antiga, um filho, Euphorion, que é o ideal do espirito
moderno.
Não. Na opera, Fausto é simplesmente um d'aquelles ambiciosos
grotescos, que contratavam por escripto com o velho Diabo, nos
claustros malditos, e lhe compravam a realisação de um desejo,
por uma pequena coisa despresivel, menos valiosa que o dinheiro
e que os estofos, uma coisa inutil e esteril, que se lhe atirava
desabridamente--e que era simplesmente a alma!
As legendas estão cheias d'estas negociações.
Cornelio Agrippa vende a alma pelos segredos da philosophia; o abbade
de Tritheim pelo segredo da circulação do sangue; Falstaff vende a
alma, n'uma sexta-feira santa, á noite, quando estavam fechadas as
tavernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Hespanha, e uma
perna de capão. Luiz Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as
mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo
Dugdale, um namorador do condado de Landshire, por uma lição de dança!
Fausto vende desprendidamente a alma, pelo amor vulgar de uma rapariga
clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando!
O Diabo cumpria escrupulosamente o contracto: havia para estas
negociações uma jurisprudencia dogmatica. Sujeitava-se mesmo a
acompanhar o contratador, como uma inspiração visivel, como um
camarada de perigos, para lhe facilitar a ampla realisação do desejo.
Seguia Agrippa sob a fórma d'um escudeiro, vestido de negro, com o
nome de _Sujeito_. Seguia Fausto, vestido d'escarlate, com o nome de
Mephistopheles. Nada mais.
Margarida, não é, na opera de Gounod, como em Gœthe, o symbolo da
alma allemã, simples, casta, soffredora, d'aquella alma allemã que,
como na _Melancolia_ d'Alberto Dürer, quando a materia, a tyrannia,
a desesperança a opprimem, só sabe resignadamente, dobrar as suas
azas; aquella alma allemã que exhala toda a sua immensa dôr em frescas
cantigas religiosamente humanas, que tem todas as simplicidades, todas
as intelligencias, todos os deveres, que quando olha para a terra é
para amar, quando olha para o ceu é para orar, quando olha para si é
para morrer. Não. A Margarida da musica sabia de Gounod, é uma alma
lyrica, nebulosa, nostalgica, sensual, para quem o amor é um magnetismo
suave, a oração uma lucta com o mal, a morte um libertamento romantico
da vida--insufficiente e vasia. Este Fausto tem na alma um lyrismo
theatral, esta Margarida um paraiso artificial.
Mas elle, o bom Mephistopheles, tem uma vida real e poderosa. É elle--a
antiga creatura terrivel e grotesca, vaidosa, infame e tragica. É
o antigo Satanaz das legendas. É elle--o mesmo a quem os Severios
ouviram dizer que antes queria devorar uma alma, do que voltar, entre
purificações, para os seus antigos camaradas, os astros, _sidera
lucida_! É elle, o eterno inspirador dos hereticos e dos impostores,
elle que ensinava os oraculos aos crocodilos de Arsineë, e aos
carvalhos propheticos de Dodona, e que dava a Manés, o homem impio,
a ascetica pallidez dos monges, como dá a Fausto, velho e tepido, o
resplandecente magnetismo do olhar. Elle, que segundo as tradições
judaicas, inventou os enfeitos e as joias, para ferir os castos
instinctos da mulher--e que atirava os coraes ao regaço das mulheres
de Brabante, como mostra a Margarida a côr traiçoeira e hypocrita das
perolas. É elle o mesmo que em Babylonia tomava as attitudes hieraticas
de um Deus, e fugia do olhar de Daniel--como na kermesse de Leipzig
toma a voz sinistra e rouca do dinheiro, e cáe, torturado e covarde,
diante da serena apparição das cruzes das espadas. É elle o antigo
Diabo que dava aos monges da Thebaida o mal da _acedia_, como dá á
pobre Margarida o mal do amor. Tortura os monges do Occidente; dá-lhes
as chagas e as dores de Job, envolve-os nas visões magnificas do mal.
As virgens diaphanas fazem, no silencio da noite, as mil orações da
prostração: os monges passam os annos em jejuns dolorosos. Debalde! Se
se deitam na neve, a neve toma um calor vital e lascivo que os definha:
se bebem a agua fria e purificadora das fontes, a agua dá-lhes ao
corpo a palpitação dos vastos appetites. Se querem resar no silencio,
ouvem os risos ambrosiacos dos Deuses sensuaes, e o gemer desfallecido
dos bandolins. Tambem a pobre Margarida, se queria fiar castamente,
e chorar o velho rei de Thule, sentia a melodia da carne cantar-lhe
baixo: «Vê como Fausto, o cavalleiro vestido de velludo, é branco, e
bello, e são, e forte.»
Os monges d'Alexandria andavam de noite, pelos corredores solitarios e
sonoros, com as cruzes alçadas, cantando, para o afastar, os versiculos
do Evangelho, e regando com agua santa as lages do claustro: assim o
gentil Siebel asperge, tristemente, as flôres maculadas de maio.
E ao mesmo tempo este Diabo terrivel, que andava disperso nos
elementos, de tal sorte que o vento era a sua tosse, elle que era o
carrasco da inquisição, a fera dramatica das almas, elle que redigiu
a sentença de Christo, que accendeu as fogueiras das feiticeiras, que
celebrava o _sabbat_, onde á luz d'uma lampada sem oleo, prégava o
sermão dos sete peccados, elle que tinha por filhos, Merlino, Roberto
de Normandia, Attila e os Hunos, era ao mesmo tempo jovial, grotesco,
bailarino, poeta, jogador e palhaço. Bebia gloriosamente o vinho das
missas do Papa. Tinha uma taverna no Inferno, onde se comiam, com
molho de beata, as almas dos usurarios. Dava serenatas ás patricias de
Veneza. Fazia sonetos correctos e academicos ás abbadessas de Vecker.
Vestia-se de velludos e de sedas, emprestava dinheiro aos estudantes
das universidades livres, e assignava-se _Belzebuth, cosinheiro do
Inferno_. Os trovadores cantaram esta legenda faceta das farças de
Satan.
Tomou tanta familiaridade com o homem, que Luthero sujou-o de tinta, e
Rabelais deu-lhe piparotes. Na Allemanha, na noite de 30 de abril, dava
um sarau magnifico nas alturas de Borx-belg. Era a noite do Walpurgis.
Havia a grande dança das nudezas. Nas noites claras, as estrellas
assistiam, com a impassibilidade de vestaes.
Assim é a figura complexa de Mephistopheles. Durante a opera de Gounod,
esta individualidade sinistra deixa escorrer sobre o drama dos amores
e dos arrependimentos o seu desprezo resplandecente e ruidoso, como
aquellas figuras de Satan, que nas cathedraes da Allemanha deixam
cair do ultimo corucheu uma risada de pedra, que nos nichos, nas
esculpturas, nas rosaceas, nos fustes, nos baixos-relevos, em todas
as figuras de santos, de virgens e de anjos--vae gelar as aspirações
ideaes e os sentimentos do ceu.
Toda aquella musica da opera, que envolve Mephistopheles, é a vaga
melodia sombria do mal. Tem o escarneo, tem a violencia, tem as trevas,
a jovialidade e o medo. Range, ri, treme, devasta, insulta e vence.