Martha estava no quarto, onde tinha o seu oratorio de pau preto com
frizos dourados, e dentro uma antiga esculptura em marfim d'um Christo
dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia
uma vela de cêra benzida. Frei João entrára de sobrepeliz e estola:
seguiam-no o Feliciano com uma vela de arratel acceza, e o Simeão com
a caldeirinha da agua-benta. Martha, com um pavor na vista, tremia, de
pé, encostada á commoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energumena
com um gesto imperativo de cabeça. Ella aproximou-se hesitante e
ajoelhou. Fr. João compoz o semblante e deu á voz uma toada lugubre em
conformidade com a rubrica de Brognolo--_com grave aspecto e voz
horrivel_, diz o demonómano. Começou por exercitar o _Preceito
provativo_, a vêr se havia effectivamente demonio. E então bradou,
fazendo estremecer Martha: _In nomine Jesu Christi. Ego Joannes est
minister Christi_... Vinha a dizer, em vulgar, ao demonio ou aos
espiritos immundos, _vet vobis spiritis immundis_, que, se estavam no
corpo d'aquella creatura, dessem logo um signal evidente, ou vexando-a,
ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus
lhe fosse permittido _eo modo quod a Deo juerit permissum_. Martha
estava retranzida d'um sagrado horror, posto que não percebesse do
latim do padre senão _demonio_ e _espiritos immundos_. Nunca lhe tinham
dito que ella estava endemoninhada, e á sua mentalidade faltava-lhe
n'este alance a força convincente e a energia da palavra para combater
o engano do seu confessor. Não tinha vigor de caracter nem rudimentos
de intelligencia para reagir. Educada em melhores condições,
succumbiria com a mesma vontade inerte sob a violencia do confessor. Ha
condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnostico da
demencia que as desculpe. Ella estava de joelhos; mas, não podendo
suster-se, sentou-se n'um arfar de suspiros, anciada, até que as
lagrimas lhe explodiram n'uma torrente.
Frei João fez um tregeito de satisfação, um agouro de victoria, e
poz-lhe o _Preceito lenitivo_: «Que a vexação cessasse
immediatamente--impunha elle aos demonios malditos--e toda a afflicção
causada por elles» _et omnia afflictio a vobis causata_. E atacou logo
os demonios com o _Preceito instructivo_ «que immediatamente a
prostrassem na presença d'elle, se ella estava possessa» _et statim
coram me illam prosternatis_. Martha, com effeito, estava prostrada, com
a face no pavimento, estirando os braços no paroxismo epileptico, e o
collo e o tronco hirtos n'uma inflexibilidade tetanica.
--Não ha que duvidar--disse o exorcista ao marido e ao pai da
possessa.--Levem-na d'aqui e depois continuaremos.
Martha, passado o lethargo, disse ao tio que mal se lembrava do que
passára no oratorio com o snr. frei João; mas que lhe tinha mêdo, que
não queria mais confessar-se com elle.
--Cada vez mais provado que está obsessa. Já não é ella quem falla;
é o demonio que me teme!--exclamou o exorcista com uma santa basofia,
refutando as vacillações um pouco scepticas do brazileiro; ao passo
que o Simeão asseverava que a filha tinha o demonio; porque a sua
defunta mulher tambem o tinha, e se deitára ao rio porque nunca quizera
que lhe fizessem as rezas.
Ao outro dia, vencidas as repugnancias de Martha, continuou o exorcista,
carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na larynge.
Deu-lhe a ella o seu Brognolo para que lêsse em voz alta os _Preceitos
que a creatura vexada pôde pôr ao demonio_. Martha, de joelhos, diante
do oratorio, leu: _Demonio maldito, eu como racional creatura de Deus,
redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se
humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santissimo nome de Jesus,
que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo tremer o meu
corpo ou lançando-o em terra, deixando me em meu juizo_.
O corpo de Martha visivelmente tremia; ella deu o livro ao exorcista com
um arremesso impaciente, e murmurou soluçante:
--Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Christo!
Frei João sorriu-se, e resmuneou á orelha do Feliciano--o maldito
serve-se do nome de Christo para me afastar! Eu vou escangalhar-te,
Satanaz!
E lançou mão do gladio das _Objurgações_. As objurgações são
perguntas feitas ao diabo, á má cara, e latinamente. _Dize, maldito
demonio, serpente insidiosa, conheces que existe Deus? Conheces que
foste creado anjo allumiado de muitas prendas, e que pela tua soberba te
perdestes? Sabes que, repulso do paraiso, perdeste para sempre a graça
de Deus_? Pergunta-lha a final, depois de muitas injurias, se reconhece
n'elle um ministro de Deus, e como ousará a não manifestar-se?
_Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare_?
O demonio não respondeu ainda; mas o frade ia apertal-o, mandando que
se ajoelhassem todos. Elle então, n'uma postura seraphica, braços
cruzados no peito e olhos no Christo, declamou:
_Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores in
eis ignem accende_. Pedia ao Espirito Santo que descesse a encher os
corações dos seus fieis, e abrazal-os no fogo do seu amor. Depois:
_Dominus vobiscum_.
--_É de co espirituó_--respondeu o Simeão, que sabia ajudar á missa.
Seguiram-se varios _Oremos_ e deprecações, e a _Ladainha de Nossa
Senhora_; mais outros _Oremus_, e a _detestação_ da energumena, uma
estirada que principiava: _E tu, demonio maldito, com que auctoridade
intentas possuir jamais meu corpo ou molestar-me por modo algum_? Martha
rejeitou o livro, e disse que não podia lêr nem estar de joelhos; que
tinha vágados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e
formidavel no seu ministerio--que não, que não se ia deitar, que não
lhe fugia, que se puzesse de joelhos a seus pés! Elle então, segundo
a rubrica do livro director, _sentou-se, cobriu-se, voz grave e
horrivel, virado contra o demonio, como juiz para tal réo já
convencido_, aspergiu a possessa de agua-benta, ululando: _Asperge me,
Domine_ ... e recommendou aos circumstantes que apagassem duas velas, e
não dessem palavra. Profundo silencio. Ouvia-se apenas o zumbido das
moscas que se esvoaçavam do tecto attrahidas pelo calor da luz unica e
pousavam na fronte chagada do Christo. O recinto era espaçoso e quasi
em trevas. A vela, encoberta pelas curvas lateraes do oratorio, não
alumiava senão o curto espaço da projecção em que Martha, retrahida
n'um terror, tinha os dedos das mãos postas, chegadas aos labios, como
se quizesse abafar os suspiros.
Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o demonio em
nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo, tratando-o de _immundo_,
affrontando-o bravamente com epithetos que deviam offender o mais
desbragado patife. Martha fez um movimento de afflictivo desabrimento;
parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia
com o Brognolo: _Se não estiver quieta, póde-a prender com uma
estola_. Feitas novas e mais terriveis conjurações, o exorcista
levantou-se com pavorosa solemnidade, e exclamou: _Exurge, Christe!
adjuva nos_! Levanta-te, Christo, e auxilia-nos!
O egresso continuava as evocações ao Christo, quando Martha cahiu sem
acôrdo.
--Victoria!--exclamou o exorcista--victoria!
E, mostrando ao brazileiro uma pagina do livro: ouça lá, snr.
Feliciano: _O signal mais certo de que o demonio obedeceu e se retirou
de todo é o que a sagrada Escriptura nos expõe no capitulo IX de S.
Marcos:--Deixar a creatura por terra algum tempo como morta. Isto se viu
no endemoninhado surdo e mudo que Christo nosso bem curou, e do qual diz
o texto: Et factus est sicut mortuus_. Depois, com jubilo, limpando o
suor:
--Podem leval-a, deitem-na, ponham-lhe as reliquias todas debaixo do
travesseiro.
Os dois não podiam facilmente levantal-a; na rigidez, como empedernida
do corpo, parecia collada ao pavimento. O brazileiro pedia ao exorcista
que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero,
respondeu que lhe era defêso pôr mãos nas possessas. E, de feito,
Carlos Baucio, na _Arte do exorcista_, legisla: «que os exorcistas não
ponham as mãos physicamente sobre a creatura, principalmente sendo
mulher (_propter periculum_), pois que as mulheres nem com o signal da
cruz se devem tocar--_Mulieres nec signo crucis sunt tangendæ_.
Martha passára a noite muito agitada, febril, com delirio; dava
risadinhas muito argentinas, fallava no José Alves; sacudia a roupa com
frenesi, e, quando emergia do torpôr, sentava-se no leito a olhar para
o tio, com uma fixidez repellente. Feliciano não se deitára, e de
madrugada disse ao irmão que fosse chamar o medico, que a Martha estava
com um febrão; e que levasse o diabo o frade para as profundas do
inferno e mais os exorcismos.
Já quando era dia, o brazileiro foi descançar um pouco na cama de D.
Thereza, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Ás nove
horas, a governante foi acordal-o, muito alvoroçada, para lhe dizer que
a snr.ª D. Martha tinha sahido sósinha ao nascer do sol e que uma
mulher a encontrára já perto da casa do vigario de Caldellas, a
correr, que parecia uma doudinha. Fr. João recebeu tambem a nova da
fuga, quando acabava de dizer missa em acção de graças pelo triumpho
obtido sobre o demonio. O medico chegava ao mesmo tempo, e informado das
scenas dos exorcismos, disse ao varatojano injurias que o frade não
tinha dito ao diabo; chamou ao brazileiro e ao irmão corja de
estupidos, e partiu para Caldellas com o Feliciano. O frade, insultado
pelo medico, e pelos modos bruscos e desabridos do brazileiro, citou
umas palavras de Jesus que manda sacudir o pó das sandalia no limiar da
casa dos impios, e foi-se embora. Seguiram-o algumas beatas n'um alto
chôro por longo espaço: e, quando elle desappareceu no cotovello da
estrada, houve d'ellas que arrancavam cabellos, cheios de lendias;
outras davam-se bofetadas, e as mais hystericas guinchavam uivos
estridentes.
O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando ellas lhe
passaram á porta a chorar, atraz do missionario, sahiu fóra, e
disse-lhes com um racionalismo brutal:
--Ah grandes coiras!