Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os tão
almejados missionarios, interrompidos no seu esteril apostolado pela
revolução da Maria da Fonte. Martha ouviu a noticia com alvoroço, e
disse que queria seguir os sermões,--que precisava de salvar a sua
alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de
religião; mas respeitava as crenças alheias, e não contrariava as
devoções da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se não
deixasse Martha entrar muito pela mystica; aconselhava o marido que
fosse viajar com a mulher, que a tirasse d'aquella terra, porque as suas
enfermidades não podiam cural-as os sermões nem as hostias. O egresso
conhecia a Pharmacia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a
primeira receita de frei João era exorcismal-a como demoniaca.
--Dão cabo d'ella, vocês verão, dão cabo d'ella--dizia o
padre-mestre.
Eram quatro os missionarios que assentaram o vestibulo do paraizo em
Requião.
O padre José da Fraga ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes
sacerdotaes, grave e semblante intelligente. Tinha-se ordenado em
Brancanes com o proposito de ir propagar o christianismo na China;
depois, interesses e rogos de familia determinaram-o a ficar na patria,
sem abrir mão da vocação apostolica. Lêra e percebêra Raulica,
Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osorio
dizia-lhe que guardasse as suas perolas para outro auditorio menos
suino. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no pulpito,
aconchegavam-se umas das outras para commodamente tosquenejarem o seu
somno da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus por aquelle
caminho--que _não calhava p'r'á prédega_.
O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia idade, auctor da _Escada do
céo pelas escarpas do Golgotha_ e da _Via seraphica para o reino dos
Cherubins_, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exercito
realista, e ordenára-se para herdar uns bens de uma parenta beata que
tinha horror á tropa. Lêra as novellas do Prévost e Madame de Genlis,
quando era furriel. Ficou-lhe d'essas leituras uma linguagem
amellaçada, com interjeições tragicas, e um geito especial de tocar
as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo: _E
o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia
dos anjos, quando lá do céo te vê peccar, estende para ti os seus
bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques; mãe, não peques! pelas
lagrimas que por mim choraste, não caias na tentação, porque, se te
perdes, se te afundas no abysmo eterno não tornarás a vêr o teu
filhinho que te chama do céo, mãe, ó mãe_! E infantilisava o timbre
da voz, inclinava a um lado a cabeça n'um langor menineiro, estendia os
braços do pulpito abaixo com as mãos abertas, alongava os beiços no
geito da boquinha de criança, e muito mavioso, n'um tremulo de voz e
braços: _Mãe, ó mãe_! E todas as que tinham perdido filhinhos
desatavam n'um berreiro.
O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, d'uma porcaria de sotaina
digna dos agiologios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era
forte na topographia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos
diversos diabos. Affirmava que a legião d'elles se dividia em
esquadras, capitaneadas por Lucifer, principe da Luxuria, por Asmodeu,
Satanaz, Belzebut e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus
competentes vicios. Dava noticia de um caudilho de esquadra, chamado
Behemoth, cujo empenho era bestializar os fieis--verdadeira
superfluidade.--Leviathan capitaneava o esquadrão da Soberba; e o
ministro e secretario de estado encarregado da pasta da Avareza
chamava-se _Mamona_. A sciencia moderna matou este diabo, extrahiu-lhe o
oleo, e pôl-o ao serviço dos intestinos dos peccadores--_oleo de
Mamona_. Explicava o padre ás mulheres o que era a corja dos _demonios
incubos_. Contava casos de algumas que ficaram gravidas d'esses
devassos, e dizia em latim que taes demonios fecundos podiam,
mesmo contra a vontade da mulher, _rem habere cum ilta_. E as
mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam
indignadas:--Tarrenego! Catixa! cruzes, canhoto!--e benziam-se,
cuspinhando nos calcanhares umas das outras.
Fr. João de Borba da Montanha, com quanto não frequentasse o pulpito,
era o vulto mais proeminente da missão. Sahira já velho do Varatojo,
peito fraco, um pigarro chronico de catarrho pituitoso, com poucos
dentes, por onde as palavras lhe sahiam assobiadas que nem melro nos
sinceiraes de julho. Por isso o confissionario era a sua faina de
prosperrimas colheitas para o céo, e os exorcismos a sua famosa gloria
cheia de triumphos sobre todas as esquadras dos demonios conhecidos do
seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mãos dadas, o terror do
inferno; um a explorar diabos no planeta, o outro a enxotal-os. Á
omnipotencia d'este varatojano é que o vigario de Caldellas confiara a
reducção da mãe de José Dias.
Este egresso tinha feito á sua custa a terceira edição do _Peccador
convertido ao caminho da verdade_, obra do seu conventual varatojano
frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia-encadernação.
Chamava-lhe elle o _seu balde de tirar almas do profundo poço do
enxofre infernal_ Todas as beatas se consideravam mais ou menos
empoçadas, e por 720 mettiam-se no balde de frei João. Barato.
Foi este o missionario escolhido por Simeão, de harmonia com o genro.
Martha lembrava-se que o seu José Dias lhe fallára n'elle com muita
esperança em que desfizesse os obstaculos do casamento. Quiz
confessar-se ao varatojano, e revelou para esse acto uma espectativa
seraphica, grande deliberação anciosa, um sobresalto jubiloso em que
parecia influir a cooperação sobrenatural do querido morto. O padre
Osorio entrevia preludios de loucura nas alegres disposições com que
Martha, n'um recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora,
esperava á porta da egreja que chegassem os missionarios com o cortejo
das mulheres encapuchadas, muito ramellosas, estralejando os seus
tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos.
Em quanto na egreja, depois da missão, se depunha a hostia nas linguas
saburrentas e gretadas das beatas--que enguliam aquella farinha triga
como quem devora sevamente um Deus--cá fóra armavam-se no adro dois
taboleiros, assentes em tripêças de engonços, com seus pavilhões de
guarda-soes de panninho azul. Algumas mulheres de aspectos repellentes,
sujas da pójeira das jornadas, com os canêllos callosos e encodeados,
expunham nos taboleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo
injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas á conta de
subornarem freguezas com caramunhas e palavreados. No silencio do
templo, ouvia-se cá de fóra:--Arre, bebeda!--Cala-te ahi, calhamaço!
A exposição bibliographica, feita nos taboleiros, além das obras em
brochura e encadernadas dos missionarios, constava da _Regra de S.
Bento_, da _Missão augmentada_, da _Missão abreviada_, das _Piedosas
meditações_, das _Horas do christão_, do _Mez de Maria_, do _Mez de
Jesus_ e do _Livro de Santa Barbara_. Havia tambem _Novenas_,
_Via-sacras_ com estampas d'um horror sacrilego, uns Christos que
pareciam manipansos do Bihé. Seguia-se a camada dos _Escapularios_; uns
eram de _N. S. do Carmo_, de _N. S. das Dôres_, da _Conceição_;
outros do _Preciosissimo sangue de Jesus_, do _Coração_ do mesmo, da
_Santissima Trindade_ e de _S. Francisco_. Tinham grande sahida os
_Cordões_ do mesmo santo, e as _Correias de S. Agostinho_, com um
botão de ôsso, a apertar na cintura,--arnez impenetravel ao diabo, por
causa do botão, que, posto na correia, tem virtudes para ôsso muito
admiraveis, quasi como as da carne, mas no sentido inverso--ella
attrahindo o cão tinhoso, e elle repulsando-o. De _Santo Agostinho_ e
do _Anjo da Guarda_ também havia _Rezas_ enfiadas em metal, ou em
cordão, simplesmente, mais baratinhas. Na especie medalheiro, grande
profusão: as medalhas mais procuradas eram as do _Coração de Maria_,
do _Coração de Jesus_, do _Anjo da Guarda_ e de _Santa Thereza_, a 10
réis.
As _corôas_, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram
diversas no tamanho e na nomenclatura: as _seraphicas_ com sete
_mysterios_, e cada mysterio com dez _Ave-Marias_; as da _S. da
Conceição_ com doze _Aves_ e tres _mysterios_:--uma certa conta que
os missionarios lá graduavam com a gafaria espiritual das confessadas.
Havia algumas que se aguentavam com os _Rosarios de quinze mysterios_, e
a _Corôa dos nove coros dos Anjos_, e a do _Preciosissimo sangue e
coração de Jesus_. Mas o grande consumo era de _contas de azeviche_,
refractarias aos máos olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é
legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio
a meio.
Martha, a beata, a senhora _brazileira de Prazins_, como lhe chamavam as
regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado;
mas sobre todos os devocionarios o da sua leitura dilecta era o
_Peccador convertido ao caminho da verdade_, edição do seu confessor
varatojano, fr. João de Borba da Montanha.
São impenetraveis os segredos revelados no tribunal da penitencia por
Martha ao seu director espiritual. O padre Osorio, não obstante,
suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciencia,
solicitada por miudas averiguações do missionario, saudades,
reminiscencias sensualistas, carnalidades que se lhe formalisavam no
espirito dementado, emfim, visões e sonhos com o José Dias. Inferia o
padre a sua conjectura, sabendo que frei João lhe mandára lêr no
_Peccador convertido_, tres vezes por dia, o capitulo 33, intitulado
_Resistencia ás tentações contra a castidade_. Fortalecia esta
hypothese ter dito Martha a D. Thereza que a alma de José Dias lhe
apparecia em sonhos; e ás vezes, mesmo acordada, lhe parecia sentil-o
na cama á sua beira; e então mordia o travesseiro para que o tio a
não ouvisse chorar. Póde ser que estas revelações, communicadas ao
confessor, um simplorio incapaz de destrinçar entre doença e peccado,
fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Martha por
vergonha não contava á sua amiga. É certo que a confessada do
varatojano lia, declamando, deante do seu oratorio, tres vezes por dia,
a _Resistencia ás tentações contra a castidade_.
A oração dizia assim:
_Senhor amorosissimo, não vos escondais, não me deixeis sósinha, que
me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam para que
não goste as suavidades do vosso amor. Cercarei todo o mundo, subirei
aos ceos, não descançarei emquanto não achar o meu amor. Conjuro-vos,
filhas de Jerusalém, creaturas da terra que, se encontrares o meu
amado, lhe digaes que morro d'amor. E, se quereis os signaes para
conhecêl-o, ouvi. O meu amado é candido e rubicundo, escolhido entre
milhares; candido por divino, e rubicundo por humano, candido porque
innocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde vos escondestes?
Tende compaixão de quem vos busca. Estes signaes que de vós tenho só
servem de avivar-me a saudade, são settas que me ferem; morro,
desfalleço, se vos não acho._
_Os cabellos da sua cabeça são como o ouro mais puro e mais precioso,
são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas de
Jerusalém, nem eu vo'l'o saberei explicar; o que vos digo e que os seus
cabellos são fortes laços que bastam para prender a todo o mundo,
bastam para abrazar tudo de amor. Ai! amado do meu coração, se as
admirações do que sois abrazam a alma, que vos vê por enigmas, que
será quando vos vir claramente! Os seus olhos são como pombas sobre
correntes de aguas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que
magestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces, que
suaves! Oh dulcissimo amor, já que tanto fechais os olhos para não
serem vistos, ao menos não os fecheis para me não verem! As suas faces
são como canteiros de flores aromaticas, sempre bellas, sempre
cheirosas; passam os dias, os mezes e os annos, e os seculos, e as faces
do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta,
nem a agua as corrompe, nem o vento as desfolha; são rosas, são
assucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem me dera uma gota da agua
que as rega, um grão do calor que as vivifica; quem me dera que o
jardineiro que as compõe me quizera semear umas flores no meu jardim e
tomar á sua conta compôl-as e regal-as, que o meu amado gosta muito de
flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes
da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo,
se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço achar! Ó saudade
ardente, ó sede matadora, ó setta penetrante, ó amor escondido! Que
fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho é ser amado, por que a
minha ventura está em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia
de enamorar? Os seus labios são lirios, que distillam myrra excellente,
lirios de pureza d'onde sahem palavras que inflammam no amor da
mortificação. Oh! se fôra tão ditosa minha alma que recebêra alguma
parte da myrra que distillam teus lirios! Oh! se foram tão felizes meus
olhos que viram a engraçada côr de taes labios! Aonde estaes
escondido, amado do meu coração? Não sahem por esses labios as
palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da
cidade: «Se algum é pequenino venha para mim?» Logo, como vos
escondeis d'esta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos
busca? Suas mãos são como de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos,
todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalém, e
por aqui vos será mais facil conhecêl-o, que, no meio do ouro e
jacintos, tem em cada mão um precioso rubi que a passa de uma para a
outra. O seu peito e entranhas são de marfim ornadas de safiras, dando
a conhecer a côr celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza,
que os seus affectos são puros, candidos, castos, virginaes, fortes,
celestiaes e divinos, sinceros, compostos, solidos e constantes. Ó
peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechaes para quem
vos ama? Aqui deve de haver mysterio! Gostaes talvez de me vêr afflicta
para provar se sou amante! Quereis que me custe muito o que muito vale,
porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez pouco caso do que não
tem preço. Mas aí, amado meu, que, se me não dizeis aonde passaes a
sesta ao meio dia, temo que, andando vagabunda, venha a cahir nas mãos
dos vossos contrarios! A sua apparencia é como a do Libano, a sua
composição como a do cedro; em Judéa o monte mais formoso é o
Libano, no Libano a arvore mais excellente é o cedro: assim é o meu
amado entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavissima, porque
sahem por ella as vozes, as respirações do peito, que é archivo de
amores e suavidades; em fim todo é formoso, todo perfeito, todo amavel.
Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas de Jerusalém, creaturas
da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro d'amor_...
Martha dizia a oração em voz alta, em modulações cantadas, n'um
arrobamento de _preghiera_. Aquelles dizeres, alinhavados pelo
varatojano, são extractos e imitações das escandecencias erothicas do
poema dramatico da _Sulamita_ no «Cantico dos Canticos»--os trêchos
mais lyricamente sensuaes da antiguidade hebraica. Elles deram o tom de
todas as exaltações nevroticas, desde os extasis hystericos de Thereza
de Jesus até ás allucinações da beata Maria Alacoque e da portugueza
madre Maria do Céo, a cantora dos passarinhos de Villar de Frades.
D'esta peçonha doce, elanguecente, vibratil e enervante, cheia de
meiguices epidermicas de um corpo nú em frouxeis de arminhos, é que se
fizeram uns Manuaes modernos em França por onde as adolescentes
principiam a conversar com Jesus e a comprehendêl-o em linhas
correctas, sob plasticas macias, a esperal-o, a desejal-o, como lh'o
figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades da carne.
Martha, entre o Deus incomprehensivel e o Christo-homem, via um ser
tangivel, o seu unico termo de comparação--o José Dias, esposo da sua
alma e dominador dos seus nervos reaccendidos e abraseados pela saudade.
Nas apostrophes a Jesus, palpitavam-lhe nitidas as curvas do amante que
a ouvia de entre as nuvens, n'uma clareira azul, com a sua lividez
marmorea e os anneis dos cabellos louros esparsos como nas cabeças dos
cherubins. Tinha aquelle namoro no céo quando abria a pagina do livro
com que o confessor lhe dissera que havia de exorcisar as tentações
voluptuosas da sua alma e do seu corpo.