Na intenção d'Eça de Queiroz os _Folhetins_ da _Gazeta de
Portugal_,--apesar da sua desconnexão episodica,--formavam serie,
obedeciam a um pensamento, constituiam um corpo, uma obra systematica,
cujos capitulos, separados por lacunas que nunca fôram preenchidas,
pódem, chronologicamente, reunir-se nos seguintes dois grupos:
A
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_Symphonia de abertura_[19] | 1866|Outubro | 7
_Macbeth_ | » | » | 14
_Poetas do Mal_[19] | » | » | 21
_A Ladainha da dôr_ | » | » | 28
_Os mortos_ | » |Novembro| 4
_As Miserias: I Entre a Neve_ | » | » | 13
_Farças_[19] | » | » | 18
_Ao Acaso_[20] | » | » | 27
_O Miautonomah_ | » |Dezembro| 2
_Mysticismo humoristico_ | » | » | 23
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B
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_O Milhafre_[22] |1867| Outubro| 6
_Lisboa_[23] | » | » | 13
_O Senhor Diabo_[24] | » | » | 20
_Uma carta_ (_a Carlos Mayer_) | » |Novembro| 3
_Da Pintura em Portugal_[21] | » | » | 10
_O Lume_ | » | » | 17
_Mephistopheles_ (_J. Petit_)[25]| » |Dezembro| 1
_Omphalia Benoiton_[21] | » | » | 15
_Memorias d'uma forca_ | » | » | 22
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O primeiro _Folhetim_ em data,--março de 1866,--as _Notas
marginaes_,--tendo por epigraphe as phrases interrompidas d'uma trova
á Bernardim Ribeiro, e influenciado, como já mostrei, pela traducção
franceza das Poesias de Heine, foi inserido, na _Gazeta de Portugal_,
fóra do seu logar.
Porque os _Folhetins_ teem uma introducção formal,--uma _Symphonia
d'abertura_, que se publica a 7 de outubro de 1866,--e continuam, quasi
sem interrupção, semanalmente, aos domingos, até 23 de Dezembro do
mesmo anno. Uma longa ausencia de Lisboa interrompe a publicação: Dos
primeiros dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867 Eça de Queiroz reside
no Alemtejo, onde funda e redige o _Districto d'Evora_, periodico
politico, litterario e noticioso. Os folhetins da _Gazeta de Portugal_
recomeçam no dia 6 de Outubro, e proseguem até 22 de Dezembro do mesmo
anno de 1867.
A _Symphonia de abertura_[26] prepara, com efeito, o espirito para a
ideia que os differentes trechos depois vão desenvolvendo. N'elles a
phantasia,--livremente, irregularmente, fragmentariamente,--esboça,
suggere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em episodios, em
allegorias phantasticas e como que musicalmente vagas:
Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos Deuses, «desde
os templos de Ellora,--onde elles andavam ferozes por entre os
Elephantes,--até á cruz de Jesus, onde um rouxinol veio pousar cantando
d'amor»... «desde a materia negra e informe, até ás serenidades vivas
para além das nuvens, das estrellas e dos caminhos lacteos».
N'estas viagens ideaes os Deuses teem uma companheira que intimamente
estabelece a sua communicação com os homens,--a Arte.
Da historia visionaria d'esta,--na longa peregrinação divina,--a
_Symphonia de abertura_, faz-nos ouvir,--_adagio_ ou _vivace_, _piano_
ou _forte_,--alguns trechos maravilhosamente instrumentados:...
«Quando» os povos--na Chaldea, no Egypto, na Grecia,--«plantavam
tendas debaixo das estrellas», ... e, mais tarde, em céos de profundo
mysticismo christão, nas regiões transcendentes «onde as proprias
estrellas são» apenas, «gotas de sombra...»[27]
Entreveem-se, fluctuando em imagens, as differentes Artes:
A Architectura «que se abriu em transparencias e transfigurações, como
se quizesse ser, no espaço, a morada suspensa do espirito».
A Musica emfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades,
dissipando-se nos amollecimentos divinos...»
«...no terror da natureza, onde o diabo era visivel... a alma allemã
tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de pallidos
silencios que se exhalavam divinamente no canto...»
Esvae-se «aquella melopea grega esfarrapada pela aspereza do latim dos
versiculos...»
«Apparece Luthero», a alma allemã... que desfalecia n'aquellas
melancolias immensas que Alberto Dürer revelou...»
Mas «a Musica, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte,
sumiu-se com a approximação da Renascença que vinha cheia das rebeliões
da carne...»
Até que outra vez «se produziu, na nossa epoca, como a Grecia produziu
a Esculptura, como a Europa gothica produziu a Architectura...»
Chega-se assim aos tempos modernos:
«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se
chamavam Homero, Eschylo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e
Shakespeare. A alma queria subir aquelles escarpamentos divinos para
colher a flôr do ideal.»[28]
A melancolia dá côr ao _Romantismo_...
«O typo em quem se resumem todos os soffrimentos, todas as
desesperanças, as melancolias, as incertezas, as aspirações, os
lyrismos d'esta epoca pallida e doentia: _Fausto_, _Manfredo_, _Lara_,
_Antony_, _Werther_, _Rolla_, _D. Juan_...» que saem então de «toda uma
mocidade pallida e nervosa, de «toda uma primavera...»
«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela Arte,--eis ahi a
Musica...», «aquella vaga Ophelia que se chama Musica...», «uma voz
inesperada em que se entendem os desconsolados...»[29]
Constitue-se emfim a Musica moderna:
«A Allemanha... a loura Allemanha de ideal seriedade, luminosa, um
tanto nuvem, cheia de vapores e de constellações... A Allemanha que
pensa com um doce ruido ineffavel», fórma a sua «Musica que é o vapor
da Arte...»
E, ao lado d'ella, «a Musica italiana... tendo o quer que seja do
palpavel... d'ondeante como seda invisivel».
Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da _Symphonia de
abertura_.
Os escriptos colligidos n'este volume são assim, em prosa, os _Cantos
fragmentarios_ d'um immenso _Poema_:
O Universo é um infinito de almas. As cousas teem sentimentos
humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de
todas as mortes. Os que morrem vão diffundir-se nas cousas, sem
nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por fórmas
inferiores no homem, e por fórmas purificadas na natureza. Na alma
é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a materia, essencialmente
inalteravel, volta sempre á pureza natural. Dos successivos ideaes,
e das successivas e profundas commoções, o homem gera, para todo o
sempre, Deuses que o dominam, que vivem d'uma vida sentimental e
independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados
destinos, que se asylam, errantes, em todos os grandes centros de vida
mysteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica
e já ironica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora.
Com este vago thema geral, o _Poema_ em prosa d'Eça de Queiroz
propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da
visão, do indeterminavel, do substracto phantastico que se encontra
sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de
vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,--todas as
vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados
d'uma escala musical;--era a phantasia tocando, um momento apenas,
o mundo da realidade, para logo se afastar d'elle, voando, exilada
pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nitida e
clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os bellos Deuses
de marmore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos
symbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou reprobos do
christianismo,--a propria ironia espiritualista de Satanaz, a propria
pallida e doce figura de Jesus,--vão egualmente perder-se e ser
esquecidas: Morreu a phantasia. São futeis todas as illusões. Reina o
calculo demonstravel.[30]
Heine tambem já contára o exilio dos antigos Deuses,[31] e Michelet[32]
recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»[33] que se ouviu pelo mundo
ao apparecer de novas crenças.
O que caracterisa este momento da vida litteraria d'Eça de Queiroz
é a sincera commoção do crear phantastico, sem excluir, já então,
a ironia,--que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do
seu espirito,--fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques
tão vivos e reaes a todas as suas obras. Consegue assim crear um
mundo imaginario, um scenario de allegorias; sabe que esse mundo é
illusorio, que só parece povoado por metaphoras,--e enternece-se,
e commove-se, e communica essa ternura e essa commoção como se as
produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo,
inexplicavelmente, que com effeito exista uma profunda realidade,
vagamente symbolisada por todas essas imagens.[34]
Como quer que episodicamente falle de assumptos inteiramente
reaes,--da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em
Coimbra,--é sempre o mesmo substracto visionario da realidade para que
o seu espirito procura expressão.
Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda,
parece-me, sufficientemente estudada pela critica e pela philosophia da
arte.